Texto  Jamie Shreeve   Fotografias  Robert Clark

No dia 13 de Setembro de 2013, Steven Tucker e Rick Hunter, espeleólogos amadores, acederam a um sistema de grutas dolomíticas denominado Rising Star, a cerca de cinquenta quilómetros de Joanesburgo. Desde a década de 1960 que o sistema é popular entre os espeleólogos, e os canais e grutas já foram cartografados. No entanto, Steven e Rick tinham esperança de descobrir uma nova sala.

Durante a primeira metade do século XX, esta região proporcionou tantos fósseis dos nossos mais antigos antepassados que mais tarde foi baptizada como “Berço da Humanidade”. Embora a idade de ouro da caça aos fósseis há muito tenha acabado, os espeleólogos sabiam que um cientista da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, andava à procura de vestígios ósseos.

Nas profundezas da gruta, Steven e Rick percorreram de gatas um estrangulamento baptizado como “O Rastejo do Super-Homem” porque a maior parte das pessoas só consegue passar encostando firmemente um dos braços contra o corpo e estendendo o outro acima da cabeça, como o super-herói em pleno voo. Depois de atravessarem uma grande câmara, escalaram uma parede rochosa. Uma vez no topo, depararam com uma cavidade pequena e bonita decorada com estalactites. Rick pegou na câmara de vídeo e, para fugir do enquadramento, Steven entrou no interior de uma fenda no solo da gruta. O pé tocou numa protuberância rochosa, logo seguida de outra abaixo. Mais à frente, estava apenas espaço vazio.

Deixando-se cair, Steven deu consigo num estreito poço vertical, com largura máxima de 25 centímetros. Chamou Rick. Os dois homens possuem estruturas físicas muito magras – peles, ossos e músculos ágeis. Bastaria um tronco um pouco mais volumoso e nenhum deles caberia no poço: se assim fosse, aquela que é provavelmente a mais fantástica descoberta de fósseis humanos dos últimos 50 anos não teria ocorrido.

A luz solar desce sobre a entrada da gruta de Rising Star, perto de Joanesburgo. Numa galeria isolada, foram descobertas centenas de ossos fossilizados. Segundo a antropóloga Marina Elliott, sentada na imagem, "limitámo-nos literalmente a arranhar a superfície".

O paleoantropólogo Lee Berger, o investigador que pedira aos espeleólogos para não perderem de vista eventuais fósseis, é um norte-americano de grande estrutura óssea, com uma testa alta, rosto corado e malares que se expandem amplamente para fora quando sorri, o que acontece com frequência. O seu optimismo inabalável tem-se revelado fundamental na sua vida profissional. No início da década de 1990, quando Lee foi contratado pela Universidade de Witwatersrand (“Wits”) e começou a procurar fósseis, o centro da investigação em evolução humana deslocara-se para o vale do Grande Rifte, na África Oriental.

A maioria dos investigadores olhava para a África do Sul como um interessante capítulo marginal da história da evolução humana, mas não como o cenário principal. Lee empenhou-se em provar que não tinham razão. Durante quase vinte anos, porém, os achados relativamente insignificantes que produziu pareceram sublinhar o pouco que a África do Sul tinha para oferecer.

O objectivo de Lee era encontrar fósseis que pudessem esclarecer o principal mistério ainda não resolvido da evolução humana: a origem do nosso género, Homo, no intervalo cronológico de há três a dois milhões de anos. No extremo mais antigo desse intervalo, encontram-se os australopitecíneos semelhantes a símios, cujo expoente máximo, o Australopithecus afarensis, é representado pela famosa Lucy, um fóssil descoberto na Etiópia em 1974.

No extremo mais recente, encontramos o Homo erectus, uma espécie capaz de fabricar ferramentas e de fazer fogo, com um cérebro grande e proporções corporais parecidas com as nossas. Nesse intervalo obscuro de um milhão de anos, um animal bípede transformou-se num ser humano emergente, uma criatura adaptada ao seu ambiente e capaz de aplicar o seu cérebro ao domínio do mesmo. Como aconteceu essa revolução?

Lee tinha ambição e personalidade para tornar-se uma figura famosa no seu domínio, semelhante a Richard Leakey ou Donald Johanson, o autor da descoberta do fóssil de Lucy. Lee é um incansável angariador de fundos e um mestre a atrair a atenção do público. Mas faltavam-lhe os ossos.

O registo fóssil desanima pela ambiguidade. Ligeiramente mais antiga do que o H. erectus, existe uma espécie denominada Homo habilis, ou “homem hábil” – assim denominada por Louis Leakey e colegas, em 1964, em função dos utensílios líticos que tinham encontrado na garganta de Olduvai, na Tanzânia. Na década de 1970, equipas chefiadas por Richard, filho de Louis, descobriram mais espécimes de H. habilis no Quénia e, desde então, esta espécie tem constituído a frágil base sobre a qual assenta a árvore genealógica da família humana, mantendo-a enraizada na região oriental de África. Para o período anterior ao H. habilis, a história da humanidade permanece obscura, representada por escassos fragmentos de fósseis do Homo.
Os ramos são demasiado rudimentares para permitir a atribuição de um nome à potencial espécie. Segundo um cientista, caberiam facilmente dentro numa caixa de sapatos e… ainda sobraria espaço para os sapatos.

Há muito que Lee Berger argumenta que o H. habilis seria demasiado primitivo para merecer a posição privilegiada que lhe foi atribuída na origem do nosso género. Outros cientistas admitem que ele deveria ser reclassificado como Australopithecus, mas Lee tem permanecido quase isolado na sua defesa da África do Sul como berço do Homo mais antigo. Durante muitos anos, a exuberância excessiva com que promovia os seus achados relativamente insignificantes afastou alguns dos seus colegas de profissão. Lee tinha ambição e personalidade para tornar-se uma figura famosa no seu domínio, semelhante a Richard Leakey ou Donald Johanson, o autor da descoberta do fóssil de Lucy. Lee é um incansável angariador de fundos e um mestre a atrair a atenção do público. Mas faltavam-lhe os ossos.

Em 2008, porém, o investigador produziu um achado verdadeiramente importante. No decurso de escavações realizadas num lugar mais tarde denominado Malapa, a 16 quilómetros do sistema Rising Star, ele e o seu filho Matthew, então com 9 anos, descobriram alguns fósseis de hominídeos emergindo de pedaços de dolomite.

Durante o ano seguinte, a sua equipa escavou laboriosamente da rocha dois esqueletos quase completos. Datados aproximadamente de há dois milhões de anos, foram os primeiros achados de relevo feitos na África do Sul nas últimas décadas – pelo menos, entre aqueles que mereceram publicação, pois existe o fóssil de um esqueleto ainda mais completo, descoberto anteriormente, mas ainda não descrito. Eram seguramente indivíduos muito primitivos, mas os vestígios ósseos apresentavam também características estranhamente modernas.

Lee sugeriu que os esqueletos pertenciam a uma nova espécie de australopitecíneos e denominou-a Australopithecus sediba. Ao fazê-lo, anunciou que eles seriam “a pedra de Roseta” para a compreensão das origens do Homo. Embora vários especialistas da paleoantropologia o felicitassem pelo achado “assombroso”, a maioria desvalorizou a interpretação. O A. sediba era demasiado recente, demasiado estranho e proveniente de um local “errado” para ser antepassado do Homo: não era um dos nossos. De certa forma, Lee também não o era. Desde então, investigadores relevantes têm publicado artigos sobre o Homo primitivo que nem sequer o referem, nem ao seu achado.

Lee ignorou a rejeição e retomou o trabalho: haveria seguramente mais fósseis de Malapa para estudar, ainda encapsulados em blocos de calcário no seu laboratório. Certa noite, Pedro Boshoff, espeleólogo e geólogo contratado por Lee para procurar fósseis, bateu-lhe à porta. Com ele, vinha também Steven Tucker. Lee analisou as fotografias que lhe mostraram, captadas no sistema Rising Star, e compreendeu que Malapa seria em breve relegada para uma posição secundária na hierarquia dos sítios arqueológicos mais relevantes.

Depois de se contorcerem ao longo de 12 metros, descendo pelo poço estreito encontrado na gruta de Rising Star, Steven e Rick encontraram uma pequena sala, com uma cascata de escorrimentos calcários num canto. Uma passagem conduziu-os a uma cavidade maior, com cerca de nove metros de comprimento por cerca de um metro de largura, com as paredes e o tecto formados por um emaranhado de formações retorcidas de calcite e escorrimentos calcários protuberantes em forma de dedo. Sobre o solo, algo atraiu a atenção dos dois homens: havia ossos por todo o lado. A princípio, os espeleólogos pensaram que fossem contemporâneos. Não eram pesados como pedra, ao contrário da maioria dos fósseis, nem se encontravam amalgamados na rocha: estavam espalhados mesmo sobre a superfície, como se alguém os tivesse lançado sobre ela. Repararam num pedaço de maxilar inferior, com dentes intactos: pareciam humanos.

Colocou um anúncio no Facebook, solicitando o serviço de uma pessoa magra, com credenciais científicas, experiência como espeleólogo e “disponibilidade para trabalhar em espaços confinados”. Semana e meia depois, já tinha quase sessenta candidaturas. Escolheu as seis mais qualificadas, todas elas jovens mulheres. Berger chamou-lhes as suas “astronautas subterrâneas”.

Lee intuiu, com base nas fotografias, que os ossos não pertenciam a um ser humano moderno. Algumas características, em especial o maxilar e os dentes, eram demasiado primitivas. As fotografias mostravam mais locais passíveis de escavação e Lee conseguiu mesmo distinguir os contornos de um crânio parcialmente enterrado. Era provável que os restos mortais representassem boa parte de um esqueleto completo. Ficou estupefacto. No registo fóssil dos hominídeos primitivos, o número de esqueletos quase completos, incluindo os dois por si recuperados em Malapa, contava-se pelos dedos de uma só mão.
Agora, encontrara este. Mas o que era este? Que idade tinha? E como entrara naquela gruta?

Mais importante: como tirá-lo de lá, e depressa, antes que outros amadores encontrassem o caminho até àquela galeria. Parecia evidente, a avaliar pela disposição dos ossos, que alguém ali estivera mais cedo, talvez várias décadas antes. Steven e Rick não tinham conhecimentos para escavar fósseis e Lee não conhecia nenhum cientista (a começar por si) com a envergadura física exigida para se esgueirar por aquele poço. Por isso, tomou uma decisão inesperada: colocou um anúncio no Facebook, solicitando o serviço de uma pessoa magra, com credenciais científicas, experiência como espeleólogo e “disponibilidade para trabalhar em espaços confinados”. Semana e meia depois, já tinha quase sessenta candidaturas. Escolheu as seis mais qualificadas, todas elas jovens mulheres. Berger chamou-lhes as suas “astronautas subterrâneas”.

Nos dias seguintes, enquanto as mulheres sondavam uma área de um metro quadrado em torno do crânio, os outros cientistas amontoaram-se à volta do receptor de vídeo do centro de comando instalado lá em cima, num estado de entusiasmo quase constante

Com financiamento da National Geographic Society, pois Lee também é explorador residente da National Geographic, reuniu cerca de seis dezenas de cientistas e montou um centro de comando à superfície, uma tenda científica e um pequeno acampamento. Espeleólogos locais ajudaram a descer três quilómetros de cabos de comunicação e electricidade até à câmara dos fósseis. Tudo o que ali acontecesse poderia agora ser visto através de câmaras de filmar por Lee e pelos membros da sua equipa no centro de comando. Marina Elliott, então aluna da Universidade Simon Fraser, na província da Colúmbia Britânica, foi a primeira cientista a descer pelo poço.

“Ao olhar lá para baixo, não tive a certeza de que tudo iria correr bem”, recordou Marina. “Foi como espreitar para dentro da boca de um tubarão: viam-se dedos, línguas e dentes de rocha.”

Marina e duas colegas, Becca Peixotto e Hannah Morris, desceram centímetro a centímetro até à “zona de aterragem” no fundo, agachando-se em seguida para entrar na galeria dos fósseis. Trabalhando em turnos de duas horas com outra equipa de três mulheres, cartografaram e embalaram os mais de quatrocentos fósseis espalhados à superfície, começando de seguida a remover o solo em redor do crânio parcialmente enterrado. Havia outros ossos debaixo do crânio e à volta dele, densamente aconchegados. Nos dias seguintes, enquanto as mulheres sondavam uma área de um metro quadrado em torno do crânio, os outros cientistas amontoaram-se à volta do receptor de vídeo do centro de comando instalado lá em cima, num estado de entusiasmo quase constante. De tempos a tempos, Lee saía e dirigia-se à tenda científica para observar, intrigado, os ossos que se acumulavam. Logo de seguida, um urro colectivo de assombro, proveniente do centro de comando, trazia-o de volta para assistir a nova descoberta. Foram momentos de glória.

Os ossos encontravam-se soberbamente preservados e, perante a duplicação de estruturas ósseas, em breve tornou-se claro que não havia na gruta um esqueleto mas dois, em seguida três, depois cinco… e, por fim, tantos que era difícil manter uma contagem exacta. A equipa de escavação retirou cerca de 1.200 ossos, mais do que qualquer outro sítio arqueológico de antepassados humanos em África e ainda não esgotara o material no metro quadrado em redor do crânio. Foram precisos vários dias adicionais de escavações, em Março de 2014, até que nada mais se encontrasse nos sedimentos, 15 centímetros mais abaixo.

O pé do Homo naledi é assombrosamente moderno. Apenas alguns traços, como os ossos dos dedos do pé ligeiramente mais encurvados, preservam a estrutura primitiva. "No essencial, trata-se do pé de seres humanos modernos, mas com diferenças subtis", afirma o paleontólogo Will Harcourt-Smith. Arte Stefan Fichtel Fontes Lee Berger e Peter Schmid, wits; John Hawks, Universidade de Wisconsin-Madison

Ao todo, foram descobertos 1.700 vestígios ósseos, representativos de pelo menos 15 indivíduos. Crânios. Maxilares. Costelas. Dezenas de dentes. Um pé quase inteiro. Uma mão, praticamente com todos os ossos intactos, preservando a sua disposição em vida. Ossos minúsculos do ouvido interno. Adultos idosos. Jovens. Bebés, identificados pelas suas vértebras minúsculas. Fragmentos dos esqueletos pareciam assombrosamente modernos. Outros, porém, eram também assombrosamente primitivos: em alguns casos, quase mais simiescos do que os dos Australopithecus.

“Descobrimos uma criatura realmente admirável”, anunciou Lee. O seu sorriso alargava-se quase até às orelhas. 

A única forma de obter uma análise rápida seria aumentando o escrutínio científico sobre o achado. Além dos cerca de vinte cientistas seniores que o tinham ajudado a avaliar os esqueletos de Malapa, Lee convidou mais de trinta jovens cientistas de cerca de 15 países a deslocarem-se a Joanesburgo para uma sessão-relâmpago de seis semanas de duração.

Por tradição, em paleoantropologia, os espécimes recém-descobertos costumam ser guardados sob sigilo até serem cuidadosamente estudados e os resultados publicados, sendo concedido acesso pleno apenas aos colaboradores mais próximos do descobridor. Seguindo este protocolo, a resposta ao mistério fulcral do achado de Rising Star – O que é isto? – poderia demorar anos, talvez mesmo décadas. Lee queria o trabalho publicado até ao final do ano. Segundo ele, toda a comunidade científica deveria ter acesso a informações importantes o mais depressa possível. E talvez ele gostasse da ideia de anunciar a sua descoberta, potencialmente um novo candidato ao Homo mais antigo, em 2014 – precisamente 50 anos depois de Louis Leakey publicar o seu achado do primeiro membro do nosso género, o Homo habilis.

A única forma de obter uma análise rápida seria aumentando o escrutínio científico sobre o achado. Além dos cerca de vinte cientistas seniores que o tinham ajudado a avaliar os esqueletos de Malapa, Lee convidou mais de trinta jovens cientistas de cerca de 15 países a deslocarem-se a Joanesburgo para uma sessão-relâmpago de seis semanas de duração. Para alguns cientistas mais consagrados (e que não participaram), a ideia de colocar jovens na linha da frente só para apressar a publicação de artigos parecia uma loucura. Para os jovens em questão, porém, tratou-se de “uma paleofantasia tornada realidade”, nas palavras de Lucas Delezene, docente recém-nomeado da Universidade de Arkansas. “Na licenciatura, sonha-se com uma pilha de fósseis que nunca ninguém viu e com uma interpretação prodigiosa.”

A sessão de estudos decorreu num laboratório recém-construído em Wits, uma sala sem janelas onde se viam fósseis e moldes. As equipas foram divididas por sectores do corpo. Os peritos cranianos acocoraram-se a um canto, em torno de uma grande mesa quadrada coberta de fragmentos de crânios e maxilares e com moldes de outros fósseis de crânios bem conhecidos. Havia mesas mais pequenas reservadas a mãos, pés, ossos compridos e assim sucessivamente. O ar era fresco, o ambiente abafado. Jovens cientistas trabalhavam com os ossos e com as suas ferramentas. Lee e os seus assessores mais chegados circulavam no meio deles, conferenciando em voz baixa.

A pilha de fósseis de Lucas Delezene era composta por 190 dentes, elementos fundamentais em qualquer exame, uma vez que, frequentemente, bastam os dentes para identificar uma espécie. Mas estes dentes não se assemelhavam a nada do que os cientistas do “sector dentário” alguma vez tinham visto. Algumas características eram assombrosamente semelhantes às humanas, como as pequenas coroas dos molares com cinco cúspides iguais às nossas. Em contrapartida, as raízes dos pré-molares eram estranhamente primitivas. “Não sabemos ao certo como interpretá-las”, afirmou Lucas.

Quatro crânios parciais foram encontrados – dois provavelmente masculinos, dois femininos. Em termos de morfologia geral, pareciam suficientemente avançados para serem classificados como Homo, mas as caixas cranianas eram minúsculas

O mesmo padrão surgiu noutras mesas. Uma mão totalmente moderna apresentava dedos esquisitamente encurvados, próprios de uma criatura capaz de trepar às árvores. Os ombros também eram simiescos e os ilíacos, amplamente abertos, eram tão primitivos como os de Lucy, embora a região inferior dessa mesma bacia se assemelhasse à de um homem moderno.
Os ossos dos membros anteriores começavam com a forma de um Australopithecus mas ganhavam modernidade à medida que desciam na direcção do solo. Os pés eram praticamente iguais aos nossos.

“Quase se poderia traçar uma linha através das ancas, separando o sector primitivo  do moderno”, resumiu o paleontólogo Steve Churchill, da Universidade de Duke. “Se tivéssemos encontrado o pé isolado, pensaríamos que algum corresponderia a um bosquímano morto.”

Na zona da cabeça, também havia novidade. Quatro crânios parciais foram encontrados – dois provavelmente masculinos, dois femininos. Em termos de morfologia geral, pareciam suficientemente avançados para serem classificados como Homo, mas as caixas cranianas eram minúsculas: tinham escassos 560 centímetros cúbicos para indivíduos do sexo masculino e 465 no sexo feminino, muito menos do que a média de 900 centímetros cúbicos do H. erectus e muito menos de metade do tamanho das nossas. Um cérebro de grande dimensão é quase a condição sine qua non da identidade humana, marca inconfundível de um género que evoluiu para sobreviver à custa da sua esperteza. Por definição, aqueles não eram seres humanos.

“Eram esquisitos a valer!”, exclamou mais tarde o paleoantropólogo Fred Grine, da Universidade Estadual de Nova Iorque. “Cérebros minúsculos anexos a estes corpos que não eram minúsculos.” Os machos mediam cerca de 1,50 metros e pesavam 45 quilogramas, enquanto as fêmeas eram mais baixas e leves. “A mensagem parece ser a de um animal mesmo à beira da transição do Australopithecus para o Homo”, resumiu Lee.

Em alguns aspectos, o novo hominídeo encontrado tinha mais parecenças com os seres humanos modernos do que o próprio Homo erectus. Para Lee Berger, ele pertencia ao género humano, mas em nada se assemelhava aos outros membros. Não havia alternativa senão atribuir um nome à nova espécie. A equipa chamou-lhe Homo naledi, numa vénia à gruta onde os ossos foram
descobertos: em sotho, o idioma local, naledi significa “estrela”.

 

Antes disso, em Novembro, enquanto faziam o seu impressionante achado, Marina Elliott e as suas colegas foram igualmente surpreendidas com o que não encontravam. “Estávamos no terceiro ou quarto dia e ainda não tínhamos descoberto quaisquer sinais de fauna”, disse ela. No primeiro dia, encontrámos um punhado de ossos de pequenas aves à superfície, mas, de resto, nada mais havia a não ser ossos de hominídeo.

Talvez nesses tempos recuados a passagem fosse suficientemente ampla e talvez os hominídeos atirassem simplesmente o seu fardo para o fundo do poço, sem sequer descerem por ele.

Isso gerou um mistério tão intrigante como o da identidade do H. naledi: como tinham os restos mortais ido parar àquela câmara absurdamente isolada? Evidentemente, os indivíduos não viviam na caverna: não existiam utensílios líticos, nem vestígios de refeições para sugerir tal ocupação.
É plausível que um grupo de H. naledi pudesse ter deambulado até chegar à gruta, em certa época, ficando preso no interior, mas a distribuição dos ossos parecia indicar que estes tinham sido depositados ao longo de talvez vários séculos. Se fossem carnívoros a arrastar as suas presas até à gruta, teriam deixado marcas de dentes nos ossos e não existiam nenhumas. E o que levaria um predador a uma dieta tão fastidiosa, exclusivamente à base de hominídeos? E, por fim, se os ossos fossem lançados para o interior da gruta por águas correntes, estas teriam trazido consigo pedras e outro cascalho também. Mas não havia cascalho, apenas sedimentos finos desagregados das paredes da gruta ou infiltrados através de minúsculas fendas.

“Depois de eliminarmos o impossível”, recordou um dia Sherlock Holmes ao seu amigo Watson, “tudo aquilo que resta, por improvável que seja, deve ser correcto”.

Uma vez esgotadas todas as outras explicações, Lee e a sua equipa foram confrontados com a conclusão improvável de que aqueles corpos de H. naledi foram propositadamente colocados naquele sítio por outros H. naledi. Até àquele momento, só o Homo sapiens, e possivelmente alguns seres humanos arcaicos como os homens de Neandertal, são conhecidos por terem tratado os seus mortos de maneira tão ritualizada. Talvez nesses tempos recuados a passagem fosse suficientemente ampla e talvez os hominídeos atirassem simplesmente o seu fardo para o fundo do poço, sem sequer descerem por ele. Com o passar das eras, a crescente pilha de ossos poderia ter rebolado lentamente para a câmara adjacente.

O sepultamento propositado dos corpos teria exigido que os hominídeos descobrissem o caminho até ao topo do poço, no meio da escuridão total, e o caminho de regresso, o que certamente tornaria necessária a iluminação por tochas ou fogueiras acesas com intervalos. A ideia de que uma criatura com um cérebro tão pequeno pudesse demonstrar um comportamento desta complexidade parece tão improvável que outros investigadores se recusaram simplesmente a dar--lhe crédito. Em determinada época mais antiga, deveria ter existido uma entrada para a gruta que proporcionava acesso mais directo à câmara dos fósseis, permitindo que os ossos para ali fossem arrastados pela água. “Tem de haver outra entrada”, afirmou Richard Leakey depois de visitar o sítio arqueológico. “Só que Lee ainda não a descobriu.”

A água teria inevitavelmente arrastado cascalho, matéria vegetal e outros detritos para o interior da câmara dos fósseis, juntamente com os ossos, e a verdade é que não há lá nada disso. “Não existe aqui muita subjectividade”, afirmou o geólogo Eric Roberts, da Universidade James Cook, na Austrália. “Os sedimentos não mentem.”

O sepultamento dos mortos permite aos vivos encerrar um capítulo e prosseguir as suas vidas, exprime respeito pelos mortos ou assegura a sua transição para outra vida. Estes sentimentos são uma marca humana inconfundível. Mas o H. naledi, como Lee sublinha, não era humano, o que torna o seu comportamento mais intrigante.

Porém, os ossos encontrados na câmara do sistema Rising Star jaziam simplesmente sobre o solo da gruta ou enterrados sob sedimentos mistos pouco profundos. A data em que foram parar à gruta é um problema ainda mais difícil de resolver do que a adivinhação da maneira como isso aconteceu.

“É um animal que parece ter possuído a capacidade cognitiva para reconhecer a sua separação relativamente à natureza”, afirmou.

 Os mistérios em torno da identidade do H. naledi e da maneira como os seus ossos foram parar ao interior da gruta, estão inextricavelmente ligados à questão da idade dos ossos. De momento, ninguém conhece essa informação. Na África Oriental, os fósseis podem ser datados com exactidão quando são descobertos por cima, ou por baixo, de camadas de cinza vulcânica, cuja idade pode ser determinada a partir da queda regular e previsível dos elementos radioactivos presentes nas cinzas. Porém, os ossos encontrados na câmara do sistema Rising Star jaziam simplesmente sobre o solo da gruta ou enterrados sob sedimentos mistos pouco profundos. A data em que foram parar à gruta é um problema ainda mais difícil de resolver do que a adivinhação da maneira como isso aconteceu.

A maior parte dos cientistas participantes na sessão de estudos mostrou-se preocupada quanto à forma como a sua análise seria recebida, sem datações de referência e, na verdade, o artigo científico com a descrição dos achados foi mais tarde rejeitado por uma revista de renome, em grande medida devido à inexistência de datação. Mas isso não incomodou Lee Berger. Se vier a provar-se que o H. naledi era tão antigo como a sua morfologia indicava, ele teria muito possivelmente descoberto as raízes da árvore genealógica do Homo. Mas se acontecesse provar-se que a nova espécie era muito mais recente, as repercussões seriam igualmente profundas.

Poderia significar que, ao mesmo tempo que o nosso próprio género evoluía, um Homo separado, de cérebro pequeno e aspecto mais primitivo, caminhava livremente, até um tempo muito recente que ninguém ainda ousara imaginar. Há cem mil anos? Há cinquenta mil? Há dez mil? No momento em que a entusiasmante sessão de estudo se aproximava do fim com essa questão fundamental por resolver, Lee mostrava-se optimista como sempre. “Independentemente da idade, o achado vai ter enorme impacte”, afirmou.

Allgumas semanas mais tarde, em Agosto do ano passado, Lee deslocou-se à região oriental de África. Para assinalar o 50.º aniversário da descrição do H. habilis por Louis Leakey, Richard Leakey convidara os pensadores mais destacados no domínio da evolução do homem primitivo para um simpósio a decorrer no Instituto da Bacia de Turkana, o centro de investigação fundado por ele e pela Universidade Estadual de Nova Iorque, perto da margem ocidental do lago Turkana, no Quénia.

O objectivo da reunião consistia em fazer tentativas de chegar a algum consenso sobre o intrigante registo do Homo primitivo, sem poses nem rancores, dois vícios endémicos na paleoantropologia. Alguns dos maiores críticos de Lee Berger estariam presentes, incluindo alguns dos que tinham feito arbitragens demolidoras da sua interpretação dos fósseis do A. sediba. Houve até quem ameaçasse não comparecer se ele estivesse presente. No entanto, dada a descoberta de Rising Star, Richard Leakey dificilmente podia deixar de convidá-lo. “Actualmente, ninguém na Terra está a descobrir fósseis como o Lee”, explicou.

Durante quatro dias, os cientistas debruçaram-se, juntos, numa espaçosa sala de laboratório, sobre reproduções de todas as provas importantes do Homo primitivo distribuídas sobre mesas. Noutro dia de manhã, Meave Leakey, também ela exploradora-residente da National Geographic, abriu um cofre e mostrou espécimes recém--descobertos na margem oriental do lago, incluindo um pé quase inteiro.

Quando chegou a sua vez de falar, Bill Kimbel, investigador do Instituto de Origens Humanas, descreveu um novo maxilar de Homo proveniente da Etiópia datado de há 2,8 milhões de anos, o mais antigo membro do nosso género até hoje achado. A arqueóloga Sonia Harmand, especialista da Universidade Stony Brook, lançou uma bomba ainda maior: a descoberta de dezenas de utensílios líticos toscos perto do lago Turkana, datados de há 3,3 milhões de anos. Se os utensílios líticos surgiram pela primeira vez meio milhão de anos antes do aparecimento do nosso género, seria difícil, a partir de então, argumentar que a característica definidora do Homo era o seu engenho tecnológico.

Entretanto, Lee mantinha-se invulgarmente silencioso, pouco acrescentando ao debate. Entrou-se por fim no tópico da comparação entre o A. sediba e o H. habilis. Chegara a sua hora.

“Talvez seja mais interessante para discussão o achado que a nossa equipa produziu em Rising Star”, propôs então. Nos 20 minutos que se seguiram, expôs tudo aquilo que acontecera nos últimos meses: a descoberta fortuita na gruta, o exame intensivo em Junho e os aspectos mais importantes dos seus achados. Enquanto falava, duas ou três reproduções dos crânios de Rising Star passaram de mão em mão.

“Aquilo que o H. naledi me diz é o seguinte: podemos pensar que o registo está suficientemente completo para construirmos histórias. Mas não está”, resumiu Fred Grine. Talvez espécies mais antigas do Homo surgissem na África do Sul, deslocando-se de seguida para a África Oriental. “Ou talvez fosse ao contrário.”

Chegaram então as perguntas. Realizou um exame craniodental? Sim. O crânio e os dentes do H. naledi integram-no no grupo do Homo erectus, dos Neandertais e dos seres humanos modernos. Mais próximo do H. erectus do que do H. habilis? Sim. Existem algumas marcas de dentes nos ossos, feitas por carnívoros? Não, estes são os mortos mais saudáveis que alguma vez vi. Já fez progressos em matéria de datação? Ainda não. Vamos apurar uma data, mais tarde ou mais cedo. Não se preocupem.

Quando as perguntas terminaram, os especialistas ali reunidos fizeram algo que ninguém esperava, muito menos Lee. Aplaudiram.

Os novos achados importantes no domínio da evolução humana costumam ser reivindicados como marcos que alteram todo o entendimento prévio da nossa genealogia. Tendo talvez aprendido com os erros do passado, Lee não fez tais reivindicações em relação ao Homo naledi – pelo menos por agora, enquanto existem incertezas quanto à sua cronologia. Ele não reivindica a descoberta do Homo mais antigo, nem pretende que os “seus” fósseis devolvam o título de “Berço da Humanidade” à África do Sul, retirando-o à África Oriental. No entanto, os fósseis sugerem que nas duas regiões, e em todos os lugares situados entre ambas, talvez existam pistas para uma história mais complexa do que a metáfora “família humana” poderia sugerir.

“Aquilo que o H. naledi me diz é o seguinte: podemos pensar que o registo está suficientemente completo para construirmos histórias. Mas não está”, resumiu Fred Grine. Talvez espécies mais antigas do Homo surgissem na África do Sul, deslocando-se de seguida para a África Oriental. “Ou talvez fosse ao contrário.”

De acordo com Lee Berger, a melhor metáfora para a evolução humana, em vez de uma árvore que nasce de uma raiz única, é a de um rio com braços. Um rio que se divide em canais para voltar a fundir-se mais a jusante. De maneira semelhante, os diversos tipos de hominídeos que habitaram as paisagens de África devem, em algum momento, ter divergido a partir de um antepassado comum. Depois, em época mais tardia, podem ter voltado a integrar-se, de tal modo que, na foz do rio, onde agora estamos, podemos transportar em nós um bocadinho da África Oriental, um bocadinho da África do Sul e muita história sobre a qual não temos conhecimento. Porque uma coisa é certa: se soubemos da existência de uma forma completamente nova de hominídeo só porque dois espeleólogos eram suficientemente magros para penetrar numa fenda de uma gruta sul-africana já bem explorada, então a verdade é que não fazemos ideia do que mais poderá haver por descobrir. 

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