Beira interior é o epicentro da rota do judaísmo

Na Beira interior, há registos de povoamentos judaicos desde o final do século XIII e indícios de povoamentos posteriores, por cristãos-novos. A Rota do Judaísmo propõe-se seguir a sua pista.

Texto Paulo Rolão   Fotografia António Luís Campos

Páginas da Torá no Museu Judaico de Belmonte. A presença judaica na vila é tema de controvérsia entre historiadores.

“Mas eu sou uma pessoa normal, igual a tantas outras, apenas professo uma religião diferente da maioria”, disse numa voz que não disfarçava o sotaque castelhano e após atender uma chamada no seu telefone de última geração. Vestido de negro dos pés à cabeça, poderia ser um qualquer aldeão comum no interior de Portugal. Mas o porte era inconfundível: além da roupa escura, sinal de humildade adoptado pelos ortodoxos, usava o talit (um hábito bordado) por baixo da camisola e a kippa na cabeça. Para que não restassem dúvidas, as longas barbas pretas e alguns tufos de cabelo mais compridos ajudavam a desfazer o equívoco. Elisha Salas, efectivamente, distinguia-se dos demais.

Sentou-se à minha mesa e, perante o meu balbuciante “Shalom”, sorriu e dirigiu-me uma frase numa língua que me era completamente estranha. Reagiu à minha atrapalhação com uma sonora e provocante gargalhada. “Estava só a testar o seu hebraico!” Apesar de os meus conhecimentos não passarem daquela mera saudação, este curto diálogo serviu para quebrar o gelo e, ao mesmo tempo, dar conta de que Elisha Salas é um homem acessível e de boa disposição. 

O rabino Elisha Salas nasceu no Chile, onde era um jovem contabilista, mas o apelo do judaísmo falou mais alto.

Nasceu no Chile, em Santiago, onde era um jovem contabilista, mas o apelo do judaísmo falou mais alto, ao ponto de ter deixado tudo para trás e ter rumado para Israel, onde se converteu e estudou ao longo de cinco anos para ser rabino, na Cidade Santa de Jerusalém. Filiou-se então na Shavei Israel, que o colocou em Belmonte, para cumprir funções junto da comunidade judaica. Apesar de residir em Jerusalém, vem a Belmonte todos os meses, passando mais tempo nesta localidade da Beira Baixa do que em Israel. 

Além de orientar as orações na sinagoga inaugurada em 1996, o rabino é ainda o responsável por assuntos que envolvem directamente a comunidade: “Certifico os produtos kosher, trabalho em acções sociais juntamente com a autarquia e lecciono hebraico.” Nos tempos livres, convive com a população local e desloca-se às povoações vizinhas em passeio e em missão. 

Ora aberta e integrada, ora fechada e escondida, a prática do judaísmo nunca cessou no interior de Portugal.

Ajeitou a kippa (entre os judeus, considera-se falta de respeito a cabeça a descoberto), cofiou a venerável barba (Deus proibiu que se passe a navalha em cinco partes do rosto) e defende a ideia de que “hoje, em Belmonte, há mais abertura e integração da comunidade judaica, que ronda os 120 membros”. Enquanto olha para as muralhas do castelo, garante que o Chile está bem distante: “Não me passa pela cabeça regressar ao país onde nasci. Sinto-me israelita, mas também português e, sobretudo, belmontense. ”Há um filão turístico na região raiana que começou a ser aproveitado nos últimos anos, apesar da controvérsia sobre a natureza dos povoamentos judaicos. E, se é certo que algumas localidades apimentam a sua própria história para cativar os novos viajantes, antecipando o seu povoamento em alguns séculos, a verdade é que o turismo de inspiração religiosa motiva viagens propositadas aos locais de culto judaico no interior de Portugal de milhares de israelitas e outros judeus todos os anos. 

Há um filão turístico na região raiana que começou a ser aproveitado nos últimos anos, apesar da controvérsia sobre a natureza dos povoamentos judaicos.

 O trabalho sistemático e documental da historiadora Maria José Ferro Tavares, da Universidade Aberta, tem permitido desconstruir alguns mitos sobre a presença judaica na região. Uma das ideias fortes da sua investigação é a contestação à ideia de que as judiarias da Beira Interior são todas posteriores ao século XV. Na verdade, a presença de crentes da lei de Moisés é antiga nas fronteiras nacionais. Na Guarda, por exemplo, o povoamento data do fim do século XIII. Noutras cidades e vilas, como Castelo de Vide, Castelo Branco, Covilhã ou Trancoso, esse povoamento remonta ao século XIV. A análise das cartas de contrato outorgadas a judeus revela que, no século XV, muitos possuíam ocupações importantes, trabalhando como artesãos, cirurgiões ou físicos e possuindo frequentemente propriedades. A documentação certifica também que estas comunidades cresceram até ao reinado de D. Manuel (1495-1521).

Noutros locais, apesar do apetite turístico, o povoamento foi tardio e resultou de um incidente marcante na política dos dois reinos ibéricos.

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