Um fotógrafo português aceitou a missão de documentar a vida nocturna da fauna portuguesa. Com faro, persistência e o equipamento adequado, está a iluminar as sombras.

 Texto Gonçalo Pereira   Fotografia Gonçalo Rosa

Evitando a água de uma lagoa, uma gineta leva um leirão para a sua toca. Com um equilíbrio extraordinário, utiliza troncos e ramos de árvores caídas para caminhar sobre as águas. A fotografia de momentos extraordinários como este requer paciência e um bom conhecimento dos hábitos deste carnívoro.

Gonçalo Rosa não é um fotojornalista, nem quer sê-lo. No entanto, o seu projecto fotográfico dos últimos cinco anos está a revelar mais sobre a actividade nocturna de grande parte dos mamíferos da nossa fauna do que qualquer outra iniciativa. 

A ideia de trabalhar com armadilhas fotográficas foi amadurecida e tem sido retocada por tentativa e erro. “O retorno é muito baixo com esta técnica”, admite. “Posso passar um mês sem produzir uma fotografia utilizável. E isso obriga-me a ser resistente ao fracasso.” 

 O morcego-lanudo parece voar sobre ondas. Na verdade, a imagem foi obtida muito longe do mar, nas margens de um rio com rápidos e pequenas quedas de água (em cima); Um morcego-de-ferradura-grande transporta a sua cria enquanto voa (em baixo). Para obter esta imagem, foi necessário aguardar que muitos morcegos cruzassem os sensores.

O fotógrafo possui onze sets compostos dispersos pelo país. Paralelamente, usa ainda mais de três dezenas de pequenas câmaras que o ajudam a compreender a nossa fauna nocturna. Instala-os em locais promissores, controlando as condições de iluminação, o enquadramento e o possível trajecto de um animal. “Na grande maioria dos dias, não trabalho sequer com o material fotográfico”, conta. “A prospecção passa pela procura de indícios para interpretar que animal passa ali, como passa e supera obstáculos e o padrão de passagem – se é diurno ou nocturno, se é ocasional ou regular. Se eu o perceber, posso saber como coloco câmara, flashes e células.”

O sistema inclui uma célula com um sensor, pelo que qualquer movimento faz disparar a fotografia. “Há muito que percebi que não posso controlar todas as variáveis, nem prever por completo a fotografia que dali resultará. Algumas das minhas melhores fotografias ocorreram com animais que eu não esperava em movimentos não antecipados.”

 Uma jovem raposa procura alimento nas proximidades da câmara. Mais desconfiada, a progenitora observa de longe os estranhos dispositivos ali colocados. A fotografia de comportamentos como este exige especial paciência e habituação dos animais à câmara.

 

Com uma bela e forte pelagem para enfrentar o Inverno, este lobo entrou num pinhal talvez em busca de um corço ou de um javali. Neste local, onde foram fotografadas muitas outras espécies, foi necessário manter o dispositivo fotográfico mais de quatro meses até obter esta imagem.

 Monitorizados uma vez por mês, os sets são uma caixa de surpresas. Enquanto estão no campo, guardam zelosamente os seus êxitos ou insucessos. Cada monitorização é um acto de fé, uma esperança de que o sistema possa ter captado mais uma fotografia icónica. Mas também “encontro regularmente surpresas desagradáveis”, como no dia em que um vespeiro se instalou no interior da caixa fotográfica. Noutra ocasião, a queda de uma giesta arrastou todo o set para o solo e uma cheia inesperada inutilizou uma das máquinas.

Uma câmara instalada no tronco de uma árvore a 6 metros de altura permitiu a obtenção desta imagem de gineta. 

 Trilhando um caminho diferente da maioria dos fotógrafos de natureza, Gonçalo Rosa aceita a responsabilidade de corrigir uma distorção. “Penso no exemplo do comportamento dos veados”, diz. “Metade da actividade do animal decorre durante a noite, mas a esmagadora maioria das imagens mostradas representa o animal durante o dia. É um paradoxo. De alguma maneira, proponho-me mostrar essa metade escondida.” 

Um leirão limpa os bigodes entre pequenas ervas e flores. Raramente fotografado na natureza, este roedor é quase desconhecido do público.

 O mesmo sucede com javalis, sapos ou o lendário lobo. “Descontando o exagero, é como fazer um filme sobre trutas e representá-las apenas nos raros momentos em que elas saltam fora de água. E eu acho que essa distorção interfere com a própria visibilidade do animal: um leitor que veja 40 fotografias de veado durante o dia concluirá obviamente que o animal só está activo durante o dia”, diz.

Esta é a primeira publicação resultante do projecto de armadilhagem fotográfica. Hoje, como há cinco anos, a ambição do autor mantém-se. “Quero fotografar os animais no seu contexto, agindo com naturalidade, de modo a que, com a fotografia, possa dispensar as palavras.” 

 Pode ler a entrevista concedida por Gonçalo Rosa aqui

 

Uma fuínha caça na queda de água de uma ribeira. Saltitando entre pedras, procura roedores ou rãs que vivem nas margens do curso de água. “Na presença de uma paisagem excepcional como esta, preocupo-me mais com a busca de um enquadramento interessante e é secundário a espécie que fará disparar a câmara”, diz Gonçalo Rosa.

 

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