Texto Sam Quinones   Fotografia Dominic Bracco II

Outrora um dos mais perigosos lugares do mundo, esta cidade fronteiriça melhorou espectacularmente os seus índices de criminalidade, depois de o México reestruturar o seu ineficaz sistema judicial penal.

Ao cair da noite em San Antonio, um antigo amontoado de barracas transformado num bairro com casas de betão, ruas de piso irregular e poucas árvores, as crianças encaminham-se entusiasmadas na direcção de um armazém atulhado de pneus. Ali, o ruído de Ciudad Juárez é abafado pelos grunhidos, sopapos  e baques surdos de corpos jovens e flexíveis embatendo contra a lona.

O dono deste improvisado ringue de luta, construído com ferro e cablagens recuperadas de depósitos de sucata, é Inés Montenegro, que o inaugurou há dois anos depois de um dos seus filhos ter sugerido que as crianças do bairro precisavam de um sítio para brincar. No México, a lucha libre, um estilo de luta profissional protagonizado por lutadores mascarados que executam movimentos acrobáticos coreografados, é uma obsessão nacional. A arena improvisada de Inés Montenegro foi um êxito imediato. 

Esta noite, quatro rapazes deixam-se cair contra as cordas que os projectam como fisgas para o centro do ringue. Exultantes, ricocheteiam, aprendendo a coreografia de movimentos clássicos como o “salto de tigre”, atirando-se melodramaticamente para o interior do ringue, e as “tesouras”, saltando a partir das cordas para prender o pescoço do adversário entre as pernas. 

2010 Paralisados num último abraço, este casal e o seu bebé por nascer foram assassinados por um único tiro. No auge da vaga de criminalidade que assolou a cidade, dez pessoas perdiam a vida todos os dias por morte violenta.

 Esta cena teria sido inimaginável há seis anos, na minha última visita a Juárez, a maior cidade do estado de Chihuahua. As brincadeiras infantis tinham sido banidas dos espaços públicos, uma vez que os cartéis do narcotráfico combatiam rua a rua pelo controlo da cidade fronteiriça, porta de acesso ao lucrativo mercado de drogas dos Estados Unidos. Vi soldados mexicanos de capacete e óculos escuros lutando para recuperar essas ruas no interior de viaturas blindadas, empunhando armas de assalto numa de muitas tentativas feitas para travar a violência macabra que tornara Juárez tristemente célebre em todo o mundo.

Entre 2008 e 2012, esta cidade de 1,3 milhões de habitantes foi normalmente classificada como o lugar mais perigoso da Terra. Os homicídios dispararam para 3.700 no pior ano. Os criminosos praticavam raptos e extorsões com impunidade. Um quarto dos automóveis roubados no México era roubado em Juárez. As empresas encerravam. Reinava a anarquia. 

O bairro de San Antonio era um dos piores. Cada um dos rapazes que víamos agora a combater tinha parentes mortos ou encarcerados na prisão. 

O bairro de San Antonio era um dos piores. Cada um dos rapazes que víamos agora a combater tinha parentes mortos ou encarcerados na prisão. Dois tios de Antonio foram assassinados. 

Nas colonias, ou bairros, pelo menos 11 ringues de lucha libre atraem actualmente centenas de miúdos encarnando personagens com nomes como Falcão Azteca e Ex-Presidiário. Nas ruas de Juárez, outrora vazias, voltaram a ver-se multidões. Em redor da catedral, o negócio é próspero nos armazéns de vestuário e nas lojas de gelados. Bandas de rock tocam versões em espanhol de “Johnny B. Goode” e “Jailhouse Rock” para que os clientes parem, escutem e dancem. Foi inaugurado um museu infantil, em parte a pensar nas 14 mil crianças que, segundo cálculos do seu director, ficaram órfãs devido à violência. Os bairros organizaram ligas desportivas. Os parques — entre os quais alguns recém-inaugurados — tornaram-se de novo lugares de convívio. “As pessoas estão a perder o medo”, afirma Inés. 

2015 Denise Fuentes e Ulises Escobedo, posando num miradouro com o seu bebé, Eros, foram ambos afectados pela guerra das drogas que devastou o bairro localizado lá em baixo. Agora, procuram casa nesse bairro. 

 O que aconteceu em Juárez para que Inés e outros pudessem perder o medo e retomar as suas vidas? A explicação não reside em qualquer melodrama de luta livre onde um herói mascarado triunfa. O México conseguiu mobilizar vontade política para, pelo menos em Juárez, reforçar o sistema de justiça penal e investir na administração autárquica. Esta iniciativa incentivou a coragem de alguns protagonistas inesperados: os agentes responsáveis pela aplicação da lei, que criaram uma força policial mais profissional (num país onde os polícias são frequentemente corruptos), os empresários que ficaram (em vez de fugirem) e os responsáveis autárquicos que desafiaram a burocracia esclerótica e desencadearam reformas radicais. 

Em 1996, quando visitei Juárez pela primeira vez, a cidade era uma roda dentada na engrenagem da economia global emergente. Hordas de rancheiros e camponeses afluíam ali para trabalhar na montagem de sistemas de som, televisores e peças de automóveis para o mercado norte-americano, em unidades fabris isentas de impostos, as maquiladoras.

Muitos migrantes ali chegados planeavam atravessar a fronteira até à vizinha cidade de El Paso, no Texas, mas descobriam que, na estrutura económica de Juárez, então em expansão, conseguiam obter aquilo que lhes era negado na sua terra natal: uma casa sólida, um automóvel usado e um emprego seguro. Juárez encheu-se de empresas familiares.

Inés era um rapaz novo quando chegou a Juárez na década de 1970 e integrou este fluxo de prosperidade empresarial. Comprou terrenos quando San Antonio era apenas um bairro de lata. Abriu uma loja de pneus, onde hoje se aloja a sua arena de luta livre e fundou depois outras lojas.

Juárez cresceu caoticamente. Como sucede em todas as cidades mexicanas, a sua receita fiscal era transferida para a Cidade do México. Pouco regressava à origem.

Juárez cresceu caoticamente. Como sucede em todas as cidades mexicanas, a sua receita fiscal era transferida para a Cidade do México. Pouco regressava à origem. Os agentes da polícia racionavam a gasolina e as balas. As infra-estruturas de base — estradas, esgotos, sistema de drenagem de águas pluviais, parques — eram negligenciadas.

“As pessoas não perceberam que tínhamos necessidades apesar de continuarmos a crescer”, afirma Alfonso Murguía, um pastor cuja igreja financia há quase trinta anos centros para órfãos e toxicodependentes em Juárez. “Havia dinheiro e havia empregos, mas a cidade não estava necessariamente a melhorar.”

À medida que as populações rurais se convertiam em força de trabalho industrial, os laços familiares enfraqueciam. Milhares de jovens cresceram nas ruas. Os gangues multiplicaram-se. O cartel de Juárez foi formado para controlar as principais rotas de contrabando de estupefacientes. A ausência de lei e ordem generalizou-se. 

No domingo de Páscoa, as crianças da família Ramos Gutiérrez brincam no Parque de El Chamizal, um dos poucos espaços verdes da cidade. A velha tradição em Juárez de passear no parque neste dia santo tornou-se muito perigosa durante os anos de violência. 

 Tinha estado em Juárez há duas décadas para escrever uma reportagem sobre aquela que foi a primeira vaga de jovens mulheres assassinadas – “as mulheres mortas de Juárez”, como ficaram conhecidas em todo o mundo. Ao longo dos anos sombrios, regressei à cidade uma dúzia de vezes. A maioria dos operários fabris eram mulheres que ali chegavam sem família, tornando-se particularmente vulneráveis. Muitos cadáveres eram abandonados no deserto onde o calor os mumificava, reduzindo-os ao anonimato. Com os assassinos imunes, as mortes multiplicaram-se. 

Antigos membros de gangues pintam um mural para agregar jovens oriundos de bairros diferentes, por vezes rivais. Juárez teve centenas de gangues que foram arrastados para a guerra entre cartéis da droga. 

 Em 2008, Juárez perdeu noventa mil postos de trabalho quando os Estados Unidos mergulharam na recessão, produzindo uma horda de desempregados em desespero. Nessa mesma época, o cartel de Sinaloa entrou na cidade numa tentativa de arrebatar o controlo das rotas da droga ao cartel de Juárez. Os dois grupos começaram a mobilizar os gangues de rua num combate funesto. Durante cinco anos, a violência engoliu a cidade. 

Quando Inès Montenegro, homem agradável mas preocupado e taciturno, conta a história da Arena San Antonio, começa por enumerar as famílias da sua rua que tiveram entes queridos raptados. “Foram cinco”, afirma, por fim. “Nós incluídos.”

Os raptores levaram-lhe o filho mais novo. Inés foi obrigado a pedir dinheiro emprestado para pagar o resgate. Quando tinha quase acabado de pagar o empréstimo, o filho foi raptado de novo. Durante sete anos, lutou para pagar as dívidas, que totalizavam aproximadamente 44 mil euros. Vendeu algumas lojas de pneus e quase abriu falência. Ficou parcialmente cego depois de um vaso sanguíneo num olho rebentar devido ao stress. “Não desejo a ninguém que sofra um rapto”, diz.

Neste regresso a Juárez, contrato um taxista chamado Jesús Amable para me conduzir a meia dúzia de bairros. O simples facto de podermos passear assim prova o novo clima de Juárez. Mesmo assim, muitas lojas estão ainda encerradas, pois os seus proprietários fugiram.

2010 Pessoas enlutadas participam nos enterros de três jovens assassinadas durante um massacre numa festa de aniversário que deixou 14 mortos. Quando os pistoleiros descobriram que o homem que procuravam não se encontrava presente, encurralaram os outros e executaram-nos. 

 Numa florista de ar próspero, Claudia Saucido conta-me que geria sozinha a loja, enquanto o marido trabalhava noutro lugar para pagar a cuota de cem dólares — cerca de uma semana de salário em Juárez — imposta pelos extorsionistas. Do outro lado da rua, Alfredo Rodríguez conta que a sua família não tinha dinheiro para pagar as luvas exigidas e fechou o minimercado aberto pelo seu pai. Reabriu-o há pouco tempo. Jesús conta que costumava pagar 17 euros por semana, tal como nove colegas da sua praça de táxis. “Éramos visitados por rapazes de 15 anos, em carros novos, que vinham fazer a cobrança”, diz.

2015 No laboratório de medicina legal, Alejandro Cárdenas examina um cadáver anteriormente exsicado agora reidratado. O especialista aperfeiçoou a técnica, esperando desencorajar os homicidas que abandonam cadáveres no deserto, onde o intenso e o ar quente os deformam. 

 Em 2010, as autoridades de Juárez calculavam que cerca de oito mil empresas estivessem a ser alvo de extorsão. No ano seguinte, Carlos Salas, recém-nomeado como procurador-geral estadual, deu ordens à polícia do estado de Chihuahua para fundar uma brigada antiextorsão. 

Muitos crimes tinham ficado impunes. “Não havia investigação profissional. Aliás, não existia qualquer investigação”, afirma César Muñoz, o primeiro responsável da brigada e actual chefe de polícia da cidade. “Quando um crime era perpetrado, os polícias escondiam-se nos gabinetes.”

A brigada, composta por jovens agentes da polícia com reputação imaculada, passou as duas primeiras semanas a bater de porta em porta, na baixa de Juárez, pedindo aos donos das empresas que denunciassem os extorsionistas.

A brigada, composta por jovens agentes da polícia com reputação imaculada, passou as duas primeiras semanas a bater de porta em porta, na baixa de Juárez, pedindo aos donos das empresas que denunciassem os extorsionistas. Este tipo de actividade policial comunitária era inédito no México. “Ninguém quis falar. Muitos pensaram que nós próprios éramos extorsionistas,” conta Luis Hernández, o actual comandante da brigada.

O telefone só tocou pela primeira vez no escritório da brigada duas semanas mais tarde. Era um padeiro. Os extorsionistas tinham-lhe exigido 4.300 euros: se não pagasse, ateavam-lhe fogo ao negócio. A brigada pôs os telefonemas sob escuta. Os agentes seguiram o padeiro até ao ponto de encontro. No momento da entrega do dinheiro, os polícias actuaram. Esta detenção foi a primeira investigação de extorsão bem-sucedida realizada em Juárez durante o período de violência. Os extorsionistas (uma dona de casa, um operário fabril e dois empregados de uma loja de pneus) foram condenados. 

“Pouco depois, já existia o problema oposto: um número excessivo de empresas denunciava este crime”, afirma o comandante da brigada.

Em Outubro de 2011, três agentes de polícia estavam de vigia junto de uma mercearia familiar quando foram emboscados e assassinados a tiro por pistoleiros. Nessa noite, o procurador-geral da região de Juárez compareceu nos velórios. Miguel Ángel Saucedo, cujo filho de 23 anos fora um dos agentes assassinados, encorajou-o a prosseguir o combate. “Se parar, o esforço que ele fez não terá valido nada”, disse.

A tragédia tornou-se um ponto de viragem.
A brigada foi alargada e definiu como alvo José “El Junior” Gómez Castañeda, cérebro de uma operação de extorsão que rendia 350 mil euros por semana. Dez suspeitos foram capturados, mas El Junior escapou e chegou a telefonar a César Muñoz com ameaças. Em 2013, a brigada conseguiu capturá-lo, ao invadir uma casa com piscina, ginásio, sala de jogos de vídeo e um varão de strip-tease. El Junior foi condenado a prisão perpétua e enforcou-se na cela. 

Enquanto a polícia estadual lançava a sua brigada antiextorsão em 2011, o departamento de polícia de Juárez contratou os serviços de um tenente--coronel do exército reformado que modernizara a polícia estadual da Baixa Califórnia.

Enquanto a polícia estadual lançava a sua brigada antiextorsão em 2011, o departamento de polícia de Juárez contratou os serviços de um tenente-coronel do exército reformado que modernizara a polícia estadual da Baixa Califórnia e que, quando servira como chefe de polícia de Tijuana, ajudara a esmagar num ano a violência que grassava na cidade. 

Julián Leyzaola, que se reformou da força policial em 2013, é bem conhecido no México — infame para uns, heróico para outros. Utilizava métodos de grande dureza, classificados por muitos activistas como pouco respeitadores dos direitos humanos. “Houve confrontos e perseguições”, conta, sem pedir desculpa. “Os suspeitos eram espancados. É normal que aconteça.”

2010 Um cão de guarda estica a corrente no pátio de uma casa. Quando os cartéis e os gangues começaram a disputar o controlo das rotas de tráfico de droga e os moradores desempregados se viraram para a extorsão e o rapto, Juárez tornou-se a cidade mais perigosa do mundo.

 Em Juárez, conta, encontrou um departamento com centenas de aviadores, ou “pára-quedistas”, funcionários públicos que só apareciam para receber o salário. “Havia cerca de trezentos agentes (de um total de 2.500) que realmente trabalhavam”, conta. Promoveu vários despedimentos e fez saber aos restantes que tinham a obrigação de patrulhar as ruas. 

Julián adquiriu novos carros de patrulha, armou os agentes com pistolas Beretta e Glock e mudou os uniformes de “cinzento cor-de-rato” para azul-escuro. “Alimentámos o orgulho de envergar um uniforme”, disse. 

Num estilo militar, a polícia começou a retirar o controlo da cidade aos cartéis, aos gangues e a outras entidades que tinham optado pelo crime. “Expulsámo-los pouco a pouco, dando-lhes sempre uma saída para não os encurralarmos”, conta.

David Alamillo, dono de um restaurante e de um bar em Juárez, vivia na Europa em 2008 quando os seus gerentes lhe telefonaram, informando-o sobre roubos, assassínios e um medo reinante entre os empregados. Resolveu regressar, mas só por seis meses – assim o disse à mulher. 

David é um tipo imponente, corpulento e loquaz, morfologia apropriada para um empresário da agitada vida nocturna da cidade. Uma semana após o seu regresso, um homem acompanhado de seis pistoleiros fez-lhe uma visita, exigindo 30 mil euros. David não pagou e, uma semana mais tarde, uma das suas discotecas foi incendiada. 

Muitos começaram a deixar de pagar impostos, pagando em vez disso a extorsão. Houve uma viragem e instalou-se uma cultura de pagamento à criminalidade organizada.

Com o tempo, os extorsionistas tornaram-se mais suaves. “Foram espertos”, diz David. “Um empresário começa a pensar que, afinal, talvez não seja tão mau assim pagar. Muitos começaram a deixar de pagar impostos, pagando em vez disso a extorsão. Houve uma viragem e instalou-se uma cultura de pagamento à criminalidade organizada. Quanto aos pagamentos da electricidade e da água, parámos de os fazer.” Em breve David pagava 1.700 euros por semana. Um homem visitava-o todas as semanas, servindo-se no bar sem pedir licença e levando o envelope.

Indignado, David aliou-se a outros líderes influentes em 2010 e juntos formaram uma comissão de segurança pública, para se articular com a polícia. O risco era tão elevado que reuniam em segredo, muitas vezes no aeroporto de El Paso.

Estes líderes possuíam força para convencer os políticos a agir. A seu pedido, o legislador de Chihuahua tornou os crimes de rapto e extorsão, bem como o assassínio de agentes de polícia, jornalistas e de três ou mais cidadãos puníveis com a prisão perpétua. Antes a pena máxima era
de 50 anos. 

Esta comissão constituiu uma novidade no México. Durante décadas, a administração federal paternalista desencorajara a participação cívica. E os ricos do México não mantêm muito contacto com os agentes de polícia, muitas vezes nascidos nas famílias mais pobres. “Os narcotraficantes pertenciam à mesma classe e entendiam a rejeição sentida pela polícia”, explica David. “Afinal, os vilões convidavam-nos para festas, proporcionando-lhes reconhecimento social.”

2015 Victoria Acosta, uma costureira que fabrica assentos para automóveis e airbags, faz a limpeza da casa enquanto as toalhas secam. Até a violência abrandar, eram raras as demonstrações exteriores de riqueza, como paredes pintadas com cores alegres.

Por isso, ao mesmo tempo que defendia aumentos salariais, mais formação e equipamento novo, a comissão promovia também a valorização da polícia. Recorrendo a dinheiros estaduais federais, a cidade inaugurou um clube de campo para os agentes e as suas famílias — com piscinas, ginásio, ciclismo e um memorial de homenagem aos agentes tombados em serviço.

Numa reunião à qual compareço, os administradores da polícia contam histórias do seu trabalho, enquanto os empresários perguntam quais os crimes que devem merecer mais atenção. 

Sentado de costas para a parede, na borda da cadeira, encontra-se um polícia de giro de Juárez, chamado Emilio Fernández, acompanhado da mulher, dois filhos e uma filha. Todos os meses a comissão presta homenagem a um agente da polícia. A coordenadora da comissão, Alejandra de la Vega, pede a Emilio que se levante e presta-lhe homenagem por ter subido estradas de encosta intransitáveis por automóveis a fim de carregar às costas um idoso com problemas de coração até à carrinha dos paramédicos.

“Foi um acto heróico e queremos agradecer-lhe – a si e à sua família”, diz. Toda a gente se ergue e aplaude. O lábio de Emilio treme. Os olhos da mulher e da filha ficam marejados de lágrimas. 

No dia seguinte, David oferece-se para me acompanhar num passeio pela cidade. Viajamos de automóvel durante muitos quilómetros. Passamos por cruzamentos onde minimercados e postos de abastecimento de gasolina brotam em cada esquina. David vira para o Fraccionamiento Praderas del Sol, um bairro onde centenas de minúsculas casas prefabricadas se encontram devolutas, um vestígio residual da violência e do colapso da bolha imobiliária no México. 

No início da tarde, regressamos à baixa e ao seu novo estabelecimento comercial. O Restaurante Viva México tem candeeiros de rua, uma passadeira, cantores e um ringue equestre. David tem agora sete empresas e emprega trezentas pessoas. “Ainda nos falta um longo caminho”, diz. 

Quando visitei Juárez pela primeira vez, grande parte do aparelho da justiça criminal, incluindo a prisão e os tribunais, não funcionava. Na cidade, existia uma morgue minúscula e lúgubre e não havia laboratório de medicina legal. 

Quando visitei Juárez pela primeira vez, grande parte do aparelho da justiça criminal, incluindo a prisão e os tribunais, não funcionava. Na cidade, existia uma morgue minúscula e lúgubre e não havia laboratório de medicina legal. 

Alejandro Cárdenas chegou ao laboratório em 2002, quando este era uma pequena sala na faculdade de medicina local, equipada com um frigorífico para cadáveres que avariava frequentemente e deitava um fedor horrível. Era-lhe solicitado que identificasse corpos curtidos e encolhidos pelo deserto.

Alejandro é formado em odontologia forense, trabalha agora num edifício moderno que acolhe uma equipa de especialistas em antropologia forense, um laboratório de DNA e um laboratório de genética. Na manhã da minha chegada, os seus assistentes colocam um velho mumificado numa banheira rectangular. Alejandro enche-a com uma solução química. Após três dias ali, o nariz, a boca, as orelhas e as bochechas do homem ficarão mais bem definidas, até se tornar identificável. 

A solução reidratante inventada por Cárdenas é uma das mudanças inesperadas que contribuíram para retirar a cidade do pesadelo em que se encontrava. À semelhança dos líderes da comunidade empresarial e dos agentes responsáveis pela aplicação da lei que reagiram à violência em Juárez, Alejandro teve de improvisar.

Ele fez a sua descoberta através de experiências em tecidos animais e dedos desidratados, introduzindo-os em frascos cheios com soluções diferentes. O processo demorou dois anos, até que um dia Alejandro encontrou um dedo indicador totalmente recuperado. Era a solução. 

O especialista mostra diapositivos de vários corpos que reidratou. Deste tratamento químico emergem rostos, tatuagens, verrugas, cicatrizes, marcas de nascença e até marcas de bronzeamento. A sua invenção contribuiu para travar os criminosos que se tinham aproveitado do deserto para encobrir os seus homicídios, como muitos tinham feito ao longo dos anos em que centenas de mulheres foram mortas.

Ouvindo música em altos berros proveniente de um iPod, Juan Manuel Alvarado Gómez conduz uma bicicleta transformada e personalizada no bairro de Santa María, actividade que teria sido perigosa até há pouco tempo. Ao longe, ergue-se a serra de Juárez.

 A transformação do sistema de justiça criminal de Juárez também pode ser constatada na sua prisão. Outrora quase gerida pelos reclusos, era considerada um dos mais perigosos estabeleci-mentos prisionais da América Latina. O Estado assumiu o controlo em 2011. Os prisioneiros mais violentos foram transferidos para prisões federais. Apagaram-se os graffiti. Encerraram-se as lojas e restaurantes explorados pelos reclusos. Um altar a Santa Muerte, uma santa do folclore popular da predilecção dos raptores, foi retirado. Numa torre, instalou-se equipamento para bloquear as chamadas dos telemóveis. Numa visita que ali fiz, encontrei ladrilhos imaculados, luzes brilhantes e pátios limpos. Em 2014, tinham acabado os homicídios, as fugas e os motins. 

No período de maior violência, o México começou a criar um sistema judicial ao estilo
norte-americano, através do qual os juízes ouvem depoimentos de testemunhas ajuramentadas em salas de tribunal abertas ao público. Durante séculos, os juízes mexicanos tomavam decisões através da ponderação conjunta de prova escrita e depoimentos, dando os seus veredictos à porta fechada. As sentenças poderiam demorar anos.

Em Juárez, os homicídios baixaram de 3.766 em 2010 para 256 em 2015. A cidade deixou de integrar a lista das 50 urbes mais violentas do mundo. Há mais de dois anos que não se registam casos de rapto ou extorsão. 

O estado de Chihuahua foi um dos primeiros a adoptar o sistema de tribunal aberto e Juárez pô-lo em prática velozmente. O Estado construiu um complexo judicial espaçoso e arejado. De início, a situação piorou, pois os procuradores cometeram erros de principiante. Em meados de 2011, porém, já conseguiam obter sentenças de prisão perpétua para extorsionistas e raptores. 

Numa sala de tribunal que visito, um colectivo de três juízes, após um mês de depoimentos abertos ao público, condena três homens pronunciados por invasão de domicílio à mão armada, roubo, violação de mulheres e fuga com computadores e televisores roubados. A polícia detivera os homens, investigara o caso e identificara testemunhas capacitadas para testemunhar.

“Estes homens faziam aquilo que tantos jovens começaram a fazer”, contou Josefina Soara, a procuradora. “Pegavam numa arma, avançavam com ela em punho e roubavam quem lhes apetecesse. Achavam que, na vaga de violência tão gigantesca, ninguém repararia neles.”

Em Juárez, os homicídios baixaram de 3.766 em 2010 para 256 em 2015. A cidade deixou de integrar a lista das 50 urbes mais violentas do mundo. Há mais de dois anos que não se registam casos de rapto ou extorsão. Aproveitando a recuperação económica dos EUA, no primeiro semestre de 2015, Juárez criou mais 17 mil postos de trabalho, o melhor registo em cinco anos.David Alamillo sublinha que Juárez pode servir de modelo a outras regiões do México. Gostaria de acreditar nele. Mas Juárez fica no Norte, uma região mais próxima do mercado dos Estados Unidos e tradicionalmente mais aberta a novas ideias do que o resto do México. 

Mais grave é o facto de os políticos nada terem feito para contrariar a corrupção nem a inexistência de responsabilização do sistema político, que permite que traficantes de pequena envergadura se transformem em ameaças à segurança.

Muitos factores que outrora debilitavam Juárez continuam a existir: empregos mal pagos e sem perspectivas de futuro; gangues de rua e cartéis de droga; mais cartazes publicitários do que árvores; e proximidade relativamente a um vizinho com um apetite insaciável por drogas e pouco controlo sobre a venda de armas. 

Mais grave é o facto de os políticos nada terem feito para contrariar a corrupção nem a inexistência de responsabilização do sistema político, que permite que traficantes de pequena envergadura se transformem em ameaças à segurança. Embora quase metade da receita fiscal do estado de Chihuahua seja gerada em Juárez, só uma pequena percentagem desse dinheiro é devolvida à cidade. Juárez continua a ser uma cidade com demasiados buracos na estrada e poucos parques. Dois meses depois da nossa conversa, Julián Leyzaola foi atingido com vários tiros numa rua de Juárez. Está agora paralisado e desloca-se numa cadeira de rodas, mas regressou a Tijuana e vai candidatar-se à presidência da câmara. 

A provar o grau de mudança na cidade que deixou atrás de si, a polícia capturou e pronunciou rapidamente os dois alegados atacantes. Os seus julgamentos serão abertos ao público. E, se forem condenados, passarão muitos anos em prisões geridas por guardas, não por reclusos.  

 

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