A guerra à beira de Lisboa

Texto Gonçalo Pereira   Fotografias João Quaresma, Luís Quinta, Mário Pereira, Arquivo Cochrane & Sons e Arquivo fotográfico do Museu de Marinha   Ilustração Anyforms

 

Noventa e nova anos depois, o círculo fechou-se com a localização do destroço, fruto da perseverança de uma equipa de investigadores portugueses. Fontes: Paulo Costa e Alexandre Monteiro (Instituto de História Contemporânea/UNL)

6h24 da manhã, 14 de Julho de 1917: Submersão rápida perante um arrastão de pesca para não sermos detectados.”
“7h05 da manhã: Emergimos, já era quase dia. (…)
“8h da manhã: Mudamos rumo para 0º, ficamos a oito milhas náuticas do cabo Espichel, ambos os motores em marcha lenta.
“11h30 da manhã: 1.ª mina deitada à água.”

“Nesse dia, a guerra chegou-nos à porta de casa”

O diário de guerra do UC 54 é seco e lacónico. Ali figuram as anotações meticulosas do capitão--tenente Heinrich XXXVIII, príncipe de Reuß zu Köstritz, o aristocrata que comanda o submarino neste terceiro ano da Grande Guerra. Desde 9 de Março de 1916 que Portugal entrou no conflito, com pesados custos militares e uma despesa social e económica aterradora. Nada, porém, causará mais pânico do que o incidente desencadeado pelo UC 54 nesta manhã de Julho. Entre as 11h30 e as 12h01, o engenho alemão deita à água seis minas, identificando cuidadosamente a sua posição. Poitadas em fundos de 37 metros, estão activas e submersas quatro metros abaixo da superfície, oscilando pendularmente, prontas a cumprir o seu terrível destino mal um navio nelas embata. Resta esperar.
Passam 12 dias até ao dia 26. O Roberto Ivens, um arrastão de pesca convertido em caça-minas, integra as missões de rocega na barra do Tejo em busca dos perigosos engenhos explosivos. O primeiro grumete timoneiro-sinaleiro Tiago Gil é um dos 22 tripulantes da embarcação comandada pelo primeiro-tenente Raul Cascais. Como sinaleiro, Gil lida de perto com o comandante, pois cabe-lhe um lugar na ponte de comando. Conheceram-se nas campanhas africanas do Sul de Angola em 1915 e reencontram-se no Roberto Ivens. Raul Cascais pergunta aos que lhe estão próximos se se despediram da família – é uma pergunta habitual, bem indicativa do risco a que todos os dias a tripulação se sujeita. Gil larga o leme e dirige-se para a proa, perto do guincho, onde conversa com alguns camaradas.
De súbito, pelas 16 horas, a popa do navio colide com uma das minas e explode. “A explosão partiu o navio a meio, atirando a grande altura metade dele, feita em pedaços”, lembrou nove anos depois Tiago Gil nas páginas de “O Século”. O Roberto Ivens navegava em conserva, acompanhado do patrulha Bérrio. Tomada como resultado de um torpedo, a explosão gera pânico. O Bérrio ziguezagueia e dispara a eito. O caça-minas adorna perigosamente. Gil só tem tempo para trepar ao castelo do navio e dali mergulhar para a água. O Roberto Ivens naufraga em menos de um minuto, envolto pelo fumo da explosão e dos químicos da mina. Sete sobreviventes são recolhidos pela baleeira do Bérrio. “Nesse dia, a guerra chegou-nos à porta de casa”, resume o historiador Paulo Costa, do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa (IHC/UNL).

Fontes: Paulo Costa e Alexandre Monteiro (IHC/UNL)

A investigação deste episódio não teve propriamente um momento Eureka. Foi, pelo contrário, uma construção paciente, tijolo a tijolo...

A investigação deste episódio não teve propriamente um momento Eureka. Foi, pelo contrário, uma construção paciente, tijolo a tijolo, seguindo minúsculos indícios esquecidos pelo tempo em arquivos dispersos. Como Hansel e Gretel, o historiador Paulo Costa e o arqueólogo Alexandre Monteiro seguiram o trilho das migalhas, juntando dados improváveis e duvidando das versões oficiais. Foi por isso que, numa manhã de Fevereiro deste ano, a bordo do navio Andrómeda do Instituto Hidrográfico da Marinha, não festejaram a confirmação da localização do destroço. Na verdade, ambos já adivinhavam que ele lá estaria.
A narrativa do Roberto Ivens era conhecida. Trata-se de um dos dois casos de navios de guerra portugueses afundados durante o conflito de 1914--1918 (o outro foi o Augusto de Castilho, afundado em combate entre os Açores e a Madeira) e a sua posição foi descrita, em relatos de jornais da época e nos relatórios do comandante do Bérrio, como um naufrágio 12 milhas a sul de Cascais e 8 a sul do Bugio, área de profundidades superiores a 120 metros e ainda distante da barra do Tejo.

No início da década passada, muito antes de sonhar que o Roberto Ivens seria o tema de investigação do seu projecto de mestrado, Paulo Costa tomou conhecimento de que um grupo de amigos mergulhara num ponto a sul do farol do Bugio, conhecido informalmente por pescadores e mergulhadores como local do naufrágio da traineira de pesca Maria Eduarda na década de 1960. “Ficaram desiludidos”, conta. “Tinham grandes expectativas, mas o navio estava partido e restava apenas a proa. Lembro-me de ficar intrigado, mas não pensei muito nisso.” Em 2004, novo grupo de mergulho visitou o destroço e publicou fotografias. A suspeita de Paulo Costa aumentou: as imagens mostravam um navio de ferro e uma caldeira. O Maria Eduarda fora uma embarcação de madeira, com um motor a diesel. “Não podia ser o mesmo navio”, diz. Como um genealogista, reconstituiu a história do berço do navio.

Os planos do navio, encontrados pelo historiador Paulo Costa no arquivo da construtora naval Cochrane & Sons, foram providenciais para conhecer a configuração do Roberto Ivens. Cortesia Paulo Costa (IHC)

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