Homens da Montanha

Texto  Jeremy Berlin   Fotografias  David Burnett

 

Dezenas de homens de aparência rude reúnem-se num acampamento. Amarram os cavalos e mulas às árvores. Vestem peles de animais. E, enquanto assam nacos de carne de búfalo numa fogueira acesa com pederneira, partilham truques sobre armadilhagem de castores e recarga de espingardas.

São homens de montanha que recriam o comércio de peles que floresceu na América do Norte entre 1800 e 1840. Estes festivais são interpretados por dentistas, advogados ou carteiros que, durante uma semana todos os anos, deixam cair o verniz moderno e regressam a uma época na qual a sobrevivência significava auto-suficiência.

O fotógrafo David Burnett passou duas temporadas com eles. Descobriu “um grupo acolhedor e curioso sobre o que era necessário à sobrevivência antes de existirem as conveniências da vida moderna”, conta. “Gostam de conhecer as coisas antigas, as coisas autênticas, as que já não são ensinadas.”

“Enquanto crescia, lia livros de Davy Crockett, Kit Carson e Daniel Boone”, conta Scott Olsen, dentista em Montana e membro há 25 anos da AMM. “E percebi que tinha nascido demasiado tarde.”

Na verdade, a associação Homens de Montanha Americanos (AMM, na sigla original) esforça-se por preservar  “as tradições e o modo de vida dos pioneiros mais destemidos e dos exploradores audazes desta nação” e “partilhar o conceito fraternal de ensinar, partilhar e aprender as competências necessárias para sobreviver e viver como o fizeram os grandes homens de montanha americanos”.

Para a maioria, o interesse no passado começou na juventude. “Enquanto crescia, lia livros de Davy Crockett, Kit Carson e Daniel Boone”, conta Scott Olsen, dentista em Montana e membro há 25 anos da AMM. “E percebi que tinha nascido demasiado tarde.”

O comércio de peles do Oeste começou após a expedição de Lewis e Clark em 1805-1806. Em 1825, realizou-se o primeiro encontro anual de caçadores perto de McKinnon, no Wyoming. Baptizado Rendavouze Creek Rendezvous, foi um acontecimento barulhento e agitado, uma oportunidade para os homens da montanha venderem as suas peles, reabastecerem-se de víveres e socializarem após meses em locais selvagens.

O comércio de peles morreu a meio do século XX com as mudanças no vestuário e a queda do preço das peles. Em 1968, porém, o seu legado foi reavivado, quando um homem chamado Walt Hayward fundou a AMM com seis outros ávidos amantes da história e da vida ao ar livre.

Na actualidade, esta é uma organização espalhada por todo o país, com brigadas locais, encontros estaduais e um encontro nacional. Todos seguem o código dos homens de montanha, mas as diferenças regionais têm a sua importância, segundo Mike Morgan, um caçador e um antigo capitão da Marinha que se juntou à brigada de Montana do amigo Scott em 1998. “A oeste do Mississípi, replicamos o comércio de peles como este existia nas Rochosas, o que significa vestir peles e couros e aprender técnicas antigas”, como esfolar um rato-almiscarado, montar a cavalo, atirar facas ou controlar um barco rudimentar.

“Queremos documentar a história da forma mais completa possível e transmitir competências valiosas para que as futuras gerações tenham acesso ao passado”

A detecção dos equipamentos historicamente adequados é um desafio. “Encomendei calças brancas de algodão com dupla abotoadura, uma camisa e mocassins”, diz David Burnett. “Porém, quando me vesti, parecia deslocado do contexto. Coloquei por isso todas as peças num balde de plástico, acrescentei um corante vermelho-acastanhado e deixei-as assim durante quatro dias. O resultado foi melhor.”

Para se juntar à AMM, um “peregrino” tem de ser apadrinhado por um membro e iniciado através de requisitos e níveis. Independentemente da pontuação, porém, o objectivo é sempre o mesmo. “Queremos documentar a história da forma mais completa possível e transmitir competências valiosas para que as futuras gerações tenham acesso ao passado”, conclui Mike Morgan. 

 

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