D. Afonso Henriques, a verdade e o mito do reinado mais longo.

Texto de Bernardo Sá-Nogueira   Fotografia de António Luís Campos

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Mandado construir no século XVI na Igreja de Santa Cruz de Coimbra, o túmulo de D. Afonso Henriques  simboliza a apropriação posterior e controversa do mito fundador. A polémica não é exclusiva do passado. Em 2007, o Ministério da Cultura não autorizou a abertura do túmulo para fins de investigação científica.

“D. Afonso Henriques obteve uma [Cruzada] para tirar Lisboa do poder dos infiéis. Viu-se em 1145 uma numerosa frota de Cruzados franceses, ingleses e alemães entrar no Tejo, atacar os mouros e arrebatar-lhes Lisboa. Desde que D. Afonso se viu senhor desta cidade a povoou de cristãos, e fez dela a sua capital, em lugar de Coimbra, que até ali o havia sido.” 

Este curto relato da conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques podia ser uma adaptação modernizada de uma narrativa medieval. Mas não é. Foi escrito em 1835, para o periódico lisboeta “A Bibliotheca Familiar e Recreativa”, e contém duas informações incorrectas. Lisboa foi conquistada em 1147 e a urbe só se tornaria capital do reino com D. Afonso III, bisneto do fundador. O segundo erro talvez se aceite, por ser uma nota que as fontes de informação da época não especificaram e só a investigação historiográfica apuraria. Mas o primeiro é estranho: desde a Idade Média que 1147 era reconhecido pelos historiadores como o ano em que teve lugar este acontecimento decisivo do reinado afonsino. 

A verdade é que, com o passar do tempo, a memória de qualquer fundador, de uma cidade, ou de um país, acaba por afastar-se do conhecimento fixado no discurso do historiador e é apropriada, individual e colectivamente, pelo cidadão comum.

Deve-se, é bom de crer, à popularização da figura mítica do rei e à sua distância relativamente à cultura erudita. A verdade é que, com o passar do tempo, a memória de qualquer fundador, de uma cidade, ou de um país, acaba por afastar-se do conhecimento fixado no discurso do historiador e é apropriada, individual e colectivamente, pelo cidadão comum. Mas antes de isso suceder, sendo essa memória quase sempre construída em época posterior pelos grupos sociais dominantes, ou a seu mando, ela reflectiu as prioridades e conveniências da elite em cada tempo histórico. Tomemos o exemplo da “Crónica de Dom Afonso Henriques”, escrita no reinado de D. Manuel por Duarte Galvão, um velho e experimentado político cortesão. Como documento, ela pouco interesse tem para conhecermos o primeiro rei português, mas é da maior importância para compreender o uso que se fazia da sua memória nos alvores do século XVI.

Foi o seu sucesso como defensor, aliado à inegável destreza nos negócios políticos, que lhe permitiu, com o apoio imprescindível da alta nobreza duriense e do clero bracarense, consolidar o poder.

O infante D. Afonso (“Henriques” a seguir ao nome bastaria para mostrar não ser filho de rei) era filho dos condes D. Henrique – um filho secundogénito de Henrique, duque de Borgonha – e de D. Teresa, filha bastarda do rei de Leão e Castela, Afonso VI. Constança, uma irmã do conde D. Henrique, tornara-se rainha de Leão e Castela por casamento com Afonso VI. Perante o fracasso do seu genro Raimundo, também de Borgonha e primo de D. Henrique, casado com a sua filha legítima D. Urraca, na defesa da fronteira ocidental do império contra a invasão das hostes muçulmanas comandadas pela dinastia marroquina dos Almorávidas, em 1093-1094, Afonso VI confiou a D. Henrique o governo político e militar desse território, casando-o com sua filha bastarda Teresa. Foi o seu sucesso como defensor, aliado à inegável destreza nos negócios políticos, que lhe permitiu, com o apoio imprescindível da alta nobreza duriense e do clero bracarense, consolidar o poder.

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Datada do final do século XII ou início do século XII, esta poderá ser a mais antiga representação do primeiro monarca português. Já coroado e de espada em punho, o rei enverga também o manto real. (Créditos: Museu Arqueológico do Carmo/José Pessoa/IMC).

Afonso Henriques nasceu em 1109, provavelmente em Viseu, pois é nesta cidade beirã que, por essa altura, se pode determinar historicamente a presença de sua mãe, a infanta D. Teresa, atendendo à reconstituição do seu itinerário com base nas fontes documentais da época. Assim o considera José Mattoso, o medievalista que, no século XX, mais contribuiu para a reflexão historiográfica sobre o reinado afonsino, editando criticamente Alexandre Herculano, revisitando a obra de todos os historiadores anteriores e publicando um extenso trabalho original sobre o tema ao longo de 25 anos.

O casamento posterior da mãe com o magnata galego Fernão Peres de Trava, e a tentativa, por parte da nova corte de D. Teresa, de atrair o território português de regresso à órbita galega, são factores que teriam  contribuído para afastar o infante do convívio de sua mãe.

O futuro rei foi educado (“criado”, como então se dizia) no Entre Douro e Minho, em terras de seu aio, possivelmente D. Egas Moniz de Ribadouro. Órfão de pai em 1112, portanto com 3 anos, certamente não pôde guardar dele outras recordações que não as memórias relatadas pelos seus educadores. O casamento posterior da mãe com o magnata galego Fernão Peres de Trava, seguido do nascimento de filhos do casal, e a tentativa, por parte da nova corte de D. Teresa, de atrair o território português de regresso à órbita galega, secundarizando-o como margem geográfica, são factores que teriam certamente contribuído para afastar o infante do convívio de sua mãe.


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Datado do século X, o castelo de Guimarães está intimamente ligado ao reinado de D. Afonso Henriques. A infra-estrutura defensiva está classificada desde 1881. Fez aliás parte do primeiro rol de monumentos protegidos e era, à data, o único castelo com estatuto de monumento de primeira classe.

Egas Moniz era um destacado membro da elite político-militar duriense, representada pelas cinco linhagens dos antigos infanções (isto é, nobres por nascimento) de Entre Cávado e Douro. Geograficamente implantados dos dois lados do curso inferior do Douro, então a fronteira com o território muçulmano, tinham assegurado a sua defesa entre finais do século X e a primeira metade do século XI, preenchendo o lugar dos velhos condes de Portucale e de Coimbra, autores da conquista militar do núcleo primitivo do território português em nome de Afonso III, rei das Astúrias e Leão, no terceiro quartel do século IX. 

Egas Moniz simbolizava, pois, a autonomia portucalense, que se opunha ao reenquadramento de Portucale na Galiza, necessariamente subalternizador do jovem condado.

O novo poder condal de D. Henrique e D. Teresa já fizera deles ricos-homens (isto é, grandes senhores com responsabilidade pelo governo de grandes territórios). Egas Moniz simbolizava, pois, a autonomia portucalense, que se opunha ao reenquadramento de Portucale na Galiza, necessariamente subalternizador do jovem condado.

Os portugueses com mais de 45 anos recordam-se, da instrução primária, de lerem sobre a ida de Egas Moniz com a sua família, de baraço ao pescoço, à presença do imperador Afonso VII, por incumprimento da palavra dada pelo chefe de família. Poderoso símbolo de honra, o maior valor da nobreza da época, ele não tem quase certamente base histórica, mas servia ainda no século XIX a Alexandre Herculano, nas suas “Lendas e Narrativas”, para ilustrar os “valores medievais”. 

Nos antigos programas de história, aliás,  aprendia-se também que o infante D. Afonso Henriques derrotara na batalha de São Mamede, em 1128, perto de Guimarães (“A Primeira Tarde Portuguesa”, na emblemática designação do artista Acácio Lino), as forças antipatrióticas encabeçadas pelo amante de sua mãe, Fernão Peres de Trava, inaugurando a primeira de quatro dinastias de reis de Portugal, símbolos da nação até ao princípio do século XX. Curiosamente, sabe-se hoje que a propaganda nacionalista do século XX transformou o marido em amante para diminuir a figura do conde galego, mas, nos restantes pormenores, o relato confirma-se.

Após transferir a corte de Guimarães para Coimbra, D. Afonso Henriques beneficiaria do apoio de influentes nobres da Galiza.

No entanto, é abusivo descrever um ambiente antigalego (muito menos o erróneo “antiespanhol”), uma vez que, depois de, em 1131, transferir a corte de Guimarães para Coimbra, D. Afonso Henriques beneficiaria do apoio de influentes nobres da Galiza. Estes reforçariam o seu poder, contrabalançando a hegemonia política das já referidas cinco linhagens – dos senhores de Sousa, da Maia, de Ribadouro, de Baião e de Bragança – que tinham prevalecido sem rival na corte do conde D. Henrique. 

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 Guimarães é seguramente a cidade portuguesa que mais se apropriou da memória colectiva do reinado de D. Afonso Henriques, integrando-a na sua oferta turística. Até o clube de futebol local usa a imagem estilizada do monarca. 

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A oficina de Gaspar Carreira, escultor vimaranense especializado em réplicas metálicas do primeiro rei de Portugal e respectivo armamento. A sua oficina dá resposta a encomendas de lojas, museus e outras instituições.

Outro apoio regional de peso foi o dispensado pela elite política e militar dos cavaleiros de Coimbra. Situada na fronteira com o Islão, em 1111 a cidade arrancara a sua carta de liberdades ao conde D. Henrique, após ter garantido com êxito a sua própria defesa. Tendo por base a urbe conimbricense a partir de 1131, ao longo daquela década e da de 1140 o infante D. Afonso alcançaria sucesso como defensor da fronteira, passando à condição de atacante após o desmembramento do espaço político muçulmano registado nesse período.

Nenhum historiador que estude o século XII desliga o processo da reconquista cristã do quadro mais vasto das Cruzadas.

Foi então que, a 25 de Julho de 1139, obteve contra o Islão a mais emblemática das suas vitórias, na batalha de Ourique, mitificada pela historiografia posterior em elaborada lenda, como provaram o filólogo Luís Filipe Lindley-Cintra e o historiador Luís Krus. Lenda, porém, parece não ter sido a aclamação de D. Afonso Henriques como rei após a batalha, sendo muito provavelmente alçado pelos cavaleiros sobre o seu escudo (pavês). Este poderia já apresentar-se com as armas reais afonsinas, isto é, carregado de cinco escudetes em cruz cobertos de carbúnculos simbolizadores do granizo de São Miguel Arcanjo, chefe da milícia celeste e destruidor dos reis inimigos no “Livro de Josué” – texto bíblico referido na “Vida de São Teotónio”, composta em finais do século XII, como invocado na oração rezada antes da batalha, a pedir a intercessão divina. Este assunto foi aprofundadamente debatido na década de 1980 pelos heraldistas Luís Gonzaga de Lancastre e Távora (marquês de Abrantes) e o barão Hervé Pinoteau. 

Uma inscrição de 1138 na capela de Santa Luzia de Campos, perto de Vila Nova de Cerveira não só lhe dá o tratamento de rei como refere que já reinava. Antes da batalha de Ourique.

A partir de 1139, com efeito, a documentação régia começou a referir com mais frequência D. Afonso com o título de rei, parecendo sugerir a ligação entre o resultado de Ourique e o reconhecimento interno da realeza. No entanto, uma inscrição de 1138 na capela de Santa Luzia de Campos, perto de Vila Nova de Cerveira, publicada por Mário Barroca, não só lhe dá o tratamento de rei como refere que já reinava. Antes da batalha de Ourique. 


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Perto do final do reinado afonsino, em 1174, a vila de Monsanto  recebeu a sua carta de foral, cerca de uma década depois do seu importante  papel na reconquista de território aos mouros. Em 2009, a vila encenou o episódio numa reconstituição bem humorada e repleta de turistas.

Fundado em 1131 com o patrocínio do infante D. Afonso, o Mosteiro de Santa Cruz é uma peça central da biografia real. Foi nesta instituição que o futuro primeiro rei de Portugal recrutaria um grande número de homens de pensamento necessários à sua governação. Aqui também se faria sepultar, após a sua morte, em 1185. Um dos fundadores do mosteiro, São Teotónio, originário do Alto Minho, seria, até à sua morte em 1162, um dos principais conselheiros do rei, juntamente com o chanceler Alberto e outra figura que, perdoe-se o anacronismo, poderia ser qualificada como ministro dos Negócios Estrangeiros de D. Afonso Henriques. Falamos de D. João Peculiar.

O historiador Luís Amaral estudou recentemente a formação do seu património ao longo dos séculos X e XI e demonstrou a sua excelente organização a nível regional aquando da ascensão de João Peculiar ao cargo arquiepiscopal.

Também ligado à fundação de Santa Cruz, este importante protagonista do reinado, seria arcebispo de Braga (1138-1175), depois de exercer funções episcopais no Porto. Juntamente com o seu antecessor na sé bracarense, Paio Mendes, João Peculiar simboliza a liberdade almejada por uma Igreja de Braga, refundada em 1071. O historiador Luís Amaral estudou recentemente a formação do seu património ao longo dos séculos X e XI e demonstrou a sua excelente organização a nível regional aquando da ascensão de João Peculiar ao cargo arquiepiscopal. O clero bracarense empenhava-se então em evitar o “abraço de urso” que o arcebispado de Santiago de Compostela lhe pretendia impor. Maior centro de peregrinação da cristandade ocidental da época, na viragem do século XI para o século XII, Santiago chegara mesmo a almejar o trono pontifício e a obtenção do estatuto de sede apostólica. Ou seja, a força, riqueza e poder dos arcebispos compostelanos eram suficientes para ambicionar substituir a própria Roma. Por isso, a existência de Portugal como entidade política autónoma era igualmente decisiva para manter a proeminência regional do clero bracarense.

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Onde nasceu o primeiro rei de Portugal? A questão é debatida há mais de duas décadas. Em Guimarães, na Capela  de São Miguel do Castelo, a lápide sob a pia baptismal  faz referência ao evento, dando-o como certo em Guimarães. José Mattoso considera o nascimento em Viseu, proposto por Almeida Fernandes, como mais provável.

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A Porta de Almedina, em Coimbra , é uma reminiscência da cerca de muralhas que no século XII envolvia a cidade do Mondego.

Não é assim apenas o voluntarismo político-militar de Afonso Henriques que explica, a nível interno, a criação de um território politicamente autónomo em Portugal entre finais do século XI e inícios do século XIII, abrangendo os antigos condados de Portucale e de Coimbra que tinham existido entre os séculos IX e XI. Se a complexidade do leque de actores em presença era grande a nível interno, no exterior de Portugal e da Península Ibérica, essa complexidade aumentava: vivia-se a época das Cruzadas.

Nenhum historiador que estude o século XII desliga os acontecimentos sucedidos no palco ibérico do quadro mais vasto das Cruzadas.

Durante muito tempo, a perspectiva nacionalista, dominante na historiografia portuguesa e espanhola até ao último quartel do século XX, insistiu na singularidade da reconquista cristã, processo de “recuperação” paulatina pelos monarcas cristãos medievais do território conquistado pelos muçulmanos em 711. Hoje, porém, nenhum historiador que estude o século XII (e, embora menos, o século XIII) desliga os acontecimentos sucedidos no palco ibérico do quadro mais vasto das Cruzadas, processo de longa duração que enquadra a história da Europa desta época.

Aliás, três importantes marcos da formação do território português coincidiram com etapas deste movimento expansionista da cristandade latina do Ocidente sobre o Médio Oriente: em 1147, a conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques (Segunda Cruzada), em 1189 a primeira conquista de Silves por D. Sancho I (Terceira Cruzada) e, em 1217, a conquista definitiva de Alcácer do Sal por D. Afonso II (Quinta Cruzada). 

Alguns historiadores sugerem que o próprio casamento de D. Afonso Henriques em 1146 com D. Mafalda (ou Matilde), filha de Amadeu, conde de Maurienne e de Sabóia, sobrinha de Luís VII, rei de França, se inscreveria no plano delineado pelo papa Eugénio III, antigo monge cisterciense, e pelo seu mentor e anteriormente seu abade, Bernardo de Claraval, de lançar a Segunda Cruzada como reacção à tomada da cidade de Edessa, na Síria, em 1144. Se não fez parte da trama tecida, pelo menos é interessante, como observa José Mattoso, que a filha de um dos barões mais empenhados nessa cruzada contraísse matrimónio com um prócere que, em região bem distante da sua, combatia ferozmente o poder muçulmano. D. Mafalda viria a morrer em 1157, depois de dar à luz a infanta Sancha, última de sete filhos, três do sexo masculino e quatro do feminino, nascidos em dez anos.

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Não sendo filho de rei, D. Manuel I promoveu a exaltação da memória dos antecessores para consolidar a sua posição no plano simbólico. Esta genealogia, de D. Afonso Henriques a D. Afonso II, faz parte de uma série desenhada pelo iluminador flamengo Simon Benning para o infante D. Fernando, terceiro filho de D. Manuel. 
(Créditos: Iluminura: Heritage (British Library)/Fototeca; Fonte da genealogia: “D. Afonso Henriques”, de José Mattoso, 2007)

A proximidade geográfica de Maurienne e da Sabóia relativamente à Borgonha, pátria da linhagem do rei dos portugueses, origem das ordens religiosas de Cluny e de Cister, intimamente ligadas ao esforço mobilizador das duas primeiras cruzadas, exerceu seguramente uma influência adicional na opção do rei.

Apesar de, em 1169, D. Afonso Henriques ter doado aos templários um terço das conquistas que viessem a fazer no Alentejo, a presença templária transtagana limitar-se-ia à zona de Nisa e Alpalhão.

Esta dimensão internacional da conquista portuguesa liderada por D. Afonso Henriques e pelos seus descendentes imediatos é sublinhada pela chegada a Portugal, ainda na década de 1120, da Ordem dos Templários, cuja implantação em território português se distribuiria pela região a sul de Coimbra, Santarém e vale do Zêzere e por toda a Beira Baixa, principalmente na zona fronteiriça com o reino de Leão. O contributo da Ordem do Templo para o esforço de defesa do território, visível na qualidade dos castelos erigidos sob sua iniciativa, sobretudo durante as duas décadas seguintes a 1160, sob a liderança do longevo Mestre Gualdim Pais, tem sido destacado intensivamente pelo historiador Mário Barroca. Apesar de, em 1169, D. Afonso Henriques, na sequência do desastre de Badajoz, ter doado aos templários um terço das conquistas que viessem a fazer no Alentejo, a presença templária transtagana limitar-se-ia à zona de Nisa e Alpalhão.

Até 1157, os reinos de Leão e Castela estiveram unidos sob a coroa de Afonso VII, primo de D. Afonso Henriques. Com a morte do imperador, os seus territórios foram divididos entre os filhos, Sancho III de Castela e Fernando II de Leão.

Até 1157, os reinos de Leão e Castela estiveram unidos sob a coroa de Afonso VII, primo de D. Afonso Henriques. Com a morte do imperador, porém, os seus territórios foram divididos entre os filhos, Sancho III de Castela e Fernando II de Leão. Povoador das terras de Riba-Côa, em 1161 Ibn Errik (“filho de Henrique”, o nome dado pelas fontes muçulmanas a Afonso Henriques) via o rei leonês criar mesmo junto à sua área de influência, com o possível apoio de figuras da nobreza portuguesa regional entretanto bandeadas para a corte de Leão, um novo centro político – a urbe de Ciudad Rodrigo. 

Esta fundação desencadearia um conflito entre os dois reinos, que José Mattoso denomina sem hesitar “Guerra com Leão”. De início, prevaleceu a vantagem portuguesa. Até 1165, D. Afonso Henriques lançou incursões repetidas contra a Galiza e, em princípios de 1163, praticou mesmo actos de soberania em Salamanca, com o apoio dos cavaleiros salamantinos prejudicados por Fernando II e contra ele rebelados devido à fundação de Ciudad Rodrigo. Em 1165, o rei português viria a conseguir que o leonês se tornasse seu genro através do casamento de sua filha D. Urraca com o príncipe leonês. Do enlance, nasceria o futuro Afonso IX, rei de Leão. 

Em 1169, perante a tentativa de conquista de Badajoz por D. Afonso Henriques, o monarca leonês impôs ao sogro, então com cerca de 60 anos, a sua maior e mais decisiva derrota militar

Porém, o parentesco só debilmente atenuava o facto de o rei português ter do outro lado da fronteira leste e norte um poder militar concorrente ainda mais activo, almejando os mesmos objectivos de conquista territorial a sul. Em 1169, perante a tentativa de conquista de Badajoz por D. Afonso Henriques, o monarca leonês impôs ao sogro, então com cerca de 60 anos, a sua maior e mais decisiva derrota militar, depois de previamente ter pactuado a paz com o califa dos almóadas – a dinastia magrebina que, entretanto, tinha reunificado o poder muçulmano na Hispânia. Geraldo Geraldes Sem-Pavor, seu aliado, reconquistador de Évora em 1165, via assim gorado o propósito de alargar a área de influência portuguesa até à sede do reino taifa muçulmano – isto é, Badajoz. O rei ficou preso, durante dois meses, teve de renunciar às suas conquistas nas terras galegas de Toronho e Límia, e Geraldo viu-se obrigado a devolver todos os castelos anteriormente capturados, no âmbito da campanha de conquista desenvolvida entre 1165 e 1169. 

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A historiografia utiliza como fontes de informação documentos escritos e artefactos, revelados por escavações ou descobertos acidentalmente. De cima  para baixo, no sentido dos ponteiros do relógio, a carta de confirmação, por D. Afonso II, do foral concedido a Lisboa em 1179 por D. Afonso Henriques; um elmo descoberto na encosta do castelo de Torres Novas, que faria parte do armamento defensivo de um guerreiro; dinheiros que circulavam à data do reinado afonsino; um fragmento de “cota de malha”, talvez fabricado nas oficinas de Múrcia, uma cidade produtora de armamento no período almóada; uma ponta de flecha recolhida na alcáçova do castelo de Mértola; e um projéctil de catapulta de 1189, provavelmente usado na tomada de Silves.
(Créditos: Confirmação do Foral de Lisboa: Arquivo Municipal de Lisboa/Arquivo Histórico,Livro I de Místicos de Reis, doc. III. Elmo com nasal, séculos XII- XIII, Museu Municipal Carlos Reis, CM Torres Novas; Dinheiros de D. Afonso Henriques: INCM/Museu Numismático Português; Fragmento de “cota de malha”: meados do século XIII, Museu Municipal de Arqueologia de Silves; Ponta de flecha, século XII: Arquivo do Campo Arqueológico de Mértola; Projéctil de catapulta: finais do século XII, Museu Municipal de Arqueologia de Silves).


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O mosteiro de Alcobaça foi fundado em 1153, mas a construção definitiva da Abadia  Nova só foi iniciada no final do reinado (1178). Os monges mudaram-se em 1223 
e a igreja foi sagrada em 1253. A hierarquia católica viria a ter um papel essencial na legitimação do rei português, só reconhecida por bula papal em 1179.

Toda a actividade militar seria doravante chefiada pelo infante D. Sancho, associado então ao trono, devido à fractura exposta sofrida pelo rei numa perna e à sua demorada convalescença, passada pelo menos parcialmente em terras de Lafões, a banhos nas termas. 

O mito, aos poucos, foi ganhando vida, superando o registo documental e entranhando-se nas tradições de várias vilas e cidades.

A imagem do rei transmitida pela iconografia dos séculos XVII a XIX, em gravuras e telas, jamais reflecte, como é evidente, quaisquer debilidades – antes nos mostra um homem maduro, com a cabeça coroada, longas barbas grisalhas e encanecidas, de olhar determinado, que ora nos trespassa, ora olha, contemplativo, para o alto. Invulnerável, como prova a sua proverbial longevidade, em tempos tão atribulados e de risco. Cruzado sobre o peito, o braço forte segura, encostada ao ombro, como que a indicar o seu peso, a majestosa espada (ou montante, como alguns leitores certamente aprenderam, palavra só de si sugestiva da mítica dimensão da arma). Com o enquadramento mítico da figura, bastará ao leitor informado um arrebatamento de imaginação para visualizar a imagem em movimento e ouvir a voz tonitruante impor-se sobre o estertor da batalha, soltando aos seus homens gritos de guerra como “Sus, a eles!”, ou “Sant’Iago aos Mouros!”. O mito, aos poucos, foi ganhando vida, superando o registo documental e entranhando-se nas tradições de várias vilas e cidades.

As dificuldades na defesa da fronteira, crescentes desde a década de 1160, levavam o rei de Portugal em 1173 a pedir em Sevilha uma trégua de cinco anos.

Embora mantendo incólume o seu prestígio e autoridade como governante do reino, situação patente no facto de não terem existido mudanças imediatas nos principais cargos da governação, nunca mais Afonso Henriques teria condições de conduzir a guerra. Essa seria a tarefa confiada ao herdeiro do trono, cujo casamento, em 1174, com uma irmã do rei de Aragão, Afonso II, só podia ter-se realizado com o beneplácito do rei, já que este rompera o acordo conjugal que deveria uni-lo à infanta D. Mafalda, filha de D. Afonso Henriques. As dificuldades na defesa da fronteira, crescentes desde a década de 1160, levavam o rei de Portugal em 1173 a pedir em Sevilha uma trégua de cinco anos.

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Segundo o historiador-arqueólogo Mário Barroca, a espada atribuída a Afonso Henriques – guardada em depósito no Museu Militar do Porto – foi forjada no século XVII. Vivia-se então o domínio filipino em Portugal, o que talvez explique a necessidade nacional de recuperação dos mitos da “portugalidade”.

Em 1179, a corte portuguesa recebeu a bula papal “Manifestis Probatum”, através da qual o papa Alexandre III finalmente reconhecia a realeza de D. Afonso Henriques.

Em 1179, a corte portuguesa recebeu a bula papal “Manifestis Probatum”, através da qual o papa Alexandre III finalmente reconhecia a realeza de D. Afonso Henriques, louvando o denodo com que o rei se batera em prol da cristandade contra os inimigos da fé – “intrépido destruidor dos inimigos dos cristãos, diligente propagador da fé, bom filho da Igreja e príncipe católico, exemplo digno de imitação para os vindouros”. Um grande contributo para a compreensão das relações entre Portugal e o papado na época afonsina, protagonizadas pelo arcebispo bracarense D. João Peculiar, foi dado pelo trabalho persistente do historiador alemão Carl Erdmann, que estudou sistematicamente os documentos papais ao longo do século XX.

Culminava assim um longo processo iniciado em Dezembro de 1143, o ano em que D. Afonso Henriques entregou ao cardeal Guido, legado do papa, uma carta em latim, intitulada “Chaves do Reino dos Céus”, na qual prestava homenagem ao papa e se declarava cavaleiro de São Pedro. Essa era provavelmente a razão pela qual o imperador Afonso VII, seu primo, lhe dispensara um tratamento tão igualitário no tratado de Zamora desse mesmo ano, em contraste com os termos do tratado de Tui de 1137, celebrado entre ambos, mas com Ibn Errik a assumir uma posição submissa. A demora na resposta em nada prejudicara o Conquistador: apesar das vicissitudes entretanto sofridas, perante os almóadas e o rei de Leão, segurara poder e território, ainda que a progressão para sul não fosse garantida.

Na última década do século XIII, os papas Nicolau IV e Celestino V viriam a reconhecer aos cavaleiros portugueses da Ordem de Santiago o direito de nomear o seu próprio mestre, reforçando a dimensão nacional da instituição.

No fim do Outono de 1185, com 76 anos, D. Afonso Henriques morria, deixando um reino forte que, ainda em 1184, repelira com êxito um fortíssimo exército almóada comandado pelo próprio califa e que entrara por território português adentro adiantando-se até Santarém. 

Na última década do século XIII, os papas Nicolau IV e Celestino V viriam a reconhecer aos cavaleiros portugueses da Ordem de Santiago o direito de nomear o seu próprio mestre, reforçando a dimensão nacional da instituição. No primeiro quartel do século XIV, um dos primeiros mestres portugueses, D. Pedro Escacho, encabeçou o memorial dirigido ao papa sobre os agravos cometidos pelos mestres gerais com uma referência a D. Afonso Henriques: “D. Afonso, primeiro rei de Portugal, de ilustre memória, que, com a sua mão poderosa, a bárbara ferocidade dos sarracenos combateu no Campo de Ourique, foi elevado a rei de Portugal pelos seus nobres e outras comunidades para exaltação da fé verdadeira.” Na hora de reforçar a autonomia da sua Ordem e dos vastos territórios que tutelava face aos mestres castelhanos, o mestre português invocava em primeiro lugar a memória modelar daquele que, quase dois séculos antes, dedicara toda a sua vida a libertar o seu reino do jugo externo e a torná-lo independente – para a glória da sua linhagem e o bem dos naturais do seu senhorio.  

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Composição com cenas de combate, pormenor da folha 95 do Códice do Mosteiro de Alcobaça.

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