Às portas da capital, escondido pelas águas do Atlântico, um grande canyon submarino funciona como estação de serviço para muitos animais pelágicos. Os tubarões-azuis não ficam indiferentes ao buffet oceânico entre a foz do Tejo e o cabo Espichel.

Texto e Fotografia Luís Quinta

Para uma espécie em declínio, contaminada por várias indústrias humanas que vertem resíduos perigosos para o oceano, há ainda esperança de um futuro promissor – a observação de tubarões já é uma indústria turística lucrativa em vários pontos do globo. Em Portugal, a Região Autónoma dos Açores deu os primeiros passos para a sua exploração. Outros territórios poderão seguir o exemplo.

Sentado num barco de borracha quatro milhas ao largo da frente atlântica de Almada, sem vento nem ondulação, derivo em total silêncio sobre o abismo.
Trezentos metros mais abaixo, onde a luz não chega, um grande desfiladeiro submarino com cerca de trinta quilómetros de extensão atrai uma enorme diversidade de criaturas marinhas.
À ré da embarcação, pendurei um saco de isco para despertar a curiosidade de quem passa. É um jogo de paciência e ilusão para ambas as partes. Os peixes nadam com grande expectativa até chegarem ao engodo, mas, para mim, cada jornada de muitas horas no mar pode terminar com agradáveis surpresas ou num fracasso fotográfico.

A proximidade do maior rio da Península Ibérica, o Tejo, é um forte argumento para a rica biodiversidade do canhão de Lisboa.

A proximidade do maior rio da Península Ibérica, o Tejo, é um forte argumento para a rica biodiversidade do canhão de Lisboa. Duas vezes por dia, a cada maré, gigantescas massas de água entram e saem do estuário. As muitas horas de luz por ano fazem desta região uma das zonas de maior produtividade do litoral português.
Dois pequenos triângulos rasgam a superfície e deixam um rasto de água serpenteada para trás. Um dorso azul eléctrico, a escassos centímetros da superfície, revela o primeiro vagabundo oceânico da manhã – é um tubarão-azul.
Enquanto me equipo, mais dois tubarões perseguem o engodo. Entro na água e a poucos centímetros da objectiva desliza o peixe mais pequeno do dia, um tubarão que não atinge um metro de comprimento. É uma fêmea juvenil, sem parasitas, cicatrizes ou deformações.

Muitas vezes os oceanos são vastos desertos onde não se encontra uma escama. Um buffet perto de Lisboa não se despreza. Este tubarão--azul foi fotografado a quatro milhas de Almada.

A costa portuguesa é um infantário para os tubarões-azuis e o canhão de Lisboa uma importante estação de serviço para estes grandes migradores dos oceanos. Outros vertebrados marinhos, como baleias, tartarugas, golfinhos, atuns e outras espécies de tubarões, não ficam indiferentes à baía e ao acidente geomorfológico que se desenha entre a foz do Tejo e o cabo Espichel.
Distribuídos por todos mares do planeta, os tubarões-azuis fazem longas e pouco padronizadas migrações. Embora existam hotspots (frentes térmicas de alta produtividade), a espécie não é fiel a rotas e locais definidos, e as características nómadas dificultam propostas de medidas de conservação.

Estudos recentes revelaram que os tubarões-azuis em poucos meses podem deixar a costa americana e nadar perto do continente europeu.

Estudos recentes revelaram que os tubarões-azuis em poucos meses podem deixar a costa americana e nadar perto do continente europeu ou viajar do Velho Continente para o Norte de África.
No dia 6 de Junho de 2009 ao largo da ponta da Piedade em Lagos, o biólogo Nuno Queiroz, do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Cibio) do Porto, registou nos seus apontamentos: tubarão-azul, fêmea, imaturo com 130cm de comprimento n.º 66967. No dorso azul deste peixe fusiforme, adicionou um pequeno dispositivo tecnológico, que regista a posição geográfica e comunica para um satélite os dados da viagem.
Após uma incursão a sudoeste do cabo de São Vicente, este jovem peixe rumou para norte, tendo chegado aos arredores do canhão de Setúbal em 15 de Junho. Dias depois, seguiu para norte atravessando o canhão de Lisboa, voltando a dar notícias semanas depois ao largo de Peniche. O transmissor funcionou 119 dias dando a última posição a norte do golfo da Biscaia. Outros exemplares deste projecto, marcados em Inglaterra, “deram notícias”, meses depois, ao largo de Marrocos.

A sobreexploração da pesca é a grande responsável pelo declínio das populações de tubarão-azul em todo o planeta.

Com quase meia centena de tubarões marcados, ao longo de vários anos de campo, Nuno Queiroz vai continuar a estudar a espécie e tem dezenas de transmissores para colocar nos próximos meses. “As águas temperadas do Norte de África como Cabo Verde têm acolhido muitas fêmeas grávidas e futuros estudos nesta região irão pormenorizar o que se passa naquelas latitudes com esta espécie.”
Vindo do limite do meu horizonte subaquático, o pequeno tubarão volta a examinar os flashs da câmara fotográfica. Mais abaixo, nada um tubarão maior, mais tímido e pesado. É outra fêmea e ultrapassa os dois metros de comprimento. Se estiver grávida, poderá viajar mais para sul até às costas de África. 

A água tem mais de quinze metros de visibilidade e a temperatura revelada pela sonda atinge 20,5ºC.

A água tem mais de quinze metros de visibilidade e a temperatura revelada pela sonda atinge 20,5ºC. Deslizando abaixo da superfície, com as compridas barbatanas peitorais a funcionar como asas, poupando energia na sua progressão, outro esqualo chega atraído pelo cheiro do peixe que uso como isco. Se tiver oportunidade e lhe aparecerem generosamente à frente, não desdenha aves, mamíferos marinhos, peixes, ou crustáceos, mas a sua presa favorita é a lula.
A meio de Julho, a clorofila atinge a concentração máxima no canhão de Lisboa, e os cinco tubarões azuis que contemplo na água azul-esverdeada são um bom indicador da qualidade destas águas.

O olho negro e as ampolas de Lorenzini do maior exemplar estão em actividade máxima.

O olho negro e as ampolas de Lorenzini do maior exemplar estão em actividade máxima. A um palmo da caixa estanque, avalia com curiosidade a peça metálica que protege a câmara fotográfica.

Dos tubarões pelágicos capturados pela pesca comercial no Atlântico, 70% são tubarões-azuis e 20% são tubarões mako. Devido à sobreexploração da pesca, as populações de tubarões estão em declínio em todo o mundo e as consequências nos ecossistemas marinhos são ainda uma incógnita. O tubarão-azul é tipicamente uma vítima da pesca acessória (bycatch) do palangre dirigido ao espadarte ou ao atum. Após a descarga em várias lotas do país, muitos destes vagabundos dos oceanos seguem para supermercados, restaurantes ou fábricas de transformação. No início de Outubro, os tubarões-azuis não chegaram ao valor de 2€ por quilograma na lota de Sesimbra.

Para a investigadora Sara Novais, do Instituto Politécnico de Leiria ((MARE-IPLeiria), análises químicas recentes ao fígado e músculo de exemplares de Prionace glauca revelaram números preocupantes para esta espécie e para o ser humano. “Os compostos que apresentaram níveis mais elevados foram os bifenilos policlorados não semelhantes a dioxinas (NDL-PCB). O limite da Comissão Europeia para consumo humano em fígado de peixe e produtos derivados é de 200ng/g de peso fresco; os tubarões deste estudo apresentaram em média 328ng/g e o animal mais contaminado registou 1.164ng/g! No músculo, detectámos em média 1,36mg/kg de mercúrio de peso fresco quando o limite para consumo humano é de 1mg/kg de peso fresco. O animal mais contaminado registou 3,10mg/kg.”

Usualmente capturado como pesca acessória, o tubarão-azul (na imagem, um exemplar na lota de Sesimbra), tem um valor de mercado muito baixo: em Outubro de 2016 o preço por quilograma não atingiu dois euros.

Sara Novais conclui com uma nota mais alarmante: “Os tubarões deste estudo eram ainda jovens e é sabido que estes poluentes tendem a bioacumular mais com o tamanho e idade dos peixes, especialmente em predadores do topo da cadeia alimentar como é o caso destes tubarões.”
Existem igualmente estudos sobre o consumo de alumínio, crómio, manganês, níquel, cobre, zinco, arsénio, selénio, cádmio e chumbo no ser humano, mas novos estudos com tubarões-azuis terão lugar no início de 2017.

Ao encontro, comparecem três fêmeas: uma ultrapassa dois metros de comprimento, as outras são mais pequenas.

Um mês depois, volto com a família ao largo da frente atlântica de Almada para mais um mergulho. Quero que os meus dois filhos contemplem a tranquilidade destes peixes pelágicos em pleno oceano. Ao encontro, comparecem três fêmeas: uma ultrapassa dois metros de comprimento, as outras são mais pequenas. Sob águas mais esverdeadas, as duas espécies avaliam-se e conhecem-se. Será o turismo de natureza o caminho mais viável para que esta espécie ultrapasse o desafio da sobrevivência? Para o biólogo Jorge Fontes, que trabalha na monitorização de tubarões-azuis nos Açores, o futuro na região autónoma parece mais claro: “Existe uma indústria de mergulho com tubarões bem conhecida na Europa que, juntamente com o mergulho nos bancos submarinos e a insegurança nos destinos concorrentes, deu impulso ao turismo de natureza nos Açores. Actualmente, a observação de tubarões gera milhões de euros directos e indirectos.” Em águas continentais, essa constatação é mais vagarosa.

Nos bastidores da acção: o fotógrafo Luís Quinta mantém um tubarão-azul sob a mira da sua câmara estanque.

No canhão de Lisboa, como bons mestres de cerimónia, os tubarões-azuis saúdam-nos à despedida alheios ao debate sobre o seu futuro. Partem em direcção do grande abismo lá em baixo.

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