Arrojados e ambiciosos, os reis Serpente serviram-se da força e da diplomacia para criarem a mais poderosa aliança da história da sua cultura. 

Texto Erik Vance   Fotografia David Coventry

Calakmul - No século VII d.C., a dinastia Serpente reinava sobre esta cidade capital, na actual região meridional do México. Esta estrutura seria uma pirâmide com 55 metros de altura. A partir de Calakmul, os reis Serpente geriam uma complexa rede de alianças. Fotografia Conselho Nacional para a Cultura e para as Artes, Instituto Nacional de Antropologia e História (INAH), México.

 A cidade antiga de Holmul não tem muito para ver. Para o observador comum, trata-se apenas de uma série de colinas íngremes e florestadas no meio da selva da região setentrional da Guatemala, perto da fronteira mexicana. Aqui, na bacia hidrográfica de Petén, a floresta é densa e quente, mas mais seca do que seria de esperar. É igualmente silenciosa, se não contarmos com o ruído das cigarras e com os chamamentos esporádicos dos macacos uivadores. 

Uma observação mais atenta permite perceber que estas colinas se encontram dispostas em enormes anéis, como viajantes acocorados em torno de uma fogueira em noites frias. Por fim, uma observação ainda mais rigorosa mostrará que parte das colinas é composta por pedra talhada. Algumas formações registam até túneis escavados nos flancos. Na verdade, não se trata de colinas mas de antigas pirâmides, abandonadas após o colapso da civilização maia, há cerca de um milénio. 

Este sítio foi uma próspera cidade durante o período maia Clássico (250-900 d.C.), época em que a escrita e a cultura floresceram por toda a região que actualmente integra a América Central e o Sul do México.

Este sítio foi uma próspera cidade durante o período maia Clássico (250-900 d.C.), época em que a escrita e a cultura floresceram por toda a região que actualmente integra a América Central e o Sul do México. Foi também um período de turbulência política: duas cidades-estado rivais mantiveram-se em conflito permanente, combatendo entre si pela conquista da supremacia. Durante um curto espaço de tempo, uma dessas cidades-estado impôs-se e tornou-se aquilo que mais se assemelhou a um império na história dos maias. Era governada pelos reis Serpente da dinastia dos Kaanul, cuja existência ninguém sequer conhecia até há poucas décadas. Graças a sítios arqueológicos em redor desta cidade-estado, entre os quais Holmul, os arqueólogos conseguem agora perscrutar a história dos reis Serpente. 

As máscaras dos túmulos de Calakmul destinavam-se a facilitar a passagem dos membros da elite Serpente para o outro mundo. Imagem captada no Palácio Nacional da Cidade do México. Fotografia Conselho Nacional para a Cultura e para as Artes, INAH, México. 

Holmul não é um sítio arqueológico grande nem famoso, como a vizinha cidade de Tikal, e permaneceu ignorado pelos arqueólogos até ao ano 2000, altura em que Francisco Estrada-Belli chegou à região. Este guatemalteco nascido em Itália tem cabelos desgrenhados e atitude descontraída. Não procurava na altura achados espectaculares, como tabuinhas escritas do período Clássico ou sepulturas ornamentadas. Queria apenas aprofundar os seus conhecimentos sobre as raízes dos maias. Uma das primeiras coisas que encontrou foi um edifício a alguns quilómetros daquilo que parecia ser o núcleo central de pirâmides de Holmul. No interior, havia vestígios de um mural onde se viam soldados em caminhada rumo a um local distante.

Estranhamente, algumas partes do mural tinham sido destruídas, aparentemente pelos próprios maias, numa atitude deliberada de obliteração da história ali representada. Na esperança de compreender a razão, Francisco abriu túneis em várias pirâmides. Os antigos habitantes construíam as suas pirâmides em patamares sucessivamente sobrepostos, como matrioskas russas. Quando o povo de Holmul acrescentava uma nova camada, preservava a que ficava por baixo, o que permitiu abrir túneis até ao interior e examinar as estruturas anteriores com grande pormenor. 

Os rostos régios de jade, mais valioso do que o ouro para os antigos maias, evocavam os ciclos agrícolas anuais e a regeneração. Imagem captada no Museu do Sítio de Comalcalco. Fotografia Conselho Navional para a Cultura e para as Artes, INAH, México.

Em 2013, Francisco e a sua equipa conseguiram abrir caminho até ao interior de uma das maiores pirâmides, seguindo uma escadaria antiga até à entrada de um edifício cerimonial. Esgueirando-se por um buraco feito no chão, descobriram um friso de oito metros de comprimento, magnificamente conservado, acima do acesso a um antigo túmulo. 

Os frisos de estuque são muito raros e frágeis. Neste, encontravam-se representados três homens, incluindo um rei de Holmul, saindo das bocas de estranhos monstros ladeados de criaturas do submundo, entrelaçadas com duas gigantescas serpentes emplumadas. O trabalho artístico era icónico e impressionantemente vibrante.

Enquanto contemplava o friso, Francisco reparou numa série de entalhes na zona inferior. Ajoelhando-se, avistou uma faixa de caracteres, ou glifos, formando a listagem dos reis de Holmul. Perto do centro, viu um glifo que era, assim o percebeu de imediato, o mais electrizante achado da sua carreira: uma serpente sorridente. 

“Entre diversos glifos, vi o [nome de] Kaanul”, afirma. “Até aí, éramos anónimos: Holmul era anónima. De repente, estávamos na época mais entusiasmante da história dos maias.”

Waka (El Perú) - Aproximadamente em 656, outro aliado da dinastia Serpente, o Rei Trono do Jaguar, foi sepultado nesta cidade-estado. No seu túmulo, foram encontradas figuras de cerâmica pintada que representavam um ritual mítico do mundo subterrâneo. O Rei Serpente Yuknoom Cheen II desempenha o papel de rei. Uma filha sua, a Senhora Mão de Nenúfar reza pela ressurreição espiritual dos mortos. Entre outros participantes presentes, contam-se a viúva do rei e vários cortesãos. Ministério da Cultura e do Desporto da Guatemala, Imagens do slideshow fotografadas no Museu Nacional, Cidade da Guatemala:

A história da descoberta dos Kaanul, ou Serpentes, e os seus esforços no sentido de fundar um império começa em Tikal, cidade dos seus inimigos mais odiados. Da mesma maneira que dominou as terras baixas dos maias durante vários séculos, Tikal tem dominado a arqueologia maia desde a década de 1950. Esta ampla cidade teve outrora uma população de aproximadamente sessenta mil habitantes e os seus edifícios elegantes certamente deslumbravam os visitantes em 750 d.C., tal como deslumbram os turistas modernos. 

Nela havia também centenas de blocos de pedra magnificamente esculpidos e semelhantes a lápides funerárias. Interpretando as inscrições neles existentes, os cientistas reconstituíram a história de Tikal até à sua queda no século IX. Há, porém, um estranho intervalo (aproximadamente entre 560 e 690), durante o qual nenhuma estela foi entalhada e pouco foi construído. Intrigados por esta interrupção de 130 anos, os arqueólogos chamaram-lhe hiato de Tikal e não conseguiram desvendá-lo. 

Um relevo proveniente de La Corona (Guatemala), outrora a cidade antiga de Saknikte, mostra o futuro rei Serpente Yuknoom Cheen II em actividade lúdica durante uma visita. Os glifos fornecem a data: 11 de Fevereiro de 635.Ministério da Cultura e do Desporto da Guatemala. Fotografia captada no Laboratório de la Corona, Cidade da Guatemala. 

Na década de 1960, os arqueólogos começaram a preencher esta lacuna, ao repararem que existia um estranho glifo disperso por vários sítios arqueológicos do período clássico Maia. Era uma cabeça de serpente com o esgar sorridente de um palhaço, rodeada de marcas associadas à realeza. Em 1973, a arqueóloga Joyce Marcus identificou-o como glifo heráldico. As palavras simbolizavam uma cidade e um título de governo que funcionavam como uma espécie de escudo de armas. Perguntou a si mesma se poderia estar relacionado com o hiato de Tikal. E se alguns guerreiros desconhecidos tivessem conquistado a cidade? Se assim fosse, de onde teria vindo tamanha força? E não deveriam os arqueólogos conhecê-la bem?

As florestas da bacia do Petén apresentam-se quentes e ressequidas durante a estação seca e quase intransponíveis na estação das chuvas. Encontram-se infestadas de plantas e insectos venenosos e ameaçadas por quadrilhas de traficantes de droga. Mesmo assim, Joyce Marcus explorou-as durante meses, visitando as ruínas e recolhendo fotografias de glifos. Onde quer que fosse, encontrava referências à serpente sorridente, em especial nos arredores da cidade antiga de Calakmul, actualmente localizada no México, junto da fronteira meridional do país. 

“Estes sítios-satélite mencionavam uma cidade no centro. Por isso, num certo sentido, era uma espécie de buraco negro”, afirma ela. “Era o núcleo central e uma rede de sítios em seu redor, equidistantes de Calakmul.” 

Quando chegou a Calakmul, cujas duas pirâmides centrais eram facilmente visíveis de avião, ficou impressionada pela sua dimensão: poderia ter contido cerca de cinquenta mil pessoas na cidade. O solo apresentava-se juncado de estelas. O calcário era tão macio que longos séculos de erosão tinham apagado por completo qualquer inscrição. Só encontrou dois glifos de serpente em toda a cidade. 

O mistério das serpentes incitou um jovem investigador britânico, Simon Martin, a reunir toda a informação possível acerca dos glifos de serpente, em Calakmul e noutros sítios mais pequenos. Pegando em pistas sobre batalhas e intriga política recolhidas em todo o império maia, conseguiu reconstituir o quadro dos reis Serpente e da sua dinastia. 

Por fim, Simon Martin e o arqueólogo Nikolai Grube publicaram um livro descrevendo as histórias entrecruzadas dos reinos do mundo maia antigo.

“Só temos informação de Tikal a partir de Tikal. No caso de Calakmul, temos dados a partir de todos os outros sítios”, afirma Simon. “Foi como se fosse agregando a partir do nevoeiro. Pouco a pouco, o significado destes aparecimentos aleatórios parece apontar na mesma direcção.”

Por fim, Simon Martin e o arqueólogo Nikolai Grube publicaram um livro descrevendo as histórias entrecruzadas dos reinos do mundo maia antigo. No centro desse mundo, durante um século de esplendor, estiveram os reis Serpente. À semelhança de Joyce Marcus, Simon afirma que o reino da dinastia Serpente era uma espécie de buraco negro, sugando todas as cidades em seu redor e criando aquilo que poderia ter sido um império maia. Como é evidente, ainda há muitas perguntas por responder acerca dos reis Serpente: como viveram, como governaram e como combateram. Na verdade, até a existência de alguns é questionável.

No final do século V, Tikal era uma das mais poderosas cidades-estado da região. Os arqueólogos suspeitam que essa posição se justificaria com o apoio de uma cidade muito maior, localizada bem alto nas montanhas, mil quilómetros para oeste, chamada Teotihuacan, perto da actual Cidade do México. Durante séculos, estas duas cidades moldaram a pintura, a arquitectura, a olaria, o armamento e o planeamento urbano dos maias.

 

Tudo isso mudou no século VI, quando Teotihuacan se separou da região maia, deixando Tikal abandonada ao seu destino.

Entram então em cena os reis Serpente. Ninguém sabe ao certo de onde vieram: não existem quaisquer provas do seu governo em Calakmul anteriores a 635. Alguns especialistas imaginam--nos centenas de anos antes do período Clássico, deambulando de lugar para lugar, criando uma megacidade após outra. Mas isto são conjecturas. Os primeiros glifos evidentes de serpentes surgem em Dzibanché, uma cidade na região meridional do México, 125 quilómetros a nordeste de Calakmul. 

Fosse qual fosse a raiz da dinastia Serpente, sabemos que, a partir do início do século VI, dois reis Serpente sucessivos reconheceram que Tikal estava vulnerável e fizeram uma manobra arrojada de controlo político. O primeiro deles, Jaguar Mão-de-Pedra, passou várias décadas em visitas diplomáticas de cortesia nas terras baixas dos maias. 

Hoje, estes actos podem parecer inócuos, mas a orquestração de casamentos, a disputa de uma partida do antigo jogo de bola maia (desporto que incluía uma bola, vários tacos e arcos de pedra) e outros actos sociais de cortesia ajudavam, frequentemente, a processar futuras conquistas no mundo maia. Davam-se presentes, prestava-se homenagem, atraíam-se aliados decisivos. Ninguém parece ter sido melhor do que a dinastia Serpente neste tabuleiro.  

Pouco tempo depois, o aliado de Tikal a sudeste, a cidade de Caracol, tomou o partido da dinastia Serpente, bem como Waka, uma cidade guerreira a oeste. Os reis Serpente foram atraindo pacientemente a fidelidade de outras cidades a norte, leste e oeste de Tikal, formando uma gigantesca pinça destinada a estrangular o seu inimigo. Jaguar Mão-de-Pedra e os seus aliados consideraram-se finalmente prontos para avançar contra Tikal, mas o senhor Serpente morreu antes de as suas manobras políticas darem resultado. Coube ao seu sucessor (e talvez filho), Testemunha Celeste, accionar a armadilha. O jovem rei deveria ter uma figura impressionante. Segundo os cientistas que examinaram os seus restos mortais, possuía uma poderosa compleição física e tinha o crânio marcado por inúmeras batalhas, com cicatrizes sobrepostas a cicatrizes mais antigas. 

GUERRA DOS TRONOS - Tikal foi uma superpotência até à ascensão dos reis Serpente no século VI. Os futuros suseranos, talvez sediados em Dzibanché, firmaram alianças com cidades (a vermelho) situadas em redor de Tikal (aliados desta indicados a negro) que lhes permitiram esmagar a sua rival em 562. Em 635, a dinastia Serpente transferiu a sua capital para Calakmul. Um rei chamado Deus Que Limpa o Céu deu o pontapé de saída para um regresso de Tikal à supremacia, obtendo uma vitória decisiva sobre Calakmul (então com mais dois aliados, assinalados a cinzento) no dia 5 de Agosto de 695. Arte: Jerome N. Cookson. Fonte: David Freidel, Universidade Washington em Saint Louis.

Como se pode ler em inscrições de um altar em Caracol, Testemunha Celeste pôs fim ao reino de Tikal no dia 29 de Abril de 562. O rei organizou todas as peças e atacou de seguida. Chefiando o exército dos Serpente partiu de Waka rumo a leste, enquanto forças provenientes de Caracol, da vizinha cidade-estado de Naranjo e, provavelmente, de Holmul avançavam para oeste.

Os reis Serpente e seus aliados rapidamente esmagaram Tikal, saqueando a cidade e talvez sacrificando o rei sobre o seu próprio altar. Foi provavelmente nesta época que as comunidades de Holmul quase destruíram o mural encontrado por Francisco Estrada-Belli mais de 1.400 anos depois. Terá sido o testemunho de fidelidade aos seus novos senhores Serpente. O reinado da dinastia Serpente começara.  

Nos trinta anos seguintes, a história dos maias é um pouco obscura. Graças aos arqueólogos mexicanos Enrique Nalda e Sandra Balanzario, sabemos que Testemunha Celeste morreu dez anos após a sua vitória, quando tinha pouco mais de 30 anos. Em 2004, foram encontrados túmulos numa pirâmide de Dzibanché, bem como uma agulha de osso utilizada para rituais de sangue, máscaras de jade, obsidiana e pérolas e uma camada espessa de pó de cinábrio. Nas marcas inscritas de um dos lados da agulha, lê-se: “Esta é a oferenda de sangue de Testemunha Celeste.” Dos oito reis Serpente que governaram durante o hiato de Tikal, ele é um dos dois únicos cujos restos mortais foram encontrados. 

A sepultura reconstituída de um rei Serpente, que se pensa ser Garra de Fogo, morto em 697, inclui contas de jade e conchas, cosidas a um manto e alguns objectos de cerâmica que tinham sido enterrados em Calakmul. Conselho Nacional para a Cultura e para as Artes, INAH, México. Fotografia captada no Museu Arqueológico de Campeche Fuerte de San Miguel.

Os reis Serpente voltam a aparecer, de seguida, muito mais para oeste, na esplendorosa cidade de Palenque. Ao contrário das metrópoles das terras baixas como Tikal e Calakmul, mais secas, Palenque era requintada e sofisticada, com as suas elegantes pirâmides e torre de atalaia revestidas a estuque aninhadas nas faldas das montanhas que conduzem ao golfo do México e às terras altas centrais. Graças aos seus amplos rios e cascatas, dispunha de água em abundância, sendo possível que nela existissem instalações sanitárias com águas correntes. 

Um friso com oito metros de comprimento descoberto em Holmul mostra uma cena mítica sugerindo uma ligação estreita com a dinastia Serpente. A figura central é o rei, falecido em 590 e sepultado no túmulo decorado com este friso. Ministério da Cultura e do Desporto da Guatemala. Fotografia captada no Laboratório de la Corona, Cidade da Guatemala. 

Embora de pequena dimensão (talvez com dez mil habitantes), era um pólo de civilização e uma porta de acesso ao comércio com o Oeste, pelo que terá sido o alvo ideal para um jovem poder ambicioso. A dinastia Serpente era então encabeçada por um rei chamado Serpente Enrolada, o qual, à semelhança dos seus antecessores, invadia servindo-se de testas-de-ferro e aliados. A rainha de Palenque, Coração do Lugar Ventoso, defendeu a sua cidade contra o ataque dos invasores Serpente, mas rendeu-se no dia 21 de Abril de 599.

Esses impulsos expansionistas foram raros no período maia Clássico. Nesta época, cada cidade era particularmente desagregada e muito focada no seu território, alheia a ambições mais amplas. A dinastia Serpente foi distinta. 

“O ataque desferido contra Palenque inscrevia-se num plano mais vasto”, afirma Guillermo Bernal, epigrafista da Universidade Nacional Autónoma do México. “Não creio que se devesse a razões de natureza material, mas ideológica. Os Kaanul ambicionavam criar um império.”

A ideia de construção de um império é polémica entre os arqueólogos da civilização maia. Para muitos, este conceito não é plausível em termos culturais e geográficos. 

A ideia de construção de um império é polémica entre os arqueólogos da civilização maia. Para muitos, este conceito não é plausível em termos culturais e geográficos. Ainda assim, quando analisamos a dinastia Serpente, dificilmente conseguimos deixar de ver um padrão expansionista. Fizeram alianças com as maiores cidades a leste, conquistaram as cidades a sul e comerciaram com as do Norte. Palenque representava a fronteira do mundo maia a oeste. Mas sem cavalos nem exército permanente, como seriam capazes de mantê-la?

Para controlar uma região tão vasta, era preciso um tipo de organização nunca antes visto entre os maias. Também era necessária uma nova sede de poder, mais próxima das cidades ricas em jade do Sul. Dzibanché situava-se a 125 quilómetros de Calakmul, uma distância impressionante para vencer a pé entre a selva densa. Não há quaisquer registos da mudança para a nova capital de Calakmul, mas em 635 os reis Serpente ergueram um monumento declarando-se senhores da cidade, depois de destronarem a dinastia reinante, conhecida como os Morcegos. 

Passado um ano, o maior dos governantes Serpente e talvez o maior de todos os reis maias subiu ao trono. Chamava-se Yuknoom Cheen II, ou Abalador de Cidades, como por vezes é denominado. Testemunha Celeste e Serpente Enrolada tinham sido conquistadores eficientes, mas Yuknoom Cheen era um verdadeiro rei. À semelhança de Ciro, na Pérsia, e de Augusto, em Roma, ele conseguiu habilmente virar uma cidade contra outra, ao mesmo tempo que consolidava o seu poder nas terras baixas dos maias, como nenhum antecessor ou sucessor foi capaz. E conseguiu manter a sua política de equilíbrios durante 50 anos. 

A melhor maneira de conhecer um rei pode ser através do conhecimento do seu criado. De igual forma, a melhor maneira de compreender um império é, frequentemente, pela análise de uma cidade clientelar. Talvez o criado mais interessante dos reis Serpente fosse uma pequena cidade chamada Saknikte, pouco digna de nota.

Numa investida destinada a dominar o centro da região maia, as forças da dinastia Serpente atacaram a cidade-estado rival de Tikal no dia 29 de Abril de 562. Nesta interpretação do momento da vitória, o rei Testemunha Celeste ergue-
-se em triunfo sobre o rei de Tikal, Pássaro Duplo, amarrado aos pés do rei Serpente. A derrota merguhou Tikal num período de decadência de 130 anos. Arte: Tomer Hanuka. Fontes: Simon Martin, Universidade da Pensilvânia.

Num certo sentido, os arqueólogos descobriram este sítio duas vezes. No início da década de 1970, encontraram uma série de painéis de pedra a circular no mercado negro. Belissimamente esculpidos com textos complexos, os painéis tinham sido saqueados e vendidos no estrangeiro sem qualquer rasto vinculativo ao lugar de origem. Glifos de uma serpente sorridente encontravam-se polvilhados entre eles. Os arqueólogos baptizaram o lugar de proveniência desconhecida onde os salteadores os tinham encontrado como Sítio Q.

O Sítio Q tornou-se uma espécie de Arca da Aliança para arqueólogos como Marcello Canuto. Numa tarde quente de Abril de 2005, ele andava na companhia de investigadores que cartografavam um sítio alcunhado de La Corona, na selva de Petén. Procurando cerâmica que permitisse datar o sítio, desceu a uma trincheira escavada por saqueadores rasgando uma pirâmide. Ali descobriu no muro um pedaço de pedra esculpida exposta, do tamanho de uma carteira. “Conseguia ver alguns rabiscos sobre a pedra”, conta Marcello. “Dei um salto à retaguarda. ‘Será que vi mesmo aquilo que penso que acabei de ver?’ Olhei outra vez e consegui ver mais do que apenas rabiscos:  era um texto escrito.” Sob várias camadas de solo e vegetação, encontravam-se alguns dos melhores e mais elegantes entalhes alguma vez vistos em trabalho de campo. “Assim que limpámos o local, percebemos que era o Sítio Q.”

Os seus príncipes deslocavam-se a Calakmul para receberem a sua educação e três casaram-se com princesas Serpente.

Desde então, Marcello está sempre lá. Saknikte, nome deste sítio maia, parece ter tido um estatuto especial no reino da dinastia Serpente. Os seus príncipes deslocavam-se a Calakmul para receberem a sua educação e três casaram-se com princesas Serpente. Ao contrário da cidade guerreira de Waka, a sul, Saknikte não travou muitas batalhas. Os seus reis ostentavam nomes pacíficos, aproximadamente traduzíveis por Cão Soalheiro, Minhoca Branca e Peru Vermelho. Nos painéis, vêem-se nobres a ingerir bebidas alcoólicas e a tocar flauta. 

Segundo painéis esculpidos descobertos pela equipa de Marcello Canuto, Yuknoom Cheen fez-lhe uma visita pouco antes de a capital da dinastia Serpente ser oficialmente transferida para Calakmul. O retrato elegante mostra Yuknoom Cheen sentado, aparentando descontracção, olhando de relance para o lado enquanto o rei de Saknikte olha para diante.

Saknikte não era o único lugar onde os reis Serpente aumentavam a sua influência. O nome de Yuknoom Cheen aparece em muitos lugares de toda a região maia. Deu a sua filha Nenúfar em casamento a um príncipe de Waka: mais tarde, ela tornou-se uma poderosa rainha guerreira. Pôs reis novos no trono de Cancuén, a sul, e em Moral-Reforma, quase 160 quilómetros a oeste. Em Dos Pilas, venceu o irmão do novo rei de Tikal e transformou-o num vassalo fiel. 

Fundou igualmente uma nova rota comercial na região ocidental do seu reino, unindo entre si diversos aliados. Os cientistas têm reparado num elemento estranho comum a estas cidades vassálicas. Aparentemente certos aliados próximos não possuíam glifos heráldicos próprios e os seus reis, embora sumptuosamente adornados, deixavam de utilizar títulos régios quando caíam sob a alçada da dinastia Serpente. 

Entretanto, os reis Serpente de Calakmul assumiram um título mais majestoso: kaloomte. O rei de reis. “Acho que mudaram a maneira de fazer política, criando algo novo”, afirma o arqueólogo guatemalteco Tomás Barrientos, co-responsável pela gestão do sítio arqueológico de Saknikte. “Do meu ponto de vista, é um salto decisivo na história dos maias.”

O glifo heráldico dinástico dos reis Serpente encontra-se por toda a região maia. Fotografia Conselho Nacional para a Cultura e para as Artes, INAH, México.

Enquanto tudo isto se passava, os reis Serpente mantinham sob vigilância o seu velho inimigo, Tikal, que tentou repetidamente revoltar-se e vingar-se. No ano 657, depois de fortalecer os seus aliados, Yuknoom Cheen e um rei-fantoche seu vizinho, um homem ambicioso chamado Deus Que Martela o Céu, atacaram Tikal. Duas décadas mais tarde, Tikal voltou a rebelar-se e o rei Serpente tornou a orquestrar a sua derrota, matando o rei. 

Como conseguiu Tikal manter capacidade suficiente para ameaçar a aparentemente todo-poderosa dinastia Serpente? Segundo os especialistas, os reis maias geriam cuidadosamente as suas alianças e, muitas vezes, deixavam vivos os reis derrotados. É possível que no período maia Clássico as batalhas fossem sobretudo cerimoniais. Ou talvez os aliados dos reis derrotados, temendo que as suas próprias gargantas pudessem ser as próximas, insistissem em pedidos de clemência. Ou talvez os reis maias normalmente não tivessem exércitos de dimensão suficiente para arrasar uma cidade.

Fosse qual fosse a razão, Yuknoom Cheen empenhou-se num delicado e perigoso jogo político. Em vez de entregar Tikal ao seu aliado, Deus Que Martela o Céu, organizou uma cimeira de paz com o novo rei de Tikal. Apresentou o seu sucessor (e, provavelmente, filho), Garra de Fogo, o qual um dia haveria de herdar o reino. E, em derradeira análise, haveria de perdê-lo para sempre.

Com a avançada idade de 86 anos, Yuknoom Cheen morreu. A maioria dos cidadãos de Calakmul teria sorte se atingisse metade dessa longevidade, mas os reis eram uma estirpe mimada.

Com a avançada idade de 86 anos, Yuknoom Cheen morreu. A maioria dos cidadãos de Calakmul teria sorte se atingisse metade dessa longevidade, mas os reis eram uma estirpe mimada. A dentição revelada nas sepulturas ficou admiravelmente preservada, mostrando a sua vitalidade. A subnutrição grassava entre as classes mais pobres, mas as elites podiam padecer de excesso de peso e alguns dos seus membros talvez sofressem até de diabetes. 

Segundo alguns autores, Garra de Fogo era precisamente um desses homens. É provável que governasse o reino muito antes de o pai morrer. Mas, como acontece com os filhos de muitos grandes reis, não conseguia actuar ao nível das elevadas expectativas geradas pelo pai. Apesar de diversas derrotas esmagadoras, Tikal revoltou-se de novo no ano 695. Desta feita, governava a cidade um jovem rei, impressionantemente chamado Deus Que Limpa o Céu. Garra de Fogo mobilizou outro exército Serpente para enfrentar a rebelião. 

Não se sabe ao certo o que sucedeu naquele dia de Agosto. Na opinião de alguns especialistas, Deus Que Martela o Céu, ressentido por ter sido desprezado várias vezes, traiu os seus aliados Serpente no campo de batalha. Segundo outros autores, Garra de Fogo, de meia-idade e padecendo de uma dolorosa doença de coluna, não inspirava confiança aos seus soldados. Talvez as estrelas pura e simplesmente não tivessem um alinhamento favorável. 

O exército Serpente foi derrotado. Poucos anos mais tarde, com o seu poder em estilhaços, Garra de Fogo morreu, esfumando-se com a sua morte os sonhos de um império Serpente. 

O exército Serpente foi derrotado. Poucos anos mais tarde, com o seu poder em estilhaços, Garra de Fogo morreu, esfumando-se com a sua morte os sonhos de um império Serpente.
A maioria dos arqueólogos defende que esta linha dinástica real nunca recuperou, embora tenha continuado a exercer influência na região. No ano 711, o mais forte dos aliados dos reis Serpente, Naranjo, afirmava ser ainda fiel aos Serpente e, dez anos depois, outra princesa Serpente aparecia em Saknikte.

Em meados do século VIII a dinastia Serpente já perdera a sua força. Um vizinho de Calakmul foi ao ponto de erguer uma estela comemorativa do regresso dos reis Morcego, na qual se vê um guerreiro a pisar uma serpente – um símbolo poderoso da decadência dos antigos governantes. Ao longo do século seguinte, Tikal puniu as cidades-estado que tinham apoiado no passado os reis Serpente, como Waka, Caracol, Naranjo e Holmul. 

Os habitantes de Saknikte, famosos como amantes e não como guerreiros, convidaram uma princesa de Tikal a casar-se com um dos seus nobres em 791. Tikal nunca conseguiria o poder alcançado pela dinastia Serpente e, em meados do século IX, os maias do período Clássico entravam em colapso. Fosse por excesso populacional, por instabilidade ou por seca prolongada, as cidades clássicas mergulharam no caos e acabaram por ser abandonadas. 

Teriam os reis Serpente conseguido evitar esse colapso? O que teria acontecido se Garra de Fogo tivesse derrotado Tikal em 695?

Teriam os reis Serpente conseguido evitar esse colapso? O que teria acontecido se Garra de Fogo tivesse derrotado Tikal em 695?

“Acho que o colapso poderia ter sido evitado”, afirma o arqueólogo David Freidel, que dirige as escavações em Waka. “A incapacidade para unir a região central do mundo maia sob um governo único foi um factor preponderante na decadência geradora de anarquia, guerra endémica e vulnerabilidade à seca.”

Possivelmente, um dia obteremos a resposta. Há quarenta anos, os reis Serpente eram apenas um boato. Há vinte anos, eram vistos meramente como senhores de Calakmul. Hoje, sabemos que governaram o maior e mais poderoso reino maia de sempre.

Assim progride o enlouquecedor trabalho lento da arqueologia. Baseando-se em vislumbres e fragmentos, os especialistas tentam reconstituir um quadro coerente do passado. E muitas vezes discordam entre si. 

O arqueólogo Ramón Carrasco, responsável pelo sítio de Calakmul, afirma que os reis Serpente nunca habitaram Dzibanché e nunca decaíram do seu esplendor. Embora trabalhando lado a lado com Simon Martin e outros investigadores e analisando as mesmas provas, chegou a conclusões diferentes. É certamente por isso que os arqueólogos não param de procurar mais pistas. Em 1996, Ramón coordenou a maior estrutura existente em Calakmul, uma elegante pirâmide com data anterior a 300 a.C. Perto do topo, enquanto limpava cuidadosamente as pedras e as levantava, encontrou os restos de um corpo. E por baixo deles uma câmara. 

“Erguemos a tampa e conseguimos ver materiais lá em baixo”, conta este investigador de ar distinto com uma voz grave, de muitos cigarros fumados. “Vimos alguns ossos, oferendas e muita poeira. Parecia que víamos o pó do tempo.”

Foram necessários nove meses para escavar com segurança uma via de acesso até ao túmulo, de forma a permitir a escavação. Quando, por fim, conseguiu entrar lá dentro, Ramón sabia que a sepultura descoberta teria pertencido
a um rei poderoso. O corpo fora embrulhado num manto fino e coberto com contas. O rei não estava só: uma jovem mulher e uma criança tinham sido sacrificados e depositados numa câmara adjacente. 

O corpo do rei, segundo Ramón Carrasco, “encontrava-se revestido de lama e poeira. Podiam ver-se algumas contas de jade, mas não se via a máscara”. Então, pegou num pincel e começou a limpá-lo cuidadosamente. “A primeira coisa que vi foi um olho, que olhava para mim a partir do passado.”

O olho pertencia a uma bela máscara de jade, destinada a homenagear o rei na vida do Além. Um exame posterior revelou tratar-se de um homem robusto, talvez mesmo gordo, com ligamentos endurecidos na coluna. O seu túmulo encontrava-se elegantemente adornado. 

Ali próximo, estava um toucado de jade, no centro do qual fora outrora fixada a pata de um jaguar. Ao lado, um prato de cerâmica com a cabeça de uma serpente sorridente e a inscrição: “Prato de Garra de Fogo". 

Veja o vídeo sobre este mundo perdido recolhidas através de um drone

 

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