D. Afonso Henriques, a verdade e o mito do reinado mais longo.

Texto de Bernardo Sá-Nogueira   Fotografia de António Luís Campos

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Mandado construir no século XVI na Igreja de Santa Cruz de Coimbra, o túmulo de D. Afonso Henriques  simboliza a apropriação posterior e controversa do mito fundador. A polémica não é exclusiva do passado. Em 2007, o Ministério da Cultura não autorizou a abertura do túmulo para fins de investigação científica.

“D. Afonso Henriques obteve uma [Cruzada] para tirar Lisboa do poder dos infiéis. Viu-se em 1145 uma numerosa frota de Cruzados franceses, ingleses e alemães entrar no Tejo, atacar os mouros e arrebatar-lhes Lisboa. Desde que D. Afonso se viu senhor desta cidade a povoou de cristãos, e fez dela a sua capital, em lugar de Coimbra, que até ali o havia sido.” 

Este curto relato da conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques podia ser uma adaptação modernizada de uma narrativa medieval. Mas não é. Foi escrito em 1835, para o periódico lisboeta “A Bibliotheca Familiar e Recreativa”, e contém duas informações incorrectas. Lisboa foi conquistada em 1147 e a urbe só se tornaria capital do reino com D. Afonso III, bisneto do fundador. O segundo erro talvez se aceite, por ser uma nota que as fontes de informação da época não especificaram e só a investigação historiográfica apuraria. Mas o primeiro é estranho: desde a Idade Média que 1147 era reconhecido pelos historiadores como o ano em que teve lugar este acontecimento decisivo do reinado afonsino. 

A verdade é que, com o passar do tempo, a memória de qualquer fundador, de uma cidade, ou de um país, acaba por afastar-se do conhecimento fixado no discurso do historiador e é apropriada, individual e colectivamente, pelo cidadão comum.

Deve-se, é bom de crer, à popularização da figura mítica do rei e à sua distância relativamente à cultura erudita. A verdade é que, com o passar do tempo, a memória de qualquer fundador, de uma cidade, ou de um país, acaba por afastar-se do conhecimento fixado no discurso do historiador e é apropriada, individual e colectivamente, pelo cidadão comum. Mas antes de isso suceder, sendo essa memória quase sempre construída em época posterior pelos grupos sociais dominantes, ou a seu mando, ela reflectiu as prioridades e conveniências da elite em cada tempo histórico. Tomemos o exemplo da “Crónica de Dom Afonso Henriques”, escrita no reinado de D. Manuel por Duarte Galvão, um velho e experimentado político cortesão. Como documento, ela pouco interesse tem para conhecermos o primeiro rei português, mas é da maior importância para compreender o uso que se fazia da sua memória nos alvores do século XVI.

Foi o seu sucesso como defensor, aliado à inegável destreza nos negócios políticos, que lhe permitiu, com o apoio imprescindível da alta nobreza duriense e do clero bracarense, consolidar o poder.

O infante D. Afonso (“Henriques” a seguir ao nome bastaria para mostrar não ser filho de rei) era filho dos condes D. Henrique – um filho secundogénito de Henrique, duque de Borgonha – e de D. Teresa, filha bastarda do rei de Leão e Castela, Afonso VI. Constança, uma irmã do conde D. Henrique, tornara-se rainha de Leão e Castela por casamento com Afonso VI. Perante o fracasso do seu genro Raimundo, também de Borgonha e primo de D. Henrique, casado com a sua filha legítima D. Urraca, na defesa da fronteira ocidental do império contra a invasão das hostes muçulmanas comandadas pela dinastia marroquina dos Almorávidas, em 1093-1094, Afonso VI confiou a D. Henrique o governo político e militar desse território, casando-o com sua filha bastarda Teresa. Foi o seu sucesso como defensor, aliado à inegável destreza nos negócios políticos, que lhe permitiu, com o apoio imprescindível da alta nobreza duriense e do clero bracarense, consolidar o poder.

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Datada do final do século XII ou início do século XII, esta poderá ser a mais antiga representação do primeiro monarca português. Já coroado e de espada em punho, o rei enverga também o manto real. (Créditos: Museu Arqueológico do Carmo/José Pessoa/IMC).

Afonso Henriques nasceu em 1109, provavelmente em Viseu, pois é nesta cidade beirã que, por essa altura, se pode determinar historicamente a presença de sua mãe, a infanta D. Teresa, atendendo à reconstituição do seu itinerário com base nas fontes documentais da época. Assim o considera José Mattoso, o medievalista que, no século XX, mais contribuiu para a reflexão historiográfica sobre o reinado afonsino, editando criticamente Alexandre Herculano, revisitando a obra de todos os historiadores anteriores e publicando um extenso trabalho original sobre o tema ao longo de 25 anos.

O casamento posterior da mãe com o magnata galego Fernão Peres de Trava, e a tentativa, por parte da nova corte de D. Teresa, de atrair o território português de regresso à órbita galega, são factores que teriam  contribuído para afastar o infante do convívio de sua mãe.

O futuro rei foi educado (“criado”, como então se dizia) no Entre Douro e Minho, em terras de seu aio, possivelmente D. Egas Moniz de Ribadouro. Órfão de pai em 1112, portanto com 3 anos, certamente não pôde guardar dele outras recordações que não as memórias relatadas pelos seus educadores. O casamento posterior da mãe com o magnata galego Fernão Peres de Trava, seguido do nascimento de filhos do casal, e a tentativa, por parte da nova corte de D. Teresa, de atrair o território português de regresso à órbita galega, secundarizando-o como margem geográfica, são factores que teriam certamente contribuído para afastar o infante do convívio de sua mãe.

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