Vieram de longe e em fuga, mas agora são os novos europeus

 Mais de um milhão de refugiados chegou no ano passado. Muitos fugiram de guerras na Síria, no Afeganistão e no Iraque. Outras centenas de milhares chegaram este ano, enquanto a mais recente migração do continente continua a agitar a política, a testar a tolerância e a alterar as identidades culturais.

Texto Robert Kunzig   Fotografia Robin Hammond

“Estamos a dar-nos bem por cá e fomos bem recebidos,” diz Abed Mohammed Al Khader, de 88 anos, patriarca de uma família de 16 pessoas fugidas da Síria há dois anos, mas “queremos voltar”. A família chegou a Berlim em Fevereiro e foi instalada, juntamente com outros 1.500 refugiados, num grande ginásio junto do estádio olímpico.

 Europeus e, sobretudo, os alemães, encontram-se há um ano no centro de um inquietante debate público sobre o significado de identidade. Em causa está o modo como as pessoas nascidas noutros países se enquadram na identidade do país de acolhimento. Em finais de Agosto de 2015, as tensões causadas pelo fluxo de refugiados provenientes do Médio Oriente atingiram proporções extremas. Setenta e uma pessoas foram encontradas mortas na Áustria, abandonadas por traficantes no interior de uma carrinha trancada. Grupos neonazis atacaram a polícia às portas de um abrigo em Heidenau, junto de Dresden. Quando a chanceler alemã Angela Merkel visitou o abrigo para mostrar o seu apoio aos refugiados, manifestantes zangados saudaram-na com gritos de “Nós somos o povo!” Chamaram-lhe “prostituta”, “vagabunda estúpida” e “Volksverräter”, um epíteto da era nazi que significa “traidora do povo”.

Cinco dias mais tarde, em 31 de Agosto, Merkel realizava a sua habitual conferência de imprensa anual de Verão, em Berlim. Nesse preciso momento, um grande número de refugiados sírios provenientes de Budapeste embarcava em comboios com destino à Alemanha. Como é costume, Merkel mostrou-se inabalável. Informou que o seu governo previa a chegada de 800 mil refugiados em 2015. (Acabou por ser mais de um milhão.) Recordou à imprensa que a Constituição alemã garante o direito ao asilo político, citando o artigo primeiro: “A dignidade humana deve ser inviolável.” E, em boa verdade, havia mais alemães a ajudar os refugiados do que a lançar-lhes pedras e insultos. “A Alemanha é um país forte”, afirmou Merkel. “Já alcançámos tanto. Nós conseguimos fazer isto!”

O número de refugiados forçados a sair da sua terra natal, 21 milhões, era maior do que em qualquer outro período desde a Segunda Guerra Mundial.

Um dia, estas palavras —“Wir schaffen das!” — poderão estar inscritas na sua lápide. Até lá, contribuíram para fazer da Alemanha o palco mais comovente de um drama mundial. Há décadas que a migração global aumenta mais depressa do que a população. Segundo a Organização das Nações Unidas, em 2015 havia no mundo 244 milhões de imigrantes, entendendo com a expressão os indivíduos vivendo fora do país onde nasceram. O número de refugiados forçados a sair da sua terra natal, 21 milhões, era maior do que em qualquer outro período desde a Segunda Guerra Mundial. Vários modelos de previsão sugerem que as alterações climáticas aumentarão esse número, com episódios de seca mais frequentes e problemas desencadeados pela subida do nível do mar. Há quem diga que estes factores já contribuíram para a guerra civil síria, que desencadeou o actual êxodo para a Europa. 

“Vivemos aqui, nascemos aqui, crescemos aqui. Mas o meu coração está na Turquia”, diz Ali Tecimen (de casaco azul). Os seus avós (à frente) chegaram à Alemanha na década de 1970 como imigrantes. A sua mãe (à direita) era ainda pequena. A família, incluindo a mulher de Tecimen (à esquerda) e os dois filhos, vive em Berlim.

 O continente que recebe agora os refugiados alberga um terço dos imigrantes de todo o mundo desde a Segunda Guerra Mundial. Nos principais países da Europa, que em tempos enviaram os seus excedentes demográficos para os Estados Unidos da América, existem agora populações nascidas no estrangeiro comparáveis às dos EUA. Contudo, poucas mentes europeias e ainda menos corações europeus se adaptaram a essa realidade. Até nos EUA, onde John F. Kennedy cunhou a expressão “nação de imigrantes”, a imigração é tema de discórdia e sempre foi. Na década de 1750, Benjamin Franklin temia que demasiados alemães estivessem a afluir à Pensilvânia. Disse que tinham uma “tez escura”.

Os alemães têm uma palavra para aquilo que assustava Franklin: Überfremdung, ou “excesso de estrangeirização”. É o medo de a nossa casa se tornar irreconhecível por haver demasiados estranhos lá dentro, falando e comportando-se de maneiras estranhas. A maioria das pessoas consegue pelo menos imaginar a sensação e, na Alemanha, esse tem sido um tema comum ao longo do último ano. Houve manifestações nocturnas e retórica apaixonada de oradores de direita. Houve centenas de ataques a abrigos de refugiados, a maioria dos quais ainda vazios. Escassos dias antes da conferência de imprensa de Merkel, rufias embriagados atiraram um cocktail Molotov para o quarto de uma criança num abrigo dos arredores de Hannover.

Há três quartos de século, os alemães despachavam comboios cheios de judeus para campos de concentração no Leste. Agora, saudavam comboios repletos de refugiados 

E, no entanto, ouvia-se também o batimento das asas dos anjos bons – mais discreto, mas não menos vívido, com a história alemã a servir de plano de fundo. Há três quartos de século, os alemães despachavam comboios cheios de judeus para campos de concentração no Leste. Agora, saudavam comboios repletos de refugiados muçulmanos na estação ferroviária de Munique com alimentos, água, peluches e sorrisos. Num podcast alemão, ouvi uma jornalista do “Die Zeit” dizer aos seus ouvintes que era legítimo sentirem-se “embriagados de prazer”. Ao que outro jornalista retorquiu: a ressaca vem a caminho.

“A União Europeia está numa situação muito frágil”, disse-me no passado mês de Abril o ministro alemão dos Assuntos Europeus, Michael Roth. “Espero que as pessoas tenham consciência disso. A vaga de refugiados, juntamente com a incapacidade da Alemanha para convencer o resto do continente a seguir o exemplo e abrir-lhes os braços, foi uma razão para essa fragilidade e o mundo inteiro ficou ciente dela no dia 23 de Junho, quando os britânicos votaram a favor da saída da UE num referendo nacional.” 

Os refugiados não foram directamente questionados e a Grã-Bretanha não reconheceu ligação do tema ao referendo, mas as sondagens mostraram que o desejo de reduzir a imigração, vinda de dentro e de fora da UE, foi o principal motivo subjacente à votação favorável ao brexit.

Sírios na Alemanha: “Algumas pessoas [de cá] gostam de nós e outras não. Como dizem os neonazis, não querem árabes”, disse Obadah (à esquerda), de 11 anos, fotografado com a sua irmã, Bailasan, de 8, e pelo irmão, Amer, de 10. Bailasan gosta da sua escola em Berlim. Mas o pai ainda está na Síria e ela sente a sua falta.

 O que aconteceu no Reino Unido, e a crescente oposição à imigração que se verifica igualmente noutros países, só agrava o que está a suceder na Alemanha. Conseguirão mesmo os alemães superar o peso do passado e tornar-se uma Willkommenskultur, uma cultura que acolhe os outros? Se assim acontecer, num mundo cada vez mais cheio de imigrantes e xenófobos, poderá haver esperança para todos nós.

Em meados da década de 1970, quando eu frequentava a Escola Alemã de Bruxelas, na Bélgica, tive um professor de Estudos Sociais chamado Volker Damm. Embora eu seja norte-americano, o meu pai era frequentemente destacado para a Europa e frequentei escolas alemãs até à faculdade. Alto, de cabelo louro encaracolado e um rosto cinzelado, Damm era um dos professores populares da escola. Foi na sua disciplina que descobri, pela primeira vez, o que fora o Holocausto: ele lia, em voz alta, relatos gráficos de testemunhas oculares sobre os campos de concentração.

Sírios na Alemanha: “Foi assim que carreguei a minha filha durante a viagem”, diz Mohammad Jumma, antigo porteiro em Damasco, fotografado com Farah, de 10 anos. Quando esta fotografia foi tirada em Berlim, a mulher e o filho estavam retidos na Grécia. Mohammad deseja “uma vida simples e normal. E que este pesadelo acabe”.

 Nascido em 1939, Damm tinha apenas 6 anos quando a guerra acabou. O pai, igualmente professor, fora líder do partido nazi numa pequena aldeia do estado alemão de Hesse, mas eu não sabia disso na altura.

Não nos falávamos há quase quarenta anos, mas Damm não foi difícil de encontrar: um jornal local publicara uma notícia sobre o seu trabalho de voluntariado em prol de vítimas de crimes. Começámos a corresponder-nos e eu descobri que, agora já reformado, ele ensinava refugiados adolescentes: dezenas de milhares que tinham chegado sozinhos à Alemanha.

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