Falcoaria, de nobre arte a Património Imaterial

 Na semana em que a falcoaria foi classificada como Património Imaterial, recuperamos uma das mais antigas artes que percorreram séculos... mas que ainda subsiste. Em Alter do Chão, a falcoaria é pretexto de um projecto que alia a reprodução em cativeiro com fins de conservação com a reabilitação de uma velha tradição venatória. Ao mesmo tempo, mudam-se os tempos e utilizam-se aves de rapinas em actividades impregnadas de modernidade.

 Texto e Fotografia António Luís Campos

Vigilante e altivo, este falcão-peregrino parte para mais uma investida, finda a qual voltará fielmente para a luva do seu tratador.

Ao transpor o portão de entrada da coudelaria de Alter do Chão, entro numa cápsula do tempo, um hiato temporal que permite recuar instantaneamente até ao século XVIII. Aqui se estabeleceu, há dois séculos e meio, uma coudelaria com a nobre missão de preservar e apurar a linhagem do cavalo alter-real. Foi, de certa forma, um dos primeiros esforços de conservação portugueses. Intrinsecamente associada à arte equestre, esteve sempre a falcoaria. Alter presta-lhe tributo, quiçá com omissão de parte da carga simbólica, mas preservando o legado genético das espécies de rapina e, ao mesmo tempo, agindo como pólo de educação ambiental. Guiado por chamamentos estridentes, com uma estranha neblina e o cheiro a terra húmida como companheiros, chego ao pátio quadrangular da falcoaria de Alter. Por uma porta laranja, entrevejo estranhos objectos.

São caparões, explicar-me-ão mais tarde, o nome dos "capacetes" que cobrem os olhos do falcão quando em transporte, para o manter calmo.

São caparões, explicar-me-ão mais tarde, o nome dos "capacetes" que cobrem os olhos do falcão quando em transporte, para o manter calmo. Entro. Cada ave tem o seu, feito à medida. Alguns são verdadeiras peças de museu, utilizando penas e materiais nobres, tendo por companhia o rol (simulacro de presa para treino), os piós (correias de cabedal presas às patas) e a avessada, que serve para prender o falcão à alcândora, poleiro onde descansa e pernoita. Neste projecto, a conjugação de modernidade com tradição é uma constante. Cá fora, envergando com entusiasmo uma luva até ao ombro, um pequeno mas temerário visitante lança em voo um búteo-de-harris, espécie alóctone hoje popular pela facilidade de reprodução em cativeiro e tolerância ao homem. O búteo parte, confiante, e regressa ao poleiro improvisado. À sombra de uma frondosa azinheira, o director da falcoaria, Carlos Crespo, explica que a prática se divide em dois grandes tipos: baixo voo e alto voo ou altaneria. "As aves de baixo voo têm asas largas, batimentos rápidos, cauda longa, grande velocidade de arranque e capacidade de manobra.

Sinal dos tempos: o aterro sanitário de Avis é visitado regularmente por falcões com a missão de espantar o número excessivo de aves que proliferam entre o lixo. São literalmente centenas de gaivotas, carraceiros e cegonhas que, à chegada dos falcões, levantam voo e fogem.

Caçam a partir da luva, em sprint, e o lance tem normalmente um desenlace rápido". A altaneria é "própria de espaços abertos, com grandes falcões. Sobem, sobrevoam a área em círculos, seguindo os movimentos de homens e cães e aguardando o levantar da caça. Nessa fase, iniciam um rapidíssimo ataque em voo picado e interceptam a presa no ar ou derrubam-na com uma forte pancada com as garras." As origens da falcoaria (ou cetraria) perdem-se no tempo, mas acredita-se que tenha começado por ser desenvolvida por povos nómadas e caçadores, inicialmente como meio de subsistência, carácter que persiste ainda em tribos na Mongólia, famosas pela caça com águia-real. Os grandes espaços tornavam a caça difícil, pelo que o homem se servia das rapinas para potenciar as capturas. Mas rapidamente a actividade se tornou mais do agrado da nobreza, que a rodeou de luxo. Em Portugal, praticou-se desde o século XII, atingindo o seu apogeu na corte de D. Fernando. Em 1616, foi publicado o mais conhecido tratado português de falcoaria: "Arte da Caça de Altaneria", de Diogo Fernandes Ferreira, obra inovadora à época. A arte ressurgiria com vigor no século XVIII, particularmente na Real Falcoaria de Salvaterra de Magos, com fortes elos ao mundo equestre. Quais ecos desses dias, por entre paredes alvas, ouvem-se em Alter cascos a chocar com a calçada. É a éguada que chega, o sol baixo e doce roçando os corpos castanhos.

Embora a reprodução não seja um objectivo primordial, conseguiu-se algum sucesso nos últimos anos. Os diversos casais reprodutores são colocados nas “mudas” (divisões cobertas de rede) e são monitorizados por videovigilância. 

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