Filipa Samarra

Texto de Gonçalo Pereira Publicado em janeiro de 2014

Filipa by Paul Wensveen copy

A equipa acordou como de costume, depois de estudada a previsão de tempo na véspera. Os investigadores tomaram o pequeno-almoço no seu pequeno, mas cómodo, porto de abrigo, um local privilegiado para o trabalho que têm em mãos. A maioria dos biólogos que estuda orcas no planeta tem de navegar durante horas até encontrar estes mamíferos marinhos. Na costa meridional da Islândia (onde decorrem os trabalhos de Verão) ou na península de Snaelfellsnes (onde a equipa opera no Inverno), a questão é facilitada. Da própria janela da habitação, avistam-se as tradicionais barbatanas dorsais. Ninguém sabe onde as orcas passam as noites, mas, na maioria dos dias, elas reúnem-se nas águas abrigadas dos fiordes. Por isso, a investigação é facilitada. Na maioria dos dias…

Hoje, porém, não é um desses dias. O frio e o vento cortam a atmosfera, sacudindo a embarcação e gelando os ocupantes até aos ossos. Nestas condições, os vários métodos de investigação à disposição da equipa e que a tornam pioneira no estudo destes animais são relegados. Há condições apenas para fazer foto-identificação, ou seja, captar fotografias do maior número possível de animais e cruzar essas imagens com as fotografias de referência de animais já conhecidos.

Mesmo essa tarefa parece impossível nestas águas revoltas. Há sempre uma onda gigantesca entre o barco e a orca. A equipa procura não perturbar as orcas e, ao mesmo tempo, não sucumbir à agitação das águas.

Para complicar mais o dia, cai uma neblina cerrada sobre a orla marítima. Vê-se pouco mais de uma dezena de metros à frente de cada embarcação.

Nesta ilha onde há séculos se fantasiaram mitos de gigantes e seres fantásticos, que ora ajudam os navegantes ora tornam as suas viagens impossíveis, os elementos conspiram hoje para travar o projecto científico em curso. Nestas condições, a fotografia é um acto de coragem, mas as imagens daqui resultantes não ganharão certamente prémios em concursos de fotografia. O seu interesse é estritamente científico.

Por fim, a custo, resistindo ao enjoo, a tarefa é cumprida, sem novidades particularmente entusiasmantes: foram fotografados quatro animais. Falta perceber a sua identidade. Comparando rapidamente a informação fotográfica com o catálogo que conhece como a palma das suas mãos, uma bióloga descobre, em poucos minutos, que são animais já identificados pela equipa. Essa bióloga é a portuguesa Filipa Samarra, coordenadora do projecto das orcas da Islândia.

A maioria dos mortais armazena fotografias de família nos seus álbuns. Filipa Samarra construiu um álbum diferente desde 2007: deve-se a ela e ao seu primeiro projecto com estes animais na Islândia o impressionante catálogo que conta já, no final desta temporada de investigação, com 226 registos diferentes. Ao contrário de outros estudos com mamíferos terrestres, cada orca é baptizada apenas com um código alfanumérico: IS identifica o país; 28 é o número de ordem pela qual foi avistada.

Filipa Samarra nasceu em Lisboa e desde sempre soube que queria fazer investigação oceanográfica. Com essa ambição, rumou a Ponta Delgada, nos Açores, onde concretizou a licenciatura na universidade local. Pouco depois, partiu para a Escócia com o intuito de completar o mestrado. Não tinha uma ideia preconcebida sobre a espécie marinha com a qual gostaria de trabalhar, mas acabou por escolher as orcas por sugestão do orientador, imaginando que trabalharia na Noruega, onde existe o grande corpo de investigação sobre estes animais no Atlântico Norte.

O destino, no entanto, levou-a à Islândia, onde se sabia pouco sobre as orcas que nadam nestas águas. Agora, quase sete anos depois do início da aventura, Filipa Samarra acredita que a escolha foi afortunada. “No Atlântico, há uma regra: para estudar orcas, temos de seguir a bússola sempre para norte”, brinca.

Nos últimos sete anos, a bióloga aplicou várias metodologias ao estudo destes animais. Colocou em prática o projecto de foto-identificação para obter uma noção mais completa do tipo de ocupação que os animais faziam da costa da Islândia. Depois, dedicou-se ao estudo sobre o seu comportamento, os seus hábitos de alimentação e sociabilização e a comunicação acústica que utilizam nas fases de alimentação e socialização. Foi graças a estes projectos que se percebeu que as orcas do Atlântico Norte comunicam entre si com assobios na zona ultra-sónica, para lá daquilo que os humanos conseguem ouvir.

As gravações com hidrofone que a equipa islandesa conseguiu fazer permitiram a outros grupos de investigação no Pacífico replicar o método e perceber que as “suas” orcas também falavam. “A função dessas vocalizações, porém, permanece misteriosa”, diz Filipa, com precaução. “Produzem muito mais sons enquanto estão envolvidas nas fases de alimentação ou socialização, mas movimentam-se em silêncio absoluto. Gostaríamos de saber porquê.”

Na verdade, apesar de a cultura popular resumir as orcas ao preconceito de mamíferos assassinos (em inglês, a espécie é mesmo conhecida como “baleia assassina”), a orca é bastante mais complexa. A investigação tem provado que ela se especializa num tipo de presa, mas essa presa varia consoante o ecossistema. Há grupos no oceano Pacífico especializados na caça de focas, mas aqui, na Islândia, elas preferem uma das iguarias mais procuradas nos restaurantes japoneses: o arenque. E essa opção alimentar influencia toda a sua etologia.

Em 2013, um novo programa de bolsas da National Geographic Society (o Northern-Europe Fund, destinado a investigações no Norte da Europa) premiou o trabalho do projecto das orcas da Islândia com uma bolsa. O objectivo iniciado então, e que prosseguirá nas próximas campanhas, é perceber como se adapta a população de orcas às oscilações das reservas de arenque. Esta espécie de peixe é muito volátil. “De ano para ano, sofre flutuações relevantes em termos de dimensão dos indivíduos, incluindo temporadas em que a pesca é interdita porque os peixes não atingem dimensão comercial”, explica Filipa Samarra. “Queremos perceber como se adaptam as orcas a esta volatilidade da sua presa principal.”

Além disso, o arenque faz migrações extensas. No Inverno, período em que praticamente não se alimenta, dirige-se para uma região específica da costa da Islândia; no resto do ano, migra para as águas onde encontra mais alimento e, pelo meio, no Verão, ocupa áreas reprodutivas. “As orcas acompanham-no sempre. E nessa dependência encontra-se a sua fragilidade de conservação: o futuro da orca nesta ilha depende muito do futuro do arenque e, num quadro de alterações climáticas expectáveis, esta é uma relação que nos interessa muito estudar”, diz.

Na campanha do ano passado, a equipa estreou o sonar multifeixe para localizar as orcas. “Foi um desafio logístico”, explica a bióloga. “As caixas do sonar ocupam um espaço considerável na nossa embarcação e pesam mais do que uma pessoa. Durante as duas semanas em que o usámos, só levávamos quatro pessoas a bordo.”

A vantagem é evidente. Apesar de a equipa trabalhar no Inverno num fiorde abrigado do vento e da ondulação, a identificação das orcas continua a ser um desafio. O frio, a chuva, o nevoeiro e as tempestades dificultam o trabalho de campo em qualquer estação do ano. O varrimento do sonar permite cobrir quase meia centena de metros, facilitando a identificação.

Como na metáfora do copo semicheio ou semivazio, Filipa Samarra prefere ser optimista. “Gostamos do que fazemos e da ilha onde o fazemos. Somos incrivelmente privilegiados por trabalhar com estes animais. Além disso, temos aqui uma janela temporal pequena”, diz. “O arenque é sazonal: sabemos que durante duas décadas prefere determinadas águas e depois ruma para outro lado. Temos de aproveitar enquanto ele não ruma para o mar-alto, onde esta investigação não seria possível.”

Por isso, no próximo Verão, ou no Inverno, quer os seres fantásticos que governam os humores do clima islandês concordem ou não, no pequeno porto de Vestmannaeyjar ou no fiorde Grundarfjörður um pequeno barco sairá para o mar. A bordo, com frio mas feliz, um grupo de biólogos perscrutará o horizonte à procura das típicas barbatanas dorsais.

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