Crónicas da Atlântida

Envolto em nuvens, o cume do Pico faz-se anunciar no vazio, à esquerda, ora aparecendo ora desaparecendo, emoldurado pelas janelas do instável avião a hélice que, em escassos minutos, aterrará na vizinha ilha do Faial. 

Texto e fotografia António Luís Campos

No lajido da Criação Velha, plantadas na rocha vulcânica, protegidas do vento e do mar por muros de pedra solta, as videiras vingam, com a montanha do Pico no horizonte. A paisagem da cultura da vinha foi o motivo da classificação de várias zonas da ilha como Património Mundial pela UNESCO, em 2004.

 Do lado oposto, é a longilínea silhueta de São Jorge que se impõe, a Ilha-Dragão, cujas encostas aprumadas, verticais, morrem junto do mar, nas icónicas fajãs. É aqui, no Triângulo, que sinto os Açores mais arquipélago, que a vivência insular é mais próxima, que os barcos tomam o lugar de autocarros, ilhas inteiras se assumem como bairros e a silhueta angulosa das metrópoles se aplana, substituída por uma linha horizontal infinita, no Atlântico. E foi aqui que teve lugar a génese das Crónicas da Atlântida, uma jornada visual pelas nove ilhas açorianas, apoiada por uma Bolsa de Expedição Nomad e pela National Geographic Portugal. 

O fio condutor era a viagem pelo quotidiano dos açorianos, numa narrativa construída ao longo de dois anos a fotografar.

 Continental apaixonado por este território insular há quase três décadas, tinha há muito o ensejo de documentar aquele que considero ser um dos maiores tesouros da região: o património humano e cultural. Faço-o agora, numa visão muito pessoal da verdadeira essência dos Açores e num projecto documental que me levou a percorrer cada uma das ilhas em mais de uma dezena de viagens, focado sempre nas pessoas, muito mais do que nas paisagens  – que, ainda assim, lá estão presentes, cenário idílico para histórias mundanas.

O objectivo era claro: mostrar uma face menos conhecida do arquipélago, retratar as estórias de quem lá vive e como se vive, desmistificando alguns preconceitos. Procurar as gentes, acompanhando o seu dia-a-dia, percorrendo aleatoriamente cidades e estradas secundárias ou seguindo continuadamente os seus passos. Sem filtro prévio: do lavrador ao professor, do jovem ao idoso, do nativo ao estrangeiro, do baleeiro ao criativo, do turista ao padre, parando à porta de quem me dedicou um pouco de atenção, de ouvido à escuta e olhar curioso, tendo por aliados o tempo e a falta de pressa.

Regressado, fui desvendando num diário visual, ao longo de nove meses, o arquipélago, em www.cronicasdaatlantida.org – uma imagem por dia, uma ilha por mês, da maior à mais pequena, de leste para oeste.
O projecto não se ficará por aqui: este mês, a exposição fotográfica estará patente no Palácio de Monserrate, em Sintra, seguindo em Setembro para Matosinhos e, em 2017, para Coimbra. As inaugurações contarão também com palestras integradas na série NomadTalks, culminando o projecto na publicação de um livro.

As coroações são um dos momentos altos das festividades do Divino Espírito Santo, que se repetem um pouco por toda a ilha. A família de José Borges ofereceu o bodo a quatrocentos convidados. Ao longo de toda a semana, o ritual é preparado, culminando numa procissão que segue até à igreja, onde a coroação se dá, e daí ao local do repasto.

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