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O Palácio de Coculim foi habitado pelo conde de Coculim até ao terramoto de 1755, altura em que a família se mudou para as Fontainhas. Fontes do século XVIII referem-se ao local como “o palácio incendiado”. A partir de 1858, o espaço serviu de armazém industrial e escritório. Nesta fotografia, do início do século XX, vê-se o magnífico cunhal na esquina do edifício. Fotografia do Arquivo Municipal de Lisboa, colecção Artur João Goulart.

Conhecia-se igualmente um fragmento cerâmico com grafemas fenícios em Tavira, mas a cerâmica é portátil e pode ser gravada em qualquer lugar, incluindo na costa levantina do Mediterrâneo. A estela funerária era um indício diferente, até porque só existiam três inscrições monumentais com caracteres fenícios em toda a Península Ibérica e esta é, de longe, a localização mais ocidental. “Pesada e com escassas marcas de manuseamento, sugere fortemente que foi gravada no próprio local”, comenta Nuno Neto. O que nos força a repensar o povoamento de Lisboa entre os séculos VIII e VII antes de Cristo.

Seja por motivos científicos inatacáveis ou por alucinações new age que teimam em detectar fenícios pelo Atlântico fora, a especialista Ana Arruda, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), acaba por ser sempre a porta à qual se bate para debater a importante transição entre o final da Idade do Bronze e o início da Idade do Ferro no extremo peninsular. A sua paciência é lendária. Esta descoberta, “a mais entusiasmante da última década na arqueologia de Lisboa”, não a apanhou totalmente de surpresa.

Uma caderneta bancária encontrada entre as ruínas dos armazéns Sommer.

“Esperávamos algo assim. Os indícios estavam cá todos”, diz. “Há uma ruptura entre o final da Idade do Bronze e o início da Idade do Ferro – uma orientalização, pressentida nos materiais arqueológicos descobertos nas escavações do Castelo e da Sé, no tipo de cerâmica produzida, na adopção de práticas orientais, de dietas, de comportamentos sociais. Aconteceu algo que modificou as comunidades indígenas nesse período.”

Desde o início do século XXI que os especialistas debatem arduamente duas hipóteses explicativas e não exclusivas: uma corrente sugere que a principal influência na fachada atlântica resultou de contactos com culturas da bacia do Guadalquivir, que aqui teriam chegado principalmente por via terrestre. Os historiadores romanos agregaram-nas mais tarde sob a designação pouco precisa de tartéssicos. Outra corrente, perfilhada por Ana Arruda, sugere que a ruptura resultou da chegada por via marítima de colonos fenícios, de inspiração oriental, mesmo que não provenientes directamente da costa do Líbano. A descoberta da estela funerária insere-se neste debate e, durante a sua primeira apresentação, num congresso sobre arqueologia urbana, motivou intensas expressões de júbilo. Como Sophia poderia dizer, esta era a estela que se esperava.

Rampa da Idade do Ferro. Ortofotografia Ricardo Ávila Ribeiro.

A interpretação de Zamora para as três linhas de texto (a última das quais fragmentada) comprovou que se trata de uma dedicação funerária em fenício, com provável referência a nomes indígenas. Por analogia grafológica (uma vez que o contexto secundário não permitia outra solução), a inscrição foi datada da primeira metade do século VII a.C. “Em caracteres fenícios e em língua fenícia, um indivíduo indígena honra um ente querido. Isto mostra uma absorção extraordinária de um pacote cultural oriental num contexto traumático como é a morte”, conclui Ana Arruda. “Acredito que havia uma intenção clara dos fenícios de atingir a foz do Tejo. As escavações em Lisboa, em Castro Marim, em Santarém e sobretudo em Abul [Alcácer do Sal, onde se identificou a primeira feitoria fenícia no território] alimentam essa hipótese.”

Carlos Fabião, arqueólogo da FLUL e um dos mais prolíferos investigadores da história da cidade, acrescenta outro elemento de contextualização: “A descoberta da estela pressupõe que quem escreve está cá e escreve para outros lerem. Esta é uma mensagem para terceiros, um comprovativo de literacia a propósito de nomes e eventos indígenas feito para durar. Não faz sentido escrever ou mandar escrever uma lápide funerária se não houver gente para a ler! E as implicações dessa opção são entusiasmantes.”

Durante décadas, a presença fenícia no Ocidente foi subvalorizada. Em Lisboa, a recolha de vestígios arqueológicos no subsolo data, com vários solavancos, das décadas seguintes ao terramoto de 1755.

Durante décadas, a presença fenícia no Ocidente foi subvalorizada. Em Lisboa, a recolha de vestígios arqueológicos no subsolo data, com vários solavancos, das décadas seguintes ao terramoto de 1755. Entre os escombros, recolhiam--se do subsolo epígrafes, estátuas, materiais nobres atribuíveis a um período importante da Antiguidade clássica, sem particular critério. A descoberta do Teatro Romano, no final do século XVIII, foi o ex-líbris desse movimento e a ênfase, claro, era colocada nos vestígios da Lisboa romana, negligenciando-se ocupações anteriores. 

A história constrói-se com mitos e a cultura fenícia foi, desde o século XIX, revestida de aspectos peculiares: “Vingou no imaginário popular uma ideia da comunidade fenícia que chega de barco, monta tapetes na praia e vende quinquilharias de porto em porto”, brinca Ana Arruda. “Sabemos hoje que, na Península Ibérica, como em todo o Mediterrâneo, eles instalaram-se e fixaram população. Se foi em bairros separados, se incorporaram indígenas, se os escravizaram... não se sabe. Mas chegaram cá.” Ao ponto de influenciarem a população autóctone de Lisboa, que deles importou a língua e costumes funerários.

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