Enigma nos Clérigos

Texto  João Nunes da Silva   Fotografia João Nunes da Silva e Pedro Sarmento

Ainda não são 10 horas da manhã. Chego com alguma antecedência face à hora combinada e, antes de me aproximar da porta lateral, já dezenas de turistas fazem fila à espera de conhecer um dos maiores ícones da cidade do Porto, a Torre dos Clérigos, à data da sua construção, o edifício mais alto de Portugal.

Ao mesmo tempo que muitos visitantes subirão os 240 degraus da escada em espiral até chegar ao cimo da torre para contemplar a cidade, por baixo dos seus pés decorre uma importante operação. Uma equipa de antropologia forense, acompanhada de um arqueólogo e outros técnicos, prepara-se para iniciar um trabalho meticulosamente preparado e aguardado com ansiedade pelo punhado de especialistas que conhecem o que está em jogo.

Na verdade, como em muitas campanhas arqueológicas, tudo começou com um acaso. No final das obras de restauro da Igreja dos Clérigos em 2014, foi descoberta uma cripta por baixo do soalho de madeira junto do altar-mor, vedada por uma barreira de tijolos e pedra. Uma escadaria tosca entaipada dava acesso afinal a um espaço exíguo de quatro metros por cinco, no qual dificilmente o arqueólogo Artur Fontinha conseguia manter-se de pé sem tocar com a cabeça no tecto. Era uma cápsula fechada no tempo. Mal os olhos se habituaram à escuridão, verificou-se a existência de vários caixões e respectivos restos mortais. De quem seriam?

Sabe-se que Nasoni morreu em 1773, aos 82 anos, na cidade do Porto. Poderia a equipa forense comprovar se os seus restos mortais se encontram entre os restantes ali sepultados?

Imediatamente selada poucos dias após a descoberta, a cripta só foi reaberta em Junho deste ano, após diligências formais da Irmandade dos Clérigos com a Direcção-Geral do Património. Entrou então em cena a equipa coordenada pela antropóloga forense Eugénia Cunha, da Universidade de Coimbra, autoridade reconhecida na investigação de enigmas desta natureza e que, em 2006, já estivera ligada à tentativa de abertura do túmulo de Dom Afonso Henriques em Coimbra, então vetada por motivos mais políticos do que científicos. Desde a descoberta do Outono passado que se especula se, entre os restos mortais, poderia ali estar sepultado Nicolau Nasoni, arquitecto toscano dos Clérigos, autor de vasta obra no Norte do país e que encontrou, nesta encomenda da Irmandade dos Clérigos em 1732, a primeira oportunidade de aplicar em grande escala os ventos do barroco que varriam a arte europeia. Sabe-se que Nasoni morreu em 1773, aos 82 anos, na cidade do Porto. Poderia a equipa forense comprovar se os seus restos mortais se encontram entre os restantes ali sepultados?

Trata-se de uma investigação importante para a cidade do Porto. Nicolau Nasoni confundiu-se com a história da própria cidade durante as décadas centrais do século XVIII. É-lhe atribuída boa parte das obras barrocas na cidade, embora a distinção entre os projectos que efectivamente assinou e aqueles que foram executados por discípulos ainda exija mais investigação. Seja como for, Nasoni tornou-se portuense, adoptado como ícone, símbolo da atracção que o Porto exerce sobre os estrangeiros, como um vício, um íman que, uma vez magnetizado, nunca mais tolera a fuga. Talvez por isso e porque a cidade sentiu que este projecto poderia assumir uma importância simbólica, diversos recursos foram postos à disposição da equipa.

Nicolau Nasoni foi pintor e arquitecto. Nasceu em 1691 em San Giovanni Valdarno di Sopra, na Toscana, e grande parte da sua formação artística teve lugar em Siena. Passou por Roma, trabalhou em Malta, antes de se estabelecer de vez na Cidade Invicta, aproximadamente em 1725, a convite do então deão da Sé do Porto, Dom Jerónimo Távora e Noronha. A vasta obra deste arquitecto inclui, por exemplo, o chafariz e a escadaria do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios em Lamego, a fachada da Igreja do Bom Jesus em Matosinhos ou o restauro da Igreja Paroquial de Santa Marinha em Vila Nova de Gaia. No entanto, foi na cidade do Porto que deixou o seu cunho, começando por este invulgar projecto dos Clérigos que, à data da sua conclusão, provocou estranheza na cidade, por força da altura da torre e da linguagem arquitectónica invulgar. Foi aqui que moldou o seu legado, nesta torre singular (que deveria ter tido uma gémea, de acordo com o projecto original) e que o historiador e jornalista Germano Silva garante, em “Porto-Viagem ao Passado” (2013), ter servido de orientação para os navegadores na entrada da barra do Douro e de aviso para os comerciantes para a chegada do vapor da mala real.

Há décadas que, erradamente, este retrato é referido como sendo Nicolau Nasoni, sem que exista qualquer prova disso.

Entro na Igreja e sou conduzido para uma área, atrás do altar, que se encontra isolada. Passei literalmente para o lado de lá da cortina, enquanto o restante espaço continua serenamente repleto de turistas. Uma espécie de tenda branca foi montada sobre a cripta, unidade que tanto serve de desinfecção como de protecção da envolvência da igreja face a estes inesperados agentes que andam para a frente e para trás, atarefados, totalmente vestidos de branco e que entram e saem através de uma pequena porta de madeira que, com humor, já foi designada como o vórtice do tempo. Afinal, a partir dali, regressa-se a um espaço do século XVIII.

No corredor de acesso, a antropóloga Eugénia Cunha não tem mãos a medir face à complexidade dos trabalhos. “Tem máscara e luvas?”, pergunta de chofre. “O ambiente lá em baixo tem bactérias e não convém estar desprotegido”, acrescenta. Mentalmente já preparado, ainda acrescentei uns “pés” para forrar o meu calçado antes de entrar. Durante alguns dias, esta tem sido a minha rotina: chegar, vestir-me e acompanhar os trabalhos, juntamente com os técnicos envolvidos na investigação.

O ambiente na cripta, reaberta há pouco tempo, ainda mantém o ar rarefeito e um odor estranho que não identifico. Projectores dispostos organizadamente iluminam o espaço que de outra forma permaneceria na penumbra, como um estúdio fotográfico macabro. Caixões parcialmente desfeitos amontoam-se ao fundo, enquanto alguns investigadores com fatos brancos, máscaras e luvas inspeccionam meticulosamente cada urna, assim como os despojos do interior.

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