Terra de Francisco José

O significado do Norte.

Texto de David Quammen
Fotografias de Cory Richards

 Feodor Romanenko ergue os braços. “Caros colegas”, diz, com o seu habitual sorriso travesso, mergulhando de seguida no seu francês com sotaque russo. “Caros colegas” não serão as únicas palavras de inglês que conhece, mas são claramente as suas preferidas, pois tornam-se úteis para chamar a atenção de um grupo internacional como o nosso.

“Caros colegas, proponho que trepemos agora até ali”, diz, apontando para a vertente íngreme, instável e feia de uma colina de rocha esfarelada. “Caros colegas”, gabando-se com ar galhofeiro perante a nossa assembleia nocturna. “O meu grupo fez hoje cinco descobertas assombrosas, incluindo dois tipos de basalto! E alguns sedimentos do Mesozóico! E provas de uma desglaciação recente!”

Especialista em geomorfologia e colaborador da Universidade Pública de Moscovo, Feodor mantém o entusiasmo juvenil pelo trabalho mesmo depois de 28 campanhas nas costas e ilhas do oceano Árctico. Caminha penosamente através de uma austera paisagem setentrional, mas alardeia uma alegria contagiante no trabalho de campo. Faz observações, identifica padrões, reúne dados que podem ajudar a resolver, entre outros mistérios, a questão do gelo.

Deslocámo-nos ao Norte na companhia de Feodor para conhecer um arquipélago da Rússia árctica conhecido como Terra de Francisco José. Embora não seja o nosso objectivo principal, essa questão está implícita em quase tudo o que viemos aqui aprender. Na verdade, são três questões: a que se deve a fusão do gelo perene? A que velocidade se processará esse degelo? E quais serão as suas consequências ecológicas?

Quando fazemos uma expedição biológica até às regiões polares de elevada latitude, árcticas ou antárcticas, nestes tempos de alterações climáticas, a questão do gelo é sempre importante, seja ela abordada de forma directa ou indirecta.

Optamos por uma abordagem indirecta. Partimos rumo a norte largando de Murmansk, e cruzamos o mar de Barents: somos quase quarenta pessoas e formamos a Expedição de 2013 aos Mares Prístinos na Terra de Francisco José com apoio da Davidoff. Observamos este arquipélago distante através de uma variedade de lentes – botânica, microbiologia, ictiologia e ornitologia, entre outras. A Terra de Francisco José é constituída por 192 ilhas, a maioria das quais composta por sedimentos do Mesozóico revestidos por uma camada de basalto colunar e plana no topo. Em tempos mais recuados, não existiam ali habitações humanas permanentes, mas os soviéticos instalaram estações de investigação e bases militares em algumas ilhas. Essa presença diminuiu, reduzindo-se a níveis mínimos na década de 1990; agora, porém, o aumento do degelo, a existência de novas rotas marítimas e o potencial económico estão a renovar o interesse do governo russo pela região.

Durante um mês, ziguezagueamos pelo arquipélago, atraídos aqui e além pelas oportunidades e conduzidos pelas condições meteorológicas. Vamos a terra quando os ursos-polares nos permitem, admiramos as morsas, as gaivotas-marfim e as baleias-da-gronelândia e reunimos dados em locais onde pouca investigação teve lugar.

Encontramo-nos 1.481km a norte do círculo Árctico, viajando a bordo do Polaris, um navio turístico remodelado com armários transformados em laboratórios, microscópios instalados sobre mesas de jantar e um salão inteiro cheio de equipamento de mergulho, incluindo fatos para proteger os nossos mergulhadores das águas a -1°C. A equipa é composta por russos, norte-americanos, espanhóis, britânicos, um australiano e alguns franceses. Todos os dias, alguns membros da equipa dirigem-se à costa da ilha mais próxima do local onde o navio ancorou para fazer transectos, anilhar aves, contar morsas ou colher plantas, enquanto outros mergulham na água gelada para inventariar micróbios marinhos, algas, invertebrados e peixes. Por vezes, os dias de caminhada são longos, mas regressamos sempre ao navio antes do anoitecer porque a noite nunca chega.

O limite norte de Rússia: A Terra de Francisco José é composta por 192 ilhas que formam o arquipélago mais setentrional do mundo. Estes 16 mil quilómetros quadrados são praticamente inabitados, cobertos por glaciares e envoltos em gelo marinho durante grande parte do ano. Uma expedição austro-húngara descobriu o arquipélago em 1873, a União Soviética reclamou-o em 1926 e a Rússia transformou-o numa reserva natural em 1994. Alberga agora uma estação meteorológica, mas a Rússia planeia reabrir bases militares no Árctico.

O Sol não se põe: limita-se a descrever irresolutamente círculos pelo céu setentrional. Os mergulhos duram pouco mas são muito intimidantes. O ponto de vista de Feodor Romanenko é particularmente importante entre os restantes, não só para a ciência, como para o moral, pois combina geologia com arrojo. Com o seu chapéu de orelhas felpudas, colete cor de laranja iridescente, calças impermeáveis até às ancas e arma em punho, Feodor parece um afável caçador de patos. A outra peça de equipamento essencial é uma pá de jardim. Katerina Garankina, uma das suas alunas de doutoramento da Universidade Pública de Moscovo, ruiva e resistente, assiste-o na tarefa de elaborar os perfis geomorfológicos das ilhas. Michael Fay, responsável pela botânica, acompanha regularmente as suas idas diárias a terra pois, à semelhança de Feodor, sofre de um desejo insaciável de caminhar.

O levantamento realizado por Michael Fay na sua épica caminhada que atravessou as florestas da África Central [“Megatransect”, três reportagens publicadas em 2001] não foi a primeira nem a última das suas caminhadas no mundo selvagem. Com 58 anos, divide o seu tempo entre uma cabana no Alasca e um trabalho dedicado à conservação para o governo do Gabão, mas mostra-se hoje tão inquieto e impaciente como sempre por percorrer a pé terras selvagens. No essencial, a flora do Árctico é novidade para Michael Fay, mas na primeira tarde que passámos na Terra de Francisco José, vi-o identificar uma dezena de angiospérmicas, pelo menos até ao género, e cada planta era apenas um delicado molho de folhas entre o pavimento de rochas e musgos, com caules encimados por minúsculas flores amarelas ou vermelhas.

Agora, nove dias depois, numa ilha chamada Payer, eis Michael novamente sobre os joelhos, de mãos na terra e olhos semicerrados, contando pétalas e carpelos e tirando fotografias. Já tem 12 espécies no seu bloco de apontamentos quando Feodor e Katerina acabam de medir os antigos socalcos marinhos que sobem a partir da praia, encosta acima. Existem socalcos marinhos antigos em Payer e noutros locais porque a Terra de Francisco José sofreu episódios de levantamento durante o Plistocénico tardio e ao longo dos últimos milénios: em algumas áreas do arquipélago, esses episódios provocaram uma elevação total superior a noventa metros.

Situadas na cunha mais setentrional da placa euro-asiática, as ilhas encontram-se agora mais acima do nível da água. Os levantamentos foram desencadeados por forças tectónicas e, em certa medida, pelo desaparecimento do gelo. À medida que um glaciar se funde, a massa desaparece, o peso diminui e o terreno subjacente tende a recuperar, da mesma forma que uma cova no sofá se atenua quando nos levantamos. Por isso, a própria forma da paisagem, para não mencionar o ecossistema por si sustentado, é parcialmente determinada pela presença ou ausência de gelo.

Desde o desembarque na praia de Payer, fico absorto a contemplar as flores e os apontamentos de Michael Fay, até que ouço Feodor chamar-nos a atenção para um urso-polar, belo e grande, cuja silhueta surgiu numa cumeeira a oeste. O urso parece não dar pela nossa presença, mas sabemos que é mais prudente não nos fiarmos em suposições. Enquanto se desloca, a cabeça pequena do animal avança sobre os músculos ondulantes do seu longo pescoço. O vigilante destacado para nos acompanhar, um jovem chamado Denis Mennikov, está armado com uma Saiga-12, mas não pretende dar-lhe uso. O desaparecimento do gelo também tem sido uma provação para os ursos e pode levá-los a comportamentos temerários. “Caros colegas, por favor mantenham-se alerta.”

A variabilidade dinâmica do gelo é um dos elementos que outrora tornaram a exploração do Árctico tão problemática e fascinante. Fridtjof Nansen foi o mais famoso de muitos exploradores que passaram pelo arquipélago no decurso de expedições polares ousadas e infortunadas. Tudo se torna mais fácil desde que Nansen aqui montou o seu desesperado acampamento no Inverno de 1895-96. Nesta viagem até aos Mares Prístinos, temos melhores mapas, menos ambições, equipamento GPS e um navio mais confortável. Também temos um líder abençoado com mais desenvoltura do que alguns dos comandantes de cabeça dura dos esforços prévios. Trata-se do explorador-residente da National Geographic Society, Enric Sala, um especialista em ecologia marinha que organizou este complexo esforço internacional, o mais recente da série Expedições aos Mares Prístinos, com o apoio da National Geographic Society e outros patrocinadores.

Até há poucos anos, Enric leccionava no Instituto Scripps de Oceanografia, coordenando pós-doutoramentos sobre cadeias alimentares e conservação marinha. Porém, mostrava-se insatisfeito com o seu contributo para o mundo. “Via-me a apurar o obituário da natureza com uma precisão cada vez maior”, diz-me durante uma conversa a bordo do Polaris. A angústia sentida perante as tendências contínuas de degradação dos ecossistemas e de perda de espécies, tanto no reino marinho como no terrestre, levaram-no a abandonar o mundo académico. “Quis tentar resolver este problema”, afirma. Por isso, em 2005, reuniu uma equipa de cientistas de topo, incluindo peritos em micróbios marinhos, algas, invertebrados e peixes, e zarpou rumo às ilhas setentrionais do arquipélago das Espórades Equatoriais, um aglomerado de afloramentos de coral no Pacífico, cerca de 1.850 quilómetros a sul do Hawai.

Uma vez ali chegados, mergulharam nos recifes e estudaram-nos, fazendo uma descoberta importante: os predadores, com destaque para os tubarões, representavam 85% da biomassa local. Era um mundo às avessas: a sabedoria ecológica convencional postulava um rácio de aproximadamente dez-para-um de predadores em cada nível de uma cadeia alimentar, no sentido ascendente. Consensualmente, a equipa de Enric chamou-lhe pirâmide de biomassa invertida. Dada a aparente ausência de presas em massa, o que poderia sustentar esta abundância de tubarões?

Na verdade, as presas não se encontravam ausentes. As massas eram produzidas, em abundância e continuidade, sob a forma de pequenos peixes com taxas elevadas de reprodução, crescimento, maturidade sexual e substituição, e os predadores consumiam-nas continuamente até ao ponto de a sua existência se tornar imperceptível. Quatro anos mais tarde, Enric estava presente quando, já no fim do mandato, o presidente norte-americano George W. Bush assinou um decreto-lei criando o Monumento Nacional das Ilhas Remotas do Pacífico, dos EUA. A legislação incluía medidas para a preservação da pirâmide de biomassa invertida. Contando com o apoio da National Geographic Society, Enric voltou a sua atenção para o arquipélago mais setentrional do mundo: a Terra de Francisco José.

A Terra de Francisco José é uma zakaznik, uma reserva natural, gerida no quadro do Parque Nacional do Árctico Russo; por isso, Enric celebrou uma parceria com o parque e com a Sociedade Geográfica Russa. Recrutou Maria Gavrilo, uma bióloga especializada em aves marinhas árcticas que exerce o cargo de directora científica adjunta do parque e que foi nomeada co-responsável da expedição. Reuniu alguns dos mesmos investigadores arrojados, mergulhadores de confiança de expedições anteriores e acolheu cerca de uma dezena de colegas russos, além de Maria. Trouxe também Paul Rose, da Royal Geographical Society londrina, devido à sua experiência de mergulho e escalada polar, capacidade de resolução de problemas e inabalável boa disposição.

A este grupo distinto acrescentou um punhado de jornalistas, como nós. No final de Julho de 2013, partimos para a Terra de Francisco José, onde o mar se manteve praticamente intacto porque, pelo menos até há pouco tempo, permanecia congelado durante grande parte do ano.

Os nossos dois franceses, David Grémillet e Jérôme Fort, vieram estudar a torda-anã (Alle alle), uma ave preta e branca que nidifica nos penhascos e entre as rochas afiadas e mergulha nas águas gélidas em busca de alimento. A torda-anã ainda prolifera em todo o Árctico, com uma população estimada em mais de quarenta milhões de indivíduos – uma das aves marinhas mais numerosas do mundo. O seu parentesco com o arau-gigante, um ícone das extinções causadas pelos seres humanos (o último casal conhecido foi morto em 1844 ao largo da costa da Islândia por um coleccionador de aves) serve para nos lembrar de que nenhuma espécie é invulnerável à pressão gerada pelos humanos. David e Jérôme têm outras razões para se concentrarem na torda-anã. Trata-se de uma ave minúscula, no que diz respeito a aves marinhas, a segunda mais pequena da família das tordas, com asas pequenas que lhe permitem nadar debaixo de água tão bem como voa. Tem um dispêndio de energia e uma taxa metabólica elevados. Por isso, se o ambiente se alterar, a torda-anã poderá ser mais afectada do que outras espécies. E esse ambiente está efectivamente a mudar: as temperaturas médias recentes no Árctico têm sido mais elevadas do que nos últimos dois mil anos. Um estudo sobre tendências árcticas projecta aumentos futuros que podem elevar-se a 7,7ºC até ao fim deste século.

francisco josé

A vertente íngreme da rocha Rubini, um promontório na ilha Hooker, acolhe colónias de aves marinhas. Gaivotas, tordas, araus e fulmares chegam ao local para acasalar durante o Verão.

A torda-anã alimenta-se sobretudo de copépodes, crustáceos minúsculos que são o componente principal do zooplâncton árctico. Cada ave precisa de milhares deles para obter uma refeição decente. “E estes copépodes têm preferências térmicas específicas”, continua David. “Por isso, é possível prever que, se estas comunidades de copépodes mudarem devido às alterações climáticas no Árctico, as tordas-anãs reajam fortemente.”

Como poderá a fauna de copépodes mudar? Uma das espécies mais volumosas, Calanus glacialis, depende de água fria e da presença de gelo marinho, sob o qual crescem as algas de que se alimenta. Uma espécie mais pequena, Calanus finmarchicus, é comum no Atlântico Norte e viaja até ao Árctico acompanhando as correntes, mas não prospera no local. Porém, quando o Árctico aquecer, o equilíbrio competitivo poderá mudar.

O aumento das temperaturas e a diminuição do gelo marinho poderão permitir que os copépodes mais pequenos substituam os maiores, em prejuízo da torda-anã e de outras criaturas. O bacalhau-polar, o arenque e várias aves alimentam-se de copépodes, e até mamíferos como as focas-aneladas dependem dos peixes que deles se alimentam. É por essa razão que os cientistas classificam Calanus glacialis como espécie essencial para o Árctico.

David e Jérôme capturam pequenas tordas-anãs instalando no solo “tapetes com laços”, nos quais as patas das aves ficam presas.  Depois, cada ave é pesada, medida e anilhada. Também apetrecham alguns animais com um registador de tempo e profundidade (TDR) ou um geolocalizador, unidades em miniatura que se fixam numa pata ou nas penas do peito, para possibilitar a recolha de dados. Os geolocalizadores acompanham as rotas de migração para sul, depois de as aves acasalarem. Os TDR revelarão a profundidade a que a ave mergulhou, quanto tempo permaneceu submersa em cada mergulho e quantas horas diárias dedicou a esta laboriosa actividade para obtenção de alimento. Graças a missões anteriores na Gronelândia e em Spitsbergen, David e Jérôme sabem que, durante o Inverno, as tordas-anãs que se alimentam exclusivamente de Calanus finmarchicus chegam a gastar dez horas por dia para satisfazer as suas necessidades energéticas. Quão pior seria esta situação se, no Verão, com crias para alimentar e incubar, só dispusessem dessa fonte de alimento difícil de obter?

Até agora, as tordas-anãs demonstraram uma flexibilidade admirável face às mudanças graduais. No entanto, para Jérôme, a questão é a seguinte: até onde poderá ir essa flexibilidade? “Achamos que haverá um ponto de ruptura.”

Numa segunda-feira de finais de agosto, após duas tentativas, conseguimos chegar ao cabo Fligely, na costa norte da ilha Rudolf, a mais setentrional do grupo. Aqui, enquanto os outros se concentram em objectivos diversos, eu e Paul Rose escapamos até terra para uma caminhada até ao topo do glaciar.

Partimos da praia subindo com cuidado, porque foram avistados dois ursos-polares nas redondezas ontem à noite e outro esta manhã. Contudo, os animais parecem ter-se afastado e a costa está limpa. Como sempre, temos um segurança connosco: outro jovem russo, Alexey Kabanihin, equipado com sinalizadores, um rádio e uma Saiga-12, cujo carregador dispara cartuchos de pólvora seca antes dos verdadeiros. Está um dia de sol esplendoroso. Ao longe, flutuando sobre a água azul, avista-se o Polaris. Equipados com crampons e machados de gelo, começamos a subir vagarosamente a encosta, enquanto Alexey detém-se atrás de nós. O gelo é mole à superfície, formando pepitas de neve, e rijo por baixo, apresentando uma boa aderência. Depois de ontem termos passado o dia inteiro confinados a bordo, eu e Paulo sentimo-nos entusiasmados com esta escapadela e mal conseguimos conter o sorriso. Contudo, no instante em que nos aproximamos do topo, uma voz transmitida pelo rádio estraga-nos a boa disposição. É Maria Gavrilo, dizendo: “Paul, o urso-polar está a cheirar-te. E caminha na tua direcção, subindo o glaciar. Sugiro-te que desças.”

Olhamos um para o outro. “Afirmativo, Maria”, diz Paul. “Está tudo entendido.” E desliga o rádio. Não fazemos ideia de que ela está a braços com uma situação complicada lá em baixo – muitos de nós andam pela ilha, dispersando-se, sem ligarem a avisos, e com ursos a deambular. Podemos subir só mais um bocadinho?, pergunta Paul a Alexey, que abana a cabeça e reforça a sua posição cruzando os braços: absolutamente nyet. Mas nós estamos a pensar: da. “Um minuto?”, pede Paul. Quando o pobre homem se contrai em indecisão, desatamos os dois a correr. Eu e Paul galopamos para longe, em frente, para lá do alcance da autoridade e do bom senso, até um local muito próximo – senão exactamente – do ponto mais alto da massa terrestre mais setentrional da Eurásia. Faz uma leitura de GPS, digo-lhe.

francisco josé

Daria Martynova, da Academia Russa das Ciências, recolhe amostras da coluna de água para monitorizar a diversidade dos copépodes, os crustáceos minúsculos essenciais nas cadeias alimentares do oceano Árctico.

Ele informa: 81 graus, 50,428 minutos norte. Altitude: 174 metros. Rabisco estes números no meu bloco de apontamentos.

Descendo a curvatura da cúpula, vemos um urso-polar entre nós e o navio, seguido de outro à nossa esquerda. O urso da frente sobe direito a nós. O outro está sentado, mas vira a cabeça quando nos deslocamos. Percebo que a situação é grave quando Alexey me entrega um sinalizador. Arrastamo-nos. Mantenham-se quietos, gesticula o vigilante. Mantenham-se próximos. Ele parece muito nervoso. O glaciar é grande e amplo e os ursos são donos dele. Tentamos uma rota de fuga entre ambos, mas o que está à nossa frente corta-nos o caminho, avançando na nossa direcção com uma passada decidida. De repente, sinto que somos apenas três pedaços de carne escura num prato branquíssimo. Fico de olho no urso da esquerda, aguardando o seu ataque, enquanto Alexey dedica a sua atenção ao outro.

Alexey pousa a arma sobre o gelo. Tira-me a pistola de sinalização, desenrosca a tampa e dispara em direcção ao urso, mas sem apontar exactamente para ele. Uma mecha de fósforo vermelho desliza sobre o gelo. Quando aquele urso correr trinta ou quarenta passos para a esquerda, teremos uma abertura para fugir.

Tivemos sorte. A nossa morte ou a morte de um urso provocada por nós teria arruinado a expedição, recordou-nos Enric Sala mais tarde. 

Na costa nordeste  da ilha Hayes, perto do centro  do arquipélago, ficam os vestígios de um antigo posto meteorológico conhecido como Estação Krenkel, que palpitou de actividade durante a era soviética. Criada em 1957, chegou a incluir várias antenas altas, uma plataforma de lançamento para pequenos foguetes de investigação, uma linha ferroviária em miniatura para transportar mercadorias e equipamentos e dezenas de edifícios. No seu apogeu, duzentas pessoas trabalharam e viveram em Krenkel. Agora resta meia dúzia quando eu, Feodor, Katerina e Michael Fay saltamos para terra.

A nossa presença foi autorizada pelo chefe da estação e ele deixa-nos passear sem supervisão pelo seu pequeno feudo de escombros.

 Segundo Feodor, a estação prosperou entre 1967 e 1987, aproximadamente. Noutros sectores da Terra de Francisco José, uma base aérea soviética deu apoio a bombardeiros de longo curso que rondavam o Árctico, sempre nervosos, prontos para entrar em acção, tal como os bombardeiros das bases norte-americanas. No entanto, a Estação Krenkel não fazia parte dessa estratégia. Os seus objectivos eram científicos e até internacionais, embora de uma forma modesta, através de um acordo de colaboração com meteorologistas franceses que lançavam foguetes de investigação semelhantes noutros locais. Depois, em finais da década de 1990, vieram as grandes mudanças, à medida que a União Soviética colapsava.

Para agravar a situação, a Estação Krenkel foi devastada por um incêndio em 2001. Evacuaram o pessoal, que nunca mais foi reposicionado. As casas, o centro recreativo e a biblioteca foram abandonados. Os residentes embarcaram em navios ou helicópteros que os transportaram para o continente. Feodor parece ver tudo isto na sua mente enquanto caminhamos pelas ruínas desta pequena estação polar.

“C’est la fin de l’empire”, comenta, sem complicar o seu francês com o tempo verbal do passado. Tem idade suficiente para se lembrar. Mais do que um império se desmoronou desde a chegada de uma expedição austro-húngara a estas ilhas em 1873. Mais do que uma bandeira foi aqui hasteada e já não está desfraldada. Mais do que uma expectativa geofísica, como a existência de um continente árctico, caiu por terra. O Pólo Norte é real, como ponto determinável, embora invisível, mas os primeiros exploradores, como Nansen, que chegaram e partiram através deste arquipélago com as suas matilhas de cães e navios capazes de navegar pelo gelo, não conseguiram atingi-lo. A Terra de Francisco José tem sido um ponto de referência memorável na gloriosa rota polar rumo à frustração e à desilusão. As suas solitárias ilhas de topo plano, com os seus planaltos de basalto, são emblemas de inflexibilidade, testemunhando que, embora os homens possam ser teimosos, corajosos e cheios de recursos, a natureza é surpreendentemente complexa e forte.

Os resquícios da velha Estação de Krenkel temperam esse testemunho do poder proeminente da natureza de uma forma ambivalente e muito própria: com centenas de toneladas de lixo industrial e ténues vestígios da identidade humana da gente que aqui se instalou.

Como a estação faz parte da Terra de Francisco José e esta enquadra-se no âmbito administrativo do Parque Nacional do Árctico Russo (embora ainda não beneficie de todas as suas protecções), as autoridades do parque deram início a operações de limpeza em Krenkel. Prevêem incluir o local num muzey pod otkrytym nebom, ou grande museu ao ar livre, já planeado. Mas enfrentarão decisões delicadas sobre onde deve acabar o restauro e começar a preservação. Quando um local se enquadra na categoria de lixo histórico, como distinguir a história do lixo?

Ainda mais delicadas, e com consequências mais graves, serão as decisões tomadas em Moscovo sobre os interesses militares russos no Árctico. No início de Novembro de 2013, apenas dois meses depois de terminarmos a viagem, o ministro da Defesa Sergei Shoigu anunciou planos para colocar um esquadrão de navios de guerra com capacidades de quebra-gelo para proteger as novas rotas marítimas, bem como potenciais jazidas de petróleo e gás. Segundo a agência noticiosa russa Novosti, desde 2011 que 95% das reservas de gás natural da Rússia e 60% das suas reservas de petróleo se encontram na região árctica, embora a maioria dos campos se situe entre os mares de Barents e de Kara, mais perto do continente. O padrão de descoberta destes campos e o clima em aquecimento têm incentivado a Rússia a procurar mais a norte. O anúncio do ministro da Defesa até referiu a reabertura da base aérea da Terra de Francisco José. A verificar-se, será este impulso compatível com a protecção dos ecossistemas árcticos? Enric Sala, um optimista tranquilo, pensa que sim. Afinal, diz-se que o próprio Vladimir Putin nutre simpatias conservacionistas, mas quem pode ter certezas com Putin? Enric espera que a Terra de Francisco José receba protecção total como parque nacional dentro em breve e reconhece que uma presença militar reforçada “pode contribuir para a sua aplicação”.

O problema do gelo subjacente a todas estas questões não será resolvido por uma expedição. Para lá de todas as medidas e fotografias recolhidas, de todas as comparações entre a cobertura do gelo actual e a observada pelos primeiros exploradores, a questão da causalidade é vasta e complexa. Os cientistas desta equipa fazem aquilo que os bons cientistas de campo costumam fazer: reúnem observações quantitativas sobre elementos específicos. Mergulho após mergulho na água gelada, Alan Friedlander identifica 16 espécies de peixes árcticos de águas pouco profundas e começa a ponderar a razão pela qual a diversidade parece ser tão reduzida. Kike Ballesteros também passa o dia dentro de um fato de mergulho, com os dedos dormentes e as bochechas vermelhas, elaborando inventários minuciosos e avaliações da biomassa de algas marinhas – uma tarefa inédita. Maria Gavrilo e a sua equipa recenseiam espécimes de gaivota-marfim, gaivota-tridáctila, andorinha-do-mar-árctica, torda-anã, êideres e gaivota-hiperbórea, medindo-os, pesando-os, anilhando-os e equipando alguns com geolocalizadores. Forest Rohwer e o seu aluno de pós--graduação Steven Quistad capturam milhares de milhões de vírus numa variedade de meios hospitaleiros, como lodo e guano, retirando informação do sequenciamento do seu DNA, que fica a cargo de um laboratório norte-americano. Michael Fay identifica e recolhe mais de trinta espécies de plantas angiospérmicas. Daria Martynova recolhe amostras de copépodes da coluna de água, avaliando a penetração da espécie Calanus finmarchicus, do Atlântico Norte, nos domínios árcticos de Calanus glacialis. Estes esforços e todas as outras observações reunidas no decorrer desta expedição ajudarão a responder a perguntas mais pequenas subjacentes à questão principal.

Estará a comunidade planctónica a mudar? Estarão a gaivota-tridáctila e a andorinha-do-mar-árctica a reproduzir-se com tanto sucesso como no passado? Terão a fauna do leito marinho ou a flora terrestre sido afectadas pelas tendências de alteração das temperaturas? Estarão os ursos-polares mais concentrados nas ilhas, isolados nos locais onde o gelo marinho desapareceu de Terra de Francisco José durante o Verão? A existirem alterações planctónicas, exercerão um efeito discernível na população de tordas-anãs? Isto é ecologia, está tudo interligado. O conjunto de dados e análises será compilado nos meses subsequentes num compêndio elaborado sob a supervisão editorial de Enric Sala.

No final da nossa viagem e após a sua conclusão, fui invadido pela memória vívida de um momento ocorrido perto do seu início, quando estava em terra na ilha Hooker com os franceses. Fora uma longa tarde com os tapetes de laços colocados no solo, obtendo parcos resultados. Eles tinham capturado e registado os dados de três tordas-anãs. Não eram dados suficientes e, àquela velocidade, teriam de mudar de táctica ou de escolher um sítio diferente. Foi então que, quando eu e Jérôme reuníamos o equipamento para partir, David avistou uma torda adulta caminhando entre as pedras, onde as aves constroem os seus ninhos. Apanhou-a. Ao fazê-lo, viu outra coisa: uma cria. Apanhou-a também e virou-se para nós, com uma torda em cada mão. Medir e anilhar uma ave exige duas mãos. A extracção de uma amostra de sangue exige quatro. Após um dia lento, estes dois cientistas estavam subitamente ocupados. Por isso, David entregou-me a cria. Aceitei-a, formando uma concha com as minhas mãos, com plena consciência desse privilégio, e tentei abrigá-la do vento.

Poucas tordas-anãs têm vidas longas. A sua esperança de vida máxima é de vinte anos. As aves reproduzem-se lentamente, a um ritmo de uma cria por ano. Todas as crias são preciosas. O período entre a eclosão e a idade adulta, a altura mais vulnerável da vida de uma torda, dura cerca de 25 dias. Esta cria acabara de sair do ovo. Era uma bola de penugem negra, do tamanho de uma ameixa, com um bico. Confiante e indefesa. Passado pouco tempo, devolvi-a com cuidado a David, e ele colocou-a no ninho. 

Recordando esse momento agora, interrogo-me onde estará aquela ave em particular. Interrogo-me se terá sobrevivido aos seus 25 dias nas rochas, conquistando as suas penas definitivas e voando para longe da Terra de Francisco José para passar o Inverno algures. Uma torda-anã exemplar, intrépida e resiliente.

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