O estado de emergência decretado no início de Maio na Ilha Grande do Hawai ainda vigorava no início de Outubro. A actividade eruptiva que o causou é apenas mais um pico de febre do vulcão Kilauea, que derrama um rio incessante de lava no oceano Pacífico desde 1983.

Texto: Bernadette Gilbertas
Fotografias: Olivier Grunewald

1 de Maio de 2018. O Observatório Vulcanológico do Hawai está virado de pernas para o ar: o lago de lava da cratera Pu‘u ‘O‘o, umas das bocas eruptivas do vulcão Kilauea, e o da caldeira de Halema‘uma‘u baixaram bruscamente de nível. Os cientistas detectam também um importante aumento da actividade sísmica que abala o sistema de fissuras conhecido como Zona de Rifte de Leste. Teme-se agora que o vulcão entre em erupção na região de florestas e áreas de cultivo que cobrem a sua vertente sudeste, felizmente uma zona pouco povoada.

Dois dias depois, a população residente na zona oriental da maior das ilhas do Hawai (a ilha Grande) acorda com violentas sacudidelas devido ao avanço do magma a partir do topo do vulcão, a apenas 40 quilómetros de distância. Abrem-se fendas nas estradas. A erupção é iminente. Dez horas mais tarde, a lava irrompe nos arredores da povoação de Leilani Estates. No dia 5 de Maio, um terramoto de 6,9 graus de magnitude empurra a vertente sul do Kilauea em direcção ao mar. As leituras de GPS revelam que esta se deslocou 50 centímetros! Torna-se imperativo evacuar a população de imediato.

Olivier Grunewald, fotógrafo francês com mais de vinte anos de experiência em vulcões activos, acompanha os acontecimentos a partir de Paris. Suspenso das informações divulgadas pelo Observatório Vulcanológico e pela Internet, assiste à multiplicação das fissuras causadas pela erupção. Em menos de um mês, abriram-se, no mínimo, 25. Segue com atenção o avanço da lava, que queima florestas e casas no seu trajecto. Contempla, impressionado, a forma como a matéria fundida cai nas águas do Pacífico.

No dia 6 de Junho, enquanto a fissura número 8 vai cuspindo torrentes de lava, Olivier não resiste nem mais um minuto e ruma ao Hawai. Ali chegado, constata que é impossível aproximar-se da fonte da erupção, de onde brotava a matéria incandescente: os acessos encontram-se bloqueados pela lava… ou pelo exército. Resta-lhe a opção de percorrer de helicóptero os dez quilómetros de meandros daquele que, nesse instante, era o maior fluxo de lava do planeta. Sobrevoando um mar picado, aproxima-se da caótica frente que engoliu a localidade de Vacationland e encheu, em menos de dois dias, a baía de Kapoho, acrescentando 500 mil metros quadrados de terra recém-formada à ilha.

Assim se passa a vida no Hawai, segundo o ritmo marcado pelo Kilauea, um dos vulcões mais activos do mundo: registou 52 erupções só no século XX. A cratera do Pu‘u ‘O‘o nunca se acalmou desde que entrou em erupção, no dia 3 de Janeiro de 1983. Derrama, sem parar, lavas basálticas muito fluidas que correm pelos túneis de lava antes de cravarem as suas garras no oceano. É um caso de vulcanismo típico dos chamados pontos quentes. Estas anomalias térmicas da astenosfera propiciam subidas de magma, que acaba por atravessar as placas litosféricas que se deslocam sobre esta zona superior do manto terrestre, tal como um maçarico perfuraria uma chapa em movimento. Foi este ponto quente que originou os vulcões da ilha Grande e formou outras ilhas mais antigas do arquipélago.

Culturas arrasadas, casas devoradas, estradas cortadas… Vindo até aqui para satisfazer a sua paixão pelas forças da Terra, Olivier Grunewald não esperava sentir-se tão impressionado pela capacidade da natureza para aniquilar todos os vestígios de actividade humana. Pouco podemos fazer quando ela liberta a sua fúria. Os polinésios que colonizaram o Hawai, há menos de dois milénios, também se devem ter sentido assim. Face a face com o dinamismo da sua nova casa, entregaram a vida nas mãos de Pele, deusa do fogo e dos vulcões. Erupção após erupção, reconstruíram as suas casas uma e outra vez e cultivaram a terra fértil que o vulcão acha por bem oferecer-lhes.

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