Índice do artigo

 Texto Sam Quinones   Fotografia Dominic Bracco II

Outrora um dos mais perigosos lugares do mundo, esta cidade fronteiriça melhorou espectacularmente os seus índices de criminalidade, depois de o México reestruturar o seu ineficaz sistema judicial penal.

Ao cair da noite em San Antonio, um antigo amontoado de barracas transformado num bairro com casas de betão, ruas de piso irregular e poucas árvores, as crianças encaminham-se entusiasmadas na direcção de um armazém atulhado de pneus. Ali, o ruído de Ciudad Juárez é abafado pelos grunhidos, sopapos  e baques surdos de corpos jovens e flexíveis embatendo contra a lona.

O dono deste improvisado ringue de luta, construído com ferro e cablagens recuperadas de depósitos de sucata, é Inés Montenegro, que o inaugurou há dois anos depois de um dos seus filhos ter sugerido que as crianças do bairro precisavam de um sítio para brincar. No México, a lucha libre, um estilo de luta profissional protagonizado por lutadores mascarados que executam movimentos acrobáticos coreografados, é uma obsessão nacional. A arena improvisada de Inés Montenegro foi um êxito imediato. 

Esta noite, quatro rapazes deixam-se cair contra as cordas que os projectam como fisgas para o centro do ringue. Exultantes, ricocheteiam, aprendendo a coreografia de movimentos clássicos como o “salto de tigre”, atirando-se melodramaticamente para o interior do ringue, e as “tesouras”, saltando a partir das cordas para prender o pescoço do adversário entre as pernas. 

2010 Paralisados num último abraço, este casal e o seu bebé por nascer foram assassinados por um único tiro. No auge da vaga de criminalidade que assolou a cidade, dez pessoas perdiam a vida todos os dias por morte violenta.

 Esta cena teria sido inimaginável há seis anos, na minha última visita a Juárez, a maior cidade do estado de Chihuahua. As brincadeiras infantis tinham sido banidas dos espaços públicos, uma vez que os cartéis do narcotráfico combatiam rua a rua pelo controlo da cidade fronteiriça, porta de acesso ao lucrativo mercado de drogas dos Estados Unidos. Vi soldados mexicanos de capacete e óculos escuros lutando para recuperar essas ruas no interior de viaturas blindadas, empunhando armas de assalto numa de muitas tentativas feitas para travar a violência macabra que tornara Juárez tristemente célebre em todo o mundo.

Entre 2008 e 2012, esta cidade de 1,3 milhões de habitantes foi normalmente classificada como o lugar mais perigoso da Terra. Os homicídios dispararam para 3.700 no pior ano. Os criminosos praticavam raptos e extorsões com impunidade. Um quarto dos automóveis roubados no México era roubado em Juárez. As empresas encerravam. Reinava a anarquia. 

O bairro de San Antonio era um dos piores. Cada um dos rapazes que víamos agora a combater tinha parentes mortos ou encarcerados na prisão. 

O bairro de San Antonio era um dos piores. Cada um dos rapazes que víamos agora a combater tinha parentes mortos ou encarcerados na prisão. Dois tios de Antonio foram assassinados. 

Nas colonias, ou bairros, pelo menos 11 ringues de lucha libre atraem actualmente centenas de miúdos encarnando personagens com nomes como Falcão Azteca e Ex-Presidiário. Nas ruas de Juárez, outrora vazias, voltaram a ver-se multidões. Em redor da catedral, o negócio é próspero nos armazéns de vestuário e nas lojas de gelados. Bandas de rock tocam versões em espanhol de “Johnny B. Goode” e “Jailhouse Rock” para que os clientes parem, escutem e dancem. Foi inaugurado um museu infantil, em parte a pensar nas 14 mil crianças que, segundo cálculos do seu director, ficaram órfãs devido à violência. Os bairros organizaram ligas desportivas. Os parques — entre os quais alguns recém-inaugurados — tornaram-se de novo lugares de convívio. “As pessoas estão a perder o medo”, afirma Inés. 

2015 Denise Fuentes e Ulises Escobedo, posando num miradouro com o seu bebé, Eros, foram ambos afectados pela guerra das drogas que devastou o bairro localizado lá em baixo. Agora, procuram casa nesse bairro. 

 O que aconteceu em Juárez para que Inés e outros pudessem perder o medo e retomar as suas vidas? A explicação não reside em qualquer melodrama de luta livre onde um herói mascarado triunfa. O México conseguiu mobilizar vontade política para, pelo menos em Juárez, reforçar o sistema de justiça penal e investir na administração autárquica. Esta iniciativa incentivou a coragem de alguns protagonistas inesperados: os agentes responsáveis pela aplicação da lei, que criaram uma força policial mais profissional (num país onde os polícias são frequentemente corruptos), os empresários que ficaram (em vez de fugirem) e os responsáveis autárquicos que desafiaram a burocracia esclerótica e desencadearam reformas radicais. 

Em 1996, quando visitei Juárez pela primeira vez, a cidade era uma roda dentada na engrenagem da economia global emergente. Hordas de rancheiros e camponeses afluíam ali para trabalhar na montagem de sistemas de som, televisores e peças de automóveis para o mercado norte-americano, em unidades fabris isentas de impostos, as maquiladoras.

Muitos migrantes ali chegados planeavam atravessar a fronteira até à vizinha cidade de El Paso, no Texas, mas descobriam que, na estrutura económica de Juárez, então em expansão, conseguiam obter aquilo que lhes era negado na sua terra natal: uma casa sólida, um automóvel usado e um emprego seguro. Juárez encheu-se de empresas familiares.

Inés era um rapaz novo quando chegou a Juárez na década de 1970 e integrou este fluxo de prosperidade empresarial. Comprou terrenos quando San Antonio era apenas um bairro de lata. Abriu uma loja de pneus, onde hoje se aloja a sua arena de luta livre e fundou depois outras lojas.

Juárez cresceu caoticamente. Como sucede em todas as cidades mexicanas, a sua receita fiscal era transferida para a Cidade do México. Pouco regressava à origem.

Juárez cresceu caoticamente. Como sucede em todas as cidades mexicanas, a sua receita fiscal era transferida para a Cidade do México. Pouco regressava à origem. Os agentes da polícia racionavam a gasolina e as balas. As infra-estruturas de base — estradas, esgotos, sistema de drenagem de águas pluviais, parques — eram negligenciadas.

“As pessoas não perceberam que tínhamos necessidades apesar de continuarmos a crescer”, afirma Alfonso Murguía, um pastor cuja igreja financia há quase trinta anos centros para órfãos e toxicodependentes em Juárez. “Havia dinheiro e havia empregos, mas a cidade não estava necessariamente a melhorar.”

À medida que as populações rurais se convertiam em força de trabalho industrial, os laços familiares enfraqueciam. Milhares de jovens cresceram nas ruas. Os gangues multiplicaram-se. O cartel de Juárez foi formado para controlar as principais rotas de contrabando de estupefacientes. A ausência de lei e ordem generalizou-se. 

No domingo de Páscoa, as crianças da família Ramos Gutiérrez brincam no Parque de El Chamizal, um dos poucos espaços verdes da cidade. A velha tradição em Juárez de passear no parque neste dia santo tornou-se muito perigosa durante os anos de violência. 

 Tinha estado em Juárez há duas décadas para escrever uma reportagem sobre aquela que foi a primeira vaga de jovens mulheres assassinadas – “as mulheres mortas de Juárez”, como ficaram conhecidas em todo o mundo. Ao longo dos anos sombrios, regressei à cidade uma dúzia de vezes. A maioria dos operários fabris eram mulheres que ali chegavam sem família, tornando-se particularmente vulneráveis. Muitos cadáveres eram abandonados no deserto onde o calor os mumificava, reduzindo-os ao anonimato. Com os assassinos imunes, as mortes multiplicaram-se. 

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar