Os segredos de um pardal cabo-verdiano que ajuda a contar a história da evolução.

Texto e fotografias de Alexandre Vaz

O SOM DE PASSOS APRESSADOS COM SANDÁLIAS DE BORRACHA DILUI-SE NA NEBLINA DENSA DA MANHÃ. O ar fresco e o cheiro intenso a jasmim criam a atmosfera que serve de pano de fundo a uma arquitectura simultaneamente familiar e exótica, com ruas de empedrado arredondado pela erosão, casas com platibanda orladas por faixas coloridas e campos de milho delimitados por sebes de hibiscos carmim. Quando esta pequena ilha foi descoberta por navegadores portugueses foi baptizada de ilha de São João, mas mais tarde, como era a mais remota e longínqua do arquipélago de Cabo Verde, passou a chamar-se ilha Brava. Situada no planalto fresco e verdejante, a sua capital foi, por razões agora óbvias para os nossos sentidos, apelidada de Nova Sintra.

Só se chega aqui de barco. O aeroporto local foi abandonado pouco depois da sua construção porque os ventos cruzados tornavam as aterragens e descolagens demasiado perigosas. A partir de Nova Sintra, avistam-se para norte os ilhéus do Rombo e para leste a ilha do Fogo.

A equipa de investigadores que acompanho já está aqui há mais de um mês, percorrendo todas as ilhas e ilhéus do arquipélago. Os quatro cientistas portugueses vêm atrás de uma ave endémica que, ao contrário de muitas outras… é extraordinariamente comum. Na realidade, é um pardal e curiosamente foi capturado pela primeira vez por Charles Darwin na sua viagem a bordo do Beagle.

Depois de uma tentativa de visitar o arquipélago das Canárias, frustrada pela imposição de um período de quarentena para prevenir a propagação do surto de cólera que então grassava no Reino Unido, Santiago, em Cabo Verde, foi a primeira terra que Darwin pisou 23 dias depois de sair de Plymouth. Aqui, abateu um exemplar desta espécie endémica, depois classificada como Passer iagoensis, celebrando o pássaro de Iago, nome arcaico da ilha.

Três anos e meio mais tarde, depois de percorrer o mundo em estudo de espécies animais e vegetais, registos fósseis e geológicos, Darwin chegou às Galápagos, onde viveu a epifania que está na origem da sua teoria da evolução, hoje incontornável e amplamente demonstrada. Nas ilhas sul-americanas, Darwin encontrou tentilhões que apresentavam variações morfológicas de ilha para ilha, no que parecia ser a resposta a diferentes adaptações tróficas. Duzentos e oitenta anos depois, a questão é colocada de maneira diferente pelos investigadores que percorrem o arquipélago africano. Contendo as ilhas de Cabo Verde ecossistemas tão diversificados e recursos alimentares disponíveis, por que motivo os pardais aqui não se diferenciaram dando origem a espécies distintas?

Desde o final da década de 1990 que Martim Melo, biólogo do CIBIO e duas vezes bolseiro da National Geographic Society, visitou uma dúzia de países da África subsaariana à procura de respostas para os dispositivos evolutivos que explicam a diferenciação de populações e a especiação. Curiosamente, nunca estivera em Cabo Verde.

A história deste projecto é antiga. Augusto Faustino, professor de Veterinária no Instituto de Ciências Biomédicas de Abel Salazar, estava longe de imaginar em 1997 que a viagem que fez pela Índia mudaria o curso da sua vida. Embora tivesse visitado inúmeros locais de peregrinação, foi o santuário de aves de Bharatpur, no Rajastão, que o marcou profundamente. Comprou binóculos, começou a observar aves e nunca mais olhou para trás. Hoje, com mais de quatro mil espécies de aves já observadas nos quatro cantos do mundo, Augusto continua a encontrar prazer nesta actividade, mas quer dedicar tempo e energia à conservação e à ciência. Em 2011, quando descobriu que, para além de si, o outro sócio do African Bird Club que residia em Portugal era um investigador do CIBIO que também vivia e trabalhava no Porto, decidiu procurá-lo. Augusto e Martim tornaram-se amigos. Quando o veterinário regressou de uma missão de três meses na ilha do Maio onde esteve a fazer voluntariado na Fundação Maio Biodiversidade, tinha amadurecido uma ideia: talvez o pardal-da-terra, como esta ave é conhecida, fosse um bom modelo de estudo para analisar a evolução. Martim era o parceiro ideal para o projecto. À equipa, juntou-se Pedro Cardia, com extenso trabalho de filogenia com pegas-azuis e galinholas, e Ângela Ribeiro, doutorada na Universidade de Berkeley em adaptações de aves a ambientes áridos. Para além da equipa que voou de Portugal, uma longa lista de parceiros incluiu biólogos e conservacionistas, sem os quais o trabalho não teria sido possível.

AQUI, NA ILHA BRAVA, ao contrário do que se passa nos ilhéus desabitados onde os pardais são tolerantes e podem ser capturados com um camaroeiro, é necessário montar redes de anilhagem. Mesmo assim, ao segundo dia, o objectivo de captura de duas dezenas de indivíduos adultos, com proporção idêntica entre sexos, foi atingido. À medida que os dados se acumulavam e se analisavam as amostras das várias ilhas, sobressaiu a impressão de que afinal os pardais talvez não fossem exactamente iguais em todas as ilhas.

Nos ilhéus do Rombo, por exemplo, pareciam ter bicos visivelmente mais robustos. Ao jantar, conjecturamos se o ambiente árido terá aqui seleccionado aves com bicos maiores que assim pudessem explorar um recurso, como sementes maiores ou mais duras, que não constituam uma opção para aves com bico de menor dimensão. “As adaptações à aridez não se limitam a características morfológicas passíveis de ser detectadas com uma régua ou uma balança”, explica Ângela Ribeiro. Em ambientes áridos, as aves com metabolismos mais eficientes na preservação de líquidos são seleccionadas positivamente. “Hoje, conhecemos um conjunto de genes associados a estes mecanismos e podemos testar em laboratório se essa será aqui uma força por detrás do processo evolutivo.”

Compreendendo estes mecanismos, podem tirar-se conclusões sobre a diferenciação dos pardais-da-terra, mas também sobre os mecanismos de adaptação a ambientes áridos que podem ajudar a desenhar cenários face a um quadro de desertificação como consequência das alterações climáticas.

Durante a campanha, vários pardais foram marcados com anilhas coloridas e códigos diferenciados na esperança de que pudessem ser avistados noutras ilhas, provando assim a sua deslocação. O pardal, porém, não revelou com facilidade os seus segredos: uma semana depois da marcação, as equipas do projecto Biosfera 1 no ilhéu Raso verificaram que os pardais já marcados tinham conseguido retirar as anilhas e quase todo o aparato, devolvendo o processo à casa de partida!

Com esse enigma em mente, os quatro cientistas deslocaram-se à maior ilha cabo-verdiana, Santiago. Aqui, seleccionaram três zonas de amostragem com características distintas. Depois, ainda seguiram para a ilha do Maio. Para mim, é tempo de regressar a casa, mas a equipa embarca ainda no navio Donjdade para uma viagem de 9 horas até à Boavista. À despedida, Martim espelha confiança: “Agora, é esperar uns meses pela genética e devemos conseguir saber quando esta espécie se separou do seu congénere do continente, se existem diferenças significativas entre as populações das diferentes ilhas e que factores contribuíram para isso.”

No final da campanha, a equipa fez recolhas em todas as ilhas e ilhéus do arquipélago, com excepção do ilhéu Branco onde, na breve vista efectuada, nem sequer foi possível avistar a espécie. Capturaram-se (e posteriormente libertaram-se!) 415 pardais-da-terra, 115 pardais-espanhóis e 17 pardais-domésticos (introduzidos no Mindelo).

Em pleno trópico de Câncer e a pouco mais de 1.500 quilómetros do equador, a passagem das estações faz-se discretamente, mas mais a norte, em Portugal, no final do ano, quando os dias começam lentamente a crescer ouve-se um ditado popular: “até ao Carnaval, salto de pardal; do Carnaval em diante, salto de gigante”. Esta parece uma boa metáfora para a história do progresso científico. Nem todos os contributos mudam paradigmas, como Darwin e Wallace fizeram. São muitas vezes os pequenos contributos que fazem avançar o conhecimento. E os pardais de Cabo Verde parecem dispostos a dar uma ajuda.

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