O jornalista Paul Salopek empreende uma caminhada de sete anos, desde África à Terra

Caminhar é cair para a frente. O passo é um mergulho sustido, uma queda evitada, um desastre travado. Vistas as coisas desta forma, uma caminhada torna-se um acto de fé. Fazemo-lo todos os dias: um milagre a dois tempos, um cambaleio iâmbico, seguro e solto. Ao longo dos próximos sete anos, irei mergulhar assim pelo mundo fora. Embarquei numa demanda. Busco uma ideia, uma história, uma quimera, talvez uma loucura. Ando a perseguir fantasmas.

Largando do berço da humanidade, no grande vale do Rifte da África Oriental, vou reconstituir a pé os trilhos percorridos pelos antepassados que descobriram pela primeira vez a Terra, há pelo menos sessenta mil anos. Continua a ser, de longe, a nossa maior viagem. Não propriamente porque nos proporcionou domínio sobre o planeta, mas porque o Homo sapiens que pela primeira vez se aventurou além do continente-mãe também nos legou as qualidades mais subtis que hoje associamos aos seres humanos: linguagem complexa, pensamento abstracto, gosto compulsivo pela criação artística, génio de inovação tecnológica e a diversidade genética e cultural das múltiplas etnias hoje existentes.

Sabemos pouco sobre eles. Atravessaram o estreito de Bab el-Mandeb, a “Porta do Sofrimento”, que separa África da Arábia, multiplicando-se em apenas 2.500 gerações, um mero batimento cardíaco em termos geológicos, até alcançarem as paragens mais distantes do globo. Milénios mais tarde, vou segui-los.

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