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O que iremos nós proteger e o que iremos abandonar?  O mundo terá de enfrentar a subida do mar.

Quando o Sandy investiu sobre o nordeste dos estados unidos, a 29 de Outubro de 2012, já fustigara vários países das Caraíbas, provocando dezenas de mortos. Perante a maior tempestade alguma vez formada sobre o oceano Atlântico, Nova Iorque e outras cidades deram ordens de evacuação nas zonas de baixa altitude. Nem todos as cumpriram. Os nova-iorquinos que decidiram fazer frente ao Sandy obtiveram uma antevisão do que será o futuro, no qual um mundo mais quente dará origem a uma subida inexorável dos mares. 

Brandon d’Leo, um escultor de 43 anos, vive na península de Rockaway, uma faixa arenosa densamente povoada, com 18 quilómetros de comprimento, em Long Island. “Quando nos disseram que o tsunami provocado por esta tempestade seria mau, não tive medo”, conta. Em breve, isso iria mudar. 

Brandon arrenda um apartamento num prédio de três andares na estrada adjacente à praia da orla sul da península. Aproximadamente às 15h30, saiu de casa. As ondas embatiam contra o passadiço de nove quilómetros de extensão.
“A água já tinha começado a destruí-lo”, conta.
“E ainda faltavam quatro horas e meia para a maré cheia. Dez minutos mais tarde, a água estava provavelmente três metros mais próxima da rua.” 

De regresso ao apartamento, Brandon e a sua vizinha Davina Grincevicius observaram o mar, enquanto a chuva carregava sobre a porta de vidro da sua sala de estar. Com medo que a casa alagasse, o senhorio desligara a electricidade. Enquanto a escuridão caía, Davina Grincevicius reparou num indício alarmante. “Acho que o passadiço se mexeu”, disse. Poucos minutos depois, outra vaga de água levantou-o de novo e este começou a partir-se em bocados. 

Três secções de madeira esbarraram contra dois pinheiros diante do prédio. A rua transformara-se num rio com um metro de profundidade. 

Vagas sucessivas despejavam água sobre a península. Os carros começaram a flutuar, e os gemidos dos alarmes agravavam a cacofonia formada pelo vento, pela água e pela madeira a estalar. A oeste, o céu iluminou-se com o que parecia fogo-de-artifício. Na verdade, eram explosões de transformadores de electricidade em Breezy Point, um bairro na extremidade da península. Mais de cem casas arderam nessa noite.

As árvores do pátio da frente salvaram a casa de Brandon e talvez as vidas de todas as pessoas no interior: Brandon, Davina e duas idosas que viviam num apartamento do andar de baixo. “Não era possível sair para a rua”, diz Brandon. “Tenho em casa seis pranchas de surf e cheguei a pensar: se alguma coisa atravessar o muro,
vou tentar pôr estas pessoas em cima das pranchas e subir pelo quarteirão acima. Mas se tivéssemos sido obrigados a entrar naquela água, não seria agradável.”

Depois de uma noite de sono sobressaltado, Brandon saiu de casa pouco antes do nascer do Sol. A água recuara, mas algumas ruas ainda estavam cheias de poças com água que dava pelas coxas. “Estava tudo coberto de areia”, conta. “Parecia outro planeta.”

A nossa civilização alimentada a combustíveis fósseis está a criar um planeta profundamente alterado, um planeta onde cheias de proporções idênticas às do Sandy tornar-se-ão mais comuns e mais destrutivas para as cidades costeiras de todo o mundo. Ao emitirmos dióxido de carbono e outros gases com efeito de estufa para a atmosfera, aquecemos a Terra cerca de mais de 0,5ºC ao longo do último século, provocando uma subida de vinte centímetros do nível dos mares. Mesmo que parássemos de queimar a totalidade dos combustíveis fósseis amanhã, os gases com efeito de estufa já existentes continuariam a aquecer a Terra durante muitos séculos. Condenámos irreversivelmente as gerações futuras a um mundo mais quente e a níveis mais altos dos mares. 

Em Maio, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera alcançou as 400 partes por milhão, o valor mais elevado desde há três milhões de anos. Nessa época, o nível dos mares deveria ser mais de vinte metros superior ao actual: o hemisfério norte apresentava-se maioritariamente livre de gelo durante todo o ano. Passarão muitos séculos até os oceanos atingirem esses níveis catastróficos de novo e muito depende de conseguirmos restringir as emissões de gases com efeito de estufa no futuro. A curto prazo, a comunidade científica ainda não tem certezas quanto à velocidade a que os mares irão subir e até que altura o farão. As estimativas têm sido demasiado conservadoras. 

O aquecimento global afecta o nível dos mares de duas maneiras. Cerca de um terço da subida actual deve-se à expansão térmica, ou seja, ao facto de a água aumentar de volume quando aquece.
O resto tem origem na fusão dos gelos em terra. Até agora, têm sido sobretudo os glaciares de montanha a derreter, mas as maiores preocupações estão nos gigantescos mantos de gelo da Gronelândia e da Antárctida. Há seis anos, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) publicou um relatório que previa uma subida máxima de 58 centímetros do nível dos mares até ao fim do século. No entanto, o relatório omitiu intencionalmente a possibilidade de esses mantos de gelo poderem fluir mais depressa para o mar, invocando o fraco conhecimento sobre
os mecanismos físicos desse processo.

No momento em que o IPCC se prepara para publicar um novo relatório este Outono, continuam por preencher as lacunas da ciência que estuda os mantos de gelo. Os climatologistas calculam que a Gronelândia e a Antárctida tenham perdido, em conjunto, 208 quilómetros cúbicos de gelo por ano desde 1992: cerca de 200 mil milhões de toneladas de gelo em cada ano.
Por isso, muitos consideram que o nível dos mares estará pelo menos um metro mais elevado em 2100 do que na actualidade. E até este valor pode ser demasiado baixo. 

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