A inteligência dos polvos envergonha muitos vertebrados

 Os polvos conseguem mudar de forma e de cor com facilidade, esguichar tinta, esgueirar-se para fendas minúsculas e degustar com as suas ventosas. Por que razão nos fazem lembrar de nós próprios?

 Texto Olivia Judson   Fotografia David Liittschwager

Uma diversidade surpreendente de espécies de polvos habita os oceanos, dos trópicos aos pólos. O polvo-mímico vive nas águas quentes e pouco profundas da região do Índico-Pacífico. Exemplar fotografado no Laboratório Caldwell, Universidade da Califórnia.

 Estamos sentados no fundo do mar, ao largo da ilha indonésia de Lembeh. A profundidade não impressiona (cerca de cinco metros) e há luz em abundância. Como seria de esperar num lugar tropical destes, a água está quente. À nossa volta, por todo o lado, vêem-se enrugamentos de uma areia fina, de cor negro-acinzentada, coberta, nalguns pontos, por uma espécie de espuma esverdeada. Enquanto exploramos, reparamos na concha de um molusco. De constituição robusta, possui seis espigões protuberantes que se projectam. Talvez o seu “fabricante” esteja lá dentro. Ou talvez quem a fabricou tenha morrido há muito tempo e a concha pertença agora a um caranguejo bernardo-eremita. Curiosos, viramos a concha. Vemos uma fieira de ventosas e um par de olhos. 

Um polvo, mais especificamente um indivíduo da espécie Amphioctopus marginatus, também conhecido aqui como polvo do coco. Deve o seu nome comum ao facto de costumar viver dentro de cascas de coco deitadas fora (por vezes, chega a pegar nelas e a carregá-las consigo de um lado para o outro, para usá-las como abrigo em caso de emergência). Porém, a verdade é que qualquer casca serve.

À medida que caminha sobre a areia, muda de cor para um tom de cinzento-escuro a condizer.

Usando apenas algumas das suas ventosas, este polvo segura as duas metades de uma casca de bivalve. Enquanto o observamos, ele deixa-as cair e volta a erguê-las ligeiramente, dando a impressão de estar a avaliar a situação.
Ficamos imóveis como uma estátua. Volvido um momento, o polvo sai da concha. O corpo tem o tamanho do nosso polegar e os braços talvez meçam o triplo. À medida que caminha sobre a areia, muda de cor para um tom de cinzento-escuro a condizer. Será que se vai embora? Não. Estende vários dos braços sobre a areia e os restantes sobre a concha. Com um único puxão, revira de novo a concha e esgueira-se para o interior. 

Esta fêmea (de uma espécie ainda não cientificamente descrita) toma conta dos seus ovos. Pouco depois de eclodirem, morrerá: na maioria das espécies de polvos, as fêmeas reproduzem-se apenas uma vez na vida. Significa isto que os jovens polvos precisam de lutar pela sobrevivência a partir do momento em que nascem. Exemplar fotografado no Laboratório Caldwell, Universidade da Califórnia.

 Não querendo perturbá-lo mais, preparamo-nos para nadar dali para fora quando reparamos num pequeno movimento. O animal esguichou um jacto de água, limpando a areia debaixo do rebordo da concha. Vê-se agora um pequeno espaço entre a concha e o fundo do mar. Nesse espaço, os olhos reaparecem. Aproximamos a máscara e, por um instante, miramo-nos frente a frente. De todos os invertebrados (os animais desprovidos de endosqueleto), os polvos são aqueles que mais semelhanças partilham connosco. Em parte, isso deve-se à maneira como nos retribuem o olhar, como se estivessem a inspeccionar-nos. A maioria dos peixes, em contrapartida, parece não nos fitar. 

Essa percepção deve-se também à sua grande destreza. Os seus oito braços encontram-se revestidos por centenas de ventosas, o que lhes permite manusear objectos, seja para abrir bivalves, para desmantelar o sistema de filtração do tanque de um aquário ou ainda para desatarraxar tampas de frascos. 

Encorpado, com um corpo grande e braços relativamente curtos, o polvo-pálido habita as águas ao largo do Sudeste da Austrália, onde emerge durante a noite para se alimentar de bivalves. 

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