Quando caça, este velocista acelera até mais de 100 quilómetros por hora em três segundos, com ossos, músculos e órgãos importantes colaborando numa sinfonia de velocidade.

Texto: Roff Smith

A multidão vibra por antecipação. Dedos apertam-se em torno dos binóculos. As lentes das máquinas fotográficas apressam-se a focar. São nada menos que 11 veículos de safari repletos de turistas equipados com material fotográfico, reunidos junto a uma acácia solitária no Parque Nacional do Serengeti, na Tanzânia. Na última meia hora, uma chita com crias chamada Etta tem estado sentada à sombra com quatro dos seus jovens filhotes, observando atentamente uma manada de gazelas que entrou no seu raio de visão numa elevação das proximidades. Agora, levantou-se e pôs-se em movimento, caminhando lateralmente em direcção à manada com uma indiferença estudada que não engana ninguém, muito menos as gazelas, que olham, nervosas, na sua direcção.

De repente, um dos guias do safari não contém um grito quando as gazelas dispersam e galopam e Etta lança-se explosivamente numa corrida de alta velocidade. O felino esguio é demasiado rápido para ser seguido com os olhos, parecendo o rasto desfocado deixado por uma bala a correr entre o capim. O drama chega ao fim em poucos segundos, terminando com uma nuvem de poeira e uma jovem e desafortunada gazela abocanhada pelo pescoço. Enquanto Etta arrasta a carcaça até às crias, elas emergem da vegetação, ansiosas por saborear o banquete. Os veículos do safari encontram-se a poucos segundos do local e os condutores deslocam-se até lá em busca das melhores perspectivas fotográficas para os seus clientes.

As chitas ocuparam um lugar curioso na imaginação humana. São adoradas por cineastas e publicitários de todo o planeta. Toda esta visibilidade na cultura pop pode transmitir a ideia de que as chitas se encontram tão seguras na natureza como na imaginação popular. Mas isso não é verdade. Entre os grandes felinos, as chitas são as mais vulneráveis e estão a tornar-se cada vez mais raras. Há alguns séculos, distribuíam-se do subcontinente indiano até às costas do mar Vermelho e por grande parte de África. No entanto, e apesar de toda a sua velocidade, não conseguiram escapar ao vasto alcance da humanidade. Actualmente, a chita-asiática, a elegante subespécie que em tempos agraciou as cortes régias da Índia, da Pérsia e da Arábia, está quase extinta. Em África, as populações de chita diminuíram mais de 90% ao longo do século XX, à medida que agricultores, fazendeiros e pastores afastavam os felinos do seu habitat, os caçadores matavam-nas por desporto e os agentes furtivos capturavam crias para o mercado lucrativo das mascotes exóticas. Actualmente, o total de chitas em ambiente selvagem é inferior a dez mil.

 

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Mesmo no interior dos grandes parques de animais selvagens de África, as chitas estão sujeitas a enorme pressão. Tímidas e de constituição delicada, são os únicos grandes felinos que não conseguem rugir e são frequentemente afugentadas até às fronteiras dos parques pelos leões, que lhes são superiores em força e em número. Em conjunto, o Parque Nacional do Serengeti e a adjacente Reserva Nacional de Masai Mara, no Quénia, alojam mais de três mil leões, cerca de mil leopardos e umas escassas trezentas chitas. Também na área do turismo, as chitas são vencidas pelos leões. “As chitas costumam ser o animal mais procurado no segundo safari”, diz o guia Eliyahu Eliyahu. “Na primeira visita, o turista só se interessa por ver leões. O problema é que nunca haverá muitas chitas em lugares onde exista uma grande população de leões.”

além de constituírem uma espécie separada dos outros grandes felinos, as chitas também pertencem a um género separado, com apenas uma espécie: elas próprias. O nome do seu género, Acinonyx, tem origem nas palavras gregas “espinho” e “garra” e refere-se à garra semi-retráctil da chita, uma característica não partilhada com qualquer outro felino. Ao contrário dos leões e dos leopardos, cujas garras totalmente retrácteis são ferramentas concebidas para rasgar carne e trepar árvores, as garras das chitas são mais parecidas com os pitons dos sapatos de corrida de um velocista e cumprem uma função semelhante: boa aderência e aceleração rápida.

Numa chita, tudo foi concebido em prol da velocidade. Coloque uma chita e um Lamborghini lado a lado numa auto-estrada e ambos terão 50% de probabilidades de ultrapassar o limite de velocidade em primeiro lugar. Ambos podem acelerar dos zero aos 100 km/h em menos de três segundos, mas a chita consegue atingir 70 km/h nas primeiras passadas. Graças à sua coluna flexível e patas longas e fluidas, uma chita pode ganhar terreno em saltos que excedem 7,5 metros de comprimento. Um atleta humano de topo que conseguisse saltar tão longe após uma boa corrida estaria no bom caminho para lutar por uma medalha olímpica. Qualquer chita correndo à sua velocidade máxima pode fazê-lo quatro vezes por segundo.

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