falcão

Muito dependente das casas tradicionais, o peneireiro também ocupa ruínas habitacionais na planície alentejana, onde os juvenis já saídos do ninho aproveitam os telhados para exercitar as asas em dias ventosos.

Houve um tempo em que este falcão dependia da agricultura do Alentejo. Com a intensificação agrária, os biólogos tentam manter aberta a janela para um passado natural.

Texto e Fotografias: Ricardo Guerreiro

É uma da manhã em São Marcos da Atabueira, concelho de Castro Verde. Uma equipa da Liga para a Protecção da Natureza (LPN) monitoriza a maior colónia de peneireiro-das-torres no nosso país. Este pequeno falcão migrador foi outrora considerado uma das aves mais comuns da Europa. Até à década de 1940, chegou a existir em diversos núcleos urbanos porque a sua presença é condicionada pela actividade humana. Quando existem práticas agrícolas extensivas, os indivíduos encontram condições para se estabelecer. 

A intensificação da agricultura e a recuperação de edifícios históricos, onde o peneireiro nidificava, provocou uma redução da sua população em cerca de 90% na segunda metade do século XX. O restante efectivo encontrou refúgio nos buracos das paredes de casas rurais, entretanto abandonadas, e nas estepes cerealíferas da Europa, onde ainda nidifica e que constituem o último reduto para a tentativa de salvação da espécie no continente. A última colónia urbana resiste no centro de Mértola.

Estamos em Março e, nesta altura, as visitas às colónias costumam ser nocturnas. É nesse período que é mais fácil capturar indivíduos nas cavidades para os anilhar ou recapturar os já anilhados. Dentro do jipe da LPN, a bióloga Inês Henriques anilha e tira biometrias a um macho capturado. Cá fora, os membros da equipa continuam a recolha de animais retirados de cavidades nas velhas paredes de taipa. Ao longe, o chamamento dos mochos-galegos enriquece a paisagem acústica e a luz da Lua em giba crescente permite ver claramente uma linha que traça a fronteira entre os concelhos de Castro Verde e Mértola: do lado de cá, campo aberto (seara e pousio), do lado de lá, uma mancha de pinhal. Esta nítida separação não existe por acaso. 

No lado de Mértola, apesar de actualmente incluído na Zona de Protecção Especial (ZPE) de Castro Verde e por isso também abrangido por subsídios da União Europeia para práticas agrícolas “amigas do ambiente”, os instrumentos municipais de ordenamento do território permitiam a alteração do uso dos terrenos. A maior rendibilidade da florestação dos campos face à seara levou assim ao abandono progressivo das práticas agrícolas tradicionais de cultura rotativa de cereal, essenciais ao sucesso desta ave. No lado de Castro Verde, inseridos na ZPE desde a sua criação em 1999, os terrenos têm, na sua maioria, continuado a ser cultivados de forma rotativa pois a aplicação dos subsídios  foi desde logo mais direccionada à protecção de algumas espécies, como o peneireiro-das-torres.

Estas medidas têm sido essenciais e tiveram o seu ponto alto na integração com a conservação desta espécie entre 2002 e 2006, altura em que a LPN levou a cabo o Projecto Peneireiro-das-torres, co-financiado pelo Programa Life.

Ao longo desses quatro anos, a LPN tentou recuperar as colónias mais importantes, fazendo manutenção de montes abandonados, e procurou estabelecer novas colónias, construindo torres e paredes com cavidades, simulando as paredes de taipa cada vez menos comuns à medida que os montes vão derrocando. Colocou também caixas-ninho em locais apropriados. Ao todo, foram disponibilizados 800 novos locais de nidificação.

A colaboração dos agricultores locais, que mantiveram ou adoptaram culturas de sequeiro e pastoreio tradicionais, foi essencial. Esta medida agro-ambiental, promovida na região pela LPN e pela Associação de Agricultores do Campo Branco, permitiu que se mantivessem 85 mil hectares de mosaico agrícola favorável ao peneireiro-das-torres. Forneceu-se assim o território de caça essencial ao suporte das colónias entretanto estabelecidas nas estruturas recuperadas ou construídas pela LPN. Os resultados foram animadores: em 1996, a população nacional era estimada em apenas 150 casais, mas o último censo da bióloga Inês Catry estimou a população nacional em 527-552 casais, e a tendência sugere um aumento progressivo.

A situação talvez ainda não seja comparável aos 700 casais registados na década de 1940, mas, com uma taxa de ocupação de 37%, que tem crescido nos últimos anos, as “cavidades-ninho” disponibilizadas pela LPN já são responsávei por albergar mais de metade da população actual. “O projecto foi um exemplo de sucesso na conservação mas como o futuro dos fundos europeus dedicados à agricultura sustentável é bastante incógnito, é necessário perceber de que forma potenciais alterações na agricultura local poderão influenciar esta espécie”, comenta Rita Alcazar, a coordenadora do projecto.

A monitorização e a manutenção das colónias prossegue, mas a LPN está também a alargar a área de distribuição da espécie, construindo novas estruturas de nidificação onde esta existiu historicamente e onde se mantenha um habitat favorável, como na ZPE de Moura-Mourão-Barrancos e na cidade de Évora. “As colónias de Castro Verde contabilizam 80% do efectivo nacional deste falcão e uma população tão concentrada corre o risco de desaparecer facilmente em cenários catastróficos como secas prolongadas ou alterações de grande escala no habitat”, refere a bióloga.

Perto da localidade de Entradas, encontra-se uma pequena colónia. O pousio que se observa nos campos adjacentes ao monte permite adivinhar um ano abundante em grilos, gafanhotos e ralos, as presas favoritas dos peneireiros. Num estudo recente, a bióloga Inês Catry concluiu que não só o tipo de prática agrícola tem influência no estabelecimento das colónias como mesmo nos casos de sequeiro rotativo a distância à qual se encontram as parcelas de pousio e seara bem como a sua proporção condicionam o seu sucesso reprodutor. “Apesar de os modelos considerarem a totalidade de pousio em torno das colónias como cenário ideal, a presença de seara parece ter importância para os peneireiros, talvez porque algumas das suas presas predilectas encontram refúgio no cereal”, diz a investigadora do Instituto Superior de Agronomia. 

“A manutenção de um mosaico com predominância de pousio levemente pastoreado, que constitui uma área de forte produção de presas e seara não ultrapassando os 40% da área em torno da colónia parece ser a situação mais favorável”, reforça. Foi também possível prever que, em anos de totalidade ou maioria de seara em redor das zonas de nidificação, se a ceifa começar nos terrenos adjacentes à colónia, o sucesso reprodutor diminui face a anos em que a ceifa se inicia nas parcelas mais afastadas. O estudo permite ajudar os agricultores no seu planeamento anual de forma a beneficiar o peneireiro.

Voltamos ao local em Junho. O Verão avança. Em São Marcos da Atabueira, a visita da equipa técnica acontece agora durante o dia. O alvo da monitorização são as crias nascidas já este ano, muitas das quais quase prontas a deixar os ninhos, outras mais tardias, ainda cobertas de penugem branca. 

Os adultos vêm frequentemente à colónia entregar alimento aos filhotes, mas desaparecem durante a permanência da equipa, que é breve para reduzir o impacte. 

O calor obriga as investigadoras a sentarem-se à sombra do velho monte enquanto anilham as crias. As ruínas, agora bem visíveis à luz do dia, relembram o despovoamento que se apodera cada vez mais dos montes alentejanos. Dentro de algumas semanas, mesmo os peneireiros-das-torres partirão para as zonas de invernada em África e o silêncio tomará conta destes edifícios que outrora acolhiam as gentes da lida da terra.

Dependente de uma agricultura que poderá não resistir por não se adaptar à demanda económica do mundo moderno, por quantos mais anos regressará o falcão das estepes aos campos abertos do Alentejo? 

Olhando a paisagem, interiorizo e aprecio este “museu de história natural vivo”, mas hesito quanto à sua viabilidade a longo prazo. Por enquanto, quero acreditar que Castro Verde é mais do que uma janela para o passado. 

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