O saca-rabos (Herpestes ichneumon) é um dos mamíferos de distribuição mais invulgar na Europa, uma vez que este pequeno carnívoro está restrito ao Sudoeste da Península Ibérica. 

Fotografia Pedro Narra, fr Lawrence OP e Album\Casa da Imagem 

A presença do saca-rabos na Península Ibérica resulta de uma colonização tardia. Fotografia Pedro Narra.

O momento da sua colonização na Europa tem sido discutido na comunidade científica e já foi defendido que ela remontaria ao Plistocénico tardio (há cerca de 126.000 a 11.700 anos), mas os últimos dados arqueológicos relançaram o debate. Um artigo da zooarqueóloga Cleia Detry, do arqueólogo Nuno Bicho, do historiador Hermenegildo Fernandes e do biólogo Carlos Fernandes, publicado no “Journal of Archaeological Science”, datou um registo fóssil encontrado em Portugal (e conservado no Museu de História Natural da Universidade do Porto), atribuindo-o ao século IX d.C. O resultado, consistente com uma datação já realizada em Espanha (que estimara ter sido algures entre os séculos XI e XIII que viveu um saca-rabos numa gruta de Nerja), sugere uma história de colonização mais tardia.

Celebrado na arte do Antigo Egipto (em cima, Fotografia Cortesia de Barakat Gallery Abu Dhabi), o saca-rabos foi igualmente representado no período romano (em baico, mosaico de Pompeia, Fotografia fr Lawrence OP).

O exemplar mais antigo deste pequeno animal, que não pesa mais do que quatro quilogramas, remonta ao Pliocénico (há 5,3 a 2,6 milhões de anos), na Tanzânia, mas, na Europa, o seu passado é recente. “Estes dados suportam a ideia de que o saca-rabos terá sido introduzido pelos ocupantes islâmicos da Península Ibérica”, diz Cleia Detry, do Centro de Arqueologia da Faculdade de Letras de Lisboa. “Pode ter sido trazido pelos primeiros muçulmanos que aqui chegaram, mas o mais provável é uma introdução durante o emirado independente de Córdova (756 a 929 d.C.).”

Mereceu referências regulares como símbolo do Bem contra o Mal.

Venerado desde o Antigo Egipto como o “rato dos faraós” devido à sua capacidade de devorar ovos de crocodilo e combater cobras, o saca-rabos foi representado consistentemente na tradição bibliográfica da Antiguidade, merecendo referências regulares como símbolo do Bem contra o Mal, ilustrado pela cobra nos mesmos mitos. Tratados desde tenra idade, os saca-rabos podem também ser animais semidomésticos no Norte de África, com o intuito de controlar roedores, o que sugere uma possível função associada à sua introdução propositada pelos colonos agricultores islâmicos do século IX.

A distribuição endémica do saca-rabos (a castanho escuro), limitada a África e à Ásia. A vermelho, a distribuição resultante de uma possível introdução tardia. Mapa: NGM-P; Fonte: UICN.

Os fósseis analisados pela equipa de Cleia Detry foram recuperados por escavações com várias décadas nos concheiros de Muge, um sítio arqueológico do Mesolítico, mas o facto de o carnívoro escavar facilmente tocas e penetrar em camadas arqueológicas anteriores pode explicar essa circunstância. Essa não é porém uma interpretação consensual.

O saca-rabos também está presente na tradição moderna tardia, associado por norma a cobras. Fotografia Album\Casa da Imagem.

Um artigo de Philip Gaubert, do Museu de História Natural de Paris, e outros colegas considerou em 2010 que a hipótese de uma colonização natural da espécie através do estreito de Gibraltar no final do Plistocénico não pode ainda ser descartada. “A hipótese ainda é possível, mas é absolutamente notável que as duas únicas datações disponíveis de Carbono 14 remontem ao período medieval, aliás consistente com as pistas históricas disponíveis”, contrapõe Cleia Detry.

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