O outro mundo na antiga Grécia

Os antigos gregos acreditavam que os deuses influenciavam todos os aspectos da vida no céu ou no inframundo. Com o tempo, esta concepção mitológica foi evoluindo para um conceito mais místico e  pessoal da vida além da morte.

Texto Caroline Alexander    Fotografia Vincent J. Musi e David Coventry

Holofotes iluminam o templo de Posídon, deus do oceano, no cabo Súnio, na Grécia. Fotografia Vincent J. Musi, Sítio Arqueológico de Súnio.

Encontro-me no mundo subterrâneo, de pé, à beira de um lago negro. Gotículas de água formam-se no tecto húmido rochoso e desaparecem depois nas profundezas com um som regular e sinistro. Cerca de oitocentos metros atrás de mim, fica a entrada para a gruta de Alepotripa, ao longo de um trilho que serpenteia através de uma caverna cujo tecto se ergue a mais de sessenta metros de altura, com troços enegrecidos por fogueiras de tempos recuados. 

A gruta, cuja abertura dá para a baía de Diros, na extremidade meridional da Grécia continental, foi utilizada por comunidades do Neolítico como sítio ritual de sepultamento durante três milénios. Há três mil anos, a entrada desmoronou-se, sepultando os ocupantes. Mais de 170 esqueletos foram encontrados sob os escombros, juntamente com enormes depósitos de cerâmica ritualmente estilhaçada. Lugar de morte, passagem longa e estreita debaixo da terra, lago subterrâneo – “Por favor, não diga que isto é o Hades”, disse-me a arqueóloga Anastasia Papathanasiou, do Ministério Grego da Cultura, ligeiramente apreensiva com a impressão que eu colhera da visita. “Não podemos mesmo dizer isso.” 

Ao mesmo tempo que ela e a sua equipa de escavação trabalham cuidadosamente para examinar todos os achados daquilo que poderá ser o mais importante sítio europeu do Neolítico, têm sido importunados com cabeçalhos sensacionalistas, que associam a gruta, as circunstâncias da descoberta, a ocupação Neolítica e o mundo misterioso de Hades…

Hades (“o invisível”) é uma das mais familiares perspectivas da humanidade, apesar de nenhum ser humano alguma vez o ter visto.

Hades (“o invisível”) é uma das mais familiares perspectivas da humanidade, apesar de nenhum ser humano alguma vez o ter visto. Há milénios que o seu imaginário povoa a cultura ocidental e é tentador (embora desprovido de qualquer ciência) acreditar que esta visão terá povoado da mesma maneira a imaginação das pessoas durante o Neolítico. Também é tentador procurar a origem do Hades mítico em lugares reais como Alepotripa. Os próprios gregos antigos, no entanto, atribuíam a criação de Hades a um poeta. Afinal, fora Homero que, aproximadamente em 700 a.C., delineou para sempre a geografia do submundo, na sua epopeia “Odisseia”.

Segundo Homero, o Hades (ou, mais exactamente “a casa de Hades, senhor dos mortos”) é um lugar de “horror em decomposição, que os próprios deuses abominam”. A sua entrada jaz nos confins da Terra, para lá dos oceanos que rodeiam a Terra, em território densamente arborizado perto dos bosques de Perséfone, rainha dos mortos, num lugar onde “a penumbra da noite reina em permanência” e três rios confluem. Há outros pormenores mais vagos. Homero colocou-o nas proximidades de uma pradaria coberta de plantas asfódelas, altas e espinhosas mas de delicadas flores brancas, por onde deambulam os espíritos desencarnados dos heróis mortos. Um dos três rios, o Estige — que significa “terrível” — é de tal forma temido que os próprios deuses proferem os seus mais solenes juramentos sobre as suas águas. 

Evocado com brilho na poesia e na arte da Antiguidade e com eco em todas as eras posteriores, o rio Estige tornou-se um marco duradouro do reino dos mortos. Algures, na vizinhança da fronteira ocidental do oceano de Homero, situam-se os Campos Elísios, onde “não existe neve, nem forte tempestade, nem sequer chuva”, e onde os mortos excepcionais podem ser convidados a habitar quando morrem. 

O Olimpo é uma montanha com mais do que um pico. O cume denteado do Mytikas (aqui iluminado durante uma tempestade) é o local onde, segundo a crença da Antiguidade, os deuses mais importantes residiam, incluindo o primordial deus da meteorologia, Zeus, “o supremo trovejador”. Fotografia Vincent J. Musi

Para os seres vulgares, a vida após a morte seria uma eternidade sem significado, sombria, sem alegria. Os mortos, segundo Homero, são meras sombras (eidola, ou imagens) dos seus seres anteriores, assombrações que se dissipam como fumo. Guincham e gorjeiam, impotentes, esvoaçam e cintilam através do reino subterrâneo de Hades. Na “Odisseia”, Ulisses encontra as almas dos camaradas abatidos na guerra de Tróia. “Nunca tentes consolar-me por ter morrido”, diz-lhe o herói Aquiles. “Preferia lavrar a terra ao serviço de um senhor pobre, de parcos haveres, do que reinar sobre as sombras de todos os mortos.”

O que acontece depois da morte? Esta é a mais importante e duradoura pergunta da humanidade, tão crucial para os aldeãos do
Neolítico e para os gregos antigos como para nós, na actualidade. À semelhança de todas as outras civilizações, os gregos procuravam orientação na sua religião, mas o seu interesse compassivo pela condição humana e por tudo aquilo que ser humano implica encorajou-os a ir mais longe do que as primeiras respostas fornecidas pela sua religião. 

Na Grécia Antiga, as tradições e ritos religiosos partilhados vinculavam estreitamente cada cidadão, a título individual, à respectiva cidade-estado, de tal maneira que os actos públicos e comunitários de culto discriminavam quase todos os aspectos da vida de uma pessoa.

Na Grécia Antiga, as tradições e ritos religiosos partilhados vinculavam estreitamente cada cidadão, a título individual, à respectiva cidade-estado, de tal maneira que os actos públicos e comunitários de culto discriminavam quase todos os aspectos da vida de uma pessoa. Embora o turista que hoje visita o Pártenon possa ansiar por um momento íntimo de reflexão em privado, longe da multidão, um peregrino do mundo antigo ter-se-ia provavelmente sentido enervado com um sítio silencioso e despovoado. 

Contudo, à medida que o tempo foi passando, as pessoas procuraram cada vez mais encontrar resposta para as suas próprias preocupações pessoais, além das que afectavam as suas comunidades. Esta demanda em busca do sentido da vida e de certezas sobre o próprio destino pessoal após a morte deu lugar a novas formas de religião — os cultos de mistério ou os Mistérios, como eram reverentemente nomeados. Praticados em locais da Grécia como Elêusis e Samotrácia, estes cultos atraíam peregrinos de todas as partes do mundo antigo conhecido, ansiosos por fortalecer o culto comunitário dominante com algo mais pessoal.

Ao princípio, os cultos de mistério serviram para elevar a vida dos fiéis e para dar orientação sobre o que se segue após a vida. Isto originou maior preocupação com as questões relativas à vida no Além. Contrariamente às crenças dos egípcios e de outros povos da Antiguidade, a religião grega evoluiu, deixando de ser a aceitação de um destino infeliz. Tornou-se uma demanda pela salvação pessoal. A imagem sombria do Hades é o legado deixado, mas também o caminho por eles trilhado através do rio Estige. 

Nesta imagem, Dioniso (deus do vinho, do teatro e da música) encosta-se a um sátiro. O culto desta divindade prolongou-se para a época romana e envolvia muitas vezes orgias (banquetes em que se celebrava a comunhão com o deus). Fotografia David Coventry, Museu Arqueológico Nacional, Atenas, Acrópole de Atenas, Delfos, Dodona, Súnio e todos os artefactos fotografados com autorização do Ministério Helénico da Cultura e do Desporto.

Dos deuses e dos cultos. O panteão antigo estava repleto de deuses. Os cidadãos das cidades-estado gregas beneficiavam de um enorme leque de escolhas religiosas, entre as quais cultos oficiais financiados com fundos públicos, ao serviço de toda a comunidade, e cultos patrocinados por grupos e clubes privados. No coração da religião grega, erguiam-se os deuses olímpicos — Zeus, Hera, Apolo, Posídon, Atena e outros deuses familiares da mitologia. Além destes, havia milhares de cultos dedicados a um espectro de divindades locais menores, como as ninfas, as quais, segundo as crenças, frequentavam os rios locais ou personificavam-nos. O mesmo deus podia apresentar--se com diferentes funções. Os fiéis podiam prestar culto a Atena como Atena Higeia para obterem saúde, ou como Atena Nice para conquistar a vitória, e assim sucessivamente. Quem procurasse respostas para perguntas específicas poderia solicitar o conselho de oráculos, sacerdotes ou sacerdotisas, que reivindicavam uma linha especial de comunicação com determinado deus. 

Estas eram as divindades do mundo dos vivos. Outras divindades habitavam o mundo subterrâneo. Eram os poderes ctónicos, assim denominados a partir de chthôn, a palavra grega para terra. Entre eles contavam-se criaturas das trevas como as Erínias, que puniam quem ousava jurar em falso; Hermes, o deus mensageiro de espírito gentil e guia das almas, que fazia visitas frequentes ao reino dos mortos; e o próprio Hades, irmão de Zeus, com a sua jovem noiva, Perséfone. Os homens e as mulheres que levaram vidas notáveis também eram transmutados em heróis. Figuras lendárias como Aquiles ou Helena de Tróia, ou do mundo real, como guerreiros ou atletas, foram objecto de veneração local. 

Os gregos dirigiam orações a estes deuses e heróis tão numerosos, pelas mesmas razões que hoje nos levam a rezar: saúde e segurança, prosperidade, orientação.

Os gregos dirigiam orações a estes deuses e heróis tão numerosos, pelas mesmas razões que hoje nos levam a rezar: saúde e segurança, prosperidade, orientação. E contudo, apesar de toda a actividade divina e de todas estas divindades, a religião institucional dominante oferecia pouco conforto para lidar com a morte. Esse fracasso devia-se à própria natureza desses deuses poderosos que viviam acima da Terra, no Olimpo.
O monte Olimpo, o cume mais elevado da Grécia, ergue-se na província setentrional da Tessália. 

No dia primaveril da minha visita, um amontoado de nuvens rodopiava em torno do seu famoso cume nevado e as andorinhas cruzavam o ar, onde se pressentia uma tempestade.
O estrondo dos treinos de artilharia numa base militar nos arredores da vizinha cidade de Litocoro reverberava na atmosfera. Salva após salva, ouviam-se os disparos. E então, vindo das nuvens que enegreciam acima da montanha, soltou-se o trovão – CATAPUM! – sobrepondo-se ao subitamente insignificante poder de fogo dos humanos.

Aquele que comanda as tempestades. Na mitologia, o Olimpo era governado por um antigo deus da meteorologia, conhecido dos primeiros gregos como Dyeus Pater — deus, ou céu luminoso, aquele que comanda as tempestades, o grande agrupador de nuvens e que empunha o raio: Zeus. O retrato imaginado por Homero duraria para sempre. Quando o seu rei dos deuses “acenava com as suas sobrancelhas azuis-negras, a cabeleira ambrosina do Senhor soltava-se diante da sua cabeça imortal: e então ele fazia sacudir o grande Olimpo”.

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