Mais de um milhão de refugiados chegou no ano passado. Muitos fugiram de guerras na Síria, no Afeganistão e no Iraque. Outras centenas de milhares chegaram este ano, enquanto a mais recente migração do continente continua a agitar a política, a testar a tolerância e a alterar as identidades culturais.

Texto Robert Kunzig   Fotografia Robin Hammond

“Estamos a dar-nos bem por cá e fomos bem recebidos,” diz Abed Mohammed Al Khader, de 88 anos, patriarca de uma família de 16 pessoas fugidas da Síria há dois anos, mas “queremos voltar”. A família chegou a Berlim em Fevereiro e foi instalada, juntamente com outros 1.500 refugiados, num grande ginásio junto do estádio olímpico.

 Europeus e, sobretudo, os alemães, encontram-se há um ano no centro de um inquietante debate público sobre o significado de identidade. Em causa está o modo como as pessoas nascidas noutros países se enquadram na identidade do país de acolhimento. Em finais de Agosto de 2015, as tensões causadas pelo fluxo de refugiados provenientes do Médio Oriente atingiram proporções extremas. Setenta e uma pessoas foram encontradas mortas na Áustria, abandonadas por traficantes no interior de uma carrinha trancada. Grupos neonazis atacaram a polícia às portas de um abrigo em Heidenau, junto de Dresden. Quando a chanceler alemã Angela Merkel visitou o abrigo para mostrar o seu apoio aos refugiados, manifestantes zangados saudaram-na com gritos de “Nós somos o povo!” Chamaram-lhe “prostituta”, “vagabunda estúpida” e “Volksverräter”, um epíteto da era nazi que significa “traidora do povo”.

Cinco dias mais tarde, em 31 de Agosto, Merkel realizava a sua habitual conferência de imprensa anual de Verão, em Berlim. Nesse preciso momento, um grande número de refugiados sírios provenientes de Budapeste embarcava em comboios com destino à Alemanha. Como é costume, Merkel mostrou-se inabalável. Informou que o seu governo previa a chegada de 800 mil refugiados em 2015. (Acabou por ser mais de um milhão.) Recordou à imprensa que a Constituição alemã garante o direito ao asilo político, citando o artigo primeiro: “A dignidade humana deve ser inviolável.” E, em boa verdade, havia mais alemães a ajudar os refugiados do que a lançar-lhes pedras e insultos. “A Alemanha é um país forte”, afirmou Merkel. “Já alcançámos tanto. Nós conseguimos fazer isto!”

O número de refugiados forçados a sair da sua terra natal, 21 milhões, era maior do que em qualquer outro período desde a Segunda Guerra Mundial.

Um dia, estas palavras —“Wir schaffen das!” — poderão estar inscritas na sua lápide. Até lá, contribuíram para fazer da Alemanha o palco mais comovente de um drama mundial. Há décadas que a migração global aumenta mais depressa do que a população. Segundo a Organização das Nações Unidas, em 2015 havia no mundo 244 milhões de imigrantes, entendendo com a expressão os indivíduos vivendo fora do país onde nasceram. O número de refugiados forçados a sair da sua terra natal, 21 milhões, era maior do que em qualquer outro período desde a Segunda Guerra Mundial. Vários modelos de previsão sugerem que as alterações climáticas aumentarão esse número, com episódios de seca mais frequentes e problemas desencadeados pela subida do nível do mar. Há quem diga que estes factores já contribuíram para a guerra civil síria, que desencadeou o actual êxodo para a Europa. 

“Vivemos aqui, nascemos aqui, crescemos aqui. Mas o meu coração está na Turquia”, diz Ali Tecimen (de casaco azul). Os seus avós (à frente) chegaram à Alemanha na década de 1970 como imigrantes. A sua mãe (à direita) era ainda pequena. A família, incluindo a mulher de Tecimen (à esquerda) e os dois filhos, vive em Berlim.

 O continente que recebe agora os refugiados alberga um terço dos imigrantes de todo o mundo desde a Segunda Guerra Mundial. Nos principais países da Europa, que em tempos enviaram os seus excedentes demográficos para os Estados Unidos da América, existem agora populações nascidas no estrangeiro comparáveis às dos EUA. Contudo, poucas mentes europeias e ainda menos corações europeus se adaptaram a essa realidade. Até nos EUA, onde John F. Kennedy cunhou a expressão “nação de imigrantes”, a imigração é tema de discórdia e sempre foi. Na década de 1750, Benjamin Franklin temia que demasiados alemães estivessem a afluir à Pensilvânia. Disse que tinham uma “tez escura”.

Os alemães têm uma palavra para aquilo que assustava Franklin: Überfremdung, ou “excesso de estrangeirização”. É o medo de a nossa casa se tornar irreconhecível por haver demasiados estranhos lá dentro, falando e comportando-se de maneiras estranhas. A maioria das pessoas consegue pelo menos imaginar a sensação e, na Alemanha, esse tem sido um tema comum ao longo do último ano. Houve manifestações nocturnas e retórica apaixonada de oradores de direita. Houve centenas de ataques a abrigos de refugiados, a maioria dos quais ainda vazios. Escassos dias antes da conferência de imprensa de Merkel, rufias embriagados atiraram um cocktail Molotov para o quarto de uma criança num abrigo dos arredores de Hannover.

Há três quartos de século, os alemães despachavam comboios cheios de judeus para campos de concentração no Leste. Agora, saudavam comboios repletos de refugiados 

E, no entanto, ouvia-se também o batimento das asas dos anjos bons – mais discreto, mas não menos vívido, com a história alemã a servir de plano de fundo. Há três quartos de século, os alemães despachavam comboios cheios de judeus para campos de concentração no Leste. Agora, saudavam comboios repletos de refugiados muçulmanos na estação ferroviária de Munique com alimentos, água, peluches e sorrisos. Num podcast alemão, ouvi uma jornalista do “Die Zeit” dizer aos seus ouvintes que era legítimo sentirem-se “embriagados de prazer”. Ao que outro jornalista retorquiu: a ressaca vem a caminho.

“A União Europeia está numa situação muito frágil”, disse-me no passado mês de Abril o ministro alemão dos Assuntos Europeus, Michael Roth. “Espero que as pessoas tenham consciência disso. A vaga de refugiados, juntamente com a incapacidade da Alemanha para convencer o resto do continente a seguir o exemplo e abrir-lhes os braços, foi uma razão para essa fragilidade e o mundo inteiro ficou ciente dela no dia 23 de Junho, quando os britânicos votaram a favor da saída da UE num referendo nacional.” 

Os refugiados não foram directamente questionados e a Grã-Bretanha não reconheceu ligação do tema ao referendo, mas as sondagens mostraram que o desejo de reduzir a imigração, vinda de dentro e de fora da UE, foi o principal motivo subjacente à votação favorável ao brexit.

Sírios na Alemanha: “Algumas pessoas [de cá] gostam de nós e outras não. Como dizem os neonazis, não querem árabes”, disse Obadah (à esquerda), de 11 anos, fotografado com a sua irmã, Bailasan, de 8, e pelo irmão, Amer, de 10. Bailasan gosta da sua escola em Berlim. Mas o pai ainda está na Síria e ela sente a sua falta.

 O que aconteceu no Reino Unido, e a crescente oposição à imigração que se verifica igualmente noutros países, só agrava o que está a suceder na Alemanha. Conseguirão mesmo os alemães superar o peso do passado e tornar-se uma Willkommenskultur, uma cultura que acolhe os outros? Se assim acontecer, num mundo cada vez mais cheio de imigrantes e xenófobos, poderá haver esperança para todos nós.

Em meados da década de 1970, quando eu frequentava a Escola Alemã de Bruxelas, na Bélgica, tive um professor de Estudos Sociais chamado Volker Damm. Embora eu seja norte-americano, o meu pai era frequentemente destacado para a Europa e frequentei escolas alemãs até à faculdade. Alto, de cabelo louro encaracolado e um rosto cinzelado, Damm era um dos professores populares da escola. Foi na sua disciplina que descobri, pela primeira vez, o que fora o Holocausto: ele lia, em voz alta, relatos gráficos de testemunhas oculares sobre os campos de concentração.

Sírios na Alemanha: “Foi assim que carreguei a minha filha durante a viagem”, diz Mohammad Jumma, antigo porteiro em Damasco, fotografado com Farah, de 10 anos. Quando esta fotografia foi tirada em Berlim, a mulher e o filho estavam retidos na Grécia. Mohammad deseja “uma vida simples e normal. E que este pesadelo acabe”.

 Nascido em 1939, Damm tinha apenas 6 anos quando a guerra acabou. O pai, igualmente professor, fora líder do partido nazi numa pequena aldeia do estado alemão de Hesse, mas eu não sabia disso na altura.

Não nos falávamos há quase quarenta anos, mas Damm não foi difícil de encontrar: um jornal local publicara uma notícia sobre o seu trabalho de voluntariado em prol de vítimas de crimes. Começámos a corresponder-nos e eu descobri que, agora já reformado, ele ensinava refugiados adolescentes: dezenas de milhares que tinham chegado sozinhos à Alemanha.

 

Argelinos em França: “Sinto que posso ser 100% francês e 100% argelino”, assegura Massyle Mouzaoui, de 10 anos (à direita). O irmão, Ilyas, de 8 anos, concorda. Vivem num confortável subúrbio parisiense com a mãe, francesa, e o pai, argelino com cidadania francesa, que diz que está a ajudar “a construir este país”.

 O meu antigo professor convidou-me a visitar Rotemburgo do Fulda, uma vila do estado de Hesse com mais de 13 mil habitantes no centro do país, onde ele passara quase toda a sua carreira de docente. 

Assim, no Inverno passado, eu e Damm subimos as escadas de madeira do edifício quinhentista da Câmara Municipal até ao gabinete de outro antigo aluno seu, o presidente Christian Grunwald. Rotemburgo é uma vila pitoresca, com casas antigas amontoadas à volta da praça do mercado e ao longo do rio Fulda, junto do palácio e do parque. No exterior, os sinos da igreja protestante confirmaram a pontualidade da nossa chegada, às nove horas da manhã. A sudeste da vila, em Alheimer Kaserne, uma base militar na colina do vale, 719 refugiados sírios, afegãos, iraquianos e de outras nacionalidades davam início a mais um dia.

Quando o estado de Hesse o informou, no início de Julho de 2015, que centenas de refugiados chegariam no dia 3 de Agosto, “a notícia explodiu como uma bomba”, contou.

Christian Grunwald é um homem de 39 anos, magro e atencioso e sorriso fácil. Desde que foi eleito, há cinco anos, tenta dar vida à comunidade e implantar negócios nas lojas vazias da sua cidade. Os refugiados, admite rapidamente, não eram aquilo que tinha em mente. Quando o estado de Hesse o informou, no início de Julho de 2015, que centenas de refugiados chegariam no dia 3 de Agosto, “a notícia explodiu como uma bomba”, contou.

Cerca de setecentas pessoas encheram um auditório da faculdade para uma reunião municipal. Ali foram informadas por funcionários do Estado que a Alheimer Kaserne, em cuja renovação as forças armadas investiram 40 milhões de euros para depois a encerrarem, seria transformada num Erstaufnahmeeinrichtung, instalações onde os refugiados seriam alojados durante os seus primeiros meses na Alemanha enquanto aguardavam resposta aos pedidos de asilo e residência permanente. As instalações principais de Hesse, em Giessen, estavam apinhadas, disseram os funcionários. As pessoas dormiam em tendas ao ar livre.

No interior da sala de Rotemburgo, o ambiente ficou tenso. Quem vai pagar isto?, perguntou uma pessoa. Os refugiados serão autorizados a sair da base?, perguntou outra. São contagiosos? “Havia medo no ar”, disse o autarca. “Mas ninguém se atreveu a levantar-se e a contestar abertamente.” Acrescentou que ninguém, utilizando uma expressão típica alemã, queria “ser mandado para o canto nazi”.

Argelinos em França: “A discriminação começou na escola. Eu tinha 6 ou 7 anos. Foi durante a guerra na Argélia”, diz a autora Patricia Fatima Houiche, de 66 anos. A mãe era francesa e o pai (na imagem) líder independentista argelino. Ela passou a maior parte da sua vida em França. Os filhos também lá vivem. Patricia quer ser sepultada na Argélia. 

 Thomas Baader, gestor de cuidados de enfermagem do Estado, recebeu o telefonema do Ministério dos Assuntos Sociais de Hesse em finais de Julho, pedindo-lhe que gerisse as novas instalações para refugiados. Chegou lá na quarta-feira, 29 de Julho. A chegada dos primeiros refugiados estava prevista para segunda-feira. Thomas telefonou a Christian Grunwald, que lhe enviou dois funcionários e depois dirigiu-se pessoalmente ao local. Ele e Thomas montaram e limparam as mesas e cadeiras da cafetaria. “Dois dias depois, havia seiscentas pessoas à porta”, disse o primeiro.

Foi uma corrida louca contra o tempo e, no entanto, tudo tem corrido admiravelmente bem. Noutros lugares, as coisas foram mais complicadas. “Ninguém estava preparado, ninguém na Alemanha”, disse-me o coordenador de refugiados de Hamburgo, Anselm Sprandel.

A cidade teve de acolher 35 mil refugiados no ano passado, metade do número que os EUA recebem do mundo inteiro.

A cidade teve de acolher 35 mil refugiados no ano passado, metade do número que os EUA recebem do mundo inteiro. “Nunca tivemos falta de alojamento, nem pessoas a dormirem ao relento. Mas estivemos perto.” Os funcionários de Anselm instalaram as pessoas em lojas de bricolage falidas, em módulos empilháveis feitos a partir de contentores de navio e em tendas aquecidas. Em Berlim, vários refugiados foram alojados nos ginásios das escolas ou num hangar do aeroporto de Tempelhof. Meras divisórias de plástico separavam uma família ou grupo dos restantes.

Em Rotemburgo, Thomas Baader conduziu-me pelos corredores da caserna, passando por salas em tempos partilhadas por soldados e agora ocupadas por famílias individuais. Embora os refugiados sejam destacados e transportados para instalações específicas (Hesse recebe 7,35%, valor estabelecido por uma fórmula federal de partilha de encargos), no dia anterior à minha visita, uma família iraquiana de seis pessoas dirigira-se pessoalmente à base de Rotemburgo. “Foi-se espalhando palavra sobre os sítios agradáveis”, disse Thomas Baader.

Além de alojamento, alimentação, roupa doada e outros subsídios em géneros, recebem mesadas que podem ascender a 112 euros por adulto e 63 euros por criança. 

Os refugiados fazem agora parte das ruas de Rotemburgo. Vemo-los subir vagarosamente a colina até à base militar, empurrando carrinhos de bebé e bicicletas velhas e carregando sacos de plástico. Além de alojamento, alimentação, roupa doada e outros subsídios em géneros, recebem mesadas que podem ascender a 112 euros por adulto e 63 euros por criança. “Gastam na cidade o dinheiro que recebem”, disse Frank Ziegenbein, proprietário de um hotel local chamado Landhaus Silbertanne. “Se não fosse este dinheiro, Rotemburgo podia fechar as portas”. É um exagero, claro, mas Christian Grunwald confirmou que os refugiados se tornaram uma mais-valia económica. 

Isso não impede alguns cidadãos de Rotemburgo de se manifestarem contra a situação, sobretudo no Facebook. O autarca descreveu de forma viva algumas maneiras como os refugiados desafiam a noção alemã de ordem: deixam lixo no parque e andam de bicicleta nos passeios.

Somalis na Suécia: “Uma das razões por que gosto deste país é a hospitalidade. Receberam os refugiados de braços abertos”, diz Mohamed Ali Osman, de 32 anos, que se juntou à mulher na Suécia em 2012. Contudo, acrescenta, “é difícil estar sem trabalho neste país e isso acontece sobretudo por causa da barreira da língua”.

 

Somalis na Suécia: Em Maio de 2015, Isra Ali Saalad, de10 anos, viajou de Mogadíscio para Malmö com a mãe e dois irmãos. “Viemos para este país porque é seguro”, diz a irmã, Samsam, de 19 anos. A experiência de Samsam na Suécia tem sido positiva. “Só não consegui aprender muito bem a língua.”

 E depois existe a questão delicada da higiene sanitária: muitos refugiados, habituados a buracos no solo ao estilo asiático, não gostam de sentar-se. Grunwald subiu para cima da sua cadeira e agachou-se para me dar uma imagem do problema. Num centro de refugiados em Hamburgo, encontrei alguns funcionários responsáveis pela manutenção a transportar aros de sanitas, queixando-se de que estão sempre a partir-se. Na base de Rotemburgo, onde vi um refugiado entediado a varrer o passeio, todas as casas de banho são limpas por alemães… de modo a garantir que o trabalho é bem feito, disse Thomas Baader. Vi uma equipa vestir fatos-macaco descartáveis, com carapuços e máscaras, para limpar o jardim-de-infância.

Alemães e refugiados entram em confronto relativamente a diferenças culturais que, por agora, são agravadas pela inexistência de um idioma partilhado.

Alemães e refugiados entram em confronto relativamente a diferenças culturais que, por agora, são agravadas pela inexistência de um idioma partilhado. “Estamos apenas no início em termos de compreensão das emoções e pensamentos do outro”, disse o autarca. “Se conseguirmos melhorar a nossa interacção nesse aspecto, estou convencido de que alcançaremos um feito histórico.” Christian não era um entusiasta de Merkel antes, disse-me, e não escolheu ter este problema. Mas agora sente-se totalmente empenhado.

Com algumas excepções flagrantes, a função pública alemã respondeu à crise como se esperava, ou seja, bem. Mais surpreendente é a quantidade de alemães que quiseram investir pessoalmente no auxílio aos refugiados.

Indianos no Reino Unido: “Nasci aqui. Sou londrina de gema. Sempre me senti bem. Diria até que o meu legado cultural me granjeou mais respeito”, afirma Sharanjit Padda, professorade 26 anos. Ela quer que os imigrantes sejam aceites, mas também que aceitem a cultura britânica: “É uma troca recíproca.”

 Na vila de Duderstadt, conheci um artista gráfico e DJ ocasional chamado Olaf Knauft que, no ano passado, acolheu dois rapazes adolescentes da Eritreia. Um dia, explicou-me, conheceu uma mulher da agência de juventude local que lhe falou sobre a grande necessidade de patrocinadores e casas para todos os menores não acompanhados. Olaf tem 51 anos e os seus dois filhos já abandonaram o ninho. Ele estava nervoso, mas decidiu arriscar com um eritreu de 18 anos chamado Desbele, cristão copta. 

Os dois deram-se bem – tão bem que, três semanas após a chegada de Desbele, em Maio, ele confidenciou a Olaf ter um irmão de 16 anos, Yoisef, que ficara retido na Líbia. Desbele mantinha-se em contacto com os passadores. Eram necessários 2.500 euros para Yoisef chegar à Alemanha. Olaf deu o dinheiro a Desbele. Em Julho, ele e Desbele conseguiram encontrar Yoisef numa auto-estrada nos arredores de Munique, onde os passadores o abandonaram. 

 Olaf tem agora dois adolescentes em casa. E embora, por vezes, tenha de discutir por causa das luzes acesas, a louça por lavar e quem é que manda lá em casa, não se arrepende de nada. Chama “meus filhos” a Desbele e Yoisef. Alguns dias antes de eu o conhecer, soube-se que Yoisef tinha um irmão gémeo detido numa prisão na Eritreia. Olaf pagou 1.500 euros pela sua libertação e transporte para o Sudão, onde aguardava agora a travessia do Saara. Este era, definitivamente, o último irmão, disse Olaf Knauft. 

Um dia, após muita hesitação, ela disse aos rapazes que, na Alemanha, não era costume sorver o café com ruído. Yoisef admitiu que, segundo a sua avó, também não era costume na Eritreia.

Eu e ele sentámo-nos à conversa com Karin Schulte, uma professora reformada que ensina alemão a Desbele e Yoisef três vezes por semana, sem cobrar dinheiro. Os rapazes frequentam a escola técnico-profissional, numa turma especial para imigrantes, e depois das aulas tomam o seu lugar na cozinha de Karin. Ela dá-lhes café e bolachas porque o café da tarde também é parte integrante de ser alemão. Um dia, após muita hesitação, ela disse aos rapazes que, na Alemanha, não era costume sorver o café com ruído. Yoisef admitiu que, segundo a sua avó, também não era costume na Eritreia.

Em Rotemburgo, um grupo de professores reformados da escola Jakob-Grimm-Schule, onde Volker Damm leccionou durante décadas, organizou aulas de alemão no Erstaufnahmeeinrichtung. Certa manhã, passei algumas horas no local com Gottfried Wackerbarth, um homem amigável de barbas brancas. Uma vez que os residentes da base mudam a cada um ou dois meses, Gottfried não fazia ideia de quem iria ensinar naquele dia. Cinco afegãos do sexo masculino, com idades compreendidas entre 12 e 35 anos, emergiram de entre um mar de rostos ansiosos e seguiram-no. Gottfried iria ensinar-lhes o alfabeto com pictogramas — B para Banane, E para Elefant, e por aí adiante.

Cinco afegãos do sexo masculino, com idades compreendidas entre 12 e 35 anos, emergiram de entre um mar de rostos ansiosos e seguiram-no. Gottfried iria ensinar-lhes o alfabeto com pictogramas.

Ao meu lado, estava sentado Sariel, um homem de 35 anos. Tornou-se rapidamente claro que Sariel não era alfabetizado sequer em dari. Os rapazes da turma ultrapassavam-no nos exercícios. Enquanto o via copiar as letras traço a traço, como se fossem desenhos, imaginava como seria ter de aprender os complicados rabiscos em dari que um dos rapazes escrevia no quadro, por baixo da expressão Auf Wiedersehen. Senti-me cansado por Sariel — não pelo longo caminho percorrido desde o Afeganistão, mas pelo caminho ainda mais longo que o espera. 

Nesta aula, os alunos tinham apenas um primeiro contacto com o alemão e uma primeira exposição a um nativo solidário. “Quando me encontro com eles na cidade, dizem-me ‘olá, professor!’ e ficam muitos felizes por eu os reconhecer”, disse Gottfried. Certa tarde em Rotemburgo, conheci um homem sírio de 43 anos que estava na Alemanha há dois anos e concluíra um curso de alemão com seis meses de duração. Sentados na sua sala de estar, tivemos de conversar através de um intérprete de árabe. Com a sua idade, admitiu, não era grande aluno.

 Ahmad, como lhe vou chamar, era electricista em Damasco. À semelhança de muitos refugiados, tinha medo de criar problemas aos parentes no país de origem, o Egipto, para onde a sua família fugira inicialmente, fizera-os sentir-se pouco desejados. A Alemanha dera-lhe asilo, apoio social e este apartamento no centro de Rotemburgo. Ele sentia-se profundamente grato. Contudo, passados dois anos, ainda não tinha emprego e isso era quase insuportável. 

“Vou ao supermercado, levo o meu filho à escola, mas de resto não saio”, disse. “Porque tenho vergonha de alguém me perguntar o que faço. Varro muito a porta de casa só para fazer qualquer coisa.” Ele perguntou-me se eu achava que um lar de terceira idade das redondezas aceitaria que ele fizesse limpezas de graça.

Os três filhos de Ahmad ouviam-nos silenciosamente. Frequentavam escolas alemãs há um ano e meio: os dois mais velhos estavam em Jakob-Grimm-Schule. O seu alemão era bom. O mais velho usava uma T-shirt dizendo “Paris” em francês e em árabe, um gesto de solidariedade para com as vítimas dos ataques de Novembro de 2015, disse-me. Tinha esperanças de vir a ser cabeleireiro e estava a estagiar num salão de beleza. O rapaz de 14 anos disse que talvez ficasse um pouco mais na escola. O seu professor disse-lhe que ele escrevia melhor do que muitos alemães. É ponta-de-lança na equipa de futebol.

A Alemanha recebeu cerca de cinquenta milhões de imigrantes desde a Segunda Guerra Mundial. Uma em cada oito pessoas que ali vive actualmente nasceu noutro país. E, no entanto, quando Angela Merkel disse publicamente  que a Alemanha era um Einwanderungsland (um “país de imigração”), o jornal “Frankfurter Allgemeine” classificou a afirmação como “histórica”. O partido de Merkel, União Democrata Cristã (CDU), rejeitou a descrição durante décadas. “Éramos um país de imigração em negação”, afirmou Martin Lauterbach, director de um programa de integração do Gabinete Federal de Migração e Refugiados, conhecido pelo seu acrónimo alemão: BAMF. 

Os primeiros imigrantes eram de etnia germânica, cerca de 12 milhões. Expulsos da Europa de Leste no final da guerra, chegaram a um país em ruínas. Alemães ou não, foram frequentemente mal recebidos.

Os primeiros imigrantes eram de etnia germânica, cerca de 12 milhões. Expulsos da Europa de Leste no final da guerra, chegaram a um país em ruínas. Alemães ou não, foram frequentemente mal recebidos. Erika Steinbach, representante da CDU no parlamento alemão eleita por Frankfurt, explicou como foi fugir da actual Polónia com a mãe e a irmã, ainda bebé, e chegar a uma exploração rural. “O agricultor disse à minha mãe: ‘Vocês são piores do que baratas’”, contou. “Não havia muito calor humano.”

Houve ainda menos simpatia pelos turcos. Com o desenvolvimento económico das décadas de 1950 e 1960, a República Federal da Alemanha precisou de trabalhadores: recrutou-os primeiro em Itália, depois na Grécia, em Espanha e em Portugal, mas em maior número na Turquia. Na sua maioria, eram homens, vieram sozinhos e foram empregados em fábricas ou na construção civil. Partilhavam quartos em casernas ou dormitórios. Não havia expectativas de permanência de nenhuma das partes: eram trabalhadores imigrantes convidados. Regressariam à Turquia volvidos um ou dois anos. Outros “convidados” ocupariam os seus lugares.

O plano era esse, mas a realidade foi outra.
Os empregadores não queriam perder os trabalhadores que tinham formado. Os trabalhadores solitários importaram as suas famílias. O pai de Fatih Evren trouxe a mulher e três filhos e já tiveram Fatih na Alemanha. “Ao fim de algum tempo, ele assentou”, disse Fatih. “Ganhar bem na Alemanha era divertido.” Evren é actualmente secretário do centro comunitário e da mesquita turco-islâmica que o seu pai ajudou a fundar em 1983 em Bebra, uma vila operária a oito quilómetros de Rotemburgo.

O programa de trabalhadores imigrantes foi encerrado em 1973, quando o embargo ao petróleo árabe desencadeou uma recessão. Actualmente, porém, quase três milhões de pessoas de ascendência turca vivem na Alemanha.

O programa de trabalhadores imigrantes foi encerrado em 1973, quando o embargo ao petróleo árabe desencadeou uma recessão.
Actualmente, porém, quase três milhões de pessoas de ascendência turca vivem na Alemanha. Apenas metade são cidadãos alemães. Alguns alcançaram posições proeminentes, como Cem Özdemir, co-líder do Partido Verde. O que me espantou nas conversas que tive com turcos comuns, porém, foi a coerência da sua postura ambivalente face à Alemanha.

“O estatuto de ‘convidado’ num país durante décadas é uma loucura”, afirmou Ayşe Köse Küçük, assistente social em Kreuzberg, o bairro de Berlim onde muitos turcos se instalaram. Ela veio para Berlim com apenas 11 anos e vive ali há 36. Ainda não se sente aceite e os seus filhos também não. “Os meus filhos, a quem eu nunca disse ‘vocês são turcos’, começaram a dizer ‘nós somos turcos’ a partir do quarto ano de escolaridade. “Porque foram excluídos. Isso magoa-me.” E, no entanto, Kreuzberg é o seu lar amado.

“Viemos como trabalhadores e fomos integrados como trabalhadores, não como vizinhos e co-cidadãos”, comentou Ahmet Sözen, de 44 anos, nascido em Berlim. Ele não consegue integrar-se plenamente numa sociedade à qual o seu pai não pertence, explica. Em Bebra, por outro lado, toda a gente se conhece e os turcos organizam um festival cultural todos os anos na praça da vila, disse Fatih Evren. A integração funcionou. Mesmo assim, embora tenha nascido e crescido na Alemanha e tenha amigos alemães, ele espera ser sepultado na Turquia.

A aceitação plena na Alemanha nunca foi fácil, mesmo para alguns alemães.

A aceitação plena na Alemanha nunca foi fácil, mesmo para alguns alemães. Os avós maternos de Christian Grunwald eram refugiados de etnia germânica, oriundos do Norte da Sérvia, e vieram para Rotemburgo depois da guerra. A sua mãe contou-me a história numa tarde passada em Alheimer Kaserne. Estávamos na antiga casa da guarda, rodeados por celas cheias de peças de vestuário doadas. Gisela Grunwald coordena uma operação da Cruz Vermelha que fornece roupa aos refugiados.

A mãe de Gisela encontra-se agora num lar de terceira idade, contou-nos. A sua ascendência é germânica, ela vive em Rotemburgo há 65 anos, o seu neto é o popular presidente da câmara municipal e, mesmo assim, disse Gisela, não foi há tanto tempo como isso que “alguém se aproximou dela e lhe disse ‘não és alemã’”. Ao que parece, ela não se livrou completamente do sotaque que trouxe consigo da Sérvia.

A Alemanha aprendeu com a sua experiência com os turcos e outros imigrantes. As suas leis de cidadania tornaram-se mais descontraídas nos últimos 16 anos. Até ao ano 2000, era geralmente necessário ter sangue alemão (ou, pelo menos, um progenitor alemão) para obter cidadania alemã. Agora, um residente legal há oito anos ou um indivíduo com um progenitor nessas circunstâncias pode tornar-se cidadão alemão e, em alguns casos, manter a outra nacionalidade.

Além disso, ao abrigo de uma lei aprovada em 2005, o governo alemão oferece agora cursos de integração aos beneficiários de asilo. O BAMF contratou milhares de novos funcionários para processar centenas de milhares de pedidos de asilo acumulados e investiu mais de quinhentos milhões de euros em programas de integração este ano. A agência estima que 546 mil pessoas frequentem o curso em 2016. 

Indianos no Reino Unido: “Vim para cá porque o meu Sardarji veio da Índia para os nossos filhos estudarem”, diz Nichattar Pal, de 92 anos, referindo-se ao marido. Esta família londrina cresceu desde a sua chegada em 1970 e inclui agora uma neta, Padda (na foto anterior). “Sou feliz aqui. Muito feliz.”

Na política alemã, existe actualmente consenso quanto à necessidade de imigrantes.
Os óbitos excedem os nascimentos em quase duzentos mil por ano na Alemanha e esse número está a aumentar. Sem imigração, a população estaria a diminuir. O grupo de reflexão Instituto Berlim para a População e o Desenvolvimento estima que, para manter valores constantes da população em idade produtiva (as pessoas que financiam as pensões para a crescente quantidade de reformados), a Alemanha precisaria de uma imigração bruta de cerca de meio milhão de pessoas por ano até 2050.

Contudo, muitos refugiados não são a mão-de-obra qualificada necessária ao país, nem estão preparados para ingressar nos famosos programas de estágio. Mais de 15% são analfabetos. Muitos dos outros não são qualificados segundo os padrões alemães.

Numa escola técnico-profissional em Bad Hersfeld, visitei quatro turmas de imigrantes que estão a receber dois anos de formação para adquirir os conhecimentos equivalentes ao 10.º ano de escolaridade e poderem, de seguida, inscrever-se num estágio. A maioria tinha uma idade superior àquela com que normalmente se frequenta o 10.º ano. Numa das turmas, reconheci Mustafa, um afegão de 17 anos e expressão triste que conhecera no dia anterior no lar para rapazes refugiados onde Volker Damm lecciona. Mustafa disse-me que estava muito feliz por estar na Alemanha, não só porque agora estava seguro, mas porque podia ir à escola.

Contudo, muitos refugiados não são a mão-de-obra qualificada necessária ao país, nem estão preparados para ingressar nos famosos programas de estágio. Mais de 15% são analfabetos.

A maioria dos imigrantes da escola Bad Hersfeld “acha que é uma bênção poder aprender. Muitos alemães consideram-no um dever e o dever é sempre mau”, contrapôs o director Dirk Beulshausen. Existe um limite, porém, para aquilo que o desejo consegue atingir. Joanna Metz, assistente social local, crê que quase metade dos imigrantes inscritos no programa não conseguirá obter o diploma. “Há uma quantidade incrível de matéria para pôr em dia”, disse. “Precisariam…  de dias com 48 horas.”

Os refugiados suficientemente novos para se adaptarem rapidamente, como os filhos de Ahmad, deverão tornar-se uma mais-valia económica para a Alemanha. Quanto à população de refugiados como um todo, é demasiado cedo para fazer quaisquer afirmações. A Agência Federal do Trabalho estima que metade dos refugiados ainda estará desempregada cinco anos mais tarde; um quarto deles, 12 anos depois. 

Na verdade, o acolhimento baseou-se num argumento humanitário e não económico. Mesmo assim, grande parte da opinião pública ainda não está convencida. O punhado de pessoas dispostas a atirar cocktails Molotov contra abrigos de refugiados ou a gritar obscenidades à chanceler são apenas a ponta de um icebergue de alemães pacíficos e, na sua maioria, silenciosos que, lá no fundo, não quer tantos imigrantes na Alemanha, sobretudo muçulmanos.

 

As culturas cruzam-se e, por vezes, encontram-se num café em Kreuzberg. Este bairro de Berlim tem sido um refúgio para os imigrantes turcos desde a década de 1960. A Alemanha pouco fez para os acolher, mas agora, face à nova vaga de imigração, “aprendemos a lição”, resume Michael Roth, ministro para os Assuntos Europeus.

 Uma grande maioria dos alemães aceita intelectualmente a imigração, disse a cientista política Naika Foroutan. Em termos emocionais, contudo, não são assim tantos. A equipa de Naika sondou 8,7 milhões de residentes alemães em 2014, antes dos ataques a Paris e Bruxelas ou do grande aumento de refugiados, e concluiu que quase 40% defendem que quem usa um lenço na cabeça não pode ser alemão. Quarenta por cento limitaria a construção de mesquitas ostensivas. Mais de 60 por cento baniria a circuncisão, um ritual essencial nas religiões islâmica e judaica. Por fim, cerca de 40 por cento considerava que, para ser alemão, é preciso falar alemão sem sotaque. 

Mesmo antes dos ataques terroristas e de uma série bizarra de incidentes à porta da estação de Colónia na véspera de Ano Novo, quando alguns imigrantes, mais de metade dos quais oriundos do Norte de África, assediaram e molestaram centenas de mulheres, a maioria dos alemães sentia já os muçulmanos como uma ameaça.
Esse sentimento motivou a ressurgência da direita política. “Não creio que uma massa tão grande de pessoas possa ser integrada”, disse Björn Höcke do Alternative für Deutschland (AfD), o partido populista que, após as eleições em Março, possui agora assento em metade das assembleias legislativas estaduais da Alemanha. Höcke é o líder da delegação do estado oriental da Turíngia. Na sua opinião, a imigração minou a “comunidade de confiança” que anteriormente existia na Alemanha. O AfD é “a última oportunidade de paz para o nosso país”, afirmou.

Höcke assusta muitos alemães e causa-lhes repulsa. “Meu bom Deus!”, exclamou Volker Damm, quando mencionei que ia vê-lo. Em pessoa, Björn Höcke é racional e quase suave. Foi professor de história, mas, quando toca nas cordas místicas do nacionalismo nos comícios do AfD em Erfurt, quando lidera a multidão na praça da sé em cânticos de “Wir sind das Volk – Nós somos o povo”, ou seja, o povo alemão que Merkel está alegadamente a tentar “abolir” com a imigração – faz muitos alemães lembrarem-se dos nazis. “Sportpalast, 1943”, disse Christian Grunwald, referindo-se ao discurso tristemente célebre de Joseph Goebbels.

Contudo, muitos alemães partilham pelo menos algum do desconforto de Höcke e uma torrente de ataques perpetrados por refugiados no Verão passado só veio reforçá-lo. Nas eleições municipais de Hesse no passado mês de Março, um em cada oito eleitores de Rotemburgo elegeu o AfD. Nas eleições legislativas estaduais de Saxónia-Anhalt realizadas na semana seguinte, foi um em cada quatro. Seria difícil mandar assim tantas pessoas para o canto dos nazis. Mas de que têm elas medo?

Numa única palavra: Parallelgesellschaften, ou “sociedades paralelas”. “As zonas da cidade onde nem nos apercebemos de que estamos na Alemanha”, como diz Björn Höcke. A expressão é um bicho-papão mesmo entre os alemães moderados. Para um norte-americano, pode evocar a imagem mais benigna de uma Chinatown ou Pequena Itália. Por que não podem agora os alemães aceitar os imigrantes com o mesmo espírito? Faço a pergunta a Erika Steinbach, que apesar de ser, ela própria, uma antiga refugiada, tem sido uma crítica polémica da política de Merkel, a partir do flanco direito da CDU.

“Não quero isso”, disse. “Devemos preservar a nossa identidade.” Erika descreveu a ameaça contando histórias. A sua secretária em Berlim foi apalpada por um homem na estação de comboios que “era de certeza” um refugiado. O filho do seu cabeleireiro, em Frankfurt, era apenas um de dois alemães nativos na sua turma da escola primária. Um funcionário da CDU da mesma cidade disse que gangues de imigrantes andavam pela principal rua comercial arrotando na cara das pessoas. “Onde vai isto parar?” , perguntou.

Quando falei com ela, já tinha conhecido alguns dos novos rostos da Alemanha. Havia Ahmad, varrendo o chão à porta de casa em Rotemburgo. Havia os dois rapazes do abrigo de Berlim que, contou-me o seu pai, Mohamad, choravam até dormir quando não conseguiam falar com a mãe, que está em Damasco. Havia Sharif, que via a Alemanha como a sua última oportunidade: os seus filhos não frequentavam a escola desde o início dos confrontos, em 2011.

E depois, havia uma jovem de 20 anos, visivelmente grávida, com o seu rosto suave envolto num lenço. Pouco depois de começar a falar, irrompeu em lágrimas com saudades da família ainda na Síria. Chorava com gratidão pela bondade dos alemães, mas também devido ao medo que sentira na noite em que uma multidão enfurecida se juntara na rua. Se pudesse, diria aos alemães que não estava ali para lhes roubar nada.

No Inverno passado, cerca de dois mil refugiados do Médio Oriente (incluindo Zainab, de 55 anos, um curdo sírio viajando com o filho) foram instalados num hangar em Tempelhof, um aeroporto de Berlim encerrado em 2008. Muitos refugiados passaram meses em abrigos deste género, aguardando o momento do pedido de asilo.

 O ódio era estarrecedor, mas eu conseguia perceber a apreensão sentida por muitos alemães. Até Ahmad conseguia. “Os alemães têm razão em temer pelo seu país”, disse. “A Alemanha está habituada a segurança e ordem. As pessoas têm medo de que isso mude.” Porém, o mero conhecimento de Ahmad e dos outros afectou-me. Perguntei a Erika Steinbach se já tivera algum contacto pessoal com os refugiados.

“Não”, respondeu.

A hostilidade em relação aos imigrantes na Alemanha tem sido mais forte nas regiões onde eles vivem em menor quantidade: nos antigos estados da Alemanha de Leste. Estes continuam a ser mais pobres do que a Alemanha Ocidental. O crescente fosso entre ricos e pobres no país em geral também promove sentimentos contra os imigrantes e contudo não existem fundamentos que justifiquem os sentimentos de ansiedade face aos refugiados, argumentou Naika Foroutan. A economia alemã é forte, a taxa de desemprego é baixa e, no ano passado, o governo registou um superavit de 19.400 milhões de euros. A Alemanha pode dar-se ao luxo de integrar refugiados e, simultaneamente, investir em infra-estruturas que beneficiem todos os alemães. “Não é um pânico real”, comentou Naika. “É um pânico cultural.”

Com 44 anos, filha de mãe alemã e pai refugiado do Irão, esta investigadora deposita as suas esperanças na educação. “Podemos educar as pessoas para verem a integração como um acto evidente”, disse, lembrando como a Alemanha tentou, com um sucesso limitado, erradicar o anti-semitismo da sociedade. Desde a Segunda Guerra Mundial, as novas gerações cresceram confrontadas com aquilo que os nazis fizeram através da televisão e também da escola. A sondagem de Naika Foroutan sugere que está em curso uma alteração semelhante face aos imigrantes. Os jovens alemães são mais propensos a aceitar a circuncisão e as mesquitas. 

Os refugiados chegaram a um país ainda à procura de uma nova identidade – “um novo ‘nós’ alemão”, nas palavras proferidas pelo presidente Joachim Gauck num discurso em 2014.

Os refugiados chegaram a um país ainda à procura de uma nova identidade – “um novo ‘nós’ alemão”, nas palavras proferidas pelo presidente Joachim Gauck num discurso em 2014. Segundo Naika Foroutan, esse “nós” mais inclusivo faz parte do significado de uma Alemanha moderna, aberta ao mundo e à mudança. Contudo, muitos imigrantes muçulmanos também não são exactamente abertos e modernos. Segundo um inquérito de 2013, cerca de 30% são fundamentalistas: acham que o Islão deve regressar às suas raízes do século VII e à precedência das suas leis sobre as leis seculares. Na mesquita de Mevlana, em Kreuz-
berg, conheci um jovem professor barbudo, Serkan Özalpay, que, à semelhança de outros muçulmanos, falou sobre a hostilidade com que é tratado pelos alemães. Por vezes, cospem-lhe quando passa por eles, vestido com o seu turbante e túnica até aos pés. Serkan surpreendeu-me ao falar como o AfD. “Os refugiados não pertencem aqui”, afirmou. “Os muçulmanos não pertencem a este país.” Ele diz aos seus fiéis para regressarem à Turquia, se puderem, pois é muito difícil viver segundo o Alcorão na Alemanha.

Um dos princípios geradores de conflitos entre os homens muçulmanos tradicionais e os alemães, cuja constituição garante direitos iguais a ambos os géneros, é a norma que proíbe o aperto de mão a uma mulher.

Um dos princípios geradores de conflitos entre os homens muçulmanos tradicionais e os alemães, cuja constituição garante direitos iguais a ambos os géneros, é a norma que proíbe o aperto de mão a uma mulher. Outro é a sua intolerância face aos homossexuais. No dia seguinte ao meu encontro com Serkan Özalpay, num estúdio situado em Neukölln, apertei a mão a outro tipo de muçulmano – uma DJ assumidamente lésbica e fumadora inveterada chamada İpek İpekçioğlu. Cresceu em Berlim, cidade que Serkan classifica como ateia, e adora-a.

Nem sempre foi assim. Quando concluiu o ensino secundário, o seu alemão era fraco e ela não tinha qualquer ligação emocional com o país. Aceitou um trabalho como au pair em Londres, sem saber se voltaria. Um dia, por acaso, tirou um livro com poemas de Goethe da estante. Era “Divã Ocidental-Oriental”, no qual o famoso poeta – famoso também pela sua Weltoffenheit, a sua abertura em relação ao mundo – celebra o islão. Os poemas comoveram İpek. “Uau, é uma língua mesmo bonita”, recorda-se de pensar. Regressou a Berlim. Agora, por vezes fala em nome do Instituto Goethe, representante da nova Alemanha.

Para İpek İpekçioğlu, a velha Alemanha tem muito a seu favor, mas continua “a ter um problema fundamental em abrir a sua cultura e autorizar a mudança”. Há não muito tempo, ela estava a actuar num palco em Leipzig, tocando a sua música house anatólica. Um homem foi ter com ela e exigiu-lhe que tocasse música “alemã”. E ela carregou ainda mais no tom étnico.

Ela quis que ele, e a Alemanha toda, percebessem a mensagem: “Estamos cá. Não nos vamos embora. Vamos moldar a cidade de forma a adequar-se às nossas vidas.”

Em Berlim, na véspera do seu casamento com Serkan Çavan, a noiva Gözde Sakallı celebra uma “noite de hena” turca, durante a qual as damas de honor dançam e cantam canções tristes e a futura sogra pinta-lhe a palma da mão com hena, prenunciando a perda da virgindade. Cerca de 93% dos turcos alemães casam-se com outros turcos. 

 “O medo do outro é sentido por todos”, resumiu İpek. “Não são apenas os alemães.” Mas muitos alemães levaram esse medo ao seu pior extremo há três quartos de século. Como tal, muitos ainda sentem o seu reflexo: medo de si próprios.

“Se eu tivesse idade suficiente naquela altura, teria pertencido às SS”, disse-me Volker Damm um dia no carro. “Só espero que não fosse guarda num campo de concentração.”

“Andamos a pisar gelo fino”, disse Gerd
Rosenkranz, analista político em Berlim, falando na guinada para a direita da política alemã. “Ainda pode partir-se. E por baixo encontram--se os velhos tempos.” 

No dia 9 de Novembro de 1938, quando a Noite de Cristal chegou ao resto da Alemanha, já passara por Rotemburgo e Bebra. Duas noites antes, multidões partiram janelas e devastaram as casas dos judeus. Goebbels louvou a região pessoalmente, contou Heinrich Nuhn, antigo professor de história e colega de Volker Damm. Heinrich gere um pequeno museu dedicado aos judeus mortos em Rotemburgo numa casa de Fulda que foi em tempos o Mikvah (a casa dos banhos rituais) feminino.

Certa tarde, eu e Volker Damm fomos à Câmara Municipal de Bebra visitar Uli Rathmann, um homem de 56 anos que dirige o jardim infantil e os programas de juventude da vila. Uli cresceu numa aldeia das redondezas, onde nunca viu um imigrante. Quando se tornou assistente social em Bebra, começou a trabalhar com imigrantes constantemente. Não vê qualquer problema em Bebra tornar-se 90% estrangeira.

Levou-me à janela para ver a praça da vila. Apontou-me a placa de bronze com a lista dos nomes de 82 judeus de Bebra assassinados nos campos de extermínio. 

Levou-me à janela para ver a praça da vila. Apontou-me a placa de bronze com a lista dos nomes de 82 judeus de Bebra assassinados nos campos de extermínio. Uma placa mais pequena evoca a sinagoga desaparecida. 

“Hoje, vivem-se tempos excitantes na Alemanha”, afirmou, ao voltarmos ao tema dos refugiados. “Tenho de confessar que fiquei comovido com a enorme vontade de ajudar demonstrada pelos alemães. E ainda não esmoreceu.”

Volker Damm ouvia-nos em silêncio, mas interveio nessa altura. “É a primeira vez na minha vida…” Fez uma pausa e pediu desculpa. Olhei para o meu antigo professor. Tinha os olhos marejados de lágrimas. “É a primeira vez que posso dizer que sinto orgulho na Alemanha”, referiu.

Olhei novamente para Uli Rathmann. Os seus olhos brilhavam. Falámos sobre quão difícil fora para os alemães, durante tanto tempo, sentir um orgulho nacional saudável: um orgulho que transcendesse o Campeonato do Mundo de futebol, mas não parecesse arrogante e perigoso. Talvez os alemães pudessem sentir “orgulho por terem recebido os refugiados”, disse Uli. Talvez o orgulho venha da “democracia vivida”. Virou-se para o computador para procurar o número de telefone de alguém com quem achava que eu devia falar, um homem que o ajudara a assentar o soalho do novo centro de juventude. Era Fatih Evren, o homem que eu conhecera na mesquita. 

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