Rio vital

Texto Robert Draper   Fotografias Pascal Maitre

O barco desliza sob um céu iluminado pelas estrelas. Rasga uma superfície de água que por vezes parece oceânica na sua imensidão, outras vezes pouco mais do que um riacho seco, razão pela qual é uma loucura – e, já que se fala nisso, uma ilegalidade – navegar de noite. Para os passageiros que vão a bordo, essas reflexões sobre o que é prudente ou o que é legal não são totalmente irrelevantes. Em última análise, contudo, há uma regra que prevalece sobre todas as outras: no rio Congo, cada um safa-se como pode.

O barco vai perigosamente sobrecarregado, empurrando três barcaças com um motor concebido para transportar cerca de 675 toneladas. As barras de ferro, as sacas de cimento e os produtos alimentares a bordo ultrapassam as 815 toneladas. Esvoaçando ruidosamente sobre as barcaças vê-se uma manta de retalhos de oleados e panos, debaixo da qual vão cerca de seiscentos passageiros humanos. Metade, talvez, terá pago 74 euros para fazer a viagem rio acima. Os restantes embarcaram clandestinamente, sem pagar.

Muitos são habitantes da cidade que partem na esperança de encontrar trabalho na safra do milho e do amendoim. Algumas mulheres, munidas de fogões portáteis a carvão, ofereceram os seus serviços como cozinheiras. Outras, como prostitutas. Cada um safa-se como pode. Ouvem--se cantigas, discussões, orações. Aromas a fumo de carvão e claustrofobia mortal. Jarros de uísque de fermentação caseira vão passando de mão em mão. De vez em quando, um passageiro ébrio cai borda fora. Até agora ninguém se afogou, mas a viagem ainda mal começou.

Num camarote do convés superior do barco, um homem de compleição esguia, com mais de 40 anos de idade, lê a Bíblia de lanterna em punho, sentado num canto. Chama-se Joseph. Comprou este navio há dois anos, por 750 mil euros. Trabalhou no negócio de transporte de carga por via aérea e pensou, nessa época, que as regras do céu se aplicariam mais ou menos ao rio.

Aprendeu, entretanto, que a realidade é diferente. A tripulação é composta sobretudo por ladrões e um deles é seu sobrinho por casamento. Joseph calcula que leva um excesso de carga de 180 toneladas, sobrecarregando o motor, abrandando a velocidade, aumentando o risco de encalhamento e, claro, privando-o dos seus lucros.

Aceitámos o acordo… só que o motor não funcionava. Também não era possível libertar o barco do lodo do fundo.

Joseph teme que os tripulantes se apercebam de que ele topou o logro. Receia que paguem ao cozinheiro para lhe envenenar a comida. Pão e manteiga são o único alimento que ingere. Abomina toda aquela depravação. Há algumas noites, o comandante desligou o motor durante algumas horas, de forma a poder descer para o interior de uma das barcaças e entreter-se com algumas passageiras do sexo feminino. E, por isso, Joseph procura refúgio na sua Bíblia. Sente-se rodeado de pecadores, entre os quais ele próprio. Alguns membros da sua família são pregadores, mas Joseph adora dinheiro. No final deste ano, feitas todas as contas, estará 93 mil euros mais rico. Por essa altura, talvez o investimento tenha valido a pena.

Eu e o fotógrafo Pascal Maitre sentimo-nos solidários com Joseph. Resolvemos viajar no seu barco, o Kwema Express, após dez dias desastrosos passados noutra embarcação no porto de Kinshasa. O responsável pelo barco era um tipo robusto e impassível que nos cobrou por um camarote, mais uma piroga de escolta com motor fora-de-borda, mais segurança, mais manutenção, mais peças novas, mais toda a parafernália imaginável de documentos oficiais e por tudo o resto que lhe veio à cabeça, cerca de 4.600 euros, deixando-nos praticamente limpos. Aceitámos o acordo… só que o motor não funcionava. Também não era possível libertar o barco do lodo do fundo. Depois, um cadáver humano todo inchado foi descoberto a boiar nas redondezas.

Decidimos cortar nas despesas. Ouvimos falar em Joseph e no seu barco, combinámos um encontro com ele num hotel de Kinshasa, fechámos contrato, mandámos vir mais dinheiro e, de seguida, fugimos com ele para a imunda cidade portuária de Mbandaka, onde os tripulantes se ocupavam buliçosamente do carregamento do barco com carga comprada no mercado negro, durante o dia, e divertindo-se com mulheres locais à noite. Dois dias mais tarde, estamos por fim a caminho, navegando até Kisangani, a cidade da lendária curva do rio. O objectivo consiste em compreender esta constante da história turbulenta da República Democrática do Congo (RDC). Será que o poderoso rio pode ainda ser uma fonte de receitas desaproveitada por um país há muito devastado pela pobreza e pela corrupção? Ou o rio Congo é um universo em si mesmo?

Estamos em Fevereiro, na estação seca, e o rio mostra-se com pouca água e consistência lamacenta. Com intervalos de poucos quilómetros, a imensidão da floresta virgem que bordeja a água abre-se numa clareira e dá lugar a um amontoado de palhotas, com os seus telhados de colmo.

Ainda não rompeu a aurora e já há fogueiras acesas e mulheres a fritar pastéis. Outros passageiros levantaram-se dos seus colchões de espuma e começaram a dispor as mercadorias que levaram para vender.

Um magote de crianças emerge do interior, acenando. Algumas trepam para as suas pirogas e remam ferozmente na direcção do barco, aproveitando a esteira como se fossem praticantes de surf pequenos e magrinhos. A última piroga desaparece, engolida pela floresta, sob um sol escaldante. À noite, eu e Pascal deitamo-nos dentro dos sacos-cama, debaixo de redes mosquiteiras, sobre o telhado do barco, com uma bandeira da RDC esvoaçando mesmo por cima de nós. Não há electricidade. Nenhum ruído, de qualquer espécie que seja, excepto o rugido do motor até de manhã bem cedo, quando acordamos ao som de um cântico. Um pregador conduz outros passageiros numa oração. Descemos para averiguar.

Ainda não rompeu a aurora e já há fogueiras acesas e mulheres a fritar pastéis. Outros passageiros levantaram-se dos seus colchões de espuma e começaram a dispor as mercadorias que levaram para vender: sabão, pilhas, poções feitas de ervas, sapatos, uísque rançoso. Pouco depois, visitantes provenientes das profundezas do mato aparecem e conduzem as suas pirogas, remando até às barcaças e içando-se a bordo, qual aranhas, trazendo consigo os produtos que têm para trocar: bananas, peixes-gato, carpas, jibóias, babuínos, patos, crocodilos. O mercado flutuante durará todo o dia. A certa altura, uma dúzia de pirogas está amarrada ao barco. Torna-se rapidamente evidente ao nosso olhar que este regime é completamente simbiótico. Se não existisse este comércio, os passageiros não comeriam, nem os aldeãos teriam remédios para a febre do bebé, nem uma panela nova para substituir a que já está ferrugenta.

ALDEIA FLUTUANTE

A navegação no rio Congo exige paciência. O avanço faz-se com lentidão ao ritmo de poucos quilómetros por hora. As barcaças encalham no silte do fundo. Os motores avariam-se O tempo passa devagar. Os homens jogam às damas. As mulheres cozinham, limpam, cuidam das crianças -- e esperam. Quando a barcaça passa por alguma aldeia, vêem-se pirogas a largar, disparadas, das margens do rio, pilotadas por habitantes locais com produtos para vender. A barcaça transforma-se num mercado animado, ao mesmo tempo que prossegue lentamente a sua marcha rumo ao destino. Os passageiros oferecem para venda artigos para o lar, roupa, medicamentos e arroz. Os aldeãos trazem animais caçados na selva, incluindo macacos, cobras e porcos. os porcos, adquiridos para revenda com lucro numa escala posterior da viagem, viajam como os humanos: apertados uns contra os outros, no meio das mercadorias.

O pregador, de nome Simon, vende calças de ganga e camisas usadas. Viaja até uma igreja em Lisala, terra natal do antigo ditador Mobutu Sese Seko. “No tempo de Mobutu, o dinheiro chegava-me para pagar um bom quarto só para mim”, lamenta, evocando talvez a desordem vivida na RDC sob a égide do actual presidente, Joseph Kabila. “É difícil apreciar estas condições de vida. Tudo o que podemos fazer é rezar e confiar esta viagem às mãos de Deus.”

Simon tem um companheiro de viagem, um homem de ombros largos chamado Celestin que é dono de uma pequena plantação de seringueiras e palmeiras-dendê na aldeia de Binga, localizada na margem de um afluente conhecido como rio Mongala. Parece extasiado por ver dois estrangeiros brancos a bordo do barco.

“Ontem à noite sonhei que dois estranhos viriam visitar-me à plantação”, diz Celestin. “Por isso, se calhar foi Deus que vos mandou!”

Retribuímos o sorriso e agradecemos o convite. Também não fazemos promessas. A primeira coisa que se aprende na navegação no Congo é que nada é governável, muito menos a velocidade. As águas do rio são baixas, o barco vai pesado, o comandante emborca goladas de uísque congolês de um frasco e o proprietário refugiou-se nas Escrituras. Embora nestas paragens sejamos os sortudos, por aqui a sorte é a moeda mais volátil.

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