SOS Palmira

Texto Miquel Molist   Fotografias Paul Nicklen

A bela e antiga cidade de Palmira não cessa de ser tema de notícia: de há meses para cá, meios de comunicação social de todo o mundo fazem eco das vicissitudes sofridas pelos seus vestígios monumentais. Não é novidade que as cidades-património levam frequentemente uma vida agitada, repleta de transformações arquitectónicas, mudanças de costumes, recordações de batalhas e devastações fortuitas ou voluntárias. No entanto, aquilo que hoje acontece em Tadmor (nome actual de Palmira) vai mais longe do que as metamorfoses habituais. Em pleno século XXI, o antigo entreposto cultural está a ser alvo da destruição premeditada de um património que faz parte da memória da humanidade. Com efeito, a conquista e ocupação do território, no passado mês de Maio, pelo Estado Islâmico (ISIS ou DAESH, a sua sigla em árabe), no decurso da terrível guerra civil que a Síria atravessa, têm sido acompanhados pela destruição voluntária e deliberada de vários monumentos desta cidade.

Ruínas da cidade de Palmira. Ao fundo pode ver-se o castelo árabe do século XVII. Fotografia: Ed Kashi/Corbis

Como sucede em qualquer confronto militar, o conflito actual na Síria infligiu todo o tipo de atrocidades ao seu povo: morte, migrações maciças, exílios e fome, motivos mais do que suficientes para o mundo exigir o fim desta guerra o mais rapidamente possível. Além disso, este conflito está a provocar uma perda complementar importante – a destruição do património histórico-arqueológico de Palmira. Não são os chamados “efeitos colaterais” de uma disputa, mas sim a utilização do património como arma de guerra e, por conseguinte, da sua demolição como elemento de luta ideológica, acção de propaganda e procura de confrontos.

Desde o passado mês de Maio foram destruídos os túmulos monumentais da zona leste da cidade, datados do século I da nossa era, uma das mais interessantes mostras funerárias da época romana ainda existentes. Com igual espectacularidade e maior repercussão foi destruída a cela (ou câmara interior) do templo de Baal e, mais recentemente, a parte central do arco monumental que se erguia na via principal, valiosos vestígios arqueológicos de um período compreendido entre os séculos I e III d.C. A cidade goza efectivamente de uma localização num enclave geográfico único, com um oásis, água e recursos naturais abundantes no meio de uma paisagem de estepe deserta, estrategicamente situada entre as cidades da Baixa Mesopotâmia e o mar Mediterrâneo, numa via que, no seu tempo, integrava a famosa Rota da Seda.

Devido ao seu excepcional estado de conservação, os restos da cidade romana de Palmira foram objecto de estudo, preservação e divulgação desde 1920. Durante a governação francesa, tornaram-se um tesouro e as instituições culturais da jovem república da Síria aceitaram esse valor patrimonial universal. Palmira tem sido o reflexo da evolução da própria arqueologia do país. O enorme trabalho realizado pela escola de arqueólogos sírios, grandes eruditos de formação humanista, fixou as bases do desenvolvimento de uma rede de museus e da Direcção-Geral de Antiguidades. Com a sua dedicação, foi possível a posterior abertura de Palmira às equipas internacionais, junto das quais se iniciou uma linha de trabalho conjunto de estudo e cooperação que alcançou um elevado grau de modernização nas últimas décadas.

Passado e presente de Palmira: um chefe beduíno numa fotografia de cerca de 1890 (em cima à esquerda), um rapaz com a kufiyya ou lenço beduíno (em baixo, à direita)  e dois relevos funerários provenientes do vale dos Túmulos. Fotografias: Mary Evans/Biblioteca do Congresso/Age Fotostock (em cima, à esq.); DEA/G DAGLI ORTI/Age Fotostock (em cima, à dta.); Bildarchiv Hansmann/Age Fotostock, J.D. Dallet/Age Fotostock (em baixo, à esq.); J.D. Dallet/Age Fotostock (em baixo, à dta.)

A aplicação de novas tecnologias e a incorporação de equipas de arqueólogos sírios, jovens e bem formados, ajudou consideravelmente nessa modernização. Os investigadores mais antigos, como Adnan Bounni, N. Saliby e O. Taha, passaram o testemunho à nova geração, formada entre outros por Maamoun Abdulkarim, Michel Al Macdissi e Eva Alkasser.

De todos eles, autênticos lutadores pela salvaguarda do património, destaca-se, por mérito próprio, o doutor Khaled al-Asaad. Este arqueólogo foi tristemente alvo da atenção internacional quando foi assassinado no passado mês de Agosto na cidade histórica por não colaborar com o grupo islâmico. Khaled Al-Asaad foi durante muito tempo director do museu de Palmira e responsável pelas antiguidades da região.

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