mulheres

Texto  Cynthia Gorney   Fotografias  Lynsey Addario

O decoro nas proximidades de estrangeiros é obrigatório, mas algumas mulheres sentem-se agora à vontade para usar redes sociais e comemorar a sua identidade.

Na sala da casa da família, onde se sentara rapidamente para nos servir um café árabe, Noof Hassan ensaiava o uso da palavra “caça-talentos”. Nunca lha tinham ensinado nas aulas de inglês na escola e, quando me ouviu dizê-la, obrigou-me a repeti-la por ter gostado da sonoridade. “Sim!”, concordou. “Caçaram o meu talento. Já me tinham feito outras propostas, mas, desta vez, o meu patrão sublinhou que não queria que eu partisse, mas reconheceu que se tratava de um bom convite.”

Noof tem 32 anos, cabelo castanho grosso, pele cor de caramelo e olhos alegres amendoados.

A Arábia Saudita é o país mais profundamente segregado do planeta, mas vive mudanças delicadas, frágeis e extraordinárias. Várias gerações de mulheres do reino, estimuladas por novas políticas públicas de trabalho e pelos incentivos do falecido rei Abdullah bin Abdulaziz, debatem agora o significado de se ser ao mesmo tempo verdadeiramente moderna e verdadeiramente saudita.

O apartamento que partilha com o marido, Sami, e dois filhos pequenos ocupa um piso de um prédio de três andares num bairro populoso de Riade, capital da Arábia Saudita. Quando a conheci há dois anos, geria uma fábrica de transformação de produtos alimentares, supervisionando uma dúzia de trabalhadoras numa ala experimental exclusivamente feminina, no âmbito de uma campanha nacional destinada a atrair mulheres sauditas para postos de trabalho remunerados. Agora, na fábrica de montagem de sistemas de iluminação que acabara de a contratar, Noof tinha a seu cargo dez vezes mais operárias. E o seu salário disparara.

“Deram-me uma alcunha”, contou. As mulheres supervisionadas por Noof trabalham numa área de acesso proibido aos homens, mas os escritórios da gestão desta empresa são “mistos”, como dizem os sauditas: homens e mulheres, sem laços de sangue ou matrimónio entre si, em estreita proximidade todos os dias. A Arábia Saudita é o país mais profundamente segregado do planeta, mas vive mudanças delicadas, frágeis e extraordinárias. Várias gerações de mulheres do reino, estimuladas por novas políticas públicas de trabalho e pelos incentivos do falecido rei Abdullah bin Abdulaziz, debatem agora o significado de se ser ao mesmo tempo verdadeiramente moderna e verdadeiramente saudita. O tema do trabalho misto continua a ser controverso. Há mulheres para as quais nem sequer se põe a hipótese de desempenhar tarefas que o exijam.

Há mulheres que talvez pusessem essa hipótese, mas são contrariadas pelos pais, pelos maridos ou por parentes preocupados, mas na Arábia Saudita não é isso que as mulheres decentes fazem. Em contrapartida, há mulheres que trabalham à vontade com colegas do sexo masculino. Na última década, dezenas de milhares de mulheres sauditas foram enviadas para o estrangeiro para estudar no âmbito de programas de bolsas de estudo estatais. Agora, começam a regressar ao país e mostram-se impacientes com o ritmo lento da mudança.

Noof definiu os seus requisitos pessoais dentro dos escritórios da empresa: não pode existir qualquer contacto físico com homens, mesmo que meramente acidental. “A minha formadora já compreendeu”, afirmou Noof. “Eu expliquei-lhe: ‘É uma questão religiosa. Não posso tocar num homem que não seja meu pai, meu tio ou meu irmão. É essa a razão.’”

Assim nasceu a alcunha. “Senhora-Noof-Que-Não-Dá-Apertos-de-Mão”, contou ela, rindo à gargalhada. O riso caloroso de Noof é uma das razões pelas quais nos tornámos amigas. É inteligente e impertinente. Faz troça das pessoas importunas ou mal-educadas. Enquanto teve vinte e poucos anos, foi rejeitando pretendentes da preferência da família porque estava decidida a casar-se com Sami, o homem que amava. Calcula ter visto o filme “Titanic” pelo menos dez vezes quando era adolescente. Quando lhe recordei que “Titanic” inclui uma cena de sexo entusiástico protagonizado pela heroína, ainda não casada, Noof mostrou-se imperturbável. “Pois, não faz mal”, respondeu. “Faz parte da cultura dela.”

Estou a contar estes factos ao leitor porque Sami estava prestes a conduzir-nos ao centro comercial para que Noof pudesse ajudar-me a escolher uma abaia nova, o manto até ao tornozelo que as mulheres são obrigadas a vestir na Arábia Saudita. Quero por isso que a compreendam antes de ela abrir o armário para recolher uma das suas, todas de cor negra. As abaias coloridas começam agora a proliferar em Jeddah, cidade portuária menos conservadora, mas em Riade a portadora de uma abaia que não seja negra ainda atrai olhares reprovadores dos estranhos e uma possível admoestação da polícia religiosa.

A abaia escolhida por Noof tinha um debruado de xadrez cinzento e uma ligeira mancha vermelha no xadrez. Noof comprara-a em Jeddah. E tinha bolsos, um bolsinho para telemóvel cosido à manga esquerda. Noof ajeitou a abaia sobre a saia e a blusa, da mesma maneira que vestimos uma gabardina. Esticou-a para baixo, ao meio do corpo, redefinindo a sua silhueta exterior como um triângulo preto alongado. Atou a sua tarha negra, o longo lenço árabe para a cabeça, sobre o cabelo e sob o queixo e, de novo, sobre a cabeça.

“Onde está a minha carteira?”, perguntou. Sami trouxe-lha. Então, mesmo antes de transpor o limiar do portão da frente do prédio de apartamentos onde vivem, Noof envolveu completamente o rosto com o pedaço restante da tarha e a cara desapareceu, deixando apenas visível a pele das mãos sem luvas. Entrámos no Toyota, com Sami e Noof no banco dianteiro, e partimos às compras, noite adentro.

A litania das regras do “único país do mundo” existentes na Arábia Saudita é hoje bem conhecida: este é, por exemplo, o único país do mundo que proíbe as mulheres de conduzirem automóvel. O único país que obriga cada cidadão adulto do sexo feminino a viver sob a tutela de um guardião legalmente reconhecido do sexo masculino, o pai, o marido ou qualquer outro familiar, que lhe concede autorização formal para obter passaporte, tratar de assuntos jurídicos ou viajar para o estrangeiro. É o derradeiro país, com a provável excepção da Cidade do Vaticano, a conceder às mulheres o direito de voto: o período de recenseamento inaugural terminou há apenas seis meses.

Na Arábia Saudita, todos os restaurantes que servem homens e mulheres têm áreas de refeição separadas: uma para “solteiros,” ou seja, homens, e outra para “famílias,” o que significa mulheres, com os seus filhos e quaisquer homens dos respectivos grupos que sejam parentes próximos.

Todo o tipo de medidas práticas, incluindo a disposição física dos edifícios, são tomadas de forma a obedecer às regras de separação entre mulheres e homens sauditas. Em 2011, quando o rei Abdullah declarou que começaria a nomear mulheres para o conselho consultivo nacional, a Chura, o clamor subsequente (de indignação, por parte dos conservadores; de júbilo, por parte dos representantes dos direitos das mulheres) incluía perguntas sérias sobre a maneira adequada de estas mulheres ocuparem os seus lugares. Deveriam dispor de instalações separadas, com ligações de vídeo para os seus colegas? Quase todas as escolas sauditas são frequentadas por alunos do mesmo sexo, incluindo a universidade, e o vídeo é o modo como algumas faculdades resolvem a questão das aulas dadas por professores do sexo oposto.

A própria campanha de “femininização do emprego” destinada a incentivar as mulheres sauditas a entrar no mercado de trabalho, uma iniciativa a cinco anos que teve como paladino o rei Abdullah, antes da sua morte no ano passado, foi conduzida segundo complexas regras de segregação. Todos os locais de trabalho com colaboradores de ambos os sexos são obrigados a criar uma área de acesso vedado aos homens onde as mulheres se possam sentir mais “à vontade”, uma expressão que ouvi de muitas mulheres.

Porque somos sauditas e, na Arábia Saudita, não fazemos isso. Essa seria a resposta mais fácil, mas nunca ouvi uma mulher dá-la dessa maneira.

Pedi frequentemente para me ajudarem a perceber. Por que razão esta separação faz sentir as mulheres mais “à vontade”?

As respostas começavam quase sempre da mesma maneira: na zona das mulheres, podemos despir a abaia, descontrair e…

Porque não podem despir a abaia em frente dos homens? Nesse ponto, elas olhavam para mim com calma e, de seguida, suspiravam e faziam um sinal com a cabeça, simbolizando a impossibilidade de eu compreender este gesto cultural.

Porque somos sauditas e, na Arábia Saudita, não fazemos isso. Essa seria a resposta mais fácil, mas nunca ouvi uma mulher dá-la dessa maneira. Esta obrigação de esconder as formas femininas dos homens que não sejam parentes, tão intrigante e inquietante para os estrangeiros, também pode ser complicada para as sauditas. Quase todas as mulheres que conversaram comigo sobre a necessidade de se cobrirem invocaram a tradição, a pressão social, a devoção religiosa, a fidelidade tribal e a primazia atribuída pela cultura saudita à respeitabilidade, a garantia de que a honra da mulher – a sua fidelidade e probidade, se for casada, o seu decoro e a sua virgindade, se não for – permanece irrepreensível.

Note-se que não são só os homens que zelam por estas normas. As mães, tias, irmãs e mulheres de passagem sentem-se à vontade para descompor mulheres que não conhecem. “Por que estás a tentar atrair os homens? Cobre-te!”, imitou uma mulher de 25 anos, frustrada, tentando replicar as descomposturas tradicionais das estranhas. “Até parece que ela se cobre da cabeça aos pés para exigir às outras mulheres que sejam exactamente como ela.”

De cada vez que regressava aos Estados Unidos da América proveniente da Arábia Saudita, os meus amigos perguntavam sempre se fora obrigada a vestir-me de burca. É provável por isso que alguns esclarecimentos em matéria de guarda-roupa possam ser úteis. A túnica usada pelas mulheres sauditas é a abaia – não o chador (Irão) nem a burca (Afeganistão). Embora as mulheres muito conservadoras enverguem por vezes uma variante de cobertura para a cabeça, as abaias são, por norma, as peças de vestuário do pescoço para baixo. Imagine, por exemplo, a toga do juiz. Em público, as mulheres podem despir as abaias nos hospitais e em seu redor, dentro de certos condomínios fechados para estrangeiros e no interior de instalações reservadas a mulheres. Fora desses lugares, não. Os homens vestem calças de ganga, fatos ou túnicas árabes chamadas thobes. Chegadas à adolescência, as mulheres, incluindo gestoras de empresas no estrangeiro e repórteres visitantes, vestem-se com abaias.

 

Por outro lado, o negrume do traje, que absorve o calor numa das regiões mais quentes do planeta, também pode ter várias explicações especulativas: disseram-me que o negro não é atraente ao olhar do homem: noutros locais, sugeriram a existência de uma referência nas escrituras islâmicas às mulheres do tempo do profeta Maomé que vestiam roupa que as tornava semelhantes a corvos negros. Não há qualquer lei que especifique a cor da abaia. Em rigor, não há qualquer lei que exija o uso de abaia. Há quatro décadas, contaram-me mulheres sauditas mais velhas, os protocolos de vestuário de cobertura e de comportamento variavam em todo o reino, de acordo com a região, a classe social e as normas da família e tribo de cada mulher. A monarquia era então uma jovem nação – fundada em 1932, recém-enriquecida pelo dinheiro do petróleo, e ainda um mosaico de culturas árabes, desde as tribos do deserto com tradições antigas às cidades cosmopolitas junto da orla costeira. Embora o islão de uma tendência particularmente conservadora e de domínio avassalador fosse a religião de todo o país, a sua expressão variava consoante os locais.

As mulheres debatem entre si o uso do niqab, palavra saudita para referir o adereço negro de pano especificamente concebido para tapar o rosto.

As mulheres mais velhas recordam-se de, em certas regiões sauditas da época, não haver nada de escandaloso numa abaia curta informal ou roupa discreta sem qualquer cobertura. “A maioria das mulheres andava sem véu”, lembrou uma pediatra reformada de Riade, agora septuagenária. “Não havia qualquer problema em sentar-me com um homem com quem não fosse casada num restaurante desde que o comportamento fosse correcto. Aconteceu, então, a mudança. Algo se modificou, diria eu. Na cabeça, no coração.”

A mudança aconteceu na década de 1980, período em que os movimentos islamitas conservadores proliferaram no Médio Oriente.

O governo saudita, temendo o questionamento da sua legitimidade, mobilizou a polícia religiosa numa repressão à escala nacional que impôs a todos os sauditas a rigidez do conservadorismo. O currículo escolar foi reformulado. A música foi silenciada por ser não-islâmica. Os casais que passeavam na via pública juntos eram forçados a mostrar à polícia as suas licenças de casamento.

E o elemento essencial da cruzada conservadora foi a punição das mulheres: por sucumbirem à influência ocidental, por aparecerem fora de sua casa sem guardiães masculinos, por falarem com vozes capazes de chamar a atenção dos homens ou de seduzi-los, por desonrarem Deus ao não se cobrirem totalmente de negro.

As sauditas mostraram-se divertidas perante os meus esforços de compreender a norma cultural. Seria idêntico se uma recém-chegada à cultura ocidental perguntasse às mulheres, uma após outra, que regra seguiam em matéria de profundidade do decote. Nós tapamos o rosto com véu sempre que nos parece adequado, respondiam-me. Por exemplo, quando as nossas famílias seguem um imã que defende que a visibilidade do rosto é awrah, apesar de outros imãs o refutarem. Ou quando os rapazes que conhecemos quando eram crianças se sentem embaraçados por verem os nossos rostos adultos descobertos. Ou quando a mensagem que queremos transmitir é respeitem-me em vez de olhem para mim. As mulheres debatem entre si o uso do niqab, palavra saudita para referir o adereço negro de pano especificamente concebido para tapar o rosto.

Com efeito, foi de Noof Hassan que ouvi a explicação mais sucinta sobre o uso do véu, ao ver-me reparar na destreza com que tirava e punha o niqab ao entrar e sair da área exclusivamente reservada a mulheres no seu local de trabalho. Tira lenço, volta a pôr o lenço sobre o rosto – Noof olhou-me de esguelha e disse despreocupadamente: “Isto para nós não é estranho.” A sociedade saudita continua a ser, a muitos títulos, uma sociedade tribal: quer os homens quer as mulheres sentem que as pessoas em redor as observam, tecendo conjecturas sobre os padrões da família e emitindo juízos de valor. Dayooth significa um homem que não mantém vigilância sobre a sua mulher e as outras parentes do sexo feminino cuja honra supostamente está incumbido de preservar. É um rótulo desonroso. “Fracote” nem sequer serve como ponto de partida para defini-lo.

“O problema é a maneira como os outros pensam”, disse Noof. “A questão é essa.” Sami acrescentou: “Quando vamos à rua, às compras ou fazer outra coisa qualquer, sinto as pessoas a olharem para ela.”

“Olhando fixamente”, afirmou Noof. “Não é apenas olhar. É olhar fixamente.”

Os olhares mais perturbantes, os que mais enervam Sami, são lançados por homens. “Por isso eu peço-lhe o favor de tapar o rosto”, disse Sami. “E assim eles não olham para a minha mulher.”

Questiono o casal sobre a declaração do profeta Maomé, segundo a qual os homens têm a obrigação de evitar a tentação e o desrespeito. “É verdade”, admitiu Noof. “Por vezes, eu digo a Sami que é o tipo na rua que tem de parar de olhar fixamente, porque isto é a nossa religião. Porque tenho de ser eu a tapar-me?”

Sami permaneceu calado, concentrando-se no trânsito. Trabalha como gestor financeiro. Tem óculos de armações pretas, barba curta e modos suaves. “Esse tipo será muçulmano, mas não segue o islão da maneira correcta”, disse por fim.

Respondi-lhe que, em muitas sociedades, não era invulgar um homem, quando perturbado pela forma como outro homem olha fixamente para a sua mulher, ameaçá-lo com violência física. Sami aquiesceu, com um sorriso. “Se eu bater nesse tipo, isso significa que terei de bater em alguém todos os dias”, afirmou.

Noof deu uma risada trocista. “Demasiado trabalhoso”, disse, por detrás do seu lenço. “Olha, consegue-se ver tudo. Experimenta.” Eu ia de tarha na cabeça e tentei recompô-la como Noof: duas voltas à cabeça, apertando com firmeza o comprimento restante contra a minha cara. O pano era finíssimo, obviamente tecido com este objectivo preciso: lá fora, as janelas do carro apresentavam-se mais esbatidas e mais cinzentas, mas visíveis. Alguns quarteirões à frente, apareceu o recorte de um centro comercial iluminado.

Estava a precisar de uma abaia nova porque uma saudita com um sentido de humor mordaz sugerira que mais valia reformar a abaia gasta que usava há várias semanas, deitando-lhe fogo. Deixámos Sami estacionando o carro junto dos outros maridos e motoristas, enquanto Noof me conduziu rapidamente ao sector das abaias.

“Ena!” exclamei. Noof piscou-me o olho: recompusera a tarha e pusera-a a meio-véu: os homens não param muito nas proximidades das lojas de abaias. “Acho que vamos entrar nesta loja primeiro”, disse, fitando uma das portas de entrada e avançando de passada larga.

Em zonas urbanas, um centro comercial saudita pode parecer um palco onde muitos pequenos dramas típicos de um reino moderno se desenrolam ao mesmo tempo. Mulheres jovens passam pelas montras, contemplando-as, de telemóveis encostados ao ouvido, trazendo pendurados sob o niqab cones de gelado ou palhinhas de refrigerantes. Motoristas paquistaneses ou filipinos fazem uma sesta no parque de estacionamento ou fazem chamadas de vídeo para as famílias, no país de origem, esperando que as mulheres que lhes dão emprego saiam do centro comercial. Como é que os motoristas adivinham que aquela figura negra de véu é a sua patroa?, perguntei eu certa vez a uma amiga saudita. “Sapatos e carteiras”, respondeu ela, com ironia.

Na atmosfera amena proporcionada pelo ar condicionado, existem zonas de recreio, lojas de mobiliário, ópticas, ginásios e supermercados. Ao fim de algum tempo, dou por mim a observar os sapatos e carteiras que passam, imaginando-os associados às mulheres com quem entretanto travara conhecimento: a pediatra reformada, a especialista em design gráfico, a caixa de supermercado, a empresária, a catedrática de sociologia, a advogada que treina basquetebol três vezes por semana e tem um lançamento fantástico.

“Conseguimos em dez anos fazer coisas que demoraram cem anos nos Estados Unidos”, afirmou Nailah Attar, co-fundadora de uma iniciativa de âmbito nacional denominada Baladi, que significa Meu País.

Essa advogada, de 30 anos, chamada Aljawharah Fallatah, faz os treinos em ginásios de escolas femininas ou clubes frequentados exclusivamente por mulheres. Por que razão não treina ao ar livre nos sítios onde estão os rapazes? Porque é lá que os rapazes vão e seria incómodo praticar basquetebol de abaia vestida. O aspecto decisivo, recordou-me Aljawharah certa tarde, depois de um treino, é que ela pratica advocacia num país onde, até ao princípio da década de 1960, a maioria das raparigas não podia ir à escola. Há uma escassa década, as mulheres sauditas foram autorizadas a estudar Direito. Há três anos, as primeiras mulheres tiveram licença para exercer advocacia em vez de trabalharem apenas como consultoras. Agora as mulheres representam mais de metade da população universitária do reino. Quando o rei Abdullah criou um programa real de bolsas para estudo no estrangeiro em 2005, houve mulheres incluídas no grupo inicial de bolseiros: em 2014, mais de 35 mil mulheres sauditas encontravam-se matriculadas em programas de estudos graduados e pós-graduados em universidades estrangeiras.

E agora Aljawharah já desenvolve a sua actividade em tribunal. Não se pretende com isto sugerir que exista qualquer tipo de paridade entre profissionais do sexo masculino e feminino: as mulheres sauditas com níveis de formação avançados queixam-se de desemprego e de frustração numa sociedade que só agora começa a aceitar mulheres em empregos de alto nível. “Conseguimos em dez anos fazer coisas que demoraram cem anos nos Estados Unidos”, afirmou Nailah Attar, co-fundadora de uma iniciativa de âmbito nacional denominada Baladi, que significa Meu País. “Andamos a correr muito depressa para mudarmos muito depressa. Acho que devíamos abrandar um pouco para as pessoas serem capazes de aceitar.”

Nailah, juntamente com outras empresárias e líderes universitárias, lançaram a iniciativa Baladi há cinco anos para convencer as mulheres sauditas a aceitar a perspectiva de votar e até candidatar-se a cargos públicos. A hostilidade por parte dos tradicionalistas faz parte dos desafios enfrentados, mas também a indiferença, mesmo de mulheres com ambições: só em 2005 os homens sauditas votaram, pela primeira vez em meio século, e os cargos eleitos resumem-se a lugares de vereadores municipais, posições sem qualquer autoridade. O reino da Arábia Saudita não é uma monarquia constitucional. Não existe primeiro-ministro, nem parlamento. O controlo absoluto permanece nas mãos da dinastia Al-Saud, a enorme família que deu o nome ao país.

“Por vezes, vivemos no século XXI, outras no século XIX”, contou-me uma profissional de Riade que viveu no estrangeiro, mostrando-se ao mesmo tempo lesada e conformada. “Imagine-se na Europa da Idade Média, com a Igreja Católica.” Ela queria dizer que na Arábia Saudita, os chefes religiosos dogmáticos e a dinastia régia ainda detêm oficialmente o poder, numa medida dificilmente compreensível para as pessoas de países mais laicos. Os insultos ao islão ou as ameaças à segurança nacional (categorias convenientemente elásticas, abrangendo blogues, redes sociais e defesa aberta de pessoas já acusadas) contam-se entre os crimes puníveis com prisão, flagelação ou morte. As execuções são levadas a efeito por decapitação em público. A organização que dirige a polícia religiosa (frequentemente em colaboração com a polícia nacional, estando autorizada a aconselhar, admoestar e fazer detenções) chama-se Comissão para a Promoção da Virtude e para a Prevenção do Vício.

“Por vezes, vivemos no século XXI, outras no século XIX”, contou-me uma profissional de Riade que viveu no estrangeiro, mostrando-se ao mesmo tempo lesada e conformada.

A convicção de que a virtude e o vício de uma sociedade podem ser geridos mantendo os homens e as mulheres separados e de que, por natureza, os homens são concupiscentes e as mulheres sedutoras, exigindo que um bom muçulmano esteja constantemente atento aos perigos do contacto próximo, encontra-se tão enraizada no quotidiano que está sempre a aparecer, perante o visitante estupefacto.

Razão para as piscinas dos hotéis proibirem o acesso às mulheres ou reservarem uma hora para a frequência exclusiva de senhoras: os homens podem vislumbrar as formas em movimento das mulheres dentro de água. Razão para a maioria das lojas de vestuário sauditas não terem gabinetes de prova: as mulheres não despem a roupa se houver funcionários do sexo masculino do outro lado da porta.

E a famosa proibição contra a condução de automóveis por mulheres? A questão desencadeia uma série de reacções, frequentemente na mesma sequência. Primeiro, segundo me dizem, é certo que, mais tarde ou mais cedo, as mulheres andarão a conduzir automóveis, apesar da próspera economia subterrânea que alimenta as regras da condução reservada a homens. Algumas mulheres já conduzem no deserto ou noutras zonas onde ninguém presta atenção.

A segunda reacção é uma reflexão curta sobre os argumentos apresentados contra a condução de automóveis por mulheres. A afirmação segundo a qual as mulheres se revelariam incapazes ao volante e causariam acidentes é um disparate: a taxa de mortalidade por acidentes de trânsito nas auto-estradas sauditas é uma fonte de desespero nacional. Só os xeques mais retrógrados ainda argumentam que as mulheres arranjariam casos amorosos e abandonariam as famílias se pudessem sair de casa sempre que entendessem. Foi o próprio Abdullah que nos encorajou a entrar no mercado de trabalho, dizem algumas das minhas interlocutoras. Como podemos ter um emprego decente se ficarmos dependentes dos outros para nos levarem ao trabalho a horas?

 

A preocupação mais grave, disseram mulheres e homens, prende-se com as próprias condutoras. As primeiras mulheres que irão conduzir sozinhas enfrentarão homens hostis e predadores. “Tenho conversado com senhoras na minha fábrica sobre o assunto”, afirmou Noof. “Uma delas contou-me que o seu irmão disse: ‘Se eu encontrasse alguma senhora a conduzir, eu mandava-a parar e obrigava-a a sair do carro.’ É uma ameaça comum nas redes sociais.”

Esse irmão, interrogámo-nos nós, será que ele tenciona proteger a irmã dos homens que a assediarem ou vai ele próprio assediá-la? Ou as duas coisas? Íamos passando a mão pelas abaias penduradas. “Não”, rejeitou Noof com firmeza, passando-as uma após outra, franzindo os olhos e apalpando com os dedos. “Não. Não e não.” Então deteve-se, com a mão pousada na manga de um tom cinzento profundo com um debrum negro de cetim no pulso. “Vê se gostas desta,” disse Noof. “É macia.”

Os membros do sexo feminino pertencentes à Chura foram ajuramentados numa manhã de Fevereiro, em 2013, algumas com niqabs ou lenços negros cobrindo o rosto, outras de rosto destapado. Os lugares das mulheres ficavam na câmara grande do conselho, junto dos homens. “Nós, mulheres, fomos todas agrupadas juntas, é verdade”, reconheceu Thoraya Obaid, outrora directora do Fundo para a População da ONU e subsecretária-geral das Nações Unidas, que é um dos novos membros. “Mas não havia paredes nem divisórias. E nós estávamos lá.”

Thoraya exerceu funções na ONU durante 35 anos, mas não é, de modo algum, o único membro feminino da Chura com currículo profissional e formação internacional. “Das 30 mulheres que são membros, 27 são licenciadas em medicina ou são doutoradas”, contou-me. “Duas são princesas com um longo historial de activismo social e de trabalho na assistência social.”

Por outras palavras, o rei quis mulheres de substância. Dentro da Arábia Saudita, não é difícil encontrar indignação expressa em privado contra a família real, a qual mantém um controlo inflexível sobre as riquezas petrolíferas do país, utiliza o poder do Estado para silenciar qualquer apelo a um governo representativo e é regularmente alvo de críticas demolidoras proferidas pelas organizações internacionais para os direitos humanos. Apesar de tudo, a menção ao nome de Abdullah iluminava habitualmente os rostos das mulheres. “Lembro-me da sua declaração proferida em árabe: La tahmeesh, que significa, ‘Fim à discriminação’”, recordou Hanan Al-Ahmadi, funcionária executiva da administração pública que se encontrava entre o público quando o rei manifestou a sua intenção de incluir mulheres na Chura. “As mulheres, incluindo eu, tinham lágrimas nos olhos.”

Hanan foi nomeada para a Chura. Ela e as colegas têm-se habituado aos ataques verbais constantes que caracterizam as mulheres com assento na Chura como vendilhonas em nome do Ocidente, mensageiras do diabo e outros insultos do género: as críticas aumentam quando o debate sobre a condução de automóveis é retomado. Hanan é favorável à concessão de carta às mulheres condutoras, mas, à semelhança de Noof e de muitas outras sauditas com quem falei, afirmou que o fascínio do Ocidente pela história da condução de automóveis gerou mais contestação do que apoio a nível nacional. “Khalas”, disse Hanan Al-Ahmadi. Basta! “A medida tornou-se demasiado politizada. Por vezes, vou a sítios onde há muitas mulheres e alguém avança para me recordar que o direito à condução não é o principal objectivo.”

Perguntem às mulheres de qualquer país qual é o seu objectivo principal e as respostas sairão disparadas, vindas de muitas direcções. O mesmo acontece na Arábia Saudita, onde ouvi dizer e li que as mulheres criticam com dureza a elevada taxa de divórcio e o próprio sistema de divórcio (os pais ficam com a custódia dos filhos, excepto dos mais pequenos), a arbitrariedade nas regras de atribuição da cidadania (concedida de imediato às mulheres estrangeiras que se casam com homens sauditas, mas quase impossível de obter pelos homens que se casam com mulheres sauditas) e o tratamento dispensado às novas trabalhadoras do reino (horários longos, salários baixos).

A exigência de cada mulher ser obrigada a viver sob custódia de um indivíduo do sexo masculino é também alvo de comentários especialmente venenosos. Em termos legais, uma mulher deve supostamente ser capaz de trabalhar, receber tratamento médico ou matricular-se na universidade sem a permissão do seu guardião. Mas na Arábia Saudita o direito oficial cede frequentemente o passo à tradição, a interpretações individuais da obrigação religiosa ou ao medo das retaliações por parte da família da mulher. E há homens que se servem da custódia, segundo muitas mulheres, como forma de punir, controlar e manipular.

A proibição não é mais do que uma estupidez que impede uma mulher trabalhadora de se esforçar por levar uma vida moderna, ao mesmo tempo que permanece dedicada à sua fé e à sua nacionalidade: os próprios estudiosos sauditas reconheceram nada existir no Alcorão, ou noutros textos sagrados, que impeça as mulheres de conduzir.

Estes desafios são brutais mas discretos, não param de repetir-me as mulheres, e devem ser enfrentados um por um, requerendo manobras delicadas num país onde a crença religiosa, a honra da família e o poder do Estado continuam estreitamente interligados. Qualquer forasteiro que apele às mulheres do seu país para a rejeição do niqab ou que lhes recomende que destruam as divisórias de separação precisa de compreender que um grande número de mulheres se sentiria incapacitada, lembra Hanan. “Muitas famílias sauditas não deixam as filhas trabalhar como vendedoras porque as divisórias não são suficientemente altas”, contou. “Portanto, se queremos capacitar todas as jovens sauditas de maneira a terem emprego, é preciso retirar o estigma desses empregos.”

Cinco anos bastam, disse Noof. Segundo ela, será o tempo necessário até as mulheres sauditas poderem conduzir. Não é que o acto de conduzir um automóvel seja uma prioridade. Ela não tem qualquer interesse premente em aprender a guiar. A proibição não é mais do que uma estupidez que impede uma mulher trabalhadora de se esforçar por levar uma vida moderna, ao mesmo tempo que permanece dedicada à sua fé e à sua nacionalidade: os próprios estudiosos sauditas reconheceram nada existir no Alcorão, ou noutros textos sagrados, que impeça as mulheres de conduzir. Noof e Sami partilham com outros parentes o aluguer dos serviços de um motorista, a quem pagam honorários de cerca de 850 euros mensais, um fardo pesado para o orçamento familiar.

No entanto, à semelhança de várias mulheres com quem conversei, Noof confessou-me ter ficado aliviada por Abdullah nunca ter usado os seus poderes para ordenar a emissão de cartas de condução para mulheres, acto que o seu sucessor e irmão, o rei Salman bin Abdulaziz, também não desenvolveu. “Passo a passo”, afirmou Noof. Ela gosta de algumas das opções incrementais actualmente em discussão, como a concessão de cartas de condução, a princípio, apenas a mulheres casadas mais velhas, cujo aspecto dignificado no lugar do condutor poderia envergonhar alguns assediadores mais acesos e obrigá-los a comportar-se adequadamente. “Vai acontecer, tenho a certeza”, afirmou. “Mas se deixarmos todas as mulheres conduzirem amanhã, vai dar um péssimo resultado.”

Ela sabia lançar uma bola de bowling por detrás das dobras da sua abais e fazê-la rolar como deve ser, com efeito.

Comprei a abaia que Noof escolheu para mim. Custava o equivalente a 35 euros e era elegante, com molas negras como fecho na parte da frente. Não a vesti logo porque Sami tinha sugerido uma partida de bowling e eu não queria marcas de pisadas no tecido. Noof pôs o lenço de novo sobre o rosto. O trânsito nocturno de Riade estava caótico. Noof observava Sami a conduzir. Aparentemente, sentiu que ainda precisava de convencer a forasteira no banco de trás de que pôr o pé no acelerador não era a coisa que mais desejava na vida.

“Que enorme dor de cabeça”, disse. “Para que hei-de concentrar-me na estrada? Deixo-me ficar aqui sentada e converso ao telemóvel até chegar ao destino. Não tenho de andar à procura de lugar para estacionar.”

O pavilhão de bowling tinha 12 pistas. Homens vestidos de thobe, mulheres de abaia e crianças praticavam bowling juntos em cada pista, e, encostados a uma parede, um homem e uma mulher de rosto tapado com o niqab analisavam uma mesa de bilhar a partir de vários ângulos, revezando-se nas tacadas para pôr a bola dentro do cesto no canto.

“É claro que vais ganhar”, disse Noof com firmeza. “Caso contrário, eu seria má anfitriã.”

Não ganhei. O resultado, embora Noof fosse uma anfitriã demasiado bondosa para dizê-lo em voz alta, nem sequer foi equilibrado. Ela sabia lançar uma bola de bowling por detrás das dobras da sua abais e fazê-la rolar como deve ser, com efeito.

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