Por momentos, visto de dentro de água, o oceano assume tons azuis incaracterísticos, uma catedral vazia onde o Sol ondula como um ponto na abóbada das ondas. Os raios descem como se fossem filtrados por um vitral. No momento seguinte, o oceano enche-se de atuns-rabilhos gigantes.

Assumem a forma de um torpedo: o maior mede mais de quatro metros de comprimento e pesa mais de meia tonelada. Sob a luz solar refractada pelo mar, os seus flancos pálidos brilham e cintilam como escudos polidos. As suas barbatanas fixas reluzem como sabres. Movimentando-se velozmente, as barbatanas caudais conduzem a formação, levando-a a velocidades estonteantes, num incessante ritmo staccato. Num ápice, o oceano volta a parecer vazio. Aqui e além, uma pequena galáxia de escamas assinala o local onde um atum engoliu um arenque. As escamas da vítima rodopiam com a turbulência do atum, que entretanto se afastou a alta velocidade. Por fim, os remoinhos abrandam e param. As escamas cintilam enquanto se afundam. Depois, esbatem-se e apagam-se com a profundidade.

Os verdadeiros atuns, do género Thunnus, são peixes altamente enérgicos, com uma configuração hidrodinâmica aperfeiçoada. Os atuns autênticos distinguem-se pelas suas grandes dimensões, pela extensão dos seus territórios, pelo ritmo natatório eficiente, pelo corpo quente, pelas guelras grandes, pela subtileza na termorregulação, pela rápida absorção de oxigénio, pela elevada concentração de hemoglobina e pela fisiologia inteligente do coração. Todas estas características atingem o apogeu no atum-rabilho.

As três subespécies de atum-rabilho (do Atlântico, do Pacífico e do Sul) dividiram os oceanos do mundo entre si e deambulam por todos os mares do planeta, excepto em águas polares. O atum-rabilho é um peixe moderno, mas a sua relação com a humanidade é antiga.
Os pescadores japoneses capturam atum-rabilho-do-pacífico há mais de cinco mil anos.
O povo haida, do Noroeste do Pacífico, pesca a mesma espécie há pelo menos igual tempo, com base na presença de espinhas de atum-rabilho nos seus concheiros. Artistas da Idade da Pedra pintaram atuns-rabilhos nas paredes de grutas sicilianas. Pescadores fenícios, cartagineses, gregos, romanos ou marroquinos da Idade do Ferro subiam ao alto de promontórios para assistirem à chegada dos cardumes de atum aos seus territórios de desova no Mediterrâneo.

O atum-rabilho ajudou a construir a civilização ocidental”, resume Barbara Block, da Universidade de Stanford, proeminente especialista neste peixe. “Era regularmente capturado no Mediterrâneo. O atum-rabilho faz migrações anuais, entrando pelo estreito de Gibraltar e todos sabiam quando ele chegava. No Bósforo, havia 30 palavras diferentes para atum-rabilho. Todos lançavam gaiolas de rede que tinham nomes diferentes em países diferentes. A captura gerava dinheiro. Os atuns eram comercializados. Nas moedas gregas e célticas, figuravam atuns gigantes.”

Em 1922, Ernest Hemingway também sucumbiu aos seus encantos. Chamou-lhe “o rei de todos os peixes”, no “Toronto Star Weekly”, depois de ver cardumes de atuns-rabilhos ao largo de Espanha. Thunnus thynnus foi o nome recebido pelo atum-rabilho: atum dos atuns.

O dia nasceu vermelho-alaranjado sobre Cape Breton, na Nova Escócia. Estava frio no cais da aldeia. Fizemo-nos ao mar e Dennis Cameron, capitão do Bay Queen IV, navegou para norte, em direcção ao golfo de São Lourenço. Mais adiante, em mar aberto, pescam-se os maiores atuns-rabilhos do mundo.

A grande ilha de Cape Breton estava a estibordo. A bombordo, passámos pelo pequeno ilhéu adjacente de Port Hood, baixo e verde, com casas brancas de madeira dispersas. Dennis cresceu ali. Recorda-se de caçar esquilos nos bosques, de vasculhar as praias em busca de bóias velhas e de apanhar lulas encalhadas para o seu pai usar como isco – um modo de vida desaparecido.
A grande fábrica de lagosta enlatada do ilhéu fechou há muito tempo. A frente costeira, repleta de barcos de pesca na década de 1920, uma floresta de mastros, encontra-se actualmente deserta. Cerca de vinte famílias de pescadores e agricultores sobreviveram desde a década de 1950 e o número diminuiu gradualmente. A ilha tem agora apenas um residente a tempo inteiro.

É um fado comum a comunidades piscatórias em toda a parte. Os oceanos estão a morrer.
O desaparecimento dos bancos de pesca assinala esse declínio: bacalhau nas Províncias Marítimas do Canadá, anchovas ao largo do Peru, salmão no Noroeste do Pacífico, merluza-negra  do Chile na Antárctida, tubarões em todos os oceanos.

O atum-rabilho é uma das espécies mais excessivamente pescadas do mundo. A população que desova no Atlântico Ocidental sofreu uma redução de 64% desde a década de 1970. Há décadas que os labirintos de gaiolas de rede utilizadas, durante milénios, pelos sicilianos para capturar atuns gigantes mortos estão a ser retirados, uns atrás dos outros, à semelhança de outros labirintos no Mediterrâneo.

Como qualquer filho de uma família de pescadores canadianos, Dennis está familiarizado com as modas e vicissitudes da sua profissão. “Nós não pescávamos atum”, diz sobre a geração do seu pai. “A pesca do atum era mais parecida com um desporto. Naquela altura, era usado como comida para gato ou como adubo.”

Em Janeiro de 2013, um atum foi vendido em Tóquio por 1,3 milhões de euros. O preço escandaloso deveu-se em parte a um golpe publicitário e em parte a um ritual japonês: a licitação do primeiro atum vendido em cada ano na lota começa num valor exorbitante, até para os padrões japoneses. No entanto, até o valor normal de um atum de tamanho médio (entre 7 mil e 14 mil euros, consoante a qualidade) é um indicador surpreendente de quanto os japoneses do século XXI valorizam o maguro, o sushi de atum-rabilho. É igualmente um indicador daquilo que o atum-rabilho enfrenta, assumindo que, no século XXII, existirão ainda meia dúzia de atuns.

Enquanto Dennis nos conduzia para águas profundas, Steve Wilson, um investigador da Universidade de Stanford que colabora com o Centro de Investigação e Conservação do Atum (TRCC) em Monterey, verificava os transmissores de marcação por satélite que esperava implantar naquele dia. Robbie Schallert, do grupo de conservação de atum-rabilho Tag-a-Giant e colega de Steve no TRCC, desenrolou um tapete azul acolchoado mesmo em frente à “porta dos atuns”, no painel de popa. O tapete não dizia “Bem-vindo”, mas a ideia era essa. Tínhamos vindo até aqui para marcar e medir atuns, não para matá-los.

Treze quilómetros ao largo, navegando à deriva com três linhas iscadas com cavala, tivemos sorte. Sheldon Gillis, o assistente do comandante, lutou com o peixe. Ouvia-se um ruído retesado de cada vez que o atum mordia o isco. Vinte minutos mais tarde, a uma boa distância da popa, o peixe fez a sua primeira aparição. Sheldon avaliou o seu peso em cerca de 300 quilogramas. Puxava-o vigorosamente para bordo sempre que o atum lhe dava essa possibilidade e já estava a suar, apesar do frio matinal. Passados mais vinte minutos, ouviu-se o som da barbatana caudal embatendo contra a popa. Içado através da porta dos atuns, o peixe ficou deitado de lado, perfeitamente imóvel, parecendo enorme sobre o tapete.

Steve e a sua equipa de identificação trabalhavam de forma eficiente e rápida. Colocaram-lhe um pano preto molhado sobre os olhos, servindo de venda. Inseriram-lhe uma mangueira verde na boca e começaram a bombear-lhe água do mar pelas guelras. Um rolo de fita métrica voou por cima do peixe. A fita foi encostada ao longo do corpo, entre a ponta do focinho e o ponto onde a barbatana caudal bifurca. Segundo esta medição, denominada comprimento à furca com curvatura (ou CFL, em inglês), este peixe tinha 300 centímetros. A CFL é uma medida que prediz com rigor o peso de um atum: 556 quilogramas neste caso, quase o dobro da previsão original de Gillis.

Ajoelhando-se sobre a parte traseira do peixe, Steve inseriu um dardo de titânio para colocar um transmissor de satélite imediatamente a seguir à segunda barbatana dorsal. Quatro membros da equipa assumiram posições nos cantos do tapete azul e levantaram-no. Uma vez erguido do convés, o tapete transformou-se numa cama de rede. Debatendo-se com o peso do peixe, os quatro homens descreveram um semicírculo em passos delicados, fazendo o peixe rodar 180 graus de modo a virá-lo de frente para a porta dos atuns. Robbie cortou um pequeno fragmento da extremidade da barbatana anal para análise de DNA. Depois, os dois homens que estavam junto à cauda levantaram a sua ponta do tapete.
O atum mergulhou pela porta, regressando ao golfo com um estrondo. Bastaram duas impulsões da barbatana caudal para desaparecer.

Na noite anterior, no seu computador portátil, Steve programara o transmissor de satélite colocado neste peixe para se desactivar no dia 1 de Junho do ano seguinte. Daqui por nove meses e duas semanas, independentemente do fuso horário em que o atum-rabilho se encontrar, o marcador enviará uma corrente eléctrica pelo pino metálico de ligação ao dardo que o fixa ao peixe. O pino electrolisado começará a corroer-se e, poucas horas depois, libertar-se-á. O bolbo no topo do marcador é feito de espuma incompressível, boiando consequentemente a qualquer profundidade. O marcador subirá por entre os raios de luz do oceano em direcção à luminosidade da superfície. Ao emergir, começará a transmitir os segredos codificados deste atum-rabilho (as deslocações, a sazonalidade, os padrões de mergulho) para uma pequena constelação de satélites Argos orbitando lá no alto.

Barbara Block dirige o TRCC a partir da Estação Marinha Hopkins, em Cannery Row, em colaboração com o Aquário da Baía de Monterey. Quando o marcador se soltar, na data programada, os dados transmitidos por satélite elevar-se-ão das águas do Atlântico, dando um salto sobre o continente até à Califórnia e aterrando na Estação Hopkins, onde serão interpretados. Há trinta anos, a ciência não tinha qualquer pista sobre a deslocação dos atuns. Desde então, os mistérios da sua migração têm sido resolvidos, um após outro, por tecnologia de identificação pioneira desenvolvida por Barbara e outros.

O interior do laboratório parece uma galeria. As paredes e portas dos armários assemelham-se ao átrio de uma exposição e testemunham que o estado actual do atum-rabilho não é bom. Um dos cartazes, “Estimativa da Desova das Populações de Atum-rabilho (1950-2008)”, mostra um gráfico da biomassa reprodutiva do golfo do México sobreposto a um gráfico semelhante da população em idade reprodutora do Mediterrâneo. Ambas as populações estão representadas por linhas com o formato de enguias e as duas enguias mergulham a pique, para o fundo dos gráficos. Já desceram abaixo da linha pontilhada que indicava a safra sustentável e encaminham-se para o ponto onde a  biomassa reprodutiva é igual a zero.

As localizações do atum-rabilho são representadas como uma proliferação de pequenos círculos em diversas cores. Os mapas mais interessantes mostram a distribuição de atum-rabilho em relação à designada linha ICCAT.

As pescarias do atum-rabilho são geridas pela Comissão Internacional para a Conservação dos Tunídeos do Atlântico (ICCAT). Os modelos de avaliação da ICCAT utilizam uma linha pontilhada que divide o Atlântico Norte na vertical. Traçada em 1981, esta linha de demarcação segue o meridiano de 45° longitude oeste e separa as populações ocidental e oriental do atum-rabilho. Os mapas do laboratório mostram uma circunstância curiosa. As posições dos atuns-rabilhos ocidentais, representados como círculos laranja-avermelhados, enchem o golfo do México (território de desova) propagando-se dali para o sector oriental do Atlântico. Atravessam a linha ICCAT com impunidade e disseminam-se até Portugal e Espanha. As posições dos atuns identificados como reprodutores no lado oriental, representados como círculos brancos, enchem o Mediterrâneo, o seu território de desova, propagando-se dali para ocidente, atravessando a linha ICCAT e povoando a costa dos EUA e do Canadá.

Como testemunham os mapas, a linha ICCAT é fictícia. No passado, a comunidade científica acreditava que cada população se mantinha no seu sector do oceano, mas hoje já ninguém pensa assim. Por todo o Atlântico onde esta espécie se alimenta, as populações ocidental e oriental misturam-se. Aparentemente, só se distinguem pelos respectivos territórios de desova.

A existência desta mistura foi comprovada por cientistas com programas de identificação e por cientistas através de programas de marcação e análise de DNA há mais de uma década. No entanto, ainda não foi incorporada na ICCAT. As melhores estimativas actuais indicam que cerca de metade dos atuns-rabilhos capturados nas costas orientais da América do Norte é originárioa do Mediterrâneo, mas nenhum destes atuns, caso sejam capturados a oeste, é contabilizado como peixe de origem ocidental. A linha ICCAT não é apenas uma ferramenta fraca de gestão – nem sequer é uma ferramenta. O modelo ICCAT também falha ao excluir a pesca ilegal, embora esta deva representar uma parcela elevada.

Durante muito tempo, a ICCAT ignorou os pareceres formulados pelo seu painel científico, a Comissão Permanente para a Investigação e a Estatística (SCRS). Para a população oriental que desova no Mediterrâneo, de dimensões muito maiores, a ICCAT estabeleceu quotas muito superiores às recomendações científicas. Em 2008, o SCRS divulgou uma avaliação alarmante. O volume real de capturas, segundo os relatórios da comunidade científica, elevava-se provavelmente a mais do dobro das 28.500 toneladas autorizadas e mais do quádruplo de um valor sustentável. O SCRS recomendou a suspensão das pescarias durante o período de desova principal e reduziu as capturas autorizadas para 15 mil toneladas. Como habitualmente, a ICCAT ignorou o apelo.

Nesse ano, a ICCAT encomendou uma análise independente a um grupo de gestores de recursos pesqueiros e cientistas especializados. O relatório não foi delicado. Concluiu que a gestão da população oriental da ICCAT era uma “desgraça internacional” e uma “caricatura da gestão pesqueira”. Mas alguns biólogos acreditam que as populações de atum-rabilho do Atlântico podem aumentar até ao quíntuplo do seu tamanho se tiverem oportunidade de recuperar. Uma gestão sensata poderia tornar a pescaria sustentável, com quotas anuais adequadas à capacidade de o recurso se regenerar.

Em 2009, o Mónaco propôs que o atum-rabilho fosse inserido no Apêndice I da CITES, Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e da Flora Selvagem Ameaçadas de Extinção. Esta inclusão significaria a proibição internacional do comércio de atum-rabilho, mas os representantes dos países pescadores no CITES derrotaram a proposta. A ICCAT foi forçada a despertar para a realidade. Nesse ano, pela primeira vez, ouviu os pareceres científicos que recomendavam a fixação de quotas para a pesca das populações orientais de atum-rabilho. Em 2011, começou também a testar um sistema que rastreava electronicamente os peixes capturados até ao mercado. O sistema já estará implementado  e a ICCAT comprometeu-se a rever em 2015 os seus protocolos de avaliação das populações.

Este é um passo na direcção certa, mas a estrutura e governação da ICCAT permanecem vulneráveis. O estudo científico do atum sempre foi influenciado por prioridades políticas, pressão essa que se tornou ainda mais sensível. Como a ICCAT deixou de poder ignorar os pareceres científicos, são hoje desenvolvidos esforços para manipular a ciência. “Existem incertezas inerentes a estas avaliações de stocks”, diz Amanda
Nickson, directora da conservação global de atuns do Pew Charitable Trusts. “Assiste-se actualmente a um aproveitamento das zonas de incerteza para justificar os aumentos das quotas.”

Biólogos financiados pela indústria sugerem que talvez possam existir territórios de desova de atum-rabilho ainda por descobrir. É possível, claro, mas esta sugestão não se baseia em provas concretas. A ideia parece conveniente à manutenção da situação actual sem quaisquer alterações.

Criada em 1892, a estação Hopkins foi o primeiro laboratório marinho da costa ocidental dos EUA. Os seus edifícios degradados, à semelhança das fábricas conserveiras a leste, são vestígios da indústria da sardinha que floresceu há 60 anos. O sítio está repleto de fantasmas. O principal é Ed Ricketts. À noite, este ecologista partia das instalações do Laboratório Biológico do Pacífico, onde trabalhava solitariamente, e introduzia-se furtivamente na Estação Hopkins para fazer investigação. Ed e a indústria da sardinha desapareceram ao mesmo tempo. O homem morreu em 1948 numa passagem de nível em Monterey e as últimas fábricas de enlatados, atropeladas pela sobrepesca, fecharam anos mais tarde.

Uma pequena extensão de praia separa a Estação Hopkins do Aquário da Baía de Monterey. Ed deve ter percorrido uma praia vizinha nas suas incursões nocturnas à biblioteca. Na fronteira entre a estação e o aquário, existem três grandes tanques contendo juvenis de atum-rabilho-do-
-pacífico. Barbara e os seus colegas desenvolveram as suas técnicas de implantação de marcas e transmissores com os antepassados destes peixes.

Para ter futuro, o atum-rabilho precisará de ser gerido sensatamente e de acordo com a ciência. Aqui, em Monterey, é difícil não nos apercebermos da atitude oposta. Imediatamente por baixo dos tanques de atuns-rabilhos, vêem-se alicerces de cimento. São ruínas dos cais das conserveiras que se estendiam baía adentro, criando rios prateados de sardinhas que deixaram de existir.

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