Ao mesmo tempo que as potências europeias se batiam pelo continente africano, Henrique de Carvalho foi o último de uma dinastia de exploradores, aceitando a missão de encontrar o mítico império Lunda.

 Texto Paulo Rolão

Na província de Malanje, perto do ponto onde a expedição de Henrique de Carvalho verdadeiramente começou, precipitam-se as majestosas cataratas de Kalandula, as segundas maiores de África. No período colonial, eram conhecidas por Quedas do Duque de Bragança. Fotografia Alexandre Vaz.

Dondo, Junho de 1884. O navio de carga Serpa Pinto acabara de atracar no porto da vila, na margem do Cuanza, um pouco mais tarde do que o previsto devido ao escasso caudal da água. Três homens orientavam o desembarque da mercadoria, que incluía medicamentos, livros, material fotográfico, facas, pistolas, espingardas, tendas e um bote. A azáfama era grande.

Após o acondicionamento da carga, os três rumaram para outro ponto da cidade e aí adquiriram guarda-sóis, mantas, panos, chitas e riscados, mas também missangas, contaria, coral, sal e outros produtos supostamente úteis. Faltava ainda algo essencial: o recrutamento de 30 carregadores que transportassem a carga para o destino seguinte.

Mas qual era o destino seguinte? E, sobretudo, o que faziam e de onde vinham estes três europeus que se destacavam entre a restante população? Recuemos uns anos…

 O continente africano era uma mina a explorar pelas principais potências europeias, que viam nele uma fonte de recursos.

O continente africano era uma mina a explorar pelas principais potências europeias, que viam nele uma fonte de recursos e um campo de alargamento das suas vias comerciais, sobretudo no que tocava ao pouco conhecido interior. Henry Stanley e David Livingstone entraram para a história, mas alemães, franceses, belgas e portugueses não quiseram perder a corrida.

Silva Porto, Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens e Serpa Pinto foram alguns dos nomes que chefiaram missões que procuravam implantar a influência portuguesa em África, a partir de colónias litorais como Angola e Moçambique.
A ambição passava por ligar o território angolano à contracosta, ou seja, colonizar África de oeste a leste sob a égide da bandeira portuguesa, demonstrando domínio sobre o território e os seus ocupantes. Mas o conflito de interesses era latente e o poderio bélico dos rivais europeus antecipava dificuldades diplomáticas, sobretudo num império ainda reticente em explorar os seus domínios africanos.

A bandeira real foi hasteada nas várias estações ao longo da viagem de quatro anos.

O ano de 1884 foi conturbado. Em Berlim, realizou-se uma conferência colonial que viria a definir o mapa cor-de-rosa. Reinava em Portugal Dom Luís I, o Popular, homem da ciência e da aventura, que financiou diversas campanhas expedicionárias em terra e no mar. Em Março de 1884, foi assim arregimentada uma nova expedição, com o objectivo de chegar ao mítico país da Lunda e à sua capital e estabelecer relações diplomáticas e comerciais com o muatiâmvua, nome que era dado ao chefe local. O projecto era tanto político quanto científico.

Para chefiar a expedição, enquadrada pela Sociedade de Geografia de Lisboa, “irmã” mais velha da National Geographic Society, foi nomeado Henrique Augusto Dias de Carvalho, que parecia o homem certo para levar a missão a bom porto. Com efeito, este antigo aluno do Colégio Militar e da Escola do Exército já possuía experiência em paragens africanas, fruto dos serviços que prestara em São Tomé, Moçambique (em Maputo, Quelimane e na ilha do Ibo) e em Luanda.

As instruções eram claras: realizar uma viagem à corte do muatiâmvua, no país da Lunda.

Numa expedição desta envergadura, Carvalho não podia estar só. Por isso, foram indigitados o farmacêutico Agostinho Sesinando Marques como subchefe e o fotógrafo Manuel Sertório de Almeida como ajudante, qualquer um deles também com ampla experiência africanista. As instruções eram claras: realizar uma viagem à corte do muatiâmvua, no país da Lunda, com o objectivo de assinar um tratado de amizade que garantisse protecção a uma missão religiosa e comercial dirigida por um político português que ali teria de residir, mas também estabelecer relações comerciais com os povos da região (lundas e quiocos) e, ainda, análises de carácter científico – condições climáticas, navegabilidade dos rios e catalogação da fauna e da flora. Apesar de não estar explícito nas instruções, havia ainda um propósito implícito: impedir que outras potências colonizadoras estrangeiras se estabelecessem na região.

Com tudo a postos, a saída de Lisboa ocorre a 6 de Maio de 1884 e, após 24 dias de navegação pelo Atlântico, chega-se finalmente a Luanda, onde duas semanas de permanência serviram para ultimar os preparativos e adquirir produtos essenciais. É então altura de embarcar no Serpa Pinto rumo ao Dondo, onde a equipa requisita bens essenciais. Mal sabiam os exploradores que estavam apenas no início de uma longa jornada de três anos e meio… No dia 21 de Junho, deixaram a vila a pé, passando sucessivamente por Cazengo, Ambaca e Pungo Andongo com destino a Malanje, a 1.300 quilómetros da costa atlântica e já bem perto dos limites dos lundas. 

Ilustração do Acampamento Francisco Maria da Cunha.

O corpo expedicionário, com maiores ou menores dificuldades, foi prosseguindo a sua marcha. O dia, invariavelmente, começava cedo: às sete horas da manhã, toque de alvorada. Era feito sinal ao porta-bandeira, os carregadores içavam a carga e caminhavam um a um, em fila indiana, juntamente com os contratados em Luanda e os soldados. Por fim, era a vez de o responsável por cada uma das três secções seguir o grupo. A primeira secção transportava tipóia, caixas de livros, provisões (comida enlatada, bolachas, temperos, arroz, café, batatas, açúcar, manteiga) e alguns artigos de comércio; a segunda, liderada por Sesinando Marques, era mais vasta, com perto de 150 carregadores; e a terceira, na retaguarda, era chefiada por Henrique de Carvalho, que tinha a companhia do intérprete, do chefe dos carregadores, de um ordenança, do corneteiro e de um carregador com carga especial. Normalmente, a marcha das secções era desfasada, com vários minutos de intervalo entre elas, mas havia circunstâncias em que todo o grupo se juntava: perante dificuldades do terreno, quando permaneciam nas estações ou acampamentos, ou ainda quando era necessário contratar mais carregadores – alguns fugiam, outros ficavam muito para trás.

 

Uma rara e valiosa fotografia do encontro de Henrique de Carvalho com Xa Madiamba, vestido com roupa europeia. O muatiâmvua local pediu protecção à expedição. Arquivo Sociedade de Geografia de Lisboa, Fotografia Carlos Ladeira.

Com troços de 20 quilómetros por dia, a caminhada era lenta, ora por dificuldades acentua-das do terreno, ora por paragens diplomáticas para que os chefes locais autorizassem a passagem (que muitas vezes implicava pagamento de “portagem”) e, acima de tudo, porque a época das chuvas não ajudava a progressão.

Ao fim de cada dia, o descanso e a dormida eram efectuadas em acampamentos, fazendas ou estações (edificadas com o intuito de proteger o comércio português e, simultaneamente, de acolhimento aos futuros exploradores científicos), mediante a aprovação de um chefe africano. Revestidas de adobe, cal e colmo, as estações eram construídas de raiz e mediam entre dez e 13 metros de comprimento, cinco de largura e cerca de três metros de altura. Havia divisões para alojar os exploradores, armazéns de carga e uma sala de observações. E eram um marco transitório da presença portuguesa naquelas regiões.

Por fim, no dia 6 de Julho, atingiu-se Malanje e, dez dias depois, a primeira secção avançou de modo a construir a Estação 24 de Julho, abrindo caminho para as restantes. A partir daqui, iniciava-se a verdadeira aventura, apesar de os primeiros quilómetros, entre Chiça e Catala, terem sido mais fáceis do que o previsto, pois a influência portuguesa na zona era bem visível. Escassos vinte quilómetros depois, porém, tudo mudou: o terreno mostrava-se mais impenetrável e as populações, sem vestígios de contactos externos, revelavam-se frequentemente hostis. Ciente da necessidade de vencer pela razão, Henrique de Carvalho cedo se lançou na aprendizagem de línguas locais.

Ciente da necessidade de vencer pela razão, Henrique de Carvalho cedo se lançou na aprendizagem de línguas locais.

À medida que a coluna avançava, as dificuldades eram maiores, não só pelo desconhecimento dos trilhos, como também pela desconfiança que vinha dos povos da região, como os bângala, os quioco e os holo. A travessia do rio Cuango foi um marco da viagem, porque, a partir daqui, Carvalho teria de abrir – era um ponto importante da sua missão – um caminho seguro para os viajantes vindouros.

Durante aproximadamente três séculos, o império lunda foi dominante na África Central, particularmente na região entre os rios Calanhi e Cajidixi, que hoje se situa na República Democrática do Congo (antigo Congo Belga). 

O seu chefe supremo muatiâmvua estava no topo da hierarquia e a sua ascendência baseava-se numa lenda local. Apesar de não haver conclusões precisas, muitos autores, entre os quais Carvalho, apontavam para a fundação do império nas primeiras décadas do século XVII e para uma expansão até meados do século XIX, momento em que se registaram ameaças por parte dos quioco.

A partir de Malanje, a expedição atravessou regiões não cartografadas, que exigiram ousadia e capacidade de sofrimento. Arquivo Sociedade de Geografia de Lisboa, Fotografia Carlos Ladeira.

Como um dos objectivos fundamentais era estabelecer relações comerciais com os lunda, isso implicava que o chefe da expedição tivesse de saber as bases com que tinha de lidar e, acima de tudo, conhecer Xa Madiamba, o muatiâmvua eleito após o assassínio do seu antecessor. Só que este, entretanto, partira para o exílio, com receio de ser morto. Não deixa de ser surpreendente que, por iniciativa própria, Xa Madiamba tenha entrado na Estação Cidade do Porto, em 1885, a fim de visitar o ajudante da expedição ali estacionado. Pela primeira vez, o chefe lunda estava face a face com portugueses. Pouco depois, cumprimentou também pela primeira vez Henrique de Carvalho, entretanto informado da sua presença e que para lá se deslocara. Apesar de a Lunda ser então governada por um muatiâmvua interino, Carvalho tomou o partido de Xa Madiamba e ajudou na sua protecção até Mussumba, o que acarretava diversos riscos, pois era importante estabelecer ao mesmo tempo relações comerciais com os quioco, que ameaçavam o império lunda. Foi perante este xadrez político que Xa Madiamba e Henrique de Carvalho caminharam juntos, com o séquito do primeiro a integrar a expedição portuguesa. Mas foi sol de pouca dura. O eterno receio de ser assassinado e os avisos dos seus conselheiros, levaram a que Xa Madiamba não assumisse o cargo e optasse novamente pelo exílio.

Na actual Lunda Norte, ao fim de dois anos de travessia, paisagens como esta apresentavam rigorosos obstáculos aos aventureiros. Até 1975, Saurimo, a capital da Lunda Sul, chamava-se Henrique de Carvalho. Fotografia Alexandre Vaz.

 

Com um espírito moderno face às culturas africanas, Henrique de Carvalho procurou adquirir ou trocar objectos significativos das culturas que foi encontrando, como esta estatueta nkisi, recolhida na actual República Democrática do Congo.

Carvalho sentiu-se numa situação periclitante: a falta de recursos, as doenças que minavam a região e a desistência de Xa Madiamba obrigaram-no a mandar para trás a maior parte dos elementos, incluindo o subchefe e o ajudante. Apenas 26 homens fizeram questão de se manterem ao seu lado e foi este grupo reduzido que partiu para a etapa final.

Ultrapassaram os rios Luembe e Cassai, a região de Mataba e, no primeiro dia de 1887, chegaram ao rio Calanhi e, com ele, ao coração da Lunda. No término da sua “peregrinação”, foi içada a bandeira nacional, tocado o hino e foram disparados tiros para o ar, na Colónia Príncipe D. Carlos Fernando, fundada em nome do príncipe herdeiro.

Nos dias seguintes, saudaram o muatiâmvua interino, recolheram amostras científicas, estudaram os comportamentos sociais das culturas locais e descodificaram o ordenamento arquitectónico das povoações.

Nos dias seguintes, saudaram o muatiâmvua interino, recolheram amostras científicas, estudaram os comportamentos sociais das culturas locais e descodificaram o ordenamento arquitectónico das povoações. “Mais do que um militar, Henrique de Carvalho foi um diplomata no terreno, um cientista empenhado e um homem profundamente interessado na aprendizagem da cultura e línguas dos povos que foi encontrando”, refere Manuela Cantinho, investigadora da Sociedade de Geografia de Lisboa,

Em plena capital, Mussumba, Carvalho apercebeu-se de um inegável clima de tensão.

Em plena capital, Mussumba, Carvalho apercebeu-se de um inegável clima de tensão. Enquanto se esgrimiam jogos de poder em relação à eleição do muatiâmvua, a pressão dos quioco era cada vez mais forte. Daí à invasão da capital, foi um pequeno passo. Dias depois a mítica Mussumba do Calanhi foi tomada de assalto e a corte lunda pôs-se em fuga. Muitos lunda, tal como Carvalho, refugiaram-se na Colónia Príncipe D. Carlos Fernando, que chegou a abrigar dois mil fugitivos. Mas há males que vêm por bem – em Março, os quioco tiveram de debandar devido à fome e às doenças que grassavam entre eles.

Muitos lunda regressaram à capital, reconhecendo um muatiâmvua interino, apesar de ser Xa Madiamba quem o povo exigia, mesmo estando há 20 anos no exílio.

Imagem de uma águia da África Central ilustra o talento dos membros da expedição. Arquivo Sociedade de Geografia de Lisboa, Fotografia Carlos Ladeira.

O desgaste, o cansaço e a descrença, aliados à fome e a um surto de varíola, motivaram o abandono da região em Junho de 1887. Restava ao grupo uma penosa caminhada de regresso. Oito meses depois, já em 1888, chegaram ao Dondo e foi aqui que Carvalho concluiu que alguns dos seus esforços tinham sido em vão: não conseguiu que Xa Madiamba assumisse o poder, não logrou conciliar os lunda e os quioco e não conseguiu que a zona ficasse à época sob influência portuguesa.

A Inglaterra avançava prodigiosamente na conquista africana e, menos de dois anos depois, em 1890, Lord Salisbury entregava ao jovem rei D. Carlos o famoso ultimato, que obrigava Portugal a ceder as suas pretensões sobre os actuais territórios do Zimbabwe e da Zâmbia. Apesar do fracasso africanista da coroa portuguesa, Henrique de Carvalho não sabia então que dera um contributo importante para o conhecimento científico e humano da África Central, assim como não podia adivinhar que as suas diligências levaram a que a Lunda fosse reivindicada com sucesso pelos portugueses.
A posterior definição de fronteiras integrou na administração portuguesa grande parte do território percorrido. Hoje, a Lunda faz parte da República Popular de Angola. O esforço do explorador não foi por isso em vão: foi, ao invés, o suporte para uma das maiores pretensões territoriais do século XIX, a compensação possível para um império em desagregação.

 

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