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Visto por uns como flagelo arquitectónico e por outros como proeza da engenharia, o edifício 432 park, na imagem ainda em construção no Outono de 2015, tornou-se a torre mais visível da cidade. O apartamento da cobertura foi vendido por 86 milhões de euros.

Os novos edifícios que substituíram os mais antigos e conhecidos erguem-se 90 andares pelo ar de Nova Iorque acima, devorando o céu como se estivessem esfomeados. Toda a ilha de Manhattan parece refulgir com os novos prédios, cujas fachadas nos cegam nos dias soalheiros.

Nestes edifícios superaltos, os proprietários são na maioria super-ricos e não gostam de revelar as suas identidades, servindo-se de esquemas evasivos perfeitamente legais para se identificarem. Talvez o exemplo mais flagrante, em Billionaire’s Row, seja o número 432 de Park Avenue, com 426 metros de altura e 88 andares. Ergue-se, imperial, sobre os seus vizinhos, olhando para todo o mundo como se estivesse a fazer um gesto feio com o dedo à minha cidade.

Até edifícios clássicos mais antigos são transformados em residências de luxo. Um deles é o magnífico Edifício Woolworth, finalizado em 1913 e que foi por pouco tempo o mais alto de Nova Iorque. A sua presença ainda se impõe na Baixa, apesar de apoucado em tamanho pelos vizinhos mais recentes. É preciso compreender que o Woolworth foi enriquecido pelo tempo.

Quando era jovem, acabado de sair da Marinha de Guerra, na década de 1950, trabalhei no número 120 da Broadway, a três minutos da Igreja da Trindade, a estrutura mais alta de Nova Iorque até 1890. À hora do almoço, adorava caminhar alguns quarteirões até ao City Hall Park, sentar-me num banco de ferro vazio ou no rebordo de um fontanário seco e olhar para o alto, admirando a ornamentação neogótica da fachada do Edifício Woolworth. Punha-me a imaginar os fabulosos artesãos europeus cujo trabalho fazia as paredes falar.

Correm boatos de que o apartamento da cobertura, com 834 metros quadrados, localizado no pináculo dos 57 pisos da Torre Woolworth, vai custar 100 milhões de euros ao comprador. Noutros tempos, por esse preço, comprava-se a minha Brooklyn inteirinha e ainda ficava com uma fortuna disponível. Porém, lá bem no fundo do meu coração, adoraria viver lá, ansiando a cada noite pela presença de fantasmas.

É evidentemente possível que, num futuro distante, estes novos edifícios consigam alcançar uma aura emocional semelhante. É possível, sim, mas duvido. Quase todos têm rostos brancos.
O negócio imobiliário sempre viveu atormentado por questões de classe, mas esta nova arquitectura parece aprisionada pelo grande capital.

Segundo notícias já divulgadas, os seus habitantes estão normalmente em trânsito. Duvido que pertençam a grupos de pais e professores, a associações de bairro ou conheçam os proprietários do café da esquina. Pode ser que me engane. Talvez sejam seres humanos maravilhosos, cheios de gargalhadas e bom coração. Sim, alguns deles até podem apaixonar-se pelas pessoas erradas. Mas parece-me improvável que este grupo produza um Henry James, uma Edith Wharton ou um Louis Auchincloss, que sabiam como transformar a vida privilegiada numa espécie de poesia prosada. Vivem em fortalezas verticais, isolados do resto. De certeza que se sentem solitários.

E isto suscita outra objecção às enormes mudanças em curso: a incapacidade para reconhecer o papel desempenhado pelo bairro. Em certos aspectos, cada bairro de Nova Iorque é como uma aldeia. Todos têm identidade de classe e alguns têm realidades étnicas. Cada qual tem uma personalidade singular e uma vida própria. Washington Heights, antigamente de maioria irlandesa, é agora vincadamente dominicano. East Harlem, porto-riquenho na minha juventude, é agora sobretudo mexicano. Sunset Park, em Brooklyn, também era irlandês e hoje é acentuadamente mexicano e chinês. A zona do Lower East Side de Manhattan era principalmente habitada por judeus da classe operária. Actualmente são os muçulmanos que exploram as bancas de Orchard Street, na companhia da geração do milénio, nascida nas décadas de 1980 e 1990. Há muitas outras aldeias, com nomes como Nolita, Dumbo e South Slope. Tenho esperança de que consigam sobreviver. Espero que quem lá vive se divirta tanto como nós nos divertimos.

A melhor perspectiva de Nova Iorque talvez se obtenha do céu, como as magníficas fotografias de George Steinmetz nos ajudam a perceber.

A dois quarteirões do meu loft em Tribeca, uma das novas estruturas leva-me a parar e a olhar de admiração, numa espécie de esperança cautelosa. Endereço: Leonard Street, 56. Só os últimos andares se encontram revestidos a vidro e, por isso, não projecta vagas ofuscantes de luz desrespeitosa. Vêem-se varandas até quase 60 andares de altura, dando ao edifício uma superfície canelada que os olhos podem contemplar. Há algumas probabilidades de podermos avistar nelas seres humanos autênticos em dias de bom tempo: jantando, conspirando, lendo, rindo-se, repousando, dormitando ou dizendo mal dos rivais. Muito acima do nível das ruas, é verdade, mas reconhecivelmente humanos. Uma vida de rua, mas no ar.

A melhor perspectiva de Nova Iorque talvez se obtenha do céu, como as magníficas fotografias de George Steinmetz nos ajudam a perceber. George capta as suas imagens a partir de um helicóptero, ou de “uma cadeira de jardim voadora” por ele desenhada, libertando-o para ver os desertos, oceanos, selvas e cidades do mundo. Não olha apenas. Vê-as. De súbito, através dos seus olhos, estamos sobre Nova Iorque. Ao ver as imagens dele pela primeira vez, senti de novo, pela primeira vez em vários anos, uma sensação de maravilhamento.

Certa tarde, na esperança de uma experiência intensa de maravilhamento existencial inspirada por George Steinmetz, fui visitar o One World Trade Center, substituto do original destruído no dia 11 de Setembro de 2001. Andava ali por perto naquela linda manhã. Após o ataque à Torre Norte, vi minúsculos seres humanos saltando das chamas, vi a Torre Sul desmoronar-se, vi polícias, bombeiros, fotógrafos e jornalistas encaminhando-se para os edifícios a arder, enquanto outros fugiam deles. Como repórter, continuei a visitar, semanas a fio, este bairro marcado por demasiada catástrofe e ainda maior coragem.

Agora, a torre nova foi finalmente inaugurada e senti que era meu dever fazer-lhe uma visita. Será durante muito tempo o edifício mais alto da cidade (e do país), medindo uns patrióticos 1.776 pés (ou 541 metros) de altura, um piscar de olhos à data da independência norte-americana. A viagem de elevador até ao 102.º andar durou 48 segundos. Não tive qualquer sensação de movimento, nenhum puxão repentino do corpo. Dentro da cabina do elevador, um filme em time-lapse mostrava imagens da história de Nova Iorque, e as Torres Gémeas figuravam em apenas quatro segundos fugazes. Silenciosamente, a porta abriu.

Caminhei até à plataforma de observação totalmente vedada em redor. A partir das suas janelas, conseguia olhar em todas as direcções. A norte, viam-se quase 50 quilómetros do rio Hudson, para montante. A leste, avistava-se o meu bairro de Brooklyn, sectores de Queens e uma fatia de Long Island. A sul, ficava a Ponte de Verrazano-Narrows e, mais além, o vasto Atlântico. A oeste, New Jersey e a minúscula Estátua da Liberdade, o nosso imigrante francês mais famoso.

Aproximei-me mais perto das janelas e espreitei para baixo. Lá estava ele, o Edifício Woolworth. O meu preferido. Ainda aqui. Mudando de cor à medida que o sol enfraquecia. Por um breve momento, a minha visão esbateu-se.

O panorama era espectacular, mas não experimentei qualquer sensação de maravilhamento. Alguns minutos depois, fiquei com vontade de regressar ao nível da rua. De olhar para rostos desconhecidos, ver a distracção, a tristeza, a alegria, o riso nos seus olhos. Desci à terra. No passeio, um jovem turista perguntou-me como podia ir para a parte alta da cidade. Apontei na direcção do metropolitano.

Sorriu. “Não, eu quero ver o caminho inteiro.” Dei-lhe as indicações, mas não me contive. "Aproveite o bairro", sugeri.

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