Ecos de outra escrita na cidade

Texto Gonçalo Pereira   Fotografias Alexandre Vaz   Ilustração Anyforms

Um texto funerário em fenício, interpretado pelo investigador José Zamora López, confirma a presença desta cultura oriental na cidade durante a Idade do Ferro.

Em 2014, uma escavação em Lisboa encontrou a prova definitiva: escreveu-se em fenício na fachada atlântica da Europa durante a Idade do Ferro. Esta estela, descoberta nos antigos armazéns Sommer, é um dos achados da década.

"Custou a acreditar quando a vimos pela primeira vez”, diz Paulo Rebelo. “Estávamos a trabalhar num muro correspondente a um contexto romano republicano. Ela destacava-se no paramento por ter uma forma diferente das outras pedras.” À medida que o muro foi desmontado, a diferença tornou-se evidente. A estela, com 73 centímetros de altura, não estava tão suja como as restantes e fora gravada com estranhos caracteres que ninguém no sítio arqueológico sabia ler.

Do ponto de vista técnico, a escavação no antigo Palácio de Coculim, na Rua do Cais de Santarém, foi uma das mais exigentes e intrusivas intervenções arqueológicas registadas na cidade nos últimos anos.

Depois de mais de quinhentos contentores de materiais removidos, os arqueólogos responsáveis pela intervenção (Paulo Rebelo, Nuno Neto, Miguel Rocha e Ricardo Ávila Ribeiro, da empresa Neoépica), talvez não esperassem mais surpresas. Do ponto de vista técnico, a escavação no antigo Palácio de Coculim, na Rua do Cais de Santarém, foi uma das mais exigentes e intrusivas intervenções arqueológicas registadas na cidade nos últimos anos. Este antigo palácio do século XVI, fortemente destruído pelo sismo de 1755 e posteriores incêndios, fora transformado em 1858 em armazém de ferro pela família Sommer, depois em escritório da Empresa Cimentos de Leiria, assim permanecendo até 1975. “Só a desmontagem do ruído das estruturas modernas e a compreensão das fases de construção demorou meses”, diz Paulo Rebelo. “Os armazéns tinham destruído grande parte do edifício palaciano e foi preciso perceber, parede a parede, a antiguidade de cada estrutura.”

Nuno Neto (à esquerda) e Paulo Rebelo analisam a recente descoberta produzida por uma escavação conduzida pela empresa Neoépica num quarteirão na base sul da encosta de Alfama, em Lisboa.

O local fora alvo de escavações preliminares em 2004 e 2005 por Ana Gomes, arqueóloga do antigo IPPAAR, cujo relatório identificava indícios de ocupação continuada do local pelo menos desde a época romana, incluindo um magnífico mosaico de que se falará mais à frente. O projecto arquitectónico previsto para esta enorme área foi cozendo em lume brando na década seguinte. Os promotores interessados chegaram e partiram, desencorajados com a burocracia e a tarefa hercúlea de reabilitação necessária. Por fim, foi aprovada a construção de um hotel no local, dependente da obrigação de manter a fachada palaciana e sujeita às condicionantes arqueológicas. “Ninguém adivinharia que as escavações começadas em Fevereiro de 2014 só terminariam em Dezembro de 2015”, diz Nuno Neto.

O investigador José Zamora López, do Instituto de Línguas e Cultura do Mediterrâneo e Próximo Oriente, tiraria todas as dúvidas: a epígrafe fora inquestionavelmente gravada em fenício.

Despistaram-se hipóteses precoces, como a possibilidade de a estela remeter para o universo da escrita do Sudoeste (seria a manifestação mais a norte dessa escrita) – rapidamente abandonada – ou de representar escrita fenício-púnica. O investigador José Zamora López, do Instituto de Línguas e Cultura do Mediterrâneo e Próximo Oriente, tiraria todas as dúvidas: a epígrafe fora inquestionavelmente gravada em fenício. Zamora publicara, anos antes, um artigo com a interpretação dos grafitos fenícios num fragmento de cerâmica proveniente de uma ânfora encontrada na Praça Nova do Castelo de São Jorge. Por analogia grafológica com outras representações escritas, datara esse fragmento dos séculos VIII ou VII antes de Cristo num artigo com um título de ressonância poética: “Palavras Fluidas no Extremo Ocidente”. 

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