No trilho do lobo

 

No Alto Minho, uma população de lobos é estudada há quase duas décadas. Esta é a história de um predador e da sua difícil adaptação ao século XXI.

Texto e fotografias de João Cosme

Numa tarde soalheira de Verão, com vinte quilogramas de material fotográfico às costas, caminho na direcção da alcateia.

Começo a conhecer os hábitos destes lobos, ao fim de algumas semanas de vida em comum. Sei quando preferem descansar à sombra, refastelados como cães domésticos; sei quando os juvenis impacientes desafiam a prudência e iniciam brincadeiras, sob a vigilância discreta, mas sempre presente, dos adultos. E também sei que quando Bragadinha, a fêmea reprodutora marcada há algumas semanas com uma coleira GPS, mostra quem manda não há grande margem para debate.

 

A paisagem do Alto Minho é inconfundível. Agreste, com penhascos abruptos de granito onde só os musgos crescem, esta serra da Peneda é um território difícil de domesticar. A alcateia escolheu um vale pronunciado e abrigado dos rigores térmicos para se reproduzir. O meu ponto de observação fica a vinte metros do caminho que a alcateia toma de regresso ao covil. Alguns dias passam repletos de frustração: o sol aquece a serra como um forno que nunca se desliga. Pior do que isso: passam vários dias sem que consiga avistar um único lobo. Outros dias, porém, valem ouro. Como hoje. A poucos metros de distância, finalmente tolerante face à presença deste intruso humano, um vulto caminha lentamente. Fiquei cara a cara com o maior predador terrestre da nossa fauna. Era Bragadinha. Na boca, a loba transportava o pedaço de uma presa destinada aos lobachos. Foi um privilégio que nunca esquecerei.

 

Poucas semanas depois, Bragadinha foi abatida a tiro numa zona de caça associativa do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG). E, neste destino, partilhado com cerca de oitenta lobos nos últimos 12 anos, reside o maior problema da conservação da espécie em Portugal.

 

 

ATÉ 2003, CONHECIAM-SE as dinâmicas populacionais e comportamentais da espécie e a sua ecologia, mas a ciência produzida sobre o lobo assemelhar-se-ia mais a um conjunto de fotografias estáticas e não tanto a um filme dinâmico.

 

Entre 2002 e 2003, foi promovido um Censo Nacional do Lobo pelo Grupo Lobo e pelo então Instituto da Conservação da Natureza (hoje ICNF), que detectou indícios da espécie em cerca de 16 mil quilómetros quadrados e constatou a presença de 63 alcateias, concentradas a norte do Douro (54) e só esporadicamente a sul do rio nortenho (9).

 

O mosaico sobre a distribuição do lobo em Portugal começava a ganhar as primeiras peças, mas apresentava ainda zonas de sombra. Quatro anos mais tarde, em 2007, o CIBIO (Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade do Porto) analisou 73 amostras genéticas de lobo e configurou o mosaico com imagens de melhor resolução. O projecto, coordenado por Raquel Godinho e Nuno Ferrand, constituiu a primeira evidência de que os lobos portugueses são geneticamente bem diferenciados dos cães, um alívio para os conservacionistas, pois reduziu o receio de hibridação e de risco de deterioração genética da espécie selvagem. Mais importante: a análise genética do lobo sugeriu a existência de duas populações distintas de lobo em Portugal, divididas pelo rio Douro. O estudo do CIBIO revelou ainda que, dentro do PNPG, existiriam, não uma, mas duas sub-populações distintas de lobo, implicando assim “uma extrema responsabilidade na gestão da área”, referia o relatório.

 

É precisamente nesta área do Alto Minho, onde o tema do lobo ainda desperta debates vigorosos, que acompanho as biólogas Helena Rio-Maior e Mónia Nakamura. “Infelizmente a perseguição a esta espécie continua apesar da protecção legal”, queixa-se Helena Rio-Maior. Na verdade, não há melhor local para assimilar a tensão do que num dos fojos minhotos, testemunhos seculares da animosidade entre o lobo e o homem. São armadilhas de pedra caídas em desuso para onde, durante séculos, as populações rurais atraíam lobos, tomando posições ao longo da encosta da serra e condicionando os movimentos dos lobos através de tiros e matilhas de cães. Finalmente encurralados pelos muros graníticos, os animais eram abatidos. 

 

Há evidentemente explicações racionais para a perseguição. O lobo é um animal oportunista: caça as presas abundantes e mais fáceis de capturar. A grande disponibilidade de presas domésticas no Alto Minho torna mais frequentes os ataques lupinos aos rebanhos. Mas, nesta equação, é importante não esquecer que o lobo tem um papel decisivo no ecossistema ao regular as populações de presas e ao ajudar a controlar populações de outros predadores como os cães assilvestrados.

 


ACOMPANHO UMA EQUIPA de vigilantes da natureza na Área de Paisagem Protegida do Corno do Bico. Fomos chamados porque um vitelo terá sido abatido por lobos. Quando isto sucede, os vigilantes têm de perceber a causa da morte. Analisam a carcaça para distinguir o ataque de lobo do de cães assilvestrados. “Todos os anos tenho animais abatidos ou feridos”, comenta um jovem criador de gado, que lamenta o atraso das compensações pagas pelo Estado.

 

Em 1988, a legislação portuguesa previu a necessidade de compensar os proprietários de rebanhos pelos prejuízos causados pelo lobo, assumindo que a animosidade diminuiria se as mortes provocadas por lobos não representassem prejuízos para os criadores. Foi colocado em marcha um sistema de verificação, que obriga o proprietário a comunicar em 48 horas qualquer ataque e força as autoridades a enviar uma equipa de averiguação nos cinco dias seguintes. O sistema impõe também requisitos mínimos de protecção: os animais têm de ser guardados por pastor e um cão por cada 50 cabeças de gado.

 

No âmbito da tese de doutoramento de Virgínia Pimenta no CIBIO, sabe-se que em 2013 foram comunicados ao ICNF 2.746 ataques de lobos, com maior preponderância no Gerês. Isso significa que existiram 2.746 feridas abertas na relação entre os criadores de gado e a área protegida. Sarada a tempo (ou seja, rapidamente compensada), a ferida cicatriza. Mas é frequente que o processo de compensação demore meses. Pior: 902 ataques corresponderam ao abate de bovinos, de longe a espécie doméstica mais valiosa. “É também a mais difícil de proteger”, lembra o biólogo Francisco Álvares. O Estado responsabilizou-se em 2013 pelo pagamento de quase 800 mil euros em indemnizações, mas a máquina burocrática é lenta. Os processos são morosos. A monitorização e a investigação científica são hoje incomparavelmente mais intensas, mas Francisco Álvares reconhece que o “conflito não tem diminuído”.

 

Para minimizar o impacte no gado, o Grupo Lobo iniciou um projecto em 1996 para recuperar raças de cães de gado para a protecção dos rebanhos. “Em algumas regiões, foram cedidos serras-da-estrela, castros-laboreiro ou cães-de-gado-transmontano aos pastores para protecção dos rebanhos, assumindo o Grupo Lobo a responsabilidade pelo tratamento veterinário e alimentação destes animais”, explica Sílvia Ribeiro, do Grupo Lobo. Neste momento, há 360 vigilantes caninos distribuídos pelo Norte de Portugal.

 

 

MUITOS LOBOS MORTOS são remetidos para o Laboratório Nacional de Investigação Veterinária. Segundo o Sistema de Monitorização de Lobos Mortos, organizado pelo ICNF, entre 1999 e 2011 foram analisados 80 animais mortos. A mortalidade no Noroeste e a sul do rio Douro é proporcionalmente mais elevada do que na restante área de presença do lobo em Portugal e isso explica-se pela proximidade com grandes densidades populacionais humanas.

 

O atropelamento acidental é a principal causa de morte de lobos, seguida de abate por armas de caça, de mortes por laço e envenenamentos. O veterinário Nuno Santos lembra que há lobos vítimas de perseguição ilegal, “que são mais difíceis de detectar, pelo que o abate a tiro, o veneno e os laços deverão estar sub-representados nesta amostra”. A elevada mortalidade ilegal leva a que algumas alcateias sejam mais instáveis e apresentem acentuada dinâmica de extinção e recolonização. A situação é provocada por assimilação de animais dispersantes, que procuram novos territórios, e não por reintroduções programadas, como muitas vezes é erradamente referido.

 

A chegada de um lobo para a necropsia é sempre um momento triste, que, ao contrário do preconceito que fomos construindo, não tem de ser necessariamente fruto de antagonismos antigos. Aprendo essa lição no sítio mais improvável. Na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, um projecto de investigação de Ana Isabel Queiroz, Margarida Lopes Fernandes e Filipa Soares debruçou-se sobre a representação do lobo na literatura portuguesa. Concluiu, como se esperaria, que o lobo faz parte da ficção portuguesa desde o século XIX.  E no entanto apesar do seu papel eminentemente negativo nas fábulas, existem ambivalências e outras facetas do lobo nas culturas ocidentais. As 68 obras literárias que o referem (em 262 excertos) são maioritariamente construídas com referências à abundância do animal, ao seu habitat, comportamentos e morfologia e à comparação zoomórfica entre as qualidades do lobo e do homem. Mesmo em “O Homem da Nave” de Aquilino Ribeiro, "o lobo é sempre o responsável pelo que faz e pelo que não faz" e "não me desgostava nada de ver convertidos os nossos bosques em paraíso terreal dos lobos".

 

Por outras palavras, a preocupação ética com o destino do lobo não é moderna, nem constitui uma prerrogativa da sociedade industrial. É uma marca de uma consciência profunda sobre o espaço rural e os seres que nele devem permanecer.

 

 

HÁ UMA REGRA INCONTORNÁVEL para quem estuda o lobo no Norte de Portugal: é preciso caminhar muito! Caminhar ao sol. Caminhar com um fardo pesado de equipamento. Caminhar por trilhos que o diabo amassou. Mas as duas investigadoras que acompanho não parecem queixar-se. A mais de mil metros de altitude, o calor, mesmo ao final do dia, continua a ser sufocante. Nesta região, porém, os humores do clima mudam abruptamente e “não é invulgar que um dia soalheiro termine sob um intenso temporal”, conta Mónia Nakamura.

 

As biólogas transportam binóculo e telescópio nas mochilas. O trabalho de campo é cada vez mais tecnológico. Recorre-se à genética não invasiva para estabelecimento de relações de parentesco. Fazem-se capturas para marcação e seguimento. Usa-se telemetria GPS, fazem-se esperas e estações de escuta para avaliar a ocorrência de reprodução e estimar efectivos. As caminhadas como a de hoje já têm pouco de aleatório. Estamos aqui porque, no dia anterior, a informação recebida por GPS confirmou que um lobo marcado com uma coleira estava neste vale, provavelmente entre a vegetação mais densa.

 

Sentamo-nos e esperamos. Após algumas  horas, Mónia avista o primeiro exemplar, “próximo de dois penedos, em deslocação no meio da vegetação”, sussurra ela. Passados alguns minutos, surge outro animal. Dirigem-se os dois para o sopé da encosta. A distância que nos separa destes predadores é considerável, mas subestimamos o seu olfacto. Mesmo em silêncio e quase imóveis, fomos detectados. Os dois animais param e olham para o local onde nos encontramos. Decidem depois prosseguir, numa rápida avaliação de risco.

 

Desde 1996, o núcleo populacional de lobo no Alto Minho tem vindo a ser alvo de uma monitorização focada na avaliação anual da ocorrência de reprodução nas seis alcateias que o constituem. Ao longo deste período, “temos assistido à extinção e ressurgimento pontual de alcateias que subsistem sob um enorme conflito com o homem, com pouco paralelismo com outras regiões nacionais e evidenciando as particularidades ecológicas deste núcleo populacional”, refere Francisco Álvares.

 

Em 2006, iniciou-se um projecto mais ambicioso, desenvolvido pelo CIBIO e coordenado pela Associação para a Conservação do Habitat do Lobo-Ibérico, com o objectivo de aprofundar o conhecimento da ecologia e dinâmica populacional deste núcleo e obter bases para a sua eficaz conservação. Numa zona onde o homem molda a paisagem e a dinâmica do lobo, reduzindo-lhe o espaço disponível e movendo-lhe uma perseguição intensa e, por outro lado, proporcionando-lhe muito e fácil alimento, é importante saber como evolui esta dinâmica e até que ponto ele permite que o predador subsista. Alicerçado em todas as metodologias e tecnologias disponíveis e ao alcance dos investigadores, foi possível chegar a um conhecimento sem precedentes sobre esta população. Quinze lobos seguidos por telemetria GPS, 145 indivíduos identificados por genética não-invasiva, árvores genealógicas que revelam as relações de parentesco entre os indivíduos e monitorização da ocorrência de reprodução das alcateias dão um retrato completo e dinâmico deste peculiar núcleo populacional.

 

Com o século XXI, novos desafios colocam-se à conservação do lobo, uma vez que a intervenção humana na paisagem do Alto Minho provoca um maior desenvolvimento de grandes infra-estruturas e substitui a actividade agropecuária tradicional que a caracterizou durante séculos. Perante este cenário, vários resultados obtidos no projecto possuem implicações na conservação do lobo: a detecção de elevadas taxas de mortalidade por causas humanas (cerca de 45% do efectivo anual); a reduzida dimensão dos territórios das alcateias; a elevada fidelidade das alcateias aos locais de reprodução desde que não sejam alvo de perturbações do habitat na sua envolvente; e a ausência de evidências de movimentos de indivíduos para outros núcleos populacionais, reflectindo uma dinâmica fechada no núcleo do Alto Minho. Trata-se de um núcleo constituído por seis alcateias que depende maioritariamente de apenas duas (as mais centrais e estáveis), que são a fonte de indivíduos para as alcateias periféricas. Estas alcateias periféricas são caracterizadas por grande fragilidade e sujeitas a um frequente processo de extinção-recolonização.

 

Voltamos à literatura. Em “Portugal Pequenino”, escrito por Maria Angelina e Raul Brandão em 1930, o lobo é descrito como uma das mais extraordinárias expressões da serra e uma personagem indispensável na vida selvagem portuguesa. Assim o seja por muito mais tempo.

 

Leia uma entrevista exclusiva a João Cosme aqui.

 

 

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