O triângulo de Sines

Texto Gonçalo Pereira   Fotografias Alexandre Vaz, João Qaresma, Paula Alves Pereira   Ilustração Anyforms

Junto da fachada norte da Igreja Matriz de São Salvador, em Sines, um homem incomum é sepultado. Provavelmente proveniente de África,não é tratado liturgicamente como um escravo. Junto do corpo, esconde-se uma pequena fortuna.

Na costa atlântica portuguesa, Sines parece figurar no vértice de um triângulo ainda mal conhecido do comércio de escravos com África e a América Central.

“Não dissemos nada entre nós, apenas sorrimos”, conta a arqueóloga Paula Alves Pereira, responsável pela escavação arqueológica, quando recorda um dia especial da Primavera de 2013. “Percebemos que era invulgar, que não havia nada igual em Sines, mas guardámos estes pensamentos para nós.”

Só mais tarde, quando a noite expulsou os arqueólogos do sítio de escavação em pleno coração da cidade de Sines, Paula Pereira e a bioantropóloga Sónia Ferro estudaram melhor os achados do dia. Por feliz conveniência, o espólio do trabalho arqueológico era guardado a dez passos do local de escavação, na nave de uma igreja desactivada, hoje cenário de ensaios musicais. Foi aí que voltaram a olhar para os pedaços de maxilar recuperados pela equipa. Inequivocamente, os dentes incisivos superiores estavam limados. Num recipiente, guardavam a outra peça inexplicável: 25 moedas de prata recolhidas junto do esqueleto deste homem. A partir desse dia, a equipa passou a designar o indivíduo da sepultura número 11 como O Africano…

“Percebemos que era invulgar, que não havia nada igual em Sines, mas guardámos estes pensamentos para nós.”

Em muitos aspectos, uma escavação arqueológica de emergência num contexto urbano é como um mergulho no mar logo após uma maré viva. Tudo fica invulgarmente límpido e, varridas para longe as camadas de sedimentos, o campo de visão torna-se mais claro do que nunca. Como todos os privilégios, porém, este dura pouco – em breve, a escavação encerra e o portal de acesso ao passado fica novamente tapado pelas ondas de cimento, tijolo e laje.

Em Março de 2013, uma intervenção da EDP num troço do Largo Poeta Bocage, junto da fachada norte da Igreja Matriz de São Salvador, em Sines, produziu um resultado inesperado: as máquinas que rasgavam o solo para instalar uma nova conduta fizeram emergir vestígios ósseos humanos. Inadvertidamente, a companhia de electricidade tinha feito luz sobre uma necrópole contígua à fachada norte da igreja, onde ficara em tempos uma das portas travessas do templo (a outra ficaria junto da fachada sul). O livro de óbitos da cidade comprova a sua utilização até ao início do século XVII.

Uma das sepulturas encontradas na necrópole: uma mulher, propositadamente desfigurada após a morte, talvez por superstição. Fotografia Paula Alves Pereira.

Em 58 metros quadrados, numa artéria vital da cidade percorrida por milhares de turistas todos os anos, ponto de comunicação entre o Largo das Igrejas e a porta principal do castelo, os achados sucederam-se. No primeiro dia, a equipa identificou de imediato oito enterramentos. Alguns tinham sido danificados pela retroescavadora, quase todos mostravam-se praticamente despojados de qualquer artefacto significativo, embora dois guardassem na mão a tradicional moeda retida no corpo para pagar ao barqueiro a viagem para o Além. “Diariamente, íamos descobrindo mais e terminámos com a certeza de 39 enterramentos e um número de indivíduos calculado em 53”, explica Sónia Ferro. Os materiais recuperados englobavam um vasto período da história humana, recuando até ao período romano, certamente por revolvimento do solo antes da escavação. Havia dúvidas sobre o período de uso mais intensivo daquela área de enterramento. Até ao dia em que se descobriu O Africano.

Uma necrópole ou cemitério é, no período medieval, um espaço regido por normas sociais. Os sepultamentos respeitam a estratificação da sociedade e as posses de cada defunto, reservando para os mais privilegiados os locais perto do adro da igreja (ou em casos raros o solo da própria igreja). Nem todos os sepultamentos obedecem aos ritos cristãos e à orientação leste-oeste dos corpos. Muitos indivíduos são simplesmente depositados sem orientação.

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