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polvo

O sistema nervoso deste polvo-comum é muito maior e mais complexo do que o da maioria dos invertebrados. Conseguirá ele pensar? Terá ele consciência, como alguns cientistas e filósofos sugerem? Iremos algum dia sabê-lo? Espécime fotografado em Florida Keys Marine Life.

Os polvos conseguem mudar de forma e de cor com facilidade, esguichar tinta, esgueirar-se para fendas minúsculas e degustar com as suas ventosas. Por que razão nos fazem lembrar de nós próprios?

 Texto: Olivia Judson   Fotografia: David Liittschwager

Estamos sentados no fundo do mar, ao largo da ilha indonésia de Lembeh. A profundidade não impressiona (cerca de cinco metros) e há luz em abundância. Como seria de esperar num lugar tropical destes, a água está quente. À nossa volta, por todo o lado, vêem-se enrugamentos de uma areia fina, de cor negro-acinzentada, coberta, nalguns pontos, por uma espécie de espuma esverdeada. Enquanto exploramos, reparamos na concha de um molusco. De constituição robusta, possui seis espigões protuberantes que se projectam. Talvez o seu “fabricante” esteja lá dentro. Ou talvez quem a fabricou tenha morrido há muito tempo e a concha pertença agora a um caranguejo bernardo-eremita. Curiosos, viramos a concha. Vemos uma fieira de ventosas e um par de olhos. 

Um polvo, mais especificamente um indivíduo da espécie Amphioctopus marginatus, também conhecido aqui como polvo do coco. Deve o seu nome comum ao facto de costumar viver dentro de cascas de coco deitadas fora (por vezes, chega a pegar nelas e a carregá-las consigo de um lado para o outro, para usá-las como abrigo em caso de emergência). Porém, a verdade é que qualquer casca serve.

À medida que caminha sobre a areia, muda de cor para um tom de cinzento-escuro a condizer.

Usando apenas algumas das suas ventosas, este polvo segura as duas metades de uma casca de bivalve. Enquanto o observamos, ele deixa-as cair e volta a erguê-las ligeiramente, dando a impressão de estar a avaliar a situação.
Ficamos imóveis como uma estátua. Volvido um momento, o polvo sai da concha. O corpo tem o tamanho do nosso polegar e os braços talvez meçam o triplo. À medida que caminha sobre a areia, muda de cor para um tom de cinzento-escuro a condizer. Será que se vai embora? Não. Estende vários dos braços sobre a areia e os restantes sobre a concha. Com um único puxão, revira de novo a concha e esgueira-se para o interior. 

Não querendo perturbá-lo mais, preparamo-nos para nadar dali para fora quando reparamos num pequeno movimento. O animal esguichou um jacto de água, limpando a areia debaixo do rebordo da concha. Vê-se agora um pequeno espaço entre a concha e o fundo do mar. Nesse espaço, os olhos reaparecem. Aproximamos a máscara e, por um instante, miramo-nos frente a frente. De todos os invertebrados (os animais desprovidos de endosqueleto), os polvos são aqueles que mais semelhanças partilham connosco. Em parte, isso deve-se à maneira como nos retribuem o olhar, como se estivessem a inspeccionar-nos. A maioria dos peixes, em contrapartida, parece não nos fitar. 

Essa percepção deve-se também à sua grande destreza. Os seus oito braços encontram-se revestidos por centenas de ventosas, o que lhes permite manusear objectos, seja para abrir bivalves, para desmantelar o sistema de filtração do tanque de um aquário ou ainda para desatarraxar tampas de frascos. 

Esta capacidade diferencia-os de mamíferos como os golfinhos que, apesar da sua inteligência, têm limitações anatómicas que os impedem de desatarraxar seja o que for com facilidade. Ao mesmo tempo, os polvos parecem tão extraterrestres como quaisquer extraterrestres que possamos imaginar. Para começar, possuem três corações e sangue azul. Quando se sentem sob ameaça, esguicham uma nuvem de tinta e disparam noutra direcção. Não têm ossos. 

As únicas partes rijas do corpo são um bico semelhante a um papagaio e um nó de cartilagem em torno do cérebro. Assim, é fácil introduzirem-se em fendas minúsculas — uma capacidade que lhes permite escapar, ao estilo de Houdini, de qualquer aquário imaginável. 

As ventosas funcionam de maneira independente e cada uma está revestida com receptores de paladar — imagine o que seria o nosso corpo coberto com centenas de línguas. Têm também a pele incrustada com células que actuam como sensores de luz. E a característica mais incrível de todas — bem, deixemos esta mais para a frente. Primeiro, vamos conhecer outro polvo. 

 Estamos de pé num pequeno escritório no Museu de História Natural, em Londres. Diante de nós, sobre uma secretária atulhada de pastas de documentos, encontra-se uma lasca de rocha, de grão fino. Ao nosso lado, Jakob Vinther, um dinamarquês corpulento, aponta para ela. 

Aquilo é o saco de tinta”, explica Jakob, perito em invertebrados fósseis da Universidade de Bristol. “Em rigor, trata-se de pigmento, melanina quimicamente preservada.” 

Inclinamo-nos para a frente. A rocha encontra-se nitidamente marcada com a impressão de um polvo. Não é grande: quando era vivo, o animal talvez medisse 25 centímetros de comprimento. Podemos identificar o manto, a estrutura com o formato de um saco onde se alojavam as guelras, os corações e outros órgãos vitais. A mancha escura ao centro é o saco de tinta. Os braços caem, pendurados, soltamente agrupados, cada qual marcado com fieiras de círculos. “E aquelas pequenas estruturas redondas são as ventosas”, explica Jakob.

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