A estrela do Alentejo

Texto: Paulo Jorge Carmona

Fotografias: Miguel Claro, Luís Quinta e José Piçarra

UM SURTO DE MALÁRIA DESFERIU-LHE O GOLPE. Ao longo de vários anos do século XIX, a população, já de si escassa, abandonou definitivamente a cerca de muralhas e deslocou-se para uma elevação um pouco mais adiante, fundando a povoação de Barrancos. Para trás, ficaram as memórias de uma antiga atalaia moura conquistada por Gonçalo Mendes da Maia em 1167 e que foi povoada, anos a fio, por prisioneiros que expiavam os seus crimes vigiando e defendendo a fronteira. Na altura, Noudar era um ermo isolado nos confins do reino.

Após a deserção da população devido a epidemia e às dificuldades de acesso a água potável, as muralhas e as edificações degradaram-se e muitas desmoronaram-se. Do alto destas muralhas, avistamos hoje a torre de menagem, as fundações das antigas casas, os poços e cisternas e a despida Igreja de Nossa Senhora do Desterro, e percebemos a importância estratégica que Noudar já deteve: Espanha é “já ali”, na margem oposta do rio Ardila, a linha de água que, juntamente com a ribeira de Múrtega, cercam o castelo e conferem-lhe uma paisagem sublime.

A mítica fortaleza está inserida nos limites do Parque de Natureza de Noudar (PNN), cujo epicentro se localiza na Herdade da Coitadinha, uma propriedade adquirida em 1997 pela EDIA (Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva) como medida de compensação do impacte da edificação da barragem do Alqueva, que levara à submersão de áreas de montado. Diogo Nascimento, director-coordenador da Direcção de Gestão de Património, explica que “a EDIA adquiriu simultaneamente a herdade e o Castelo de Noudar mas, posteriormente, desanexaram-se os dois, ficando a EDIA com a herdade e a Câmara Municipal de Barrancos com o castelo".

Antiga coutada de caça, o Parque de Natureza de Noudar corresponde ao território adquirido pela EDIA como medida de compensação pelo impacte ambiental do projecto hidroeléctrico. Os seus mais de mil hectares estão totalmente integrados na Rede Natura 2000.

Passada a ponte sobre o rio Ardila, um dos afluentes do Guadiana, entra-se no Parque de Natureza de Noudar. A estrada estreita, quase toda de terra batida, obriga à circulação vagarosa que permite, por sua vez, uma atenção redobrada para tudo o que nos rodeia: montados de azinho, algumas oliveiras dispersas, pedaços de vegetação densa e praticamente impenetrável, terreno de lavoura, áreas de pasto e as primeiras formas de vida animal que abundam à solta – vacas da raça mertolenga, porcos pretos à cata de bolotas, ovelhas e alguns cavalos errantes. Como nos safaris, a fauna de maior porte exige outro empenho: para ver veados, javalis, texugos e raposas há que fazer incursões mato adentro.

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