A corrida moderna ao minério ameaça uma das últimas grandes regiões bravias da América do Norte.

Texto de Tom Clynes

Fotografias de Paul Nicklen

Shawn Ryan recorda-se dos anos da fome, antes do seu primeiro grande achado.

Este prospector e a sua família viviam numa barraca de chapa nos arredores de Dawson, uma cidade que crescera de forma explosiva e entrou depois em declínio até se transformar num vestígio fantasmagórico da sua época de apogeu. A família de Shawn possuía menos de 200 euros. Vivia sem água canalizada nem electricidade. Houve mesmo uma noite, durante a qual o vento entrava pelas frinchas das chapas de metal, em que a mulher de Ryan, Cathy Wood, temeu que os dois filhos pudessem morrer de frio.

Agora, o casal tem dinheiro para comprar e aquecer praticamente qualquer casa à face da Terra. O achado de Shawn Ryan contribuiu para que a febre do ouro alastrasse de novo no Yukon. Centenas de prospectores invadiram o território num fluxo só com paralelo na década de 1890.

A corrida ao minério reanimou os bares e albergues inclinados pelos ventos fortes de Dawson, cujas fachadas brilham em tons pastel, iluminados pelo pôr do Sol tardio do Verão. A cena poderia ter mais de um século: homens barbudos deslocam-se agitadamente por passeios de madeira e ruas lamacentas, soltando gargalhadas sonoras e trocando boatos sobre os mais recentes achados e subidas de preço.

 

Durante a primeira corrida ao ouro no Klondike, os prospectores encheram os riachos da região com pás, picaretas e peneiras. Hoje, o trabalho pesado é executado por um exército mecanizado de bulldozzers, plataformas de perfuração e trabalhadores aerotransportados até ao local. 
A explosão dos pedidos de concessão acalmou desde a estabilização do preço do ouro, mas o nível elevado da procura de minério e a regulamentação favorável à indústria do Yukon continuam a atrair empresas de todo o mundo.

No maior complexo de Shawn Ryan, na orla da cidade, helicópteros ressoam no céu, transportando prospectores com equipamentos GPS de e para as cumeeiras. Shawn tem 50 anos, mas irradia o entusiasmo e intensidade de um homem muito mais novo. “Este é o maior projecto de exploração geoquímica em curso no planeta neste momento e talvez em toda a história”, diz.

No gabinete modular que designa por “Sala de Guerra”, rádios e latas de repelente contra ursos rodeiam três ecrãs de computador instalados sobre uma mesa de contraplacado. Geólogo autodidacta, Shawn utiliza o ecrã do lado esquerdo para exibir os mapas coloridos gerados pela sua base de dados de amostras do solo em permanente expansão, procurando anomalias que possam denunciar um corpo oculto de minério precioso. No ecrã central, uma grelha azul sobrepõe-se a um mapa do Yukon, mostrando as concessões que actualmente detém. Desde 1996, Ryan e as suas equipas acumularam mais de 55 mil concessões, o suficiente para cobrir uma massa de terra maior do que a Jamaica. Shawn utiliza o ecrã do lado direito para acompanhar os seus títulos associados ao ouro, que sobem de valor sempre que um choque económico leva os investidores a procurar refúgio nos metais preciosos.

A corrida à exploração dos recursos do Yukon (ouro, zinco e cobre, entre outros) gera prosperidade num recanto outrora esquecido. Contudo, trouxe também a lume uma tensão crescente entre os que desejam manter intacta uma das últimas grandes regiões bravias da América do Norte e aqueles cujo sucesso depende da sua escavação.

“Eles estão a cobrir de concessões a totalidade do território”, lamenta Trish Hume, representante das comunidades indígenas (ou “primeiras nações”) champagne e aishihik. Embora Trish faça levantamentos cartográficos relacionados com a exploração mineira, ela teme que o Yukon esteja a atingir um ponto de viragem em que os custos ambientais e culturais da mineração superem os benefícios. “Quem aqui vem extrair minério não pergunta o que acontece aos animais que caçamos, ao peixe que comemos, à camada superior do solo que mantém tudo agregado. E quando a corrida acabar, como poderá esta população minúscula custear a limpeza dos resíduos tóxicos?”

Com apenas 37 mil habitantes, o Yukon ocupa uma enorme cunha de terra entre o Alasca e o Canadá. Da sua costa setentrional, confinando com o mar de Beaufort, prolonga-se para sul e para sudeste, abrangendo uma vastidão de tundra polvilhada por lagos, florestas, montanhas, zonas húmidas e sistemas fluviais. Protegida por alguns dos cumes mais altos do Canadá e dos seus maiores glaciares, o território está quase inteiramente despovoado. A população está disseminada por um punhado de comunidades e pela capital, Whitehorse. A região é igualmente rica em vida selvagem: é um Serengeti árctico cujas alterações sazonais extremas atraem grandes manadas de renas e outros animais migrantes. Um dos seus recantos mais selvagens é a bacia hidrográfica do rio Peel, uma vasta região bravia que drena uma área maior do que a Escócia.

 

“A bacia hidrográfica do Peel é um dos poucos locais onde ainda existem grandes ecossistemas de predador/presa intactos”, afirma Karen Baltgailis, da Sociedade de Conservação do Yukon. “Desde lobos e ursos-pardos a águias, é um habitat de vida selvagem de importância mundial.”

Há muito que o Yukon também funciona como ponto de passagem nas migrações de seres humanos. Durante a última glaciação, quando a maior parte do Canadá se encontrava enterrada debaixo de um quilómetro e meio de gelo, o Alasca e o Yukon faziam parte de uma bolsa árida e sem glaciares denominada Beríngia, que ligava a Sibéria à América do Norte. Segundo alguns arqueólogos, ossos de animais descobertos na região árctica do Yukon, cuja datação por carbono indica idades de 25 mil anos e superiores, parecem ter sido quebrados ou cortados por seres humanos, embora muitos especialistas contestem esta afirmação. É, contudo, evidente que a ocupação humana permanente ocorreu há cerca de 13 mil anos, quando o recuo dos glaciares abriu corredores e permitiu a migração para norte e para sul.

Os primeiros habitantes do Yukon caçavam bisontes, veados, renas, mamutes, aves aquáticas e peixes e competiam pelos recursos com carnívoros como os lobos e os leões-das-cavernas. Alguns destes animais morreram devido ao aquecimento climático e outros factores, mas outros, como a subespécie de rena Rangifer tarandus groenlandicus, prosperaram de tal maneira que os povos nativos adaptaram as suas próprias deslocações e estilos de vida às migrações destes animais.

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“Dependemos da rena há pelo menos dez mil anos”, afirma Norma Kassi, antiga chefe da “Primeira Nação” vuntut gwitchin. “A nossa tradição oral conta que um homem gwitchin fez um pacto de coexistência trocando uma parte do seu próprio coração palpitante pelo de uma rena viva.”

A manada de renas desta subespécie atravessa duas vezes por ano o grande rio Porcupine, que corre para oeste. A sua viagem começa 650 quilómetros a noroeste, no Refúgio Nacional de Vida Selvagem do Árctico (ANWR). Na Primavera, mais de cem mil renas acorrem à planície costeira para se banquetearem com vegetação rasteira. Reunindo-se em grupos de dezenas de milhares, as fêmeas parem as crias quase em simultâneo.

Quando as crias têm apenas algumas semanas, a manada começa a deslocar-se para sul, numa cacofonia de cascos a bater, fêmeas a bramir e crias a balir. As renas são dos viajantes mais graciosos da natureza, talhados à medida da sua jornada entre cordilheiras e rios até às terras pantanosas varridas pelo vento que compõem o território de caça tradicional dos vuntut gwitchin.

A neve está a voar quando o meu avião curva sobre o rio Porcupine e aterra em Old Crow, a comunidade mais setentrional do Yukon. Sem estradas que a liguem ao resto do mundo, a aldeia é um amontoado de casas de madeira assentes sobre estacas, com paredes exteriores decoradas com armações de rena e alce.

Os gwitchin são dos últimos povos da América do Norte que satisfazem a maioria das suas necessidades nutricionais com alimentos obtidos através da caça e da recolecção. Por entre as ripas dos fumeiros, consigo avistar tiras de carne e peixe a secar. As renas devem começar a atravessar esta zona a qualquer instante e o ambiente na vila é enérgico e animado. Robert Bruce, um sexagenário cordial, aparece numa moto-quatro, com um sorriso aberto no seu rosto largo. “As renas!”, grita. “Chegaram!”

Alguns minutos mais tarde, estamos em sua casa de volta de um guisado de rena, falando sobre a chegada da manada e partilhando histórias sobre a família. Robert cresceu na terra, viajando ao sabor das estações do ano para caçar, pescar e apanhar bagas. Embora ainda cace ou pesque quase todos os dias, como a maioria dos homens gwitchin, a vida em Old Crow não é primitiva. A loja da aldeia disponibiliza alimentos embalados caros vindos de avião de Whitehorse e a televisão via satélite e a Internet permitiram aos gwitchin situarem-se num contexto global mais amplo. O álcool é proibido, mas o abuso de substâncias e os problemas de identidade tiveram efeitos profundos na comunidade, sobretudo entre os jovens.

Enquanto falamos, o neto adolescente de Robert, Tyrel, estende-se no sofá. “Amanhã, vamos levá-lo à caça”, diz Bruce, piscando o olho.

É verdade que o governo reclamara direitos sobre quase todo o território do Yukon, mas um complexo processo de concessões devolveu recentemente o controlo aos seus habitantes nativos, tornando-os guardiões dos locais onde viajam, caçam e pescam. Algumas ameaças, porém, estão fora do alcance da comunidade. “Está a ver a margem do rio em movimento?”, pergunta Robert, ao leme do seu barco. “É a camada de solo permanentemente gelado a derreter. Há dez anos, tínhamos gelo no rio por esta altura. E agora animais como os pumas vêm até aqui. Temos plantas novas a cobrir os mirtilos e os frutos das roseiras bravas, onde vamos buscar as nossas vitaminas.”

À semelhança de outros anciãos gwitchin, Robert viajou pelos EUA apelando à protecção dos territórios de reprodução das manadas de rena de Porcupine. Os políticos já tentaram diversas vezes abrir a planície costeira da ANWR à exploração de petróleo e gás. A prospecção poderia atingir um reservatório de milhares de milhões de barris de petróleo e afastar a rena dos seus principais territórios de reprodução. “Chamamos-lhe vadzaih googii vi dehk’it gwanlii”, diz Robert. “É o local sagrado onde começa a vida. Para nós, é uma questão de direitos humanos. Porque quando as renas desaparecerem, a nossa cultura desaparece.”

Passados alguns minutos, Robert semicerra os olhos e liga o motor. “Rena!”, grita, pegando na espingarda. Instantes depois, aproxima-se de uma manada que atravessa o rio a nado, escolhe um macho no meio e abate-o com um tiro no pescoço. “Nunca caçamos os líderes”, diz. Este regime de caça não passaria no teste de caça desportiva das regiões industrializadas, mas, para um gwitchin, a caça não é uma actividade recreativa. É uma forma de obter proteína e gordura num sítio onde a eficiência sempre significou sobrevivência.

Com o seu estilo de vida tradicional e habituadas a viajar sem carga, as populações indígenas do Yukon davam pouco valor ao metal pesado que viam a reluzir no fundo dos riachos iluminados pelo sol. Os prospectores começaram a sondar o Yukon na década de 1870, mas só em 1896 três mineiros mergulharam as suas peneiras num ribeiro junto à confluência dos rios Yukon e Klondike. As notícias da descoberta chegaram à civilização onze meses mais tarde, quando os primeiros mineiros recentemente enriquecidos desembarcaram em São Francisco e em Seattle a cambalear, vergados ao peso das suas riquezas. Dias depois, as manchetes de todo o mundo gritavam “Ouro! Ouro! Ouro!… Pilhas de metal amarelo!”

Assim começou um dos mais extraordinários surtos de histeria colectiva da história contemporânea. A expressão “corrida” era uma descrição adequada e bastante literal, pois dezenas de milhares de pessoas tomaram de assalto os postos de venda de bilhetes das companhias de navios a vapor, que apostaram seriamente na promoção das possibilidades de riqueza rápida do 
Klondike. Milhares de seres humanos avançaram para uma região selvagem para a qual poucos estavam preparados.

“O meu pai contava que chegaram como se fossem mosquitos”, conta Percy Henry, de 86 anos, um ancião da “Primeira Nação” tr’ondëk Hwëch’in. “Isaac, o nosso chefe, disse que iriam destruir a nossa terra e que nada podíamos fazer para os travar.”

Os recém-chegados afluíram a uma planície alagadiça que os tr’ondëk hwech’in utilizavam como local de pesca e de caça. No espaço de poucos meses, as florestas vizinhas foram derrubadas e dezenas de milhares de invasores escavaram os riachos em redor. No Verão de 1898, Dawson City era uma metrópole tosca com 30 mil habitantes, telefones, água canalizada e luz eléctrica.

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E então, ainda mais depressa do que começara, acabou. Em 1899, um ano depois de Dawson ser declarada a capital do recém-fundado território do Yukon, as notícias de novas descobertas em Nome, no Alasca, atraíram vários mineiros para jusante do rio Yukon. Outros, curvados pelo escorbuto e entristecidos pela consciência de os seus sonhos não se terem materializado, venderam o que puderam e voltaram para casa. Nas décadas seguintes, alguns homens encontraram trabalho nas dragas de ouro que começaram a trabalhar nos rios e ribeiros represados, criando as pilhas de destroços de dragagem que definem a paisagem de Dawson.

Grande parte do território já se esvaziara em 1953, quando a capital se deslocou para Whitehorse, a sul. No entanto, o aspecto montanhoso e duro do Yukon continuava a excitar as imaginações aventureiras.

“Pode dizer-se sem hesitação que eu ouvi o chamamento da paisagem bravia”, diz Scott Fleming, de 42 anos, um carpinteiro de voz suave natural de Ontário que chegou a Dawson em 1992, perseguindo a promessa de uma vida que poderia ser tão difícil como boa.

Conheci-o numa expedição de canoa de 13 dias no rio Snake, que se torce e retorce pela cordilheira de Bonnet Plume, acabando por desaguar no rio Peel. A bacia hidrográfica do Peel é um dos maiores sistemas fluviais ainda prístinos do planeta. Há muito isolada do desenvolvimento pela sua solidão distante, a bacia hidrográfica tem captado a atenção da indústria mineira nos últimos anos. Enquanto as comunidades indígenas e grupos de conservação exercem pressões para obter a sua protecção, o Peel tornou-se tema de petições a nível nacional, debates eleitorais e propostas antagónicas para proteger ou desenvolver a região bravia.

Scott Fleming encontrou Ryan, também oriundo de Ontário, pouco depois de chegar a Dawson. Ryan viera para o Yukon com pouco mais de 20 anos para capturar animais selvagens pelas suas peles, mas rapidamente se tornou caçador de cogumelos, fornecendo fungos silvestres ao lucrativo negócio internacional da restauração. Depois, ficou viciado na prospecção de ouro.

No Yukon, os depósitos de ouro assumem duas formas: os chamados veios de minério encontram-se retidos em rochas que o transportaram para a superfície, desde a crosta terrestre. Os depósitos de ouro são criados quando os veios são soltos pela erosão e afastados do filão principal por acção da água e da gravidade, concentrando--se com a forma de partículas e pepitas nos leitos fluviais e enterrando-se sob a gravilha e a areia.

“Shawn estava convencido de que o filão principal ainda existia por aí”, conta-me Scott 
Fleming numa noite enquanto cozinhamos o jantar sob os últimos raios de sol. “Ele disse que, nos últimos cem anos, as pessoas têm visto o rasto, mas não o bicho.”

Scott foi o primeiro empregado de Shawn. Nos seis anos seguintes, os dois homens utilizaram bicicletas, uma embarcação de madeira amolgada e sobretudo os próprios pés para aceder a regiões bravias promissoras. Apurando o seu sistema rigorosamente científico de recolha e análise de dados, os dois homens começaram a aproximar--se de filões intermináveis. Contudo, no preciso momento em que Shawn convenceu os seus primeiros grandes investidores a juntarem-se a ele, Scott partiu para se dedicar à carpintaria.

No quinto dia da nossa expedição no rio Snake, pergunto a Scott porque se foi embora nas vésperas da recompensa. O nosso grupo de oito pessoas tirou um dia de folga do rio para subir ao monte MacDonald, uma terra maravilhosa com vários pináculos, paredes rochosas, glaciares e desfiladeiros ocultos.

“O Shawn é um tipo fantástico e mais ecológico do que a maioria”, diz Scott quando paramos para almoçar num prado a grande altitude, salpicado por papoilas-do-árctico. “Mas andar no terreno todos os dias e ver sítios como este teve um efeito em mim.” Ele lança o olhar sobre o rio e as montanhas púrpura que se estendem até ao horizonte. “Percebi que não queria fazer parte da sua destruição.”

Seguimos um ribeiro leitoso vale acima, saltitando sobre espessas camas de musgo. Passamos por rastos deixados por alces e lobos e fazemos uma pausa para ver uma águia-real investir com pouco entusiasmo contra um jovem carneiro aninhado debaixo da progenitora numa saliência rochosa. É quase meia-noite quando regressamos ao nosso acampamento junto ao rio, recentemente adornado por uma pilha de fezes de urso.

De manhã, o tempo mudou, cobrindo de neve os cumes das montanhas em redor. Até agora ainda não lobrigámos qualquer sinal de presença humana. Por isso, é um choque quando, ao nono dia, vemos um barril de petróleo tombado sobre um afloramento rochoso. Em 1961, descobriu-se um dos maiores depósitos de ferro da América do Norte a montante de um afluente do rio Snake. O local foi submetido a testes de mineração, mas nunca inteiramente desenvolvido. Desde então, a procura de aço pelas economias asiáticas emergentes renovou o interesse no depósito Crest e os defensores da indústria mineira discutem a criação de uma ligação ferroviária até à costa.

“O acesso por terra é sempre o calcanhar de Aquiles das regiões bravias”, afirma Dave Loeks, presidente do conselho de administração da Comissão de Planeamento da Bacia Hidrográfica do Peel. “Neste momento, o Peel é uma das melhores regiões bravias. É bom que tenhamos uma excelente razão para o explorarmos, porque é um caminho sem regresso. A indústria mineira faz sempre grandes promessas, mas agora temos minas fechadas no Yukon com fugas de arsénico, cianeto e chumbo. Em vez de pagarem para repararem os estragos, as empresas abrem falência.”

Bob Holmes, director de Recursos Minerais do governo do Yukon, contrapõe que a indústria mudou. Antigo director da mina de chumbo-zinco Faro, que sofre actualmente trabalhos de limpeza executados pelo governo numa empreitada superior a 600 milhões de euros que demorará cem anos a concluir, Bob defende que as novas políticas públicas de vinculação e concessão reduziram o risco de grandes fracassos. “Actualmente, não podemos enfiar uma pá no solo sem termos um plano de encerramento.”

Para os ambientalistas, há muito que as arcaicas leis mineiras do Yukon exigiam uma reformulação. “A mineração faz parte da nossa história e ninguém quer que desapareça”, diz Lewis Rifkind, da Sociedade de Conservação do Yukon. “Mas a tecnologia actual pode causar danos terríveis e ainda estamos a regulamentá-la com leis arcaicas.”

O regime de acesso livre do Yukon permite a qualquer adulto reclamar uma concessão na maioria das terras da região, incluindo territórios indígenas e propriedade privada, e utilizá-la como for necessário para aceder aos recursos minerais do subsolo, desde que cumpra os regulamentos e regras ambientais. Recentemente, contudo, uma decisão do tribunal de recurso lançou dúvidas sobre o direito do governo do Yukon a permitir que os prospectores explorem e registem concessões em territórios tradicionais sem primeiro consultar os povos indígenas por isso afectados.

O preço dos direitos da mineração de jazidas foi estabelecido em 1906, quando uma onça de ouro [31,1 gramas] valia 15 dólares. Entre Abril de 2012 e Março de 2013, os concessionários do Yukon produziram cerca de cinquenta milhões de euros em ouro e pagaram 14.648 euros em compensações!

Ao aproximar-se o fim da minha campanha no Yukon, dou por mim a regressar a Dawson. O grama de ouro vale agora 40 euros e há rumores de que poderá chegar bremente aos 46 euros.

Apanho boleia num helicóptero e parto para um local promissor junto às montanhas Ogilvie que a equipa de Shawn Ryan tem explorado. Quando levantamos voo, consigo ver os famosos riachos da febre do ouro (Bonanza, Hunker, Eldorado) onde bulldozzers substituíram os métodos tradicionais de peneiragem. Minutos depois, porém, sobrevoo montanhas cobertas de floresta. Aterro sob um aguaceiro ligeiro num acampamento onde encontro Fraughton, um dos então directores de projecto de Ryan. Guiados pelo GPS, vamos até uma cumeeira próxima e passamos o dia a caminhar na diagonal, parando a cada 50 metros para introduzir um trado oco no solo.

Coberto de musgo, epilóbios e líquenes, o monte é um milagre de cor e nutrição. A terra é igualmente colorida e diversificada sob a vegetação. O trado de Fraughton recolhe amostras de areia amarela, argila azulada, gravilha verde e barro vermelho. “Se obtivermos dados animadores, é essencial registar rapidamente a concessão”, diz Fraughton. “Aqui, em Dawson, os boatos voam como no Faroeste. Há algumas semanas, fomos reclamar uma terra onde tínhamos encontrado bom solo e já alguém registara a concessão.”

A chuva acalma ao final da tarde enquanto regressamos ao acampamento dos prospectores. 
Ao descermos uma encosta íngreme, menciono algo que Shawn me disse: “Aconselho as pessoas a não se apegarem a toda esta beleza. Poderemos vir a querer explorá-la.”

Fraughton suspira. “Sim, consigo perceber que esse género de coisas possa pôr as pessoas nervosas”, afirma. “Mas não há garantias de que será explorada. Se for, esperemos que o seja de forma responsável. Mas eu sou um simples prospector. Se eu não andasse por aqui, andariam outros no meu lugar, a ganhar 220 euros por dia.”

Quando nos aproximamos do acampamento, as nuvens começam a abrir. Meia dúzia de cumes, subitamente banhados pela luz amarela etérea, começam a brilhar. É um espectáculo natural tão incrível que, neste instante, não é possível acreditar que esta perspectiva possa vir a tornar-se rara.

Fraughton e eu sentamo-nos por um minuto para apanhar alguns mirtilos e interiorizar a paisagem. “Sabe o que é mais impressionante?”, pergunta. “Já estive em todas as zonas deste território e, embora custe a acreditar, é assim em todo o lado. Independentemente do local, há montanhas e mais montanhas, demasiadas para as contarmos, demasiadas para lhes darmos um nome. E penso: e se uma delas desaparecesse? Faria mesmo diferença?”

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