Miragem da Cidade Perdida

Texto  Douglas Preston   Fotografias  Dave Yoder

O tatu de pedra encontrado em La Mosquitia (em baixo) contribuiu para impulsionar o coleccionador George Gustav Heye a enviar Theodore Morde e outros em busca de uma lendária Cidade Branca escondida na selva nas décadas de 1930 e 1940.
Artefacto proveniente de La Mosquitia.
Outro artefacto proveniente de La Mosquitia.
E mais um artefacto proveniente de La Mosquitia.
Abrangendo 50 mil quilómetros quadrados das Honduras e da Nicarágua, a região de La Mosquitia alberga a maior floresta tropical da América Central.
Com um pincel, o arqueólogo Oscar Neil Cruz remove a biomassa florestal depositada sobre uma pedra, pouco depois de entrar nas ruínas de La Mosquitia.
O objecto era uma de cinquenta lajes de pedra circundando uma praça, os primeiros elementos de arquitectura descobertos aqui. Desconhece-se a sua finalidade.
Andrew Wood, antigo oficial do Special Air Service britânico, usa a catana para abrir um trilho até às ruínas de uma cidade detectada pela primeira vez a partir do ar pela tecnologia Lidar.
Os artefactos por escavar incluem assentos de pedra gravada chamados metates.
Nas ruínas, os arqueólogos descobriram um conjunto de objectos de pedra, possivelmente deixados como oferenda.
Entre os artefactos descobertos conta-se um rosto esculpido (parte jaguar, parte humano) do tamanho de um punho.

Regressam habitualmente de mãos a abanar... Se regressarem. Por vezes, contudo, a demanda de um mito conduz a uma descoberta real. No dia 18 de Fevereiro de 2015, um helicóptero militar descolou de uma pista degradada junto da cidade de Catacamas, nas Honduras, voando para nordeste, na direcção das montanhas de La Mosquitia. Lá em baixo, os campos agrícolas deram progressivamente lugar a encostas íngremes aquecidas pelo sol, florestas tropicais cerradas e áreas desflorestadas para criação de gado. O piloto encaminhou-se para uma fenda em forma de V numa cumeeira distante. Do outro lado, avistava--se um vale rodeado por picos serrilhados: uma paisagem prístina dourada e verde-esmeralda, salpicada pelas sombras das nuvens. Bandos de garças voavam abaixo de nós e as copas das árvores agitavam-se com os movimentos de macacos invisíveis. Não havia sinais de civilização. O piloto desceu o helicóptero, apontando para uma clareira na margem de um rio.

Entre as pessoas que desembarcaram do helicóptero encontrava-se o arqueólogo Chris Fisher. O vale situa-se numa região há muito mencionada em rumores como o local da “Ciudad Blanca”, uma metrópole mítica de pedra branca, também conhecida como a Cidade Perdida do Deus Macaco. Chris não acreditava nessas lendas, mas acreditava que o vale (designado por ele e pelos seus companheiros como T1) continha as ruínas de uma verdadeira cidade perdida, abandonada há pelo menos meio milénio. Aliás, Chris tinha a certeza da sua existência.

A região de la Mosquitia divide-se entre as Honduras e a Nicarágua e contém a maior floresta tropical da América Central, albergando cerca de cinquenta mil quilómetros quadrados de vegetação densa, pântanos e rios. De cima, pode parecer convidativa, mas a aventura pelo seu interior implica vários perigos: serpentes mortíferas, jaguares esfaimados e insectos nocivos, alguns dos quais portadores de doenças mortais. Boa parte do mito da Cidade Branca oculta fica a dever-se à natureza perigosa desta região bravia. A origem da lenda, porém, é obscura. Exploradores, prospectores e alguns dos primeiros aviadores registaram avistamentos dos baluartes brancos de uma cidade em ruínas erguendo-se acima da selva; outros repetiram histórias, registadas pela primeira vez por Hernán Cortés em 1526, sobre cidades fabulosamente ricas no interior hondurenho. Antropólogos que conviveram com os índios miskito, pech e tawahka de La Mosquitia ouviram histórias sobre uma “Casa Branca”, um local onde os indígenas se refugiaram da conquista espanhola e nunca mais foram vistos.

Quando os arqueólogos começaram a explorar La Mosquitia na década de 1930 descobriram alguns povoados, sugerindo que a zona fora em tempos ocupada por uma cultura sofisticada e disseminada.

La Mosquitia situa-se na fronteira da América Central, adjacente ao reino dos maias. Paradoxalmente, enquanto os maias são uma das culturas antigas mais estudadas do continente, o povo de La Mosquitia é um dos mais misteriosos. Ao longo do tempo, o mito integrou a cultura hondurenha. Na década de 1930, a Ciudad Blanca captou igualmente a imaginação do público dos EUA. Foram realizadas várias expedições para encontrá-la, incluindo três sob iniciativa do Museu do Índio Americano de Nova Iorque, financiadas por George Gustav Heye, um ávido coleccionador de artefactos indígenas. As duas primeiras missões regressaram com rumores de uma cidade perdida contendo a estátua gigante de um deus macaco, à espera de ser desenterrada.

A terceira expedição organizada pelo museu foi liderada por um jornalista excêntrico chamado Theodore Morde e aterrou nas Honduras em 1940. Theodore emergiu da selva cinco meses mais tarde com caixas repletas de artefactos.
“A Cidade do Deus Macaco estava murada”, escreveu. “Acompanhámos uma muralha até esta desaparecer sob montículos que tudo indica terem sido outrora grandes edifícios.” O repórter recusou-se a revelar o local, segundo ele por medo de que fosse saqueado, mas prometeu regressar no ano seguinte para iniciar as escavações. Nunca o fez e, em 1954, enforcou-se numa cabina de duche. A sua cidade, se existia, permanece por identificar.

Nas décadas seguintes, a arqueologia em La Mosquitia foi prejudicada pela dureza das condições, mas também pela convicção geralmente aceite de que os solos da floresta tropical eram demasiado pobres para sustentarem mais do que um punhado de caçadores-recolectores dispersos e certamente demasiado pobres para manterem a agricultura intensiva necessária para desenvolver sociedades com hierarquias complexas. Esta convicção correspondia efectivamente à verdade, mas quando os arqueólogos começaram a explorar La Mosquitia na década de 1930 descobriram alguns povoados, sugerindo que a zona fora em tempos ocupada por uma cultura sofisticada e disseminada. A conclusão não surpreendia, pois a região situava-se numa encruzilhada de comércio e viagens entre os maias e outros povos, que viviam a norte e a oeste, e as poderosas culturas de expressão chibcha, instaladas a sul.

O povo de La Mosquitia absorvera aspectos da cultura maia, concebendo as suas cidades com um estilo vagamente maia. Adoptou provavelmente o famoso jogo de bola, uma competição ritual que por vezes envolvia sacrifícios humanos. Contudo, a relação exacta com os vizinhos dominantes permanece desconhecida. Alguns arqueólogos propuseram a seguinte explicação: um grupo de guerreiros maias oriundos de Copán pode ter conquistado o controlo de La Mosquitia. Outros crêem que a cultura local se limitou a acolher as características da impressionante civilização vizinha.

Uma das diferenças importantes entre ambas as culturas traduzia-se nos materiais de construção escolhidos pelo povo de La Mosquitia. Ainda não foram encontradas provas de que utilizassem a pedra talhada nas suas construções.
Os seus edifícios públicos eram construídos com seixos do rio, terra, madeira e taipa. Depois de decorados e pintados, estes edifícios poderiam parecer tão impressionantes como alguns grandes templos maias, mas, uma vez abandonados, dissolviam-se sob a chuva e apodreciam, deixando atrás de si modestos montículos de terra e detritos rapidamente engolidos pela vegetação.
O desaparecimento desta esplêndida arquitectura talvez explique a razão pela qual esta cultura permaneceu tão “marginalizada”, segundo Christopher Begley da Universidade Transylvania, em Lexington (EUA), que realizou levantamentos arqueológicos na região de La Mosquitia. A cultura continua tão pouco estudada que ainda nem recebeu nomenclatura formal. “Sabemos pouco sobre esta grande cultura”, contou Oscar Neil Cruz. Mexicano de nascimento, Oscar é o director do departamento de arqueologia do Instituto de Antropologia e História das Honduras (IHAH).

Quando se sabe pouco, tudo é possível. Em meados da década de 1990, o realizador de documentários Steve Elkins ficou fascinado com a lenda da Cidade Branca e desenvolveu esforços para encontrá-la. Passou anos a estudar relatórios de exploradores, arqueólogos, prospectores de ouro, traficantes de droga e geólogos. Cartografou a região de La Mosquitia, identificando as zonas exploradas e por explorar. Contratou cientistas do Laboratório de Propulsão a Jacto (JPL) da NASA para analisar os dados recolhidos pelo Landsat e as imagens de radar de La Mosquitia em busca de indícios de povoados antigos.

O relatório do JPL revelou aquilo que poderiam ser características “rectilíneas e curvilíneas” em três vales, que Steve apelidou de T1, T2 e T3. T significa “target” (alvo). O primeiro era um vale fluvial inexplorado, circundado por cumeeiras, formando uma depressão natural. “Dei por mim a pensar: se eu fosse rei, este seria um sítio perfeito para esconder o meu reino”, contou o cineasta. Mas as imagens eram inconclusivas. Ele teria de encontrar uma maneira de espreitar entre o denso dossel florestal.

Em 2010, Steve Elkins leu um artigo na revista “Archaeology” que descrevia a utilização de uma técnica denominada Lidar (abreviatura de light detection and ranging) para cartografar a cidade maia de Caracol, no Belize. O Lidar projecta centenas de milhares de emissões de raios laser infravermelhos sobre a floresta tropical, registando a localização exacta de cada reflexo devolvido. A “nuvem de pontos” tridimensional assim gerada pode ser manipulada através de aplicações informáticas para remover as emissões que atingem árvores e vegetação arbustiva, deixando uma imagem composta apenas pelas emissões que atingiram o terreno subjacente, incluindo contornos arquitectónicos. Em apenas cinco dias de processamento, o Lidar revelou que Caracol era sete vezes maior do que se pensara após 25 anos de sondagens no terreno.

"As cidades possuem funções cerimoniais especiais e estão associadas à agricultura intensiva”

Uma das desvantagens do processo é o custo. O levantamento de Caracol fora realizado pelo Centro Nacional de Mapeamento Aéreo por Laser (NCALM). A digitalização de 143 quilómetros quadrados dos três vales custaria cerca de duzentos mil euros ao NCALM. Felizmente, por esta altura, a ânsia de Steve Elkins por encontrar a Cidade Branca já contagiara outro realizador, Bill Benenson, que decidiu financiá-lo do seu próprio bolso.

Os resultados iniciais foram impressionantes. Parecia haver uma sequência de ruínas ao longo de vários quilómetros do vale T1. Outro sítio, com o dobro do tamanho, era evidente em T3. Embora as estruturas maiores fossem imediatamente visíveis, uma análise mais pormenorizada teria de ser realizada pelo olho de um arqueólogo especialista em Lidar. Steve e Bill recorreram a Chris Fisher, da Universidade Estadual do Colorado.

E foi assim que Chris veio a encontrar-se na margem de um rio sem nome no T1, em Fevereiro de 2015, olhando para a muralha de selva que se erguia do outro lado, ansioso por lá entrar.

Desde o instante em que viu as imagens, Chris ficou cativado. Utilizara esta tecnologia para cartografar Angamuco, uma cidade antiga do feroz povo purépecha (Tarascos), que rivalizou com os aztecas no México central desde cerca de 1000 d.C. até à chegada dos espanhóis, no início do século XVI. Enquanto as comunidades das terras altas da América pré-colombiana viviam em elevada densidade demográfica, as dos trópicos tendiam a disseminar-se pela paisagem. Apesar disso, os sítios T1 e T3 pareciam substanciais e eram certamente os maiores povoados até à data cartografados em La Mosquitia. A zona principal de T3 tinha quase quatro quilómetros quadrados, pouco menos do que a zona central de Copán, a cidade maia a oeste. O centro de T1 era mais pequeno mas mais concentrado, aparentando ser composto por dez grandes praças, dezenas de montículos associados, estradas, socalcos agrícolas, canais de irrigação, um reservatório e uma possível pirâmide. Devido à arquitectura cerimonial, aterros e praças, Chris não teve dúvidas de que os dois locais correspondiam à definição arqueológica de uma cidade: um povoado com organização social complexa. “As cidades possuem funções cerimoniais especiais e estão associadas à agricultura intensiva”, disse. “E costumavam implicar uma reconstrução monumental da paisagem.”

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.