Nápoles alberga uma das melhores colecções de camafeus. Estas jóias diminutas, requintadamente talhadas na Grécia Antiga, na Roma Imperial ou no Renascimento, revelam todo um universo mitológico e cortesão.

Texto Federico Gurgone   Fotografia Marco Ansaloni

Taça Farnese Ágata sardónica; Diâmetro: 20 centímetros; Oficina da corte dos Ptolemeus, Alexandria; Final do século II a.C. ou final do século I a.C.

Os camafeus são jóias que se produzem esculpindo em relevo pedras duras estratificadas, como a ágata, o ónix, a ametista ou a cornalina. Podemos admirá-los no Museu Britânico de Londres ou no Hermitage de São Petersburgo, mas nenhuma colecção do mundo pode competir com a do Museu Arqueológico Nacional de Nápoles. 

Em duas das suas numerosas salas, salienta-se uma história que os peritos se esforçam por decifrar: uma história que os peritos se esforçam por decifrar: uma história monumental escrita com objectos minúsculos. Encontramo-la esculpida, por exemplo, nos quatro estratos de ágata sardónica da Taça Farnese: estas cores variáveis e jogos de luz deleitaram, ao longo de muitos séculos, os olhos de Cleópatra, Frederico II Hohenstaufen, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, ou Lourenço, o Magnífico.

Ménade tocando flauta Ónix 1,6 x 2,5 centímetros; Idade moderna, séculos XV-XVII

 “O último relato sobre esta taça foi publicado em 1993 na ‘The Burlington Magazine’, onde Rolf Bagemihl a associa igualmente ao cardeal Ludovico Trevisan”, explica o professor Carlo Gasparri, enquanto procura o artigo da revista na biblioteca do Palácio Farnese, situado no coração da Roma renascentista. Especialista em camafeus napolitanos,  o arqueólogo fala no mais precioso de todos os objectos como se se tratasse do Santo Graal.

“Poucos objectos pertenceram a tantas e tão ilustres personagens”, diz. Talhada em Alexandria, possivelmente para Cleópatra, tornou-se propriedade do Império Romano após a conquista do Egipto por Augusto e, consequentemente, viajou mais tarde para Constantinopla. Regressou ao Ocidente com as cruzadas, em 1204. Frederico II comprou-a em 1239 a mercadores da Provença e conservou-a zelosamente até à sua morte, altura em que o seu tesouro se dispersou. 

Segundo o relato mitológico, Anfião e Zeto, filhos de Antíope, amarraram a ninfa Dirce a um touro, que a arrastou até matá-la. A cena inspirou este pequeno camafeu do século I a.C. (em cima) e também o maior grupo escultórico da Antiguidade Clássica: o Touro Farnese (em baixo). Com quase quatro metros de altura e três de largura na base, esta obra helenística foi encontrada em Roma em 1546, nas termas de Caracala, e restaurada sob supervisão de Miguel Ângelo.

“Cerca de 1430, encontrava-se na corte omíada de Samarcanda ou de Herat, onde o árabe Mohammed al-Khayyam a viu e copiou, um desenho hoje exposto na Biblioteca Estatal de Berlim”, prossegue Carlo Gasparri. Em 1458, a taça já estava em Nápoles, nas mãos de Afonso V de Aragão e era tal o apreço que o monarca sentia por ela que o poeta Angelo Poliziano chegou a referir-se-lhe. De seguida, pertenceu ao cardeal Ludovico Trevisan, o nome acrescentado à lista por Bagemihl, e mais tarde ao papa Paulo II, ambos de origem veneziana. Em contrapartida, o seu sucessor, Sisto IV, pouco se interessou por ela e vendeu-a com prejuízo recorrendo à mediação do Banco Medici-Tornabuoni. Foi assim que, em 1471, Lourenço de Médicis se dirigiu a Roma para adquiri-la.”

Há cinco anos, o embaixador francês em Itália, a quem compete a gestão do Palácio Farnese, sede da embaixada francesa, quis organizar uma exposição mostrando as diferentes salas tal como eram no Cinquecento.

Ménade dançante Calcedónia; 1,9 x 2,6 centímetros; Atribuído a Sóstrato, Grécia; Cerca de 40-30 a.C.

 “Nessa altura, algumas das maravilhas que tornaram famoso o palácio, obra-prima de Miguel Ângelo, regressaram ao seu lugar de origem”, explica o arqueólogo. Conseguimos perceber melhor aquele mundo a partir das peças mais pequenas. O embaixador pediu para trazer do Castelo de Ecouen, nas proximidades de Paris e sede do Museu Nacional do Renascimento, o armário, actualmente vazio, onde se tinham guardado os camafeus juntamente com os manuscritos do humanista Pirro Ligorio.” 

Desta forma, as jóias do museu napolitano regressaram pela primeira vez ao seio materno, volvidos mais de quatro séculos. Na verdade, nunca se tinham separado dele, porque mesmo sob a sombra do Vesúvio, os aristocratas mantinham viva a recordação das suas afortunadas origens romanas.

Busto do imperador Galba Ágata sardónica; 3,1 x 4 centímetros; Idade moderna; séculos XV-XVII

 “A catalogação do património farnesiano do Museu Arqueológico de Nápoles fez-se com base nas residências nas quais a família tinha as suas próprias colecções”, diz o director, Paolo Giulierini. “O visitante que entra no museu descobre o Palácio Farnese do século XVI: nas primeiras salas, reunimos o que estava exposto no piso nobre, organizado não simplesmente em função da auto-representação e afirmação pessoal, mas segundo a filosofia de vida da altura, que colocava o homem, com a sua razão e gosto pela beleza clássica, no centro do universo.”

Marco Rufo precipita-se para as chamas Calcedónia; 3,7 x 2,8 centímetros; Renascimento, século XVI.

As portas do elevador abrem-se no terceiro piso do gigantesco museu. A arqueóloga Teresa Giove aguarda-me no seu laboratório, atrás de uma porta blindada que protege os pequenos tesouros que estudou durante a sua carreira: são fáceis de levar, fáceis de roubar. “Muitos deveriam estar encastrados em anéis, por isso têm formas irregulares, afirma. Nós conservamos cerca de dois mil camafeus: 350 provêm de antigos centros da região da Campânia e os restantes da colecção Farnese.” Composta na sua forma actual em Parma em meados do século XVII, a colecção reunia jóias provenientes de prestigiadas colecções privadas. As primeiras foram iniciadas no Quattrocento pelo papa Paulo II e Lourenço de Médicis.

Nós conservamos cerca de dois mil camafeus: 350 provêm de antigos centros da região da Campânia e os restantes da colecção Farnese.

“Tendo em conta o material e a reduzida área sobre a qual trabalhavam os artesãos, aproveitando as diferenças de cor dos diversos estratos ou veios das pedras semipreciosas, os camafeus são autênticas maravilhas”, afirma Teresa Giove. A técnica praticamente não foi alterada desde a época greco-romana, o que torna muitas peças impossíveis de datar. “Sabemos, contudo, que os artesãos antigos não dispunham de lentes de aumento.”

Ao observá-los, descobrimos a personalidade de quem os coleccionou, assegura a arqueóloga. “O temperamental Lourenço, por exemplo, ousou mandar gravar neles a sua sigla, correndo o risco de estragá-los. Veja, aqui, com atenção: diz LAV. R. MED e não LAVR. MED. Ainda que Florença fosse uma república, Lourenço considerava-se Rex Medicorum (rei dos Médicis). Deve ter pensado: ‘Isto, pelo menos isto, é meu e só meu e escrevo nele aquilo que eu quiser!’” E deveria mesmo adorar as suas jóias, pois aceitou ser pago em camafeus em troca do apoio concedido à eleição de Sisto IV, que lhe ofereceu os camafeus do papa anterior.

Posteriormente, as jóias de Lourenço foram entregues como dote do marido a Margarida de Áustria, aquando do seu casamento com Alexandre de Médicis. Margarida casou-se em segundas núpcias com Octávio Farnese e foi assim que, após a morte da duquesa em 1589, estes exemplares passaram a fazer parte do património da dinastia Farnese de Parma, juntando-se aos camafeus do Palácio Farnese, reunidos pelos cardeais Ranuccio e Alexandre e pelo seu bibliotecário, Fúlvio Orsini. “Herdada pelo rei Carlos III de Espanha, a colecção chegou a Nápoles em 1736,” acrescenta Giove. “Podemos admirá-la em duas salas do piso térreo: a interior reúne os núcleos mais antigos das colecções, os únicos cujas origens conhecemos; a exterior exibe as jóias cuja história não se conseguiu reconstituir com precisão.”

Entre estas peças, destaca-se uma ágata com a figura de Onfale dormindo, uma das personagens femininas do mito de Héracles, considerado antepassado dos Farnese

Entre estas peças, destaca-se uma ágata com a figura de Onfale dormindo, uma das personagens femininas do mito de Héracles, considerado antepassado dos Farnese e, por conseguinte, omnipresente no palácio romano. Trata-se provavelmente da cópia renascentista de uma jóia grega. Por outro lado, a calcedónia com o suplício de Dirce é, sem dúvida, romana e mostra a mesma iconografia do famoso grupo escultórico descoberto nas termas de Caracala.

“Este camafeu, da primeira metade do século primeiro da nossa era, é fundamental para os historiadores, por se tratar de uma réplica da estátua original,” diz Carlo Gasparri. “A parte superior do Touro Farnese é, de facto, uma reconstituição moderna. Só o camafeu o mostra como era na Antiguidade.”

Algumas das jóias de Lourenço estão assinadas, o que diz muito sobre o valor que lhes era atribuído, sobretudo se tivermos em conta que há dois milénios não existia uma fronteira precisa entre arte e artesanato. Assim, com o acto de assinar a ágata na qual figura Victória sobre uma quadriga, Sóstrato afirmava-se enquanto artista.

Dioniso e Ariadne Ágata sardónica;2 x 2,1 centímetros; Início do século I a.C.

“Era seguramente um escultor entalhador que trabalhava na corte de Cleópatra, especializado em jóias de temática dionisíaca,” diz o historiador. “Após a vitória de Augusto, Apolo tornou-se um deus predominante na esfera pública, mas os sátiros e as ménades continuam a frequentar as casas particulares. Sóstrato, que talvez tenha também vivido em Roma, é o intérprete deste gosto.”

“Sóstrato assinou também uma jóia com uma ménade embriagada que, segundo a lenda, foi encastrada no anel de Cleópatra”, acrescenta a arqueóloga Valeria Sampaolo enquanto me mostra uma luminosa calcedónia. De seguida, pega noutra. “Nesta cornalina, atribuída a Dioscórides e pertença de Lourenço, Apolo, deus da luz, triunfa sobre o sileno Marsias, adepto de Dioniso. Segundo a tradição, foi o selo de Nero.”

Infelizmente, o camafeu não está completo. Durante uma sessão fotográfica realizada por ocasião de uma exposição apresentada em Florença, em 1972, caiu das mãos de funcionário e partiu-se em 17 fragmentos.

Infelizmente, o camafeu não está completo. Durante uma sessão fotográfica realizada por ocasião de uma exposição apresentada em Florença, em 1972, caiu das mãos de funcionário e partiu-se em 17 fragmentos: segundo os napolitanos, foi consumido pelo estigma do infortúnio que sempre o perseguiu. A Taça Farnese não teve melhor sorte: em 1925, um guarda enlouquecido golpeou-a. Partiu-se, mas foi restaurada na perfeição.

“Na verdade nem sequer é um achado arqueológico: nunca foi enterrada e sempre viajou de corte em corte,” comenta Valeria Sampaolo. “A dada altura, alguém a perfurou para colocá-la sobre um pedestal. Mas na sua origem era um fiale, uma espécie de tigela com fundo plano para libações. Este ano, o Museu Metropolitano de Nova Iorque organizou uma exposição sobre Pérgamo. Os comissários também quiseram exibir a taça. Respondemos imediatamente que ‘ela’ não viaja. Não insistiram mais.”

Todos sabem que é intocável.

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