A falcoaria foi classificada como Património Imaterial em 2016, recuperamos uma das mais antigas artes que percorreram séculos... mas que ainda subsiste. Em Alter do Chão, a falcoaria é pretexto de um projecto que alia a reprodução em cativeiro com fins de conservação com a reabilitação de uma velha tradição venatória. Ao mesmo tempo, mudam-se os tempos e utilizam-se aves de rapinas em actividades impregnadas de modernidade.

 Texto e Fotografia António Luís Campos

Vigilante e altivo, este falcão-peregrino parte para mais uma investida, finda a qual voltará fielmente para a luva do seu tratador.

Ao transpor o portão de entrada da coudelaria de Alter do Chão, entro numa cápsula do tempo, um hiato temporal que permite recuar instantaneamente até ao século XVIII. Aqui se estabeleceu, há dois séculos e meio, uma coudelaria com a nobre missão de preservar e apurar a linhagem do cavalo alter-real. Foi, de certa forma, um dos primeiros esforços de conservação portugueses. Intrinsecamente associada à arte equestre, esteve sempre a falcoaria. Alter presta-lhe tributo, quiçá com omissão de parte da carga simbólica, mas preservando o legado genético das espécies de rapina e, ao mesmo tempo, agindo como pólo de educação ambiental. Guiado por chamamentos estridentes, com uma estranha neblina e o cheiro a terra húmida como companheiros, chego ao pátio quadrangular da falcoaria de Alter. Por uma porta laranja, entrevejo estranhos objectos.

São caparões, explicar-me-ão mais tarde, o nome dos "capacetes" que cobrem os olhos do falcão quando em transporte, para o manter calmo.

São caparões, explicar-me-ão mais tarde, o nome dos "capacetes" que cobrem os olhos do falcão quando em transporte, para o manter calmo. Entro. Cada ave tem o seu, feito à medida. Alguns são verdadeiras peças de museu, utilizando penas e materiais nobres, tendo por companhia o rol (simulacro de presa para treino), os piós (correias de cabedal presas às patas) e a avessada, que serve para prender o falcão à alcândora, poleiro onde descansa e pernoita. Neste projecto, a conjugação de modernidade com tradição é uma constante. Cá fora, envergando com entusiasmo uma luva até ao ombro, um pequeno mas temerário visitante lança em voo um búteo-de-harris, espécie alóctone hoje popular pela facilidade de reprodução em cativeiro e tolerância ao homem. O búteo parte, confiante, e regressa ao poleiro improvisado. À sombra de uma frondosa azinheira, o director da falcoaria, Carlos Crespo, explica que a prática se divide em dois grandes tipos: baixo voo e alto voo ou altaneria. "As aves de baixo voo têm asas largas, batimentos rápidos, cauda longa, grande velocidade de arranque e capacidade de manobra.

Sinal dos tempos: o aterro sanitário de Avis é visitado regularmente por falcões com a missão de espantar o número excessivo de aves que proliferam entre o lixo. São literalmente centenas de gaivotas, carraceiros e cegonhas que, à chegada dos falcões, levantam voo e fogem.

Caçam a partir da luva, em sprint, e o lance tem normalmente um desenlace rápido". A altaneria é "própria de espaços abertos, com grandes falcões. Sobem, sobrevoam a área em círculos, seguindo os movimentos de homens e cães e aguardando o levantar da caça. Nessa fase, iniciam um rapidíssimo ataque em voo picado e interceptam a presa no ar ou derrubam-na com uma forte pancada com as garras." As origens da falcoaria (ou cetraria) perdem-se no tempo, mas acredita-se que tenha começado por ser desenvolvida por povos nómadas e caçadores, inicialmente como meio de subsistência, carácter que persiste ainda em tribos na Mongólia, famosas pela caça com águia-real. Os grandes espaços tornavam a caça difícil, pelo que o homem se servia das rapinas para potenciar as capturas. Mas rapidamente a actividade se tornou mais do agrado da nobreza, que a rodeou de luxo. Em Portugal, praticou-se desde o século XII, atingindo o seu apogeu na corte de D. Fernando. Em 1616, foi publicado o mais conhecido tratado português de falcoaria: "Arte da Caça de Altaneria", de Diogo Fernandes Ferreira, obra inovadora à época. A arte ressurgiria com vigor no século XVIII, particularmente na Real Falcoaria de Salvaterra de Magos, com fortes elos ao mundo equestre. Quais ecos desses dias, por entre paredes alvas, ouvem-se em Alter cascos a chocar com a calçada. É a éguada que chega, o sol baixo e doce roçando os corpos castanhos.

Embora a reprodução não seja um objectivo primordial, conseguiu-se algum sucesso nos últimos anos. Os diversos casais reprodutores são colocados nas “mudas” (divisões cobertas de rede) e são monitorizados por videovigilância. 

Marcadamente distinta da sua expressão passada, a falcoaria evoluiu, chegando hoje a ser utilizada para aumentar a segurança nos aeroportos. Adaptada à progressiva escassez de aves selvagens, alcançou nos países ocidentais um estatuto que varia segundo as perspectivas: de simples caça a actividade conservacionista. Os falcões sacre, gerifalte, peregrino e o açor são das espécies mais utilizadas, sendo os dois últimos autóctones em Portugal. Devido ao estatuto de conservação das rapinas, que constam da Convenção CITES, reguladora do comércio de espécies selvagens ameaçadas, a sua posse obedece a regulamentos específicos. "É obrigatório para as aves de falcoaria um certificado CITES que as identifica e atesta a sua origem e situação regular", explica o biólogo João Loureiro, responsável pelo departamento que tem por função fiscalizar o seu cumprimento. "Além disso, os falcoeiros colocam-lhes uma anilha fechada ou microchip identificativo, por questões de segurança".

Testemunhos das actividades da Escola Profissional Agrícola. 

Loureiro esclarece que "em Portugal, existem poucos falcoeiros. Em rigor, há muitos curiosos que têm espécimes isolados em casa, não legalizados, o que já levou à apreensão de mais de 150 aves de rapina". Apesar da legislação, em alguns meios ambientalistas, a prática da falcoaria é vista com suspeição, especialmente no que toca à origem das aves. No nosso país, a recolha de aves selvagens saudáveis é proibida, excepto para fins pedagógicos e/ou científicos. Mas em diversos países da Ásia e Médio Oriente, as capturas estão legalizadas e a fiscalização é ineficaz, o que leva a que, segundo a Union for the Conservation of Raptors, se verifique uma excessiva captura de exemplares, que põe em risco a sua sobrevivência em estado selvagem. A título de exemplo, um bom espécime de falcão-peregrino pode valer perto de dois mil euros. A procriação em cativeiro é a única fonte legal de rapinas autóctones no nosso país.

Os ecologistas criticam no entanto o aparecimento de híbridos, resultantes do cruzamento deliberado de diferentes espécies.

Os ecologistas criticam no entanto o aparecimento de híbridos, resultantes do cruzamento deliberado de diferentes espécies. O risco de contaminação genética (irreversível) das populações selvagens, devido ao extravio de híbridos, aumenta, ainda que muitos falcoeiros usem já rádio-emissores de telemetria que permitem detectar mais facilmente aves perdidas. Samuel Infante é o dirigente da Quercus responsável pelo Centro de Estudos e Recuperação de Animais Selvagens de Castelo Branco. Segundo ele, "os casos mediáticos de posse de rapinas têm um efeito negativo nas populações selvagens, pois incentivam a sua captura. E não é transmitido ao público que as aves de falcoaria provêm de reprodução em cativeiro." Com a facilidade de pilhagem e escassa fiscalização, "os centros de recuperação acabam por receber centenas de animais de cativeiro ilegal. Se a falcoaria for correctamente gerida pode, porém, ter um papel importante na conservação das espécies", conclui. Sinal dos tempos, história reinventada, na falcoaria de Alter surgiu uma nova vertente: um protocolo com a empresa Valnor, responsável pela gestão dos resíduos urbanos do Norte alentejano, consiste em visitar regularmente com os falcões o aterro sanitário de Avis, tendo como objectivo afugentar o excessivo número de aves que se alimentam do lixo. A componente educativa é também levada em conta, em acções acompanhadas por escolas.

Acções de educação ambiental.

São literalmente centenas de gaivotas, carraceiros e cegonhas que, à chegada dos falcões, levantam voo em massa, ainda que muitas regressem mais tarde. Com elas parto, deixando o odor acre para trás. De novo na coudelaria, olho o original catavento, sobranceiro. Adiante, abrigados do sol forte e com um sorriso nos lábios, José Maia e Nuno Mimoso chamam-me. Cúmplices, conduzem-me com indisfarçável orgulho à presença do Esperança. Apesar dos primeiros dias complicados, em que a incubadora substituiu as condições naturais, um jovem macho de búteo-de-harris conseguiu sobreviver e que veio a ser alvo da atenção do Presidente da República, aquando da sua visita, em Março, à falcoaria. Com carinho quase paternal, Carlos Crespo alimenta-o com uma pinça.

Embora a reprodução não seja aqui um objectivo primordial, conseguiu-se algum sucesso nos últimos anos.

Embora a reprodução não seja aqui um objectivo primordial, conseguiu-se algum sucesso nos últimos anos. Os diversos casais reprodutores são colocados nas "mudas" (divisões cobertas de rede) e são alimentados sem contacto visual com o falcoeiro e monitorizados por vídeo-vigilância. Desde o início do programa, em 2002, nasceram ali 13 crias, seis das quais este ano. Integrada também no complexo da Coudelaria encontra-se a Escola Profissional Agrícola de Alter do Chão. Do plano curricular do Curso Técnico de Gestão Cinegética, consta a disciplina de Cetraria, leccionada por Carlos Crespo. Volto a encontrá-lo no campo de voo, rodeado de montado, praticando com os alunos lances de baixo-voo. Pretende-se com esta disciplina fornecer uma introdução à prática da falcoaria, como uma das vertentes cinegéticas existentes. Já no final da aula, com visível apreensão, a única aluna da turma aceita receber e lançar a veloz rapina... O dia finda. Emílio Rosado, colaborador de longa data do falcoeiro, mira a paisagem agreste com um olhar curtido pelo tempo e pelo calor abrasador do Sul. Montado num imponente alter-real, com o seu companheiro de caça, um perdigueiro-português, recolhe a ave na luva e segue em direcção aos velhos muros caiados da Coudelaria. A cena, quase medieval, evoca a reconciliação com um passado bem presente.

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