Lobos do mar

Texto Susan McGrath   Fotografias Paul Nicklen

“Sente-se com sorte?”, pergunta Ian McAllister.

Encontramo-nos numa ilha minúscula, 13 quilómetros a oeste da região continental da Colúmbia Britânica. Amplamente florestada e fustigada pelo vento, é uma entre milhares de ilhas ao longo desta costa que não são muito mais do que rochedos forrados de focas, dispersos entre a costa canadiana e o Japão. Na verdade, não acredito que serei bafejado pela sorte, mas Ian, activista ambiental, fotógrafo e encantador de lobos, já se decidiu. Senta-se sobre a pilha de destroços de madeira descorada que jaz junto da linha da maré alta e eu faço o mesmo. Diante de nós, um manto de cascalho com algumas centenas de metros de comprimento liga a nossa ilhota a outra. Examinamos os espruces dourados, os cedros, a bodelha e a zostera lá ao fundo. De repente, a sorte bate à nossa porta.

A figura de um lobo surge entre os arbustos e começa a farejar junto da margem, dirigindo-se para a praia à nossa frente. Com o focinho, remexe as zosteras. Coloca uma pata em cima de qualquer coisa, rasga-a com os dentes – um salmão morto, possivelmente. De seguida, materializa-se outro lobo junto do primeiro. Os dois tocam-se com os focinhos, dirigem-se para o baixio e encaminham-se devagar na nossa direcção, atravessando as poças deixadas pela maré.

Há décadas que as notícias da Costa Oeste dos EUA relatam encontros com lobos, o seu regresso, o seu declínio, o debate sobre se as suas populações devem ser geridas e como.

Na nossa imaginação colectiva, os lobos correm pela tundra atrás de renas ou perseguem ovelhas e vacas nas serras. São carnívoros. Caçam grandes mamíferos em esforços predatórios que envolvem toda a alcateia. Mas não aqui. Na costa da Colúmbia Britânica, gerações de lobos nunca viram uma cabra ou um alce. Alguns nem sequer viram um veado.

Há décadas que as notícias da Costa Oeste dos EUA relatam encontros com lobos, o seu regresso, o seu declínio, o debate sobre se as suas populações devem ser geridas e como. Foram estudados, tipificados, vilipendiados e glorificados. Seria de pensar que, por esta altura, já soubéssemos tudo o que há para saber sobre eles. No entanto, para além do Homo sapiens, há poucos mamíferos mais adaptáveis ou diversificados nos seus habitats do que o Canis lupus. E estes lobos da costa da Colúmbia Britânica parecem ser únicos.

Chris Darimont, da Fundação Raincoast Conservation, passou mais de dez anos a formar uma imagem nítida dos lobos costeiros, que apelidou alegremente de “o mais recente mamífero marinho do Canadá”. Recente para a ciência, quer ele dizer.

A meio da ponte de cascalho, a dupla de improváveis mamíferos marinhos ganha contornos definidos. O lobo da direita está quase branco devido à idade. “É a fêmea alfa”, explica Ian. O pêlo do focinho apresenta-se puído, como o peluche velho de uma criança. Os olhos perderam pêlo em seu redor e parecem botões. O outro lobo, um macho alfa, é um Adónis no olimpo lupino: alaranjado, com um manto de pêlo de pontas negras. Os lobos chegam à nossa praia. Estão mais próximos. Maiores. Por fim, a matriarca detém-se e eleva o olhar na nossa direcção. Solta um rosnido hostil e desaparece praia acima.

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