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O contexto da Idade do Ferro agora descoberto proporcionou a identificação da estela, bem como de uma rampa e um ancoradouro do mesmo período, a par de outros materiais ainda a aguardar análise. A equipa da Neoépica, empresa responsável pelos trabalhos, identificou também ocupações do período romano republicano e imperial, da Antiguidade tardia, da Idade Média islâmica e cristã e, claro, das épocas moderna e contemporânea. De alguma maneira, naquele cobiçado quarteirão, que durante séculos funcionou como fronteira face ao Tejo, está o livro da história de Lisboa, capítulo a capítulo, em todas as suas glórias e tragédias.

A equipa confirmou também os alicerces da velha muralha romana e identificou a estrutura de uma muralha tardia, uma ampla parede vertical que chega a atingir 8 metros de altura em alguns segmentos. “São duas fases diferentes na marcação dos limites da cidade romana”, diz Nuno Neto. “A muralha tardia impõe respeito, era uma estrutura imponente.” O desmonte de todas as estruturas de épocas mais recentes, um acto fortemente intrusivo, teve uma contrapartida importante: “Confirmámos que as casas romanas foram simplesmente emparedadas dentro da muralha. Fosse por pressa ou necessidade de fortalecer a linha defensiva, as casas foram integradas. Num dos sectores, aparece uma parede estucada, pintada em tons de branco e negro com motivos geométricos, entrincheirada na própria muralha.”
A eficiência da estrutura justificou a sua continuidade muito para lá da presença romana na cidade.

Noutro ponto da escavação, foi possível continuar os trabalhos de 2004, recuperando o mosaico que a equipa de Ana Gomes já desvendara parcialmente. A figuração é quase inédita em Portugal: representa Vénus descalçando a sandália, mito antigo da cultura romana, com um único paralelo em escultura encontrada perto de Elvas.

Noutro ponto da escavação, foi possível continuar os trabalhos de 2004, recuperando o mosaico que a equipa de Ana Gomes já desvendara parcialmente. A figuração é quase inédita em Portugal: representa Vénus descalçando a sandália, mito antigo da cultura romana, com um único paralelo em escultura encontrada perto de Elvas. “Foi uma surpresa gradual, à medida que destapávamos o mosaico invulgarmente bem preservado”, diz o arqueólogo Ricardo Ávila. Sensibilizado, o proprietário do hotel integrou-o no projecto, tornando-o visitável após inauguração da unidade hoteleira. Noutro espaço do hotel, figurará também um núcleo museológico, com materiais recolhidos nas escavações, mas certamente não a estela que, pelo seu carácter único, é uma peça de museu nacional.

Aescavação num local tão continua-mente ocupado, na base de uma das colinas da cidade, teria forçosamente de fornecer elementos dignos de nota. No pátio, foi identificado um entesouramento numa fossa do período medieval islâmico, provavelmente do século X d.C. “Encontrámos um conjunto de bronzes bem preservados, com alguns paralelos em materiais já detectados em Espanha: um candil, a pata de um leão que corresponderia a um braseiro, uma ponta de lança e um almofariz”, enuncia Paulo Rebelo.

E, claro, este foi também um dos primeiros palácios ribeirinhos da história da área oriental de Lisboa, embora de futuro a sua memória se limite à configuração arquitectónica. “Lisboa foi o sítio de onde a Europa saiu para o resto do mundo e o sítio por onde o resto do mundo entrou na Europa”, argumenta Carlos Fabião. “Infelizmente, um turista que chegue à cidade não encontra essa narrativa. O Palácio de Coculim é importante porque representa o momento em que a cidade se transporta para a zona ribeirinha. Até ao século XV, o coração foi o castelo. A partir daí, o Paço da Ribeira, a Casa da Índia e os palácios vêm cá para baixo, junto do rio e aí permanecem mesmo depois do terramoto de 1755. É lamentável que não se tire partido dessa ruptura topográfica quando se projectam novas estruturas.”

A arqueologia é sempre intrusiva e destrutiva, na medida em que impede segundas oportunidades de acesso ao subsolo escavado. É uma mera janela de acesso a um passado fragmentado e fortuito e, numa cidade ocupada com tanta continuidade e sujeita a solavancos sísmicos periódicos, o espaço é negociado com dificuldade. Estão bem documentadas as dificuldades dos historiadores amadores no período pós-terramoto, quando urgia sobretudo reconstruir e esquecer a tragédia. A vaga de construção da segunda metade do século XIX foi outra oportunidade perdida e o rol de queixumes de arquitectos, engenheiros e historiadores é longo e triste face às desconsiderações dos sucessivos donos de obra. As renovações do Estado Novo no século XX constituíram novo atentado grosseiro a sítios arqueológicos até então incólumes, preferindo-se o pastiche do castelo romântico à narrativa da história real.

A vaga de construção da segunda metade do século XIX foi outra oportunidade perdida e o rol de queixumes de arquitectos, engenheiros e historiadores é longo e triste face às desconsiderações dos sucessivos donos de obra.

A arqueologia faz, com frequência, o papel de desmancha-prazeres, atrasando e encarecendo trabalhos de revolvimento do subsolo. A cidade parece ficar confortável com aquilo que Paulo Rebelo designa por fachadismo, a preservação exclusiva do esqueleto exterior de edifícios icónicos. Em contrapartida, desde as obras do metropolitano na década de 1960 que não existia uma oportunidade tão alargada de investigação da história escondida sob os nossos pés como esta agora indirectamente proporcionada pela vaga de reabilitação urbana no casco histórico de Lisboa. Na Estratégia de Reabilitação Urbana de Lisboa para 2011-2014, documento vigoroso de 77 páginas, a arqueologia figura apenas por três vezes e em duas delas como constrangimento ou “surpresas que podem ocorrer durante a execução dos trabalhos de detecção de vestígios arqueológicos que levam à paralisação temporária dos trabalhos”. É manifestamente pouco face à oportunidade em curso. Quantas estelas ficam pelo caminho?

Aliás, há velhos enigmas que podem ser agora concluídos. O Fórum romano de Lisboa permanece há séculos por encontrar e um dos locais possíveis para a sua localização, no planalto acima do Teatro Romano, será em breve alvo de novo projecto imobiliário. Quanto à estela fenícia, ela sugere fortemente que a necrópole da Idade do Ferro não estará longe. “Se eu fosse o organismo que tutela a cultura em Portugal, estaria apreensiva e atenta após a descoberta desta inscrição”, diz Ana Arruda. “Porque a necrópole não andará longe e pode emergir nos próximos anos num contexto parecido com este.”

Quanto à estela fenícia, ela sugere fortemente que a necrópole da Idade do Ferro não estará longe.

O conhecimento que se obtém numa escavação desta natureza é um elemento identitário. Um excesso de identidade, talvez, como o ensaísta Eduardo Lourenço já sugeriu, mas identitário e essencial. E a comunidade de arqueólogos deve essa reflexão à cidade. “Em último caso, tudo isto pertence à população de Lisboa”, diz Paulo Rebelo, numa analogia poderosa, enquanto aponta para centenas de caixotes com as iniciais HCS, o código do sítio de escavação. “A última coisa que queremos é terminar uma campanha como a dos armazéns Sommer replicando a imagem derradeira do filme do Indiana Jones, na qual um operário anónimo empurrava um caixote com a Arca da Aliança num armazém gigantesco, escondendo-o num mar de caixotes idênticos, longe do escrutínio público.”  

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