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Texto  Ana Puértolas

Quando surgem os primeiros raios de sol, os monges saem dos mosteiros numa procissão muda e ordenada. Percorrem as ruas de Luang Prabang com taças penduradas ao ombro. Aqui e além, numa cidade ainda meio adormecida, pequenos grupos de fiéis aguardam-nos nas calçadas e nos passeios. Sentados com uma atitude reverente e com grandes panelas cheias de arroz glutinoso e alguns legumes, vão depositando os alimentos nas taças dos monges. A longa fila de homens de cabeça rapada e túnicas cor de açafrão vai-se diluindo à medida que o Sol se levanta. Os monges regressarão, com alimentação suficiente para o dia, às suas tarefas nos mosteiros.

Luang Prabang, com as suas duas grandes ruas flanqueadas por mosteiros de telhados curvos e fachadas douradas, com estupas em forma de sino e casas com varandas de madeira e telhados de duas águas cobertos de telhas a testemunhar 60 anos de colonização francesa, é uma cidade belíssima e singular.

O mundo já chegou ao terceiro milénio da nossa era e, no entanto, esta cerimónia repete-se todas as madrugadas, viva e praticamente intacta desde que, em 698 d.C., um príncipe tailandês fundou a povoação. Praticante fervoroso do budismo theravada (que permite aos homens alcançar o nirvana através de um processo de introspecção individual), favoreceu a presença de monges e a construção de mosteiros. A cidade foi adquirindo um carácter fortemente religioso e sagrado e, apesar de ter sido destruída e reconstruída em diferentes ocasiões ao longo dos séculos, sempre preservou uma aura de lugar abençoado pelos deuses. A sua localização não é alheia a este facto: um vale arborizado e amplo, rodeado de colinas verdes, uma língua de terra encurralada entre o rio Mekong e um dos seus afluentes, o Nam Khan. Luang Prabang, com as suas duas grandes ruas flanqueadas por mosteiros de telhados curvos e fachadas douradas, com estupas em forma de sino e casas com varandas de madeira e telhados de duas águas cobertos de telhas a testemunhar 60 anos de colonização francesa, é uma cidade belíssima e singular. Tão prodigiosa que não parece real, antes produto de uma fantasia utópica.

Para entender a portentosa localização de Luang Prabang, o melhor é ganhar forças e subir os 328 degraus que nos elevam pelo monte Phu Si até uma altura de cem metros. Pelo caminho, entre a vegetação densa, vão surgindo santuários, pequenos altares com oferendas e imagens de budas. E no ponto mais alto, dominando o vale, encontra-se o Wat That Chom Si, com uma curiosa estupa rectangular coroada por sete para-sóis dourados e com as perspectivas mais cobiçadas: o curso sinuoso e fatigado do Nam Khan, a sua confluência no Mekong, e uma cidade calma e silenciosa, encaixada entre os dois caudais. Anunciado por uma gritaria que ali chega proveniente das colinas arborizadas em redor, o pôr do Sol é arrepiante se… a meteorologia ajudar.

Wat Xieng Thong também é um templo famoso pelos seus mosaicos e pelos painéis de teca dourada com cenas do Ramayana.

A tradição histórica assegura que Luang Prabang era conhecida como a cidade dos mil templos, mas trata-se de uma descrição difícil de verificar. É verdade, porém, que alguns deles são dos mais belos do Sudeste Asiático. Wat Xieng Thong é simplesmente espectacular. Plantado num espaço amplo e rodeado de árvores, é o centro de um conjunto de capelas, estupas, moradias para monges e outras dependências, um mundo isolado do resto.

Com os seus telhados curvos duplos e triplos, os seus muros caiados e os painéis de teca entalhados e revestidos a folha de ouro, os seus mosaicos de vidro multicoloridos e os interiores com colunas lacadas de vermelho e dourado, coroadas por budas áureos, o conjunto de Wat Xieng Thong é uma autêntica orgia cromática, realçada pelo leve murmúrio dos rios que o circundam e protegem.

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