Os antigos gregos acreditavam que os deuses influenciavam todos os aspectos da vida no céu ou no inframundo. Com o tempo, esta concepção mitológica foi evoluindo para um conceito mais místico e  pessoal da vida além da morte.

Texto Caroline Alexander    Fotografia Vincent J. Musi e David Coventry

Holofotes iluminam o templo de Posídon, deus do oceano, no cabo Súnio, na Grécia. Fotografia Vincent J. Musi, Sítio Arqueológico de Súnio.

Encontro-me no mundo subterrâneo, de pé, à beira de um lago negro. Gotículas de água formam-se no tecto húmido rochoso e desaparecem depois nas profundezas com um som regular e sinistro. Cerca de oitocentos metros atrás de mim, fica a entrada para a gruta de Alepotripa, ao longo de um trilho que serpenteia através de uma caverna cujo tecto se ergue a mais de sessenta metros de altura, com troços enegrecidos por fogueiras de tempos recuados. 

A gruta, cuja abertura dá para a baía de Diros, na extremidade meridional da Grécia continental, foi utilizada por comunidades do Neolítico como sítio ritual de sepultamento durante três milénios. Há três mil anos, a entrada desmoronou-se, sepultando os ocupantes. Mais de 170 esqueletos foram encontrados sob os escombros, juntamente com enormes depósitos de cerâmica ritualmente estilhaçada. Lugar de morte, passagem longa e estreita debaixo da terra, lago subterrâneo – “Por favor, não diga que isto é o Hades”, disse-me a arqueóloga Anastasia Papathanasiou, do Ministério Grego da Cultura, ligeiramente apreensiva com a impressão que eu colhera da visita. “Não podemos mesmo dizer isso.” 

 

Ao mesmo tempo que ela e a sua equipa de escavação trabalham cuidadosamente para examinar todos os achados daquilo que poderá ser o mais importante sítio europeu do Neolítico, têm sido importunados com cabeçalhos sensacionalistas, que associam a gruta, as circunstâncias da descoberta, a ocupação Neolítica e o mundo misterioso de Hades…

Hades (“o invisível”) é uma das mais familiares perspectivas da humanidade, apesar de nenhum ser humano alguma vez o ter visto.

Hades (“o invisível”) é uma das mais familiares perspectivas da humanidade, apesar de nenhum ser humano alguma vez o ter visto. Há milénios que o seu imaginário povoa a cultura ocidental e é tentador (embora desprovido de qualquer ciência) acreditar que esta visão terá povoado da mesma maneira a imaginação das pessoas durante o Neolítico. Também é tentador procurar a origem do Hades mítico em lugares reais como Alepotripa. Os próprios gregos antigos, no entanto, atribuíam a criação de Hades a um poeta. Afinal, fora Homero que, aproximadamente em 700 a.C., delineou para sempre a geografia do submundo, na sua epopeia “Odisseia”.

Segundo Homero, o Hades (ou, mais exactamente “a casa de Hades, senhor dos mortos”) é um lugar de “horror em decomposição, que os próprios deuses abominam”. A sua entrada jaz nos confins da Terra, para lá dos oceanos que rodeiam a Terra, em território densamente arborizado perto dos bosques de Perséfone, rainha dos mortos, num lugar onde “a penumbra da noite reina em permanência” e três rios confluem. Há outros pormenores mais vagos. Homero colocou-o nas proximidades de uma pradaria coberta de plantas asfódelas, altas e espinhosas mas de delicadas flores brancas, por onde deambulam os espíritos desencarnados dos heróis mortos. Um dos três rios, o Estige — que significa “terrível” — é de tal forma temido que os próprios deuses proferem os seus mais solenes juramentos sobre as suas águas. 

Evocado com brilho na poesia e na arte da Antiguidade e com eco em todas as eras posteriores, o rio Estige tornou-se um marco duradouro do reino dos mortos. Algures, na vizinhança da fronteira ocidental do oceano de Homero, situam-se os Campos Elísios, onde “não existe neve, nem forte tempestade, nem sequer chuva”, e onde os mortos excepcionais podem ser convidados a habitar quando morrem. 

O Olimpo é uma montanha com mais do que um pico. O cume denteado do Mytikas (aqui iluminado durante uma tempestade) é o local onde, segundo a crença da Antiguidade, os deuses mais importantes residiam, incluindo o primordial deus da meteorologia, Zeus, “o supremo trovejador”. Fotografia Vincent J. Musi

Para os seres vulgares, a vida após a morte seria uma eternidade sem significado, sombria, sem alegria. Os mortos, segundo Homero, são meras sombras (eidola, ou imagens) dos seus seres anteriores, assombrações que se dissipam como fumo. Guincham e gorjeiam, impotentes, esvoaçam e cintilam através do reino subterrâneo de Hades. Na “Odisseia”, Ulisses encontra as almas dos camaradas abatidos na guerra de Tróia. “Nunca tentes consolar-me por ter morrido”, diz-lhe o herói Aquiles. “Preferia lavrar a terra ao serviço de um senhor pobre, de parcos haveres, do que reinar sobre as sombras de todos os mortos.”

 

O que acontece depois da morte? Esta é a mais importante e duradoura pergunta da humanidade, tão crucial para os aldeãos do Neolítico e para os gregos antigos como para nós, na actualidade. À semelhança de todas as outras civilizações, os gregos procuravam orientação na sua religião, mas o seu interesse compassivo pela condição humana e por tudo aquilo que ser humano implica encorajou-os a ir mais longe do que as primeiras respostas fornecidas pela sua religião. 

Na Grécia Antiga, as tradições e ritos religiosos partilhados vinculavam estreitamente cada cidadão, a título individual, à respectiva cidade-estado, de tal maneira que os actos públicos e comunitários de culto discriminavam quase todos os aspectos da vida de uma pessoa.

Na Grécia Antiga, as tradições e ritos religiosos partilhados vinculavam estreitamente cada cidadão, a título individual, à respectiva cidade-estado, de tal maneira que os actos públicos e comunitários de culto discriminavam quase todos os aspectos da vida de uma pessoa. Embora o turista que hoje visita o Pártenon possa ansiar por um momento íntimo de reflexão em privado, longe da multidão, um peregrino do mundo antigo ter-se-ia provavelmente sentido enervado com um sítio silencioso e despovoado. 

Contudo, à medida que o tempo foi passando, as pessoas procuraram cada vez mais encontrar resposta para as suas próprias preocupações pessoais, além das que afectavam as suas comunidades. Esta demanda em busca do sentido da vida e de certezas sobre o próprio destino pessoal após a morte deu lugar a novas formas de religião — os cultos de mistério ou os Mistérios, como eram reverentemente nomeados. Praticados em locais da Grécia como Elêusis e Samotrácia, estes cultos atraíam peregrinos de todas as partes do mundo antigo conhecido, ansiosos por fortalecer o culto comunitário dominante com algo mais pessoal.

Ao princípio, os cultos de mistério serviram para elevar a vida dos fiéis e para dar orientação sobre o que se segue após a vida. Isto originou maior preocupação com as questões relativas à vida no Além. Contrariamente às crenças dos egípcios e de outros povos da Antiguidade, a religião grega evoluiu, deixando de ser a aceitação de um destino infeliz. Tornou-se uma demanda pela salvação pessoal. A imagem sombria do Hades é o legado deixado, mas também o caminho por eles trilhado através do rio Estige. 

Nesta imagem, Dioniso (deus do vinho, do teatro e da música) encosta-se a um sátiro. O culto desta divindade prolongou-se para a época romana e envolvia muitas vezes orgias (banquetes em que se celebrava a comunhão com o deus). Fotografia David Coventry, Museu Arqueológico Nacional, Atenas, Acrópole de Atenas, Delfos, Dodona, Súnio e todos os artefactos fotografados com autorização do Ministério Helénico da Cultura e do Desporto.

Dos deuses e dos cultos. O panteão antigo estava repleto de deuses. Os cidadãos das cidades-estado gregas beneficiavam de um enorme leque de escolhas religiosas, entre as quais cultos oficiais financiados com fundos públicos, ao serviço de toda a comunidade, e cultos patrocinados por grupos e clubes privados. No coração da religião grega, erguiam-se os deuses olímpicos — Zeus, Hera, Apolo, Posídon, Atena e outros deuses familiares da mitologia. Além destes, havia milhares de cultos dedicados a um espectro de divindades locais menores, como as ninfas, as quais, segundo as crenças, frequentavam os rios locais ou personificavam-nos. O mesmo deus podia apresentar--se com diferentes funções. Os fiéis podiam prestar culto a Atena como Atena Higeia para obterem saúde, ou como Atena Nice para conquistar a vitória, e assim sucessivamente. Quem procurasse respostas para perguntas específicas poderia solicitar o conselho de oráculos, sacerdotes ou sacerdotisas, que reivindicavam uma linha especial de comunicação com determinado deus. 

Estas eram as divindades do mundo dos vivos. Outras divindades habitavam o mundo subterrâneo. Eram os poderes ctónicos, assim denominados a partir de chthôn, a palavra grega para terra. Entre eles contavam-se criaturas das trevas como as Erínias, que puniam quem ousava jurar em falso; Hermes, o deus mensageiro de espírito gentil e guia das almas, que fazia visitas frequentes ao reino dos mortos; e o próprio Hades, irmão de Zeus, com a sua jovem noiva, Perséfone. Os homens e as mulheres que levaram vidas notáveis também eram transmutados em heróis. Figuras lendárias como Aquiles ou Helena de Tróia, ou do mundo real, como guerreiros ou atletas, foram objecto de veneração local. 

Os gregos dirigiam orações a estes deuses e heróis tão numerosos, pelas mesmas razões que hoje nos levam a rezar: saúde e segurança, prosperidade, orientação.

Os gregos dirigiam orações a estes deuses e heróis tão numerosos, pelas mesmas razões que hoje nos levam a rezar: saúde e segurança, prosperidade, orientação. E contudo, apesar de toda a actividade divina e de todas estas divindades, a religião institucional dominante oferecia pouco conforto para lidar com a morte. Esse fracasso devia-se à própria natureza desses deuses poderosos que viviam acima da Terra, no Olimpo.
O monte Olimpo, o cume mais elevado da Grécia, ergue-se na província setentrional da Tessália. 

No dia primaveril da minha visita, um amontoado de nuvens rodopiava em torno do seu famoso cume nevado e as andorinhas cruzavam o ar, onde se pressentia uma tempestade.
O estrondo dos treinos de artilharia numa base militar nos arredores da vizinha cidade de Litocoro reverberava na atmosfera. Salva após salva, ouviam-se os disparos. E então, vindo das nuvens que enegreciam acima da montanha, soltou-se o trovão – CATAPUM! – sobrepondo-se ao subitamente insignificante poder de fogo dos humanos.

 

Aquele que comanda as tempestades. Na mitologia, o Olimpo era governado por um antigo deus da meteorologia, conhecido dos primeiros gregos como Dyeus Pater — deus, ou céu luminoso, aquele que comanda as tempestades, o grande agrupador de nuvens e que empunha o raio: Zeus. O retrato imaginado por Homero duraria para sempre. Quando o seu rei dos deuses “acenava com as suas sobrancelhas azuis-negras, a cabeleira ambrosina do Senhor soltava-se diante da sua cabeça imortal: e então ele fazia sacudir o grande Olimpo”.

Esta estátua de bronze do século IV a.C. representa a deusa Atena, filha de Zeus. Entre os elementos da sua intimidante indumentária de batalha incluía-se a cabeça cortada da figura monstruosa de Medusa, usada como adorno sobre o peito. Fotografia David Coventry, Museu Arqueológico do Pireu.

Zeus é o deus supremo, não por ser o mais justo, ou sábio, ou por ter criado o céu e a Terra. Zeus é supremo por ser fisicamente poderoso, como Homero lembra aos colegas olímpicos na “Ilíada”:

“Vinde, pois, tentai este feito, ó deuses, para que todos possais saber — segurai uma corda de ouro pendurada do céu e vós todos, deuses, agarrai-a, e também todas vós, ó deusas; / 

mas vós não conseguireis arrancar Zeus do céu e puxá-lo para a terra, /

ele é o mais alto senhor do conselho, não, nem mesmo se vos esforçásseis fortemente;  /

mas sempre que eu desejasse, a sério, puxar-vos, /

puxar-vos-ia a todos, juntamente com a própria terra, juntamente com o próprio oceano.” 

Foi Homero, mais uma vez, que apresentou e caracterizou o elenco completo das personagens olímpicas. Temperamentais, egoístas, ciumentos, petulantes, impulsivos, ínvios, mas também leais, susceptíveis e afectuosos, os deuses imortalizados por Homero possuem características totalmente humanas. O seu principal divertimento consiste em organizar banquetes nas alturas imperturbáveis do Olimpo e imiscuir-se nas vidas dos homens e mulheres que vivem e combatem lá em baixo. É Afrodite, deusa do amor, que provoca a atracção de Helena, a rainha grega de Esparta, pelo príncipe troiano Páris — um romance de amor que desencadeia a guerra de Tróia. Apreciando o espectáculo dos combates em torno de Tróia, os deuses e deusas digladiam-se, urdem tramas e combatem pelos seus guerreiros favoritos. Como afirmou o filósofo Xenófanes mais tarde, no século VI a.C., Homero “atribuiu aos deuses tudo aquilo que é vergonhoso e reprovável para a humanidade, o roubo, o adultério e o logro”.

No entanto, os deuses antigos diferem marcadamente da espécie humana num aspecto importante — são imortais e os humanos não o são. Os deuses olímpicos olhavam para este facto trágico e definidor da mortalidade humana com um misto de piedade e desdém. “[V]ós não me consideraríeis são de espírito se eu decidisse ir para a guerra convosco só por causa dos desprezíveis mortais que agora nascem como folhas cheias da chama da vida, comendo os frutos dos seus campos, e logo se apagam sem vida”, diz Apolo a Posídon na “Ilíada”.

Os gregos acreditavam que os deuses se mantinham afastados dos mortos porque a morte humana era poluidora.

Os gregos acreditavam que os deuses se mantinham afastados dos mortos porque a morte humana era poluidora. Por esse motivo, os sacerdotes dos deuses não compareciam aos funerais e os cemitérios situavam-se fora das muralhas da cidade, bem longe dos santuários dos deuses. Incapaz de lidar com os mortos, a população do Olimpo dificilmente podia oferecer qualquer tipo de ajuda. 

“A religião institucional dominante aceitava que lhe formulassem perguntas sobre a morte, mas as respostas não eram reconfortantes”, diz Sarah Iles Johnston, professora de religião e estudos clássicos. “A razão para a emergência de outros cultos foi a necessidade de criar uma relação pessoal com o divino antes da morte. Se a pessoa fosse apresentada, conseguiria… um negócio melhor no outro mundo.”

A iniciação a estes novos cultos era uma experiência emocional intensa, levando os iniciados a sentirem algo mudar dentro de si. Para criarem este efeito, os sacerdotes que supervisionavam o rito e outros participantes encenavam aquilo que de facto era uma elaborada peça de teatro. E um dos lugares onde se preserva o cenário ambiental que tornava esse teatro possível é o santuário dos Grandes Deuses, na ilha de Samotrácia.

Ritos sagrados em Samotrácia. Samotrácia localiza-se ao largo da costa da Trácia, famosa pelas suas tempestades. A sua silhueta montanhosa avista-se a quilómetros de distância. Na “Ilíada”, Posídon, deus do oceano, instalou-se “no ponto mais alto do cume de Samotrácia” para obter um panorama da guerra de Tróia. Posídon está associado ao culto dos mistérios celebrados nesta ilha, uma vez que uma das vantagens para os iniciados era a protecção da morte no mar.

Junto da orla marítima setentrional, as ruínas do santuário estendem-se sobre a encosta rochosa do monte Fengári. A ilha é pouco visitada hoje em dia e neste cenário teatral — de costas viradas para o mar e de frente para a montanha — tive um vislumbre de algo tenebroso e primordial. “Acredito na força daquele lugar”, contara-me Bonna Wescoat. Professora de história de arte, Bonna dirige um estudo de campo no santuário de Samotrácia destinado a elaborar uma reconstituição digital da jornada de um iniciado. “Tem isolamento, segredo. Era possível celebrar aqui os rituais do mistério em privado.” 

Os Mistérios: a palavra provém directamente do grego mysterion, termo que significa mistério, ou rito sagrado.

Os Mistérios: a palavra provém directamente do grego mysterion, termo que significa mistério, ou rito sagrado. Em Samotrácia, o percurso realizado pelos iniciados destes ritos sagrados pode ser reconstituído através das ruínas de monumentos construídos ao longo de séculos, passando por pavimentos onde eram derramadas libações de oferendas líquidas, por um impressionante afloramento de rocha verde — pórfiro — entendida como sagrada e por fossos estreitos que serviam de suporte a tochas ardentes. 

O visitante contemporâneo faz a sua peregrinação durante o dia, mas os ritos antigos eram celebrados de noite, e o clarão das tochas desempenhava um papel fundamental. Os candidatos a iniciados podiam aparecer a qualquer hora e, na época baixa, acontecia por vezes acharem-se a percorrer o caminho sozinhos, sob o céu negro cravejado de estrelas. O fogo das tochas tremeluzindo através das colunas, projectando sombras além de luz, apontava o caminho. 

A luz crepuscular banha as ruínas do santuário de Atena Proneia em Delfos e o seu tholos, um edifício circular. É possível que os peregrinos fizessem aqui as suas oferendas antes de consultarem o oráculo em Delfos, no vizinho templo de Apolo. Fotografia Vincent J. Musi, Sítio Arqueológico de Delfos.

Os ritos de iniciação eram mistérios: secretos e ocultados sob pena de morte. É possível recuperar alguns pormenores a partir de autores cristãos primitivos, pouco preocupados em quebrar um código de silêncio referente a ritos pagãos, mas que possivelmente também os deturparam. Os iniciados sentavam-se, vendados, enquanto outras pessoas executavam danças frenéticas em seu redor, agitando símbolos e tocando tambores — estratégia destinada a atemorizá-los. Desorientados, os iniciados principiavam de seguida uma busca, segundo parece simbolizadora da demanda do deus da fertilidade em busca da sua noiva, que terminava com uma lasciva representação da consumação do casamento de ambos. 

Para a imaginação moderna, saturada de imagens artificiais, é difícil avaliar o medo e espanto que efeitos especiais simples — luz de tochas, música e teatro — criariam. O escritor grego Plutarco, escrevendo no século I da nossa era, evocou essa experiência, comparando a jornada de uma alma ao abandonar o seu corpo com a experiência de um iniciado.

“Primeiro há deambulações e cansativas corridas errantes, bem como incertezas e jornadas infrutíferas por entre a escuridão”, escreveu. “Então, antes do clímax propriamente dito, acontece tudo o que é terrível — pânico, estremecimentos, suor e choque. Depois de tudo isto, aparece uma esplendorosa luz e ele é recebido numa paisagem e prados de pureza, inundados de vozes e de danças e de solenidades de sons sagrados e visões sagradas… Ele vê os não-iniciados, uma multidão impura dos que vivem aqui, sobre a Terra, que se acotovelam e tropeçam uns nos outros, no meio de lama espessa e nevoeiro, e se agarram aos seus sofrimentos através do medo e da falta de fé nas coisas boas do outro mundo.

A via sagrada - Os gregos voltaram-se para os cultos dos mistérios ao procurarem significado para as suas vidas individuais e protecção após a morte. Em locais como o santuário dos grandes deuses, na ilha de Samotrácia, os iniciados eram admitidos aos cultos em cerimónias cujos pormenores não são ainda inteiramente conhecidos.

Os iniciados partiam de Samotrácia com túnicas púrpura e anéis de ferro magnetizados, provas da iniciação e, muito provavelmente, também amuletos de protecção. Mas, sobretudo, partiam munidos do conhecimento íntimo de que haviam experimentado uma coisa sagrada e que o seu relacionamento com o mundo, e com o outro mundo que haveria de vir, mudara. 

Uma história de rapto. No centro de todos os cultos de mistérios, havia uma história sagrada, ou mito fundacional, utilizada como guião para orientar as actividades do culto. Para o mais antigo e mais celebrado culto de mistérios da Grécia, localizado na cidade de Elêusis, a leste de Atenas, esta história foi contada no século VI a.C. – o “Hino a Deméter”. O poema, de autor desconhecido, relatava o rapto de Perséfone, filha de Deméter, deusa dos cereais e das colheitas, por Hades. Profundamente abalada pela perda, Deméter, disfarçada de velha, deambulou pela Terra em busca de sua filha, acabando por dirigir--se a Elêusis. Conseguindo a função de ama de um filho da família real local, ainda sob disfarce, procurou conceder-lhe o dom da imortalidade. Infelizmente, os meios para o fazer incluíam segurar a criança sobre uma fogueira, acto que horrorizou a mãe quando encontrou a nova ama a praticar o acto. Expulsa do palácio, Deméter revelou a identidade de deusa aos seus régios senhores, aterrorizados. Numa fúria descontrolada, exigiu que um templo fosse erigido em sua honra nas redondezas, em Elêusis, para onde se retirou. 

Negligenciada pela deusa dos cereais, a Terra sofreu e as colheitas foram falhando até Deméter se encontrar de novo com a filha. Então a Terra voltou a florescer e houve júbilo generalizado. Seis meses mais tarde, Perséfone regressou ao mundo subterrâneo, reunindo-se de novo a Hades, que entretanto se tornara seu marido. 

O Erecteu, um templo dedicado a Atena e a Posídon, ocupa o espaço mais sagrado na Acrópole de Atenas. Os gregos antigos organizavam festividades, sacrifícios, jogos e procissões religiosas neste local: actualmente, é um íman para o turismo. Fotografia Vincent J. Musi, Sítio Arqueológico da Acrópole, Atenas.

Os ritos dos mistérios em Elêusis, segundo esta história poética, foram a dádiva de Deméter à humanidade, como penhor do seu apaziguamento. “Bendito entre os homens presos à Terra é aquele que viu estas coisas”, conclui o poema, referindo-se aos rituais sagrados. “Mas aquele que foi iniciado e não participa nas coisas sagradas, jamais terá direito a reclamar essas bênçãos, quando perecer e ficar envolto pelas trevas nebulosas.”

Embora o poema se centre especificamente em Elêusis e na origem dos famosos mistérios eleusinos, as histórias de Deméter e de sua filha, Perséfone, foram incluídas na maior parte dos cultos dos mistérios. A mãe e filha divinas foram as óbvias padroeiras dos ritos destinados a alcançar a imortalidade. O cereal, atributo de Deméter, é semeado na Terra, onde afunda as suas raízes nas profundezas das trevas subterrâneas, para renascer sobre a Terra na época das colheitas. Perséfone, mais vulgarmente conhecida pelo seu título honorífico, Cora (a Donzela) vivia seis meses por ano sobre a Terra e os outros seis meses debaixo da Terra. Vivendo parte do ano no mundo superior e outra parte no inferior, era a embaixatriz ideal para representar as almas que tinham partido.

“Os mistérios apresentavam a pessoa à deusa, punham-nas face a face”, afirmou Sarah. A decisão de aderir a um culto de mistérios era pessoal, uma via que os indivíduos escolhiam para se aperfeiçoarem. No entanto, estes ritos não colidiam com a religião pública dominante. Muitas pessoas tornavam-se iniciadas para suplementar, e não para substituir, outros cultos, participando activamente nas festividades e comemorações religiosas comuns, na companhia dos vizinhos. E apesar de todos os segredos, os cultos dos mistérios tinham um estatuto respeitável, partilhando características elementares com os cultos públicos. Os sacerdotes celebravam os ritos em locais com santuários financiados pelo Estado, e os deuses que protagonizavam os ritos dos mistérios eram tão antigos como os poemas de Homero. 

Músicos, um cordeiro para ser sacrificado e uma mulher segurando alfaias litúrgicas figuram nesta pintura de uma procissão sacrificial. As cerimónias religiosas eram dos poucos eventos públicos em que as mulheres desempenhavam um papel. Fotografia David Coventry, Museu Arqueológico Nacional, Atenas.

Génese do pecado original. No século IV a.C., os mistérios não eram tão reconfortantemente convencionais como se esperaria. Um invólucro de vidro exposto no Museu Arqueológico de Salonica, no Norte da Grécia, conserva os restos carbonizados e esfarrapados de um rolo de papiro antigo. Os visitantes passam por eles sem lhes dar importância e, contudo, estes discretos farrapos foram classificados como um dos mais interessantes achados do século passado. Encontrados entre os restos mortais de um rico nobre, o papiro Derveni, com data aproximada de 340 a.C., é o mais antigo manuscrito encontrado na Europa. Dos restos carbonizados, os investigadores extraíram 26 colunas daquilo que acabou por revelar-se um longo comentário místico sobre um poema atribuído a um poeta semidivino chamado Orfeu. 

Na mitologia grega, Orfeu é o cantor cujo canto seduz os animais selvagens. Mais importante do que isso, dizia-se que ele descera ao Hades para recuperar a sua falecida mulher, Eurídice.
À semelhança de Perséfone, portanto, Orfeu tinha um pé em cada mundo. Os seguidores de Orfeu pertenciam ao mais misterioso e menos conhecido de todos os cultos de mistérios. Encontram-se referências à sua poesia dispersas na literatura da Antiguidade e, contudo, nenhum poema sobreviveu. Os excertos dos poemas preservados no papiro Derveni são o melhor que temos.  

Este relevo de mármore de uma sepultura servia para preservar a memória dos falecidos: uma jovem mãe, cujo bebé lhe é trazido. Fotografia David Coventry, Museu Arqueológico Nacional, Atenas.

Acreditava-se que Orfeu pregava os ensinamentos místicos dos cultos báquicos dedicados a Dioniso, deus do vinho e da fecundidade. Acompanhados de relatos de celebrações desenfreadas em locais selvagens e de abandono das inibições, os rituais báquicos foram sempre objecto de fascínio e suspeição. A brutal história sagrada que informava os seus rituais tomava grandes liberdades relativamente à mitologia tradicional. No relato báquico, Zeus violou a filha, Perséfone, que, por consequência, deu à luz Dioniso. A criança-deusa, por sua vez, foi assassinada pelos titãs, inimigos divinos de Zeus, que cortaram Dioniso em pedaços, cozendo-os, assando-os e devorando-os. Para se vingar, Zeus atingiu os titãs com o seu raio. Dioniso foi remontado e renasceu, e a espécie humana nasceu do fumo e cinzas dos Titãs. 

“A humanidade é corrupta por natureza”, afirmou Sarah Johnston, que editou textos rituais órfico-báquicos. “Esta natureza perturba Perséfone e, por isso, os seres humanos têm de compensá-la, de pedir-lhe desculpa por isso.”

Os ritos báquicos tinham introduzido um novo elemento na complexa navegação na vida do Além: o conceito de pecado original. O culto de Baco foi disseminado por sacerdotes itinerantes, para os quais não eram precisos locais de santuário convencionalmente honrados, como aqueles que existiam em Samotrácia e Elêusis. Estes aspectos não-tradicionais e anti--sociais do culto suscitavam o ridículo e a suspeição. O filósofo Platão troça dos “sacerdotes pedintes e clarividentes [que] batem à porta dos ricos. Convencem-nos de que têm poder para… proporcionar a salvação e purificação a todas as pessoas, quer os vivos quer aqueles que já estão mortos… e para libertá-las dos sofrimentos do mundo subterrâneo, mas coisas horríveis sucederão àqueles que não oferecerem estes sacrifícios”. 

Os antigos gregos acreditavam que, no mundo subterrâneo, os mortos eram levados à presença de três juízes. Um deles era Radamanto, aqui representado numa pintura de um túmulo macedónio. Fotografia Vincent J. Musi, Túmulo de Mieza.

Os iniciados órfico-báquicos levavam consigo tabuinhas douradas inscritas com palavras sagradas para guiá-los na vida do Além. Estas directivas preciosas eram enterradas com eles e apareceram em sepulturas desde a Grécia setentrional até Creta, e da Itália à Turquia. 

Uma delas refere o seguinte: 

“Há uma nascente do lado direito, /

e, erguendo-se junto dela, um cipreste branco. /

Descendo, as almas dos mortos refrescam-se. / 

Que ninguém se aproxime sequer da nascente! /

À frente encontrareis, vinda do lago da Memória/
      água fria a jorrar: há guardas diante dela. /

Eles irão perguntar-vos, com sageza astuta, o
      que procurais nas trevas do lamacento Hades. / 

Dizei: ‘Eu sou filho da Terra e do Céu.’” /

Os gregos antigos acreditavam que o barqueiro Caronte transportava as almas até Hades atravessando o Aqueronte, o “rio da aflição”. Actualmente, o rio (aqui colorido pelas luzes de um bar vizinho) é muito popular entre os turistas e praticantes de rafting..Fotografia Vincent J. Musi.

Os pontos de vista dos gregos sobre a morte tinham evoluído muito, desde a descrição homérica dos mortos impotentes a um confiante mapa de estradas para o mundo subterrâneo. Na época romana, mais mudanças pairavam no ar e os velhos cultos e santuários caíram em desuso. Plutarco, que prestara serviço como sacerdote em Delfos, pátria do mais famoso oráculo do mundo antigo, observou o “desaparecimento completo de todos, com excepção de um ou dois”.

Vestígios de algumas crenças antigas sobreviveram efectivamente, absorvidos pela nova religião monoteísta — o cristianismo —, que então se assenhoreava do mundo antigo. A crença na natureza essencialmente corrupta do homem, o expurgo dessa corrupção através dos ritos místicos, os diferentes destinos que aguardavam iniciados e não-iniciados, a importância dos textos sagrados foram ensinamentos órficos que ecoaram pelos salões do cristianismo. 

As crenças sobre a vida, a morte e a jornada pelo Além evoluíram continuamente. O mesmo não aconteceu às verdades essenciais que inspiram essas crenças. Certa inscrição num monumento fúnebre do século V a.C. seria provavelmente tão tocante para os aldeãos do Neolítico que viveram em Alepotripa como para nós:

“Seguro com amor a filha da minha filha”, assim reza o epitáfio, gravado numa coluna que representa uma avó segurando a neta. “Aquela que segurei sobre o joelho enquanto fomos vivos, nesses tempos em que pestanejávamos à luz do Sol, aquela que ainda seguro aqui, no meu colo, apesar de nos termos desvanecido”, conclui o texto.  

Veja ainda o vídeo que assinala os percursos pela via sagrada aqui

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