Ammaia, cidade romana

Texto  Gonçalo Pereira   Fotografias  Miguel Claro e Hugo Pires Arte: Projecto Radio-Past   Ilustração  Michael Klein 7Reasons Medien GMBH   Coordenação  Cristina Corsi (Universidade de Évora)

 

A Porta Sul constitui uma das principais estruturas já escavadas e consolidadas.
O Projecto Radio-Past permitiu reconstruir divinalmente o perímetro da cidade. E apenas com 19% já escavado.
Lajeado com marcas de rodados e a imponência da Porta Sul
AS reconstituições digitais têm a dupla vantagem de não serem invasivas e representarem, ao mesmo tempo, uma ferramenta pedagógica para projectar volumetrias.
A zona das termas foi uma das primeiras estruturas identificadas no perímetro de Ammaia
Pedra de anel com representação da Menorah, Cortesia da Fundação Cidade de Ammaia/Joaquim Carvalho, Direcção-Geral do Património Cultural/Arquivo de Documentação Fotográfica (DGPC/ADF)/Museu Nacional de Arqueologia/Júlia Redondo
Pedra de anel com elefante saindo de uma cornucópia, Cortesia da Fundação Cidade de Ammaia/Joaquim Carvalho, Direcção-Geral do Património Cultural/Arquivo de Documentação Fotográfica (DGPC/ADF)/Museu Nacional de Arqueologia/Júlia Redondo
Jarro em vidro, Cortesia da Fundação Cidade de Ammaia/Joaquim Carvalho, Direcção-Geral do Património Cultural/Arquivo de Documentação Fotográfica (DGPC/ADF)/Museu Nacional de Arqueologia/Júlia Redondo
Moeda com representação de Vitória, Cortesia da Fundação Cidade de Ammaia/Joaquim Carvalho, Direcção-Geral do Património Cultural/Arquivo de Documentação Fotográfica (DGPC/ADF)/Museu Nacional de Arqueologia/Júlia Redondo
Imagens de síntese: Hugo Pires (centro de Investigação em Ciências Geoespaciais da Universidade do Porto e Superfície, a partir de fotografias de Luís Bravo. Cortesia: Fundação Cidade de Ammaia. Interpretações epigráficas: Amílcar Guerra (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
Imagens de síntese: Hugo Pires (centro de Investigação em Ciências Geoespaciais da Universidade do Porto e Superfície, a partir de fotografias de Luís Bravo. Cortesia: Fundação Cidade de Ammaia. Interpretações epigráficas: Amílcar Guerra (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)
Imagens de síntese: Hugo Pires (centro de Investigação em Ciências Geoespaciais da Universidade do Porto e Superfície, a partir de fotografias de Luís Bravo. Cortesia: Fundação Cidade de Ammaia. Interpretações epigráficas: Amílcar Guerra (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa)

1994, Universidade de Coimbra. Da cronologia, poderíamos escolher outros marcos, mas atentemos neste. Nas aulas de Arqueologia sobre o Império Romano, o historiador Vasco Mantas tem por hábito colocar um desafio aos alunos: propõe o levantamento exaustivo de bibliografia e sugestões de linhas de investigação para vários sítios arqueológicos portugueses. Fornece apenas o nome do local e um título.

Sentados entre colegas, os então estudantes de licenciatura Joaquim Carvalho e Sofia Borges escolhem uma das propostas sem adivinhar que ela mudará as suas carreiras e vidas. “Um Monumento Nacional esquecido: A cidade luso-romana de Ammaia,” é o desafio.

“Não sabia quase nada sobre a cidade”, confessa Joaquim Carvalho, nascido bem longe, em Caldas das Taipas, perto de Guimarães. “Conhecia os trabalhos sobre epigrafia de José d’Encarnação e pouco mais.” Sofia, natural de Castelo de Vide, ficou entusiasmada. Crescera a passo e meio do sítio arqueológico, onde hoje dirige o Museu. O destino estava portanto inscrito nas estrelas… ou nas aras que celebrizam este sítio romano. Hoje, 21 anos depois, continuam em Ammaia. E aqui participam numa das mais complexas e cativantes histórias da arqueologia portuguesa recente.

De muitas maneiras, a sorte de Ammaia, cidade imperial romana fundada no século I d.C. e habitada provavelmente até meados do século VI, como o testemunha o achado de uma moeda e uma epígrafe correspondentes a esse período, reflecte um mosaico de acidentes e acasos, apostas claras e silêncios peculiares. “Pujante e planificada, a cidade pode ter tido dois mil habitantes no seu período áureo”, propõe Carlos Fabião, arqueólogo da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Abandonada depois, foi progressivamente saqueada ao longo dos séculos. “Há vestígios de materiais provenientes daqui em todos estes povoados circundantes e as fontes escritas do século XVI testemunham que estes monumentos foram um depósito particular onde a população vinha buscar rochas e materiais nobres”, diz numa tarde de calor escaldante, no intervalo das escavações matinais e quando o campo arqueológico é subitamente inundado pelo aroma inesperado, mas bem-vindo, de uma feijoada.

A localização da cidade romana chegou a ser proposta erroneamente pelo cronista André de Resende para Portalegre até a descoberta de um pedestal, hoje no Museu Nacional de Arqueologia (MNA), certificar a localização de Ammaia em São Salvador da Aramenha.

No século XVI, a instalação no local da Casa do Deão, associada ao bispo de Portalegre, e a intenção de aqui construir um convento (travado pela excessiva humidade do local) intensificaram a destruição do sítio romano. Muitas igrejas desse tempo incorporaram materiais retirados daqui, da pedreira dos bispos.

As notícias dispersas até ao início do século XX comprovam a popularidade do local entre coleccionadores de antiguidades e proto-arqueólogos. A localização da cidade romana chegou a ser proposta erroneamente pelo cronista André de Resende para Portalegre até a descoberta de um pedestal, hoje no Museu Nacional de Arqueologia (MNA), certificar a localização de Ammaia em São Salvador da Aramenha.

Extraímos mais uma data improvável da cronologia: 1913, Lisboa. António Maçãs, proprietário rural e pequeno industrial da serra de São Mamede, visita o MNA em Lisboa e encanta-se com a colecção. Tem experiência directa com artefactos desta natureza e até já viu melhores em São Salvador da Aramenha. Corresponde-se com Leite de Vasconcelos, primeiro director do MNA, e em breve estabelece-se entre os dois homens uma linha improvável de comunicação de achados e informação sobre o que vai emergindo nas cercanias de Marvão. Por comboio, chegam a Lisboa peças notáveis. Vidros intactos, cerâmicas, jóias – falta-lhes o contexto arqueológico, bem--entendido, mas são documentos palpáveis e irrepetíveis do que as necrópoles romanas continham à data da sua reabertura. Parte desse espólio, recolhido incansavelmente por António Maçãs e mantido pela filha Delmira, faz parte da recém-inaugurada exposição Ad Aeternitatem no Museu da Fundação Cidade de Ammaia.

Classificado como Monumento Nacional em 1949, o sítio permaneceu quase meio século imóvel. “Ficou a dormitar, à maneira alentejana”, brinca um dos estudantes de Arqueologia, deitado no solo, em delicado trabalho de limpeza. Não foi escavado, nem quase motivou trabalhos de investigação até 1994. As três primeiras campanhas rápidas, todas de 1994, foram promissoras. Rapidamente se percebeu que a cidade era muito mais ampla do que as expectativas. “Começámos por pensar que eram dez hectares”, lembra Joaquim Carvalho, que participou nos trabalhos inaugurais. “Hoje, a geofísica sugere que a área urbana se espalhava por 25 hectares e a envolvente deverá ter cerca de cem.” Aos poucos, porém, o fulgor inicial de escavação diminuiu. Houve entusiasmos e recuos. Em 1997, constituiu-se a Fundação Cidade de Ammaia, com um conselho de curadores de que fazem parte Carlos Melancia, o Município de Marvão e a Universidade de Évora, entre outras individualidades, esforçando-se desde sempre por assegurar as receitas mínimas de funcionamento.

E, no entanto, em Ammaia, apesar dos escolhos, muito está a mudar. Longe da vista, talvez. Mas com alicerces profundos.

Mas tão depressa Ammaia foi uma prioridade científica, como teve de atravessar obstáculos tecidos pela inexplicável filigrana da política cultural portuguesa. Talvez nem tudo seja inexplicável: desde 1994, o país contou com 13 secretários de Estado da Cultura, a uma média de menos de ano e meio de mandato por cada um. Num interessante artigo recente sobre a elite governante da cultura, os politólogos Patrícia Oliveira e Carlos Vargas concluíram que, nestas circunstâncias de rápida sucessão, “a acção política faz uma leitura morfológica das situações e actua de forma sectorial, circunscrita, sem visão de conjunto, logo sem capacidade agregadora”. E, no entanto, em Ammaia, apesar dos escolhos, muito está a mudar. Longe da vista, talvez. Mas com alicerces profundos.

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