Nefertiti, a Bela... está a chegar?

Texto Milagros Álvarez Sosa   Fotografias Kenneth Garrett   Ilustrações David Martinez

Vale dos Reis, 4 de Janeiro de 1923: Howard Carter (de cócoras) abre as portas da última das quatro capelas de madeira revestidas a ouro que protegem o sarcófago  de Tutankhamon, ainda selado.

No dia 4 de Novembro de 1922, a equipa do arqueólogo britânico Howard Carter encontrou um degrau talhado numa cavidade rochosa do Vale dos Reis, que conduzia a uma passagem com o acesso emparedado e selado.

Percebeu que tinha descoberto uma "casa da eternidade", um túmulo provavelmente ainda intacto. A partir desse momento, semana após semana, não tardaram a surgir objectos maravilhosos. Agora, talvez estejamos na iminência de uma história parecida: outro egiptólogo inglês, Nicholas Reeves, acredita que o túmulo de Tutankhamon só foi parcialmente explorado e que, atrás de uma das suas paredes, aguarda-nos outro grande achado.

Quis o destino que fosse Carter, após anos “perseguindo” o esquivo faraó por todo o Vale

Carter descobrira o túmulo de um rei da XVIII dinastia que já procurava há algum tempo. “Correndo o risco de me acusarem de clarividência post actum”, escreveu, “direi que tínhamos fortes esperanças de encontrar o túmulo de um rei em particular e que esse rei era Tutankhamon”. As suas palavras confirmam que, antes mesmo de o túmulo ser divulgado, já se suspeitava da existência de um soberano chamado Tutankhamon que teria de estar enterrado no Vale dos Reis.

Por força dos avanços arqueológicos e da descodificação progressiva da língua egípcia, a grande necrópole tebana do Império Novo construída na margem ocidental do rio Nilo, nos arredores da actual cidade de Lucsor, começava a emergir como fonte de informação e de descobertas desde meados do século XIX.

Este conhecimento prévio ficava também a dever-se a Theodore Davis que, em 1905 e em 1908, encontrara no interior do poço do túmulo KV54 peças de faiança nas quais surgia o nome de um faraó pouco conhecido até ao momento: Tutankhamon. Posteriormente, ao encontrar noutra sepultura fragmentos de folha de ouro com o mesmo nome, Davis pensou ter descoberto o seu túmulo, hipótese desdenhada por Carter desde o início. Quis o destino que fosse Carter, após anos “perseguindo” o esquivo faraó por todo o Vale, a encontrar o túmulo na sua última campanha. O local recebeu o nome de KV62, seguindo a numeração oficial dos túmulos do Vale dos Reis (Kings Valley, na designação anglófona).

Após a descoberta de Carter, a necrópole real perdeu interesse durante várias décadas até começar a ser vista com outros olhos. Actualmente, não se escava em busca de tesouros, nem as missões arqueológicas vivem sob a necessidade de encontrar artefactos valiosos para conseguirem financiamento. Hoje em dia, o objectivo fundamental é o conhecimento, o qual se obtém frequentemente através da interpretação de dados que, na altura, passaram despercebidos. E é aqui que entramos neste novo episódio que envolve mais uma vez o túmulo de Tutankhamon.

A história começa quando um egiptólogo inglês chamado Nicholas Reeves, da Universidade do Arizona, examinou cuidadosamente o trabalho realizado por uma equipa de especialistas da Fundação Factum Arte. Esta empresa espanhola, responsável pelo projecto e pela elaboração de uma réplica do túmulo de Tutankhamon, procedeu à digitalização do conjunto utilizando tecnologia baseada na combinação de digitalização 3D e fotografia de alta resolução.

 O nome da soberana Neferneferuaton-Nefertiti (gravado neste anel de ouro encontrado em Amarna)significa "a Bela das Belas de Aton, a Bela Chegou".

Os resultados obtidos permitiram ao especialista apreciar todos os pormenores da câmara funerária, desde as pinturas murais e respectivas cores às imperfeições de cada parede. Nesse processo, o arqueólogo julgou ter reconhecido dois acessos tapados que poderiam conduzir a duas novas salas ocultas atrás das paredes. Comunicou de imediato a sua hipótese à comunidade científica internacional, publicando no passado mês de Julho um ensaio intitulado “The Burial of Nefertiti?” (“A Sepultura de Nefertiti?”), curiosamente pouco antes de os melhores egiptólogos do mundo se reunirem em Florença para a celebração do XI Congresso Internacional de Egiptologia. O ensaio suscitou grande atenção por parte dos órgãos de comunicação social.

Depois de conseguir convencer o Serviço de Antiguidades do Egipto sobre essa possibilidade, Nicholas Reeves organizou uma expedição científica a Lucsor no passado mês de Novembro. Investigações realizadas pelo japonês Hirokatsu Watanabe com georradar revelaram que havia vestígios de portas nas paredes norte e oeste da câmara funerária de Tutankhamon, tapadas à época da sua construção e cuja existência permaneceu oculta até agora.

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