É uma das previsões mais fantásticas da teoria da evolução e um triunfo notável da capacidade de Charles Darwin para intuir as relações e dependências entre espécies. Eis a orquídea de Darwin.

Texto  Gonçalo Pereira Rosa   Fotografias  Paulo Henrique Silva

Um dos raros exemplares da orquídea de Darwin existe no Jardim Botânico do Faial.

Em 1798, o botânico francês Louis Marie du Petit-Thouars descobriu uma flor exótica na ilha de Madagáscar. Thours tinha vivido recentemente o susto da sua vida. Fora uma vítima acidental da Revolução Francesa, acusado de conspirar contra a nova ordem política, e foi encarcerado durante dois anos. Depois, o regime exilou-o nos confins do império, nas ilhas austrais de Madagáscar. Para a maioria dos mortais, seria o degredo, mas Louis-Marie encarou a pena com benevolência. Nas ilhas de Madagáscar, Reunião e Maurícia, recolheu mais de duas mil plantas exóticas das quais pouco ou nada se conhecia na Europa. Entre elas, estava a maravilhosa Angraecum sesquipedale.

Foi um dos avanços mais extraordinários promovidos por um único cientista.

O botânico viria a ser perdoado e regressou a Paris com a sua magnífica coleccção. Doou-a ao Museu de Paris, à Academia Francesa das Ciências e ao Kew Garden de Londres. O trabalho de classificação era excessivo de mais para um só homem, e, durante algumas décadas, os exemplares recolhidos nas ilhas inóspitas do Sul permaneceram incógnitos. Quando a sistematização chegou, descobriu-se que, só à sua conta, Louis-Marie tinha descoberto 52 espécies na Maurícia e 55 em Reunião. Foi um dos avanços mais extraordinários promovidos por um único cientista e o seu sucesso chamaria, décadas mais tarde, a atenção de outro nome notável da biologia – Charles Darwin.

A prancha com a primeira descrição da espécie data de 1822. Durante todo o século XIX, a espécie permaneceu um mistério para os naturalistas.

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A traça capaz de polinizar esta espécie só foi identificada em 1903, numa campanha de dois naturalistas em Madacáscar.

Darwin ficou intrigado com a forma extravagante do caule e das pétalas da Angraecum sesquipedale. Como poderia aquela espécie prosperar dada a dimensão inaudita do seu caule? Teria a evolução cometido um erro? Darwin, naturalmente, não acreditava em erros de programação e dedicou algumas semanas de investigação ao estudo da morfologia da planta. Viria a propor, com ousadia, que a planta exigia um polinizador ainda desconhecido da ciência, mas certamente existente. Algum insecto — uma traça, porventura – cuja probóscide tivesse uma dimensão suficiente para penetrar na planta e polinizá-lo. Por outras palavras, Darwin previu a descoberta de um insecto pois concluiu, como no célebre axioma da lâmina de Okham, que nenhuma outra hipótese faria sentido.

Muitos zombaram mesmo, em caricaturas mordazes, deste insecto desconhecido que teria uma probóscide de 35 centímetros.

Foi um salto de fé do naturalista, eternamente crente na capacidade da natureza para se reinventar. A crença – como outras – valeu-lhe a sátira dos seus contemporâneos. Muitos zombaram mesmo, em caricaturas mordazes, deste insecto desconhecido que teria uma probóscide de 35 centímetros.
Darwin morreu em 1882 com a mesma fé nesta hipótese, mas sem nunca a ter visto provada. Vinte e um ano depois, em 1903, Lionel Walter Rothschild e Karl Jordan descobriram efectivamente este insecto em Madagáscar. Uma magnífica traça conseguia polinizar a orquídea numa simbiose magnífica da natureza. Deram-lhe o nome de Xanthopan morganii praedicta, honrando com o último nome a capacidade de Darwin para prever a sua existência. Mais tarde, veio a confimar-se que a espécie existe igualmente no continente africano, pelo que foi removida a designação de subespécie.
Orquídea famosa, amada pelos coleccionadores de todo o mundo, existe no Jardim Botânico da Ilha do Faial nos Açores onde a sua mera presença ajuda a contar uma das histórias mais maravilhosas da teoria da evolução.

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