Mistério ancestral

Texto  Jamie Shreeve   Fotografias  Robert Clark

A caixa deste crânio masculino compósito de H. naledi, apresentada com a dimensão real, mede escassos 560 centímetros cúbicos, menos de metade do volume do crânio humano moderno representado atrás de si. Arte: Stefan Fichtel.
O pé do Homo naledi é assombrosamente moderno. Arte: Stefan Fichtel.
A soma das partes.
Um grupo de H. naledi lança o cadáver de um dos seus para dentro da Rising Star, nesta representação artística. Arte: Jon Foster.
Homo habilis.
Homo rudolfensis.
Homo erectus.
A luz solar desce sobre a entrada da gruta de Rising Star, perto de Joanesburgo. Numa galeria isolada, foram descobertas centenas de ossos fossilizados.
Marina Elliott (à esquerda) explora uma câmara secundária na companhia do paleontólogo Ashley Kruger. Fotografia de Elliot Ross.
Lee, Marina e Ashley (em primeiro plano, da esquerda para a direita) observam as primeiras imagens provenientes da câmara dos fósseis. Steve Tucker (à direita) foi co-descobridor do local. K. Lindsay Hunter e Alia Gurtov (à esquerda) participaram na escavação.
Um esqueleto compósito de H. naledi apresenta-se rodeado por algumas das centenas de outros espécimes descobertos na gruta. Fotografia obtida no Instituto de Estudos Evolutivos.
Reconstruído em argila e moldado em silicone pelo artista John Gurche, o Homo naledi é o mais recente aditamento feito ao nosso género. Fotografia de Mark Thiessen.
Embora primitivos em alguns aspectos, o rosto, o crânio e os dentes apresentam características suficientemente modernas para justificar a inclusão do H. naledi no género Homo. Fotografia de Mark Thiessen.

No dia 13 de Setembro de 2013, Steven Tucker e Rick Hunter, espeleólogos amadores, acederam a um sistema de grutas dolomíticas denominado Rising Star, a cerca de cinquenta quilómetros de Joanesburgo. Desde a década de 1960 que o sistema é popular entre os espeleólogos, e os canais e grutas já foram cartografados. No entanto, Steven e Rick tinham esperança de descobrir uma nova sala.

Durante a primeira metade do século XX, esta região proporcionou tantos fósseis dos nossos mais antigos antepassados que mais tarde foi baptizada como “Berço da Humanidade”. Embora a idade de ouro da caça aos fósseis há muito tenha acabado, os espeleólogos sabiam que um cientista da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, andava à procura de vestígios ósseos.

Nas profundezas da gruta, Steven e Rick percorreram de gatas um estrangulamento baptizado como “O Rastejo do Super-Homem” porque a maior parte das pessoas só consegue passar encostando firmemente um dos braços contra o corpo e estendendo o outro acima da cabeça, como o super-herói em pleno voo. Depois de atravessarem uma grande câmara, escalaram uma parede rochosa. Uma vez no topo, depararam com uma cavidade pequena e bonita decorada com estalactites. Rick pegou na câmara de vídeo e, para fugir do enquadramento, Steven entrou no interior de uma fenda no solo da gruta. O pé tocou numa protuberância rochosa, logo seguida de outra abaixo. Mais à frente, estava apenas espaço vazio.

Deixando-se cair, Steven deu consigo num estreito poço vertical, com largura máxima de 25 centímetros. Chamou Rick. Os dois homens possuem estruturas físicas muito magras – peles, ossos e músculos ágeis. Bastaria um tronco um pouco mais volumoso e nenhum deles caberia no poço: se assim fosse, aquela que é provavelmente a mais fantástica descoberta de fósseis humanos dos últimos 50 anos não teria ocorrido.

A luz solar desce sobre a entrada da gruta de Rising Star, perto de Joanesburgo. Numa galeria isolada, foram descobertas centenas de ossos fossilizados. Segundo a antropóloga Marina Elliott, sentada na imagem, "limitámo-nos literalmente a arranhar a superfície".

O paleoantropólogo Lee Berger, o investigador que pedira aos espeleólogos para não perderem de vista eventuais fósseis, é um norte-americano de grande estrutura óssea, com uma testa alta, rosto corado e malares que se expandem amplamente para fora quando sorri, o que acontece com frequência. O seu optimismo inabalável tem-se revelado fundamental na sua vida profissional. No início da década de 1990, quando Lee foi contratado pela Universidade de Witwatersrand (“Wits”) e começou a procurar fósseis, o centro da investigação em evolução humana deslocara-se para o vale do Grande Rifte, na África Oriental.

A maioria dos investigadores olhava para a África do Sul como um interessante capítulo marginal da história da evolução humana, mas não como o cenário principal. Lee empenhou-se em provar que não tinham razão. Durante quase vinte anos, porém, os achados relativamente insignificantes que produziu pareceram sublinhar o pouco que a África do Sul tinha para oferecer.

O objectivo de Lee era encontrar fósseis que pudessem esclarecer o principal mistério ainda não resolvido da evolução humana: a origem do nosso género, Homo, no intervalo cronológico de há três a dois milhões de anos. No extremo mais antigo desse intervalo, encontram-se os australopitecíneos semelhantes a símios, cujo expoente máximo, o Australopithecus afarensis, é representado pela famosa Lucy, um fóssil descoberto na Etiópia em 1974.

No extremo mais recente, encontramos o Homo erectus, uma espécie capaz de fabricar ferramentas e de fazer fogo, com um cérebro grande e proporções corporais parecidas com as nossas. Nesse intervalo obscuro de um milhão de anos, um animal bípede transformou-se num ser humano emergente, uma criatura adaptada ao seu ambiente e capaz de aplicar o seu cérebro ao domínio do mesmo. Como aconteceu essa revolução?

Lee tinha ambição e personalidade para tornar-se uma figura famosa no seu domínio, semelhante a Richard Leakey ou Donald Johanson, o autor da descoberta do fóssil de Lucy. Lee é um incansável angariador de fundos e um mestre a atrair a atenção do público. Mas faltavam-lhe os ossos.

O registo fóssil desanima pela ambiguidade. Ligeiramente mais antiga do que o H. erectus, existe uma espécie denominada Homo habilis, ou “homem hábil” – assim denominada por Louis Leakey e colegas, em 1964, em função dos utensílios líticos que tinham encontrado na garganta de Olduvai, na Tanzânia. Na década de 1970, equipas chefiadas por Richard, filho de Louis, descobriram mais espécimes de H. habilis no Quénia e, desde então, esta espécie tem constituído a frágil base sobre a qual assenta a árvore genealógica da família humana, mantendo-a enraizada na região oriental de África. Para o período anterior ao H. habilis, a história da humanidade permanece obscura, representada por escassos fragmentos de fósseis do Homo.
Os ramos são demasiado rudimentares para permitir a atribuição de um nome à potencial espécie. Segundo um cientista, caberiam facilmente dentro numa caixa de sapatos e… ainda sobraria espaço para os sapatos.

Há muito que Lee Berger argumenta que o H. habilis seria demasiado primitivo para merecer a posição privilegiada que lhe foi atribuída na origem do nosso género. Outros cientistas admitem que ele deveria ser reclassificado como Australopithecus, mas Lee tem permanecido quase isolado na sua defesa da África do Sul como berço do Homo mais antigo. Durante muitos anos, a exuberância excessiva com que promovia os seus achados relativamente insignificantes afastou alguns dos seus colegas de profissão. Lee tinha ambição e personalidade para tornar-se uma figura famosa no seu domínio, semelhante a Richard Leakey ou Donald Johanson, o autor da descoberta do fóssil de Lucy. Lee é um incansável angariador de fundos e um mestre a atrair a atenção do público. Mas faltavam-lhe os ossos.

Em 2008, porém, o investigador produziu um achado verdadeiramente importante. No decurso de escavações realizadas num lugar mais tarde denominado Malapa, a 16 quilómetros do sistema Rising Star, ele e o seu filho Matthew, então com 9 anos, descobriram alguns fósseis de hominídeos emergindo de pedaços de dolomite.

Durante o ano seguinte, a sua equipa escavou laboriosamente da rocha dois esqueletos quase completos. Datados aproximadamente de há dois milhões de anos, foram os primeiros achados de relevo feitos na África do Sul nas últimas décadas – pelo menos, entre aqueles que mereceram publicação, pois existe o fóssil de um esqueleto ainda mais completo, descoberto anteriormente, mas ainda não descrito. Eram seguramente indivíduos muito primitivos, mas os vestígios ósseos apresentavam também características estranhamente modernas.

Lee sugeriu que os esqueletos pertenciam a uma nova espécie de australopitecíneos e denominou-a Australopithecus sediba. Ao fazê-lo, anunciou que eles seriam “a pedra de Roseta” para a compreensão das origens do Homo. Embora vários especialistas da paleoantropologia o felicitassem pelo achado “assombroso”, a maioria desvalorizou a interpretação. O A. sediba era demasiado recente, demasiado estranho e proveniente de um local “errado” para ser antepassado do Homo: não era um dos nossos. De certa forma, Lee também não o era. Desde então, investigadores relevantes têm publicado artigos sobre o Homo primitivo que nem sequer o referem, nem ao seu achado.

Lee ignorou a rejeição e retomou o trabalho: haveria seguramente mais fósseis de Malapa para estudar, ainda encapsulados em blocos de calcário no seu laboratório. Certa noite, Pedro Boshoff, espeleólogo e geólogo contratado por Lee para procurar fósseis, bateu-lhe à porta. Com ele, vinha também Steven Tucker. Lee analisou as fotografias que lhe mostraram, captadas no sistema Rising Star, e compreendeu que Malapa seria em breve relegada para uma posição secundária na hierarquia dos sítios arqueológicos mais relevantes.

Depois de se contorcerem ao longo de 12 metros, descendo pelo poço estreito encontrado na gruta de Rising Star, Steven e Rick encontraram uma pequena sala, com uma cascata de escorrimentos calcários num canto. Uma passagem conduziu-os a uma cavidade maior, com cerca de nove metros de comprimento por cerca de um metro de largura, com as paredes e o tecto formados por um emaranhado de formações retorcidas de calcite e escorrimentos calcários protuberantes em forma de dedo. Sobre o solo, algo atraiu a atenção dos dois homens: havia ossos por todo o lado. A princípio, os espeleólogos pensaram que fossem contemporâneos. Não eram pesados como pedra, ao contrário da maioria dos fósseis, nem se encontravam amalgamados na rocha: estavam espalhados mesmo sobre a superfície, como se alguém os tivesse lançado sobre ela. Repararam num pedaço de maxilar inferior, com dentes intactos: pareciam humanos.

Colocou um anúncio no Facebook, solicitando o serviço de uma pessoa magra, com credenciais científicas, experiência como espeleólogo e “disponibilidade para trabalhar em espaços confinados”. Semana e meia depois, já tinha quase sessenta candidaturas. Escolheu as seis mais qualificadas, todas elas jovens mulheres. Berger chamou-lhes as suas “astronautas subterrâneas”.

Lee intuiu, com base nas fotografias, que os ossos não pertenciam a um ser humano moderno. Algumas características, em especial o maxilar e os dentes, eram demasiado primitivas. As fotografias mostravam mais locais passíveis de escavação e Lee conseguiu mesmo distinguir os contornos de um crânio parcialmente enterrado. Era provável que os restos mortais representassem boa parte de um esqueleto completo. Ficou estupefacto. No registo fóssil dos hominídeos primitivos, o número de esqueletos quase completos, incluindo os dois por si recuperados em Malapa, contava-se pelos dedos de uma só mão.
Agora, encontrara este. Mas o que era este? Que idade tinha? E como entrara naquela gruta?

Mais importante: como tirá-lo de lá, e depressa, antes que outros amadores encontrassem o caminho até àquela galeria. Parecia evidente, a avaliar pela disposição dos ossos, que alguém ali estivera mais cedo, talvez várias décadas antes. Steven e Rick não tinham conhecimentos para escavar fósseis e Lee não conhecia nenhum cientista (a começar por si) com a envergadura física exigida para se esgueirar por aquele poço. Por isso, tomou uma decisão inesperada: colocou um anúncio no Facebook, solicitando o serviço de uma pessoa magra, com credenciais científicas, experiência como espeleólogo e “disponibilidade para trabalhar em espaços confinados”. Semana e meia depois, já tinha quase sessenta candidaturas. Escolheu as seis mais qualificadas, todas elas jovens mulheres. Berger chamou-lhes as suas “astronautas subterrâneas”.

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