Entrevista a Sylvia Earle, convidada do National Geographic Summit

Sylvia Earle

Sylvia Earle passou quase um ano da sua vida a mergulhar no oceano. Na década de 1960, a oceanógrafa teve de lutar para conseguir participar em expedições. As mulheres não eram bem-vindas. Actualmente, esta exploradora de 77 anos trava um combate em defesa dos santuários marinhos.

A revista TIME chamou-lhe um dia “A Heroína do Planeta”, reconhecendo o seu contributo ímpar para o conhecimento dos oceanos e de todas as suas criaturas. Exploradora Rolex da National Geographic há largos anos, a oceanógrafa Sylvia Earle viaja pelo mundo discutindo com decisores políticos, empresariais e com o cidadão comum a urgência de uma intervenção para garantir a sustentabilidade marinha. Regressa agora a Portugal para uma conferência no âmbito do National Geographic Summit, no dia 11 de Abril, no Coliseu de Lisboa.

Se tivesse apenas um minuto para persuadir um líder político a salvar os oceanos, que argumentos usaria?

Durante o seu tempo de vida, aprendemos mais sobre os oceanos do que ao longo de toda a história anterior. Ao mesmo tempo, perdemos mais. Agora sabemos o que não se podia saber anteriormente: que os oceanos permitem a vida na Terra moldando o clima, a temperatura, as condições meteorológicas, gerando a maior parte do oxigénio da atmosfera, capturando o dióxido de carbono e, em geral, criando um refúgio seguro para nós neste universo em grande parte inóspito.

Em meio século, aquilo que colocámos no mar e o que dele retirámos originou declínios acentuados, não apenas na vida selvagem dos oceanos, mas também nas funções básicas de suporte vital da Terra. Agora, sabemos o que as gerações anteriores não sabiam devido a tecnologias que nos fornecem evidências das consequências das nossas acções e nos dão uma direcção clara sobre o que pode ser feito para reverter o declínio. Estamos sobrecarregados de políticas e hábitos adquiridos na fase em que ignorávamos as consequências. Agora sabemos! Temos uma escolha: continuar as políticas destrutivas actuais ou agir, enquanto ainda vamos a tempo de proteger os oceanos e garantir um lugar duradouro para nós nos sistemas naturais que possibilitam a vida.

O restauro dos sistemas danificados e a protecção das áreas ainda prístinas são acções vitais para a nossa saúde, segurança mas acima de tudo, para a nossa existência. Vocês, os políticos, têm um poder potenciado para tomar decisões políticas e, ao fazê-lo, têm também uma oportunidade potenciada para definir um rumo para mudanças positivas. As vossas escolhas podem fazer toda a diferença no mundo e para o mundo, mas o tempo é essencial. Como nunca antes e como nunca mais, este é o momento de fazer o que é preciso para cuidar dos oceanos que cuidam de nós.

No seu livro “Sea Change”, escreveu que o impacte da actividade humana pode ser encontrado até em enormes profundidades. Os oceanos estão em sarilhos?

Oh, sim. As boas notícias são que se aprendeu mais acerca dos oceanos em décadas recentes do que durante toda a história anterior. A existência de cadeias montanhosas, vulcões de profundidade, nascentes hidrotermais, placas tectónicas, extensos sistemas microbianos e milhares de novas espécies foram descobertas, enquanto milhares se perderam devido à pesca desregrada, à mineração, à poluição, à acidificação e a outros impactes humanos. Agora, conhecemos o papel dos oceanos no clima, nas condições meteorológicas, na temperatura e na química planetária.

De todas as grandes descobertas, a mais importante é o conhecimento de que os oceanos sustentam a existência de toda a vida na Terra, incluindo a do homem. Se retirássemos os oceanos, a Terra seria muito parecida com Marte. Sem água, sem vida. Sem azul, sem verde! O oxigénio no mar é gerado pelo fitoplâncton, algas marinhas e vegetação do fundo são também a fonte da maior parte do oxigénio na atmosfera. Mesmo aqueles que nunca vêm ou tocam no oceano são tocados pelo oceano em cada respiração, em cada gota de água que bebem.

Em tempos, pensou-se que os oceanos eram infinitamente resilientes; agora sabemos que as acções humanas causaram declínios acentuados nos recifes de corais, mangues, prados de ervas marinhas, peixes, lagostas, ostras, camarões e outros animais selvagens, mas também que a química dos oceanos como um todo está a sofrer alterações devido ao que extraímos e ao que colocamos no mar. Agora sabemos que os oceanos não são demasiado grandes para falhar. Na verdade, o ritmo do seu declínio é alarmante.

Protegemos o que conhecemos e grandes zonas do oceano são ainda desconhecidas. Como compensamos a lacuna do conhecimento?

O apoio para explorar os oceanos depende de saber por que motivo eles são importantes. Alguns de nós exploraram movidos pela curiosidade, outros querem ter uma razão que o justifique. Neste momento da história, essa razão é cada vez mais clara com a crescente evidência de como a vida nos oceanos e os sistemas oceânicos moldam os processos planetários vitais para a nossa existência e como, na ignorância, políticas destrutivas conduzem ao declínio dos oceanos. O investimento na exploração dos oceanos é uma pequena fracção do investimento no aproveitamento [dos recursos] dos oceanos. A inversão de prioridades seguir-se-á quando as pessoas entenderem o valor infinitamente maior de compreensão e manutenção dos sistemas oceânicos que nos mantêm vivos em comparação com a valorização do mar como apenas uma fonte de produtos comercializáveis.

Depois de tantas décadas a trabalhar nos oceanos, estes ainda a conseguem surpreender?

Um dos aspectos maravilhosos acerca dos oceanos é que nunca sabemos o que vamos ver ou sentir quando lá estamos. Sabemos apenas que será bom!

O governo português liderou um movimento pioneiro para proteger as fontes hidrotermais do Atlântico. Como reagiu a essa política?

Aplaudindo as pessoas que compõem o governo português e aqueles que os inspiraram a reconhecer os valores que perdurarão no tempo pela conquista da protecção das fontes hidrotermais de grande profundidade. Valores que agora serão para todos e para sempre eliminando a extracção destrutiva que representa um ganho financeiro único e que beneficia apenas alguns.

Sentiu que corria riscos ao tornar-se cientista, numa época em que não existiam muitas mulheres nesse campo?

Não, porque sempre quis fazê-lo desde criança. Nem sequer sabia como se chamava.
Só sabia que tinha de estar na natureza. Quase não foi uma escolha.

Ainda mergulha?

Sim. “Com óculos de mergulho, hei-de viajar.” Tenho umas barbatanas vermelhas a que chamo as minhas barbatanas de rubi.

Alguma vez se assustou?

Certa vez, regressei de um mergulho e o barco não estava onde o tinha deixado.
Tive de tratar de um amigo que entrou em pânico. Mas confiei que o barco haveria de voltar.

Costuma sentir medo?

Faço o melhor que posso para me assegurar de que tudo está operacional. Confio nos engenheiros que construíram a máquina e sei que existem soluções de recurso. Se houver problemas, há protocolos a seguir. Depois, deixo essas preocupações à superfície e desfruto do privilégio de estar debaixo de água, num sítio onde os primatas não costumam ir. 

Existe algo que tenha feito em terra que considere mais enervante do que mergulhar?

Conduzir um automóvel. As pessoas acham que é arriscado entrar num submersível e desaparecer sob a superfície, dependendo de sistemas de apoio à vida, como fazemos ao subir a bordo de um avião, mas o risco que mais me preocupa é o da complacência.

De que forma o oceano mudou ao longo da sua carreira?

Aprendemos mais e perdemos mais. Metade dos recifes de coral desapareceram ou estão em declínio.  É como uma corrida: conseguiremos agir enquanto ainda vamos a tempo? 

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