Jodi Cobb: pude ir a sítios que não eram permitidos a homens porque não era levada a sério

Nas páginas desta revista, mostrou-nos o mundo privado das geishas japonesas, das mulheres sauditas ou do tráfico de seres humanos. Por uma boa reportagem, a fotógrafa Jodi Cobb viaja até ao fim do mundo. No dia 25 de Maio, estará em Lisboa, no National Geographic Summit, onde abordará o seu método de trabalho, a sua experiência e as suas histórias em missão para a National Geographic.

 Fotografia Viron, Mark Thiessen e Rebecca Hale

Fotografia Viron.

Fotografou temas sensíveis e privados. Como obtém acesso?
Cada história tem os seus próprios desafios, mas a forma de aceder [à informação] é sempre a chave. Sem acesso, só se conseguem fotografias superficiais. E cada projecto, cada país, família ou pessoa tem uma forma de acesso própria. Para a reportagem sobre as mulheres da Arábia Saudita, foi preciso entrar primeiro no país. À data em que desenvolvi o projecto, não eram concedidos vistos para turistas nem para jornalistas, pelo que tive de obter o meu junto do próprio rei. Depois, tive de obter autorização junto de cada uma das mulheres.

Cada história tem os seus próprios desafios.

Em seguida, cada uma delas teve de obter permissão do marido ou do pai e raramente isso foi autorizado. Para o trabalho sobre as geishas, tive de as contactar uma a uma. Fui  apresentada por um interlocutor que as conhecia e em quem confiavam. Demorou uma imensidão de tempo – três anos. Durante seis meses, passei todos os dias no bairro das geishas, procurando autorização para penetrar no seu mundo. Na reportagem sobre os escravos do século XXI, trabalhei com as Nações Unidas, com a Organização Internacional para as Migrações, grupos religiosos, ONG (internacionais e de âmbito local) e indivíduos em nove países diferentes para tentar descobrir a pessoa certa, capaz de me levar até cada situação e, literal e figurativamente, me abrir as portas. Esse projecto demorou um ano. Foi preciso descobrir essas situações escondidas, os traficantes esquivos e as vítimas relutantes e traumatizadas. Foi um trabalho país a país, tema a tema, pessoa a pessoa. É sempre a fase mais difícil de um projecto fotográfico que não seja uma mera história de viagem.

 Na reportagem sobre o tráfico de seres humanos, conseguiu reportar com objectividade?
Tudo o que se relacionou com a história do tráfico emocionou-me muito: a dor e o estoicismo das vítimas, a maldade dos traficantes e a coragem dos activistas que tentam ajudar e dos indivíduos que percorrem os abrigos e trabalham para libertar os escravos. Claro que me despertaram emoções diferentes: simpatia pelos que sofrem, ira e raiva pelos criminosos e admiração pelo espírito generoso dos que trabalham para pôr fim a esta situação trágica. 

Fotografia Mark Thiessen.

Como é ser mulher num mundo maioritariamente de homens?
Por incrível que pareça, o tema de ser “mulher fotógrafa” continua presente, 35 anos depois de ter começado nesta profissão. Existem tantas profissionais espantosas a trabalhar na actualidade e ao longo da história que nem consigo acreditar que se continue a pôr em causa a capacidade, a técnica, o talento, a inteligência ou a tenacidade das mulheres. Ao longo da minha carreira, tenho tido uma luta constante para conquistar o respeito e a confiança das pessoas que fotografo e das pessoas ligadas ao mundo das editoras. O trabalho junto de tantas culturas diferentes tem sido complicado porque, em muitas delas, o estatuto da mulher é muito baixo.

Fui considerada um "terceiro género" em muitos países.

Foi difícil conseguir autorizações e a atenção de agências governamentais essenciais para trabalhar em alguns países e não fui levada a sério noutros. Transformei isso numa vantagem a meu favor: pude ir a sítios que não eram permitidos a homens precisamente porque não era levada a sério [porque não representava uma ameaça]. Pude visitar casas de família sem levantar suspeitas e fotografar mulheres e crianças livremente. As mulheres entendem-se a um nível elementar em todo o mundo, e o interesse e a curiosidade que partilhamos abriu muitas portas que estavam fechadas para os homens. Também fui considerada um “terceiro género” em muitos países, especialmente no Médio Oriente, por isso pude trabalhar sem entraves no universo masculino e no feminino. Como era uma forasteira [estrangeira], as regras não se aplicavam a mim.

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