Seguindo as pisadas de Gandhi

 Texto  Tom O’Neill   Fotografias  Rena Effendi

 

Para Gandhi, a fiação simboliza a sua fé na indústria rural e na auto-suficiência.
As mulheres de Kaplettha ainda vivem vergadas sob o peso da pobreza.
Trabalhadores apanham sal em Dharasama, no Guzerate.
No dia 2 de Outubro, as crianças vestem-se como Gandhi para assinalar o seu aniversário em Rajkot.
Depois de se libertar do trabalho no campo, Geeta Bher tece um sari para uma cooperativa de mulheres inspiradas por Gandhi.
Inspirando-se nos ensinamentos de Gandhi sobre a igualdade, mulheres manifestam-se nas ruas de Kodaikanal.
Uma parteira assiste uma grávida no estado de Mahararashta.
Pagando um bilhete barato, um homem consegue lugar para descansar num comboio do Guzerate.
A solidariedade no local de trabalho alarga-se ao poço da aldeia em Rasnol.
Sacerdotes hindus sopram orações sobre o fumo num dia festivo em Barharva.
Gandhi espreita sobre os ombros destas alunas na escola para "dalits" (outrora conhecidos como intocáveis).
 

Acordou antes da alvorada, como fazia sempre no ashram.

Nas trevas, guiou a oração colectiva, num pedaço de terreno com vista para o rio Sabarmati. Sentiu-se pronto. Vestindo um longo pano branco, ou dhoti, atado em torno dos rins, com um xaile a envolver-lhe os ombros, agarrou num cajado de bambu e saiu portão fora. Partia assim do seu lar dos últimos 13 anos, uma comunidade dedicada a seguir os seus preceitos da vida simples e da reflexão superior.

Mohandas Gandhi não estava só. Ao principiar a caminhada pela estrada de terra batida nos arredores de Ahmadabad, a maior cidade do estado do Guzerate, onde nascera, 78 homens, aos pares, todos vestidos de branco, formaram uma coluna atrás de si. Amontoando-se dos dois lados da estrada, pendurando-se nas árvores, debruçando-se à janela, dezenas de milhares de pessoas gritavam: “Gandhi ki jai. Vitória para Gandhi.”

Data: 12 de Março de 1930. Gandhi e a sua comitiva caminharam durante 25 dias e cerca de 390 quilómetros até ao mar Arábico para desafiar a injusta lei britânica que impedia a colheita de sal na sua colónia. Perito na encenação de gestos teatrais, Gandhi inclinou-se sobre a praia e colheu uma mão-cheia de lama salgada. Com a colheita ilegal de sal generalizada por todo o país, seguiram-se detenções e espancamentos. Gandhi foi encarcerado durante quase nove meses. O gesto que as autoridades tinham desvalorizado como episódio insignificante de teatro político transformou-se num grito de independência à escala nacional. Um amplo espectro da população da Índia reuniu forças pela primeira vez em manifestação de protesto contra a administração britânica. Agora, as massas possuíam um chefe. Desde o dia em que começou a Marcha do Sal até à sua morte, 18 anos mais tarde, Gandhi infundiu a Índia de uma mistura de política e espiritualidade. Chamou à sua filosofia baseada na acção satyagraha, ou força verdadeira.

Gandhi deixou uma marca indelével. Conduziu a Índia à independência. Obrigou os seus concidadãos a questionar os seus preconceitos mais profundos em termos de casta, religião e violência.

Poucas horas depois de Gandhi morrer assassinado, em 1948, apenas cinco meses e meio volvidos sobre o nascimento do novo país, Jawaharlal Nehru, primeiro primeiro-ministro da Índia, proclamou que o rasto de luz deixado pelo Pai da Nação brilharia durante mil anos.

A visão de Gandhi prenunciava uma Índia de aldeias auto-suficientes. A casta e a religião esbater-se-iam como marcadores de identidade. A governação sublinharia a importância da igualdade e da não-violência. Alguém consegue encontrar isso nos dias que correm?

E hoje, qual a força desse brilho? Para descobri-lo, resolvi seguir os passos de Gandhi. “Vejam-me, por favor”, disse ele, “na nudez do meu trabalho e nas minhas limitações; então, conhecer-me-ão.” Viajei ao longo do trajecto por ele percorrido durante a Marcha do Sal. As palestras que fez e os artigos que escreveu descrevem problemas que ainda afligem a Índia, e os indianos ainda discutem o legado do homem conhecido como Mahatma, ou Grande Alma.

Ninguém questiona a influência total exercida por Gandhi no palco mundial: a sua filosofia da resistência não-violenta serviu de inspiração a Martin Luther King, Jr., a Nelson Mandela e ao Dalai Lama. No solo pátrio, o efeito de Gandhi é mais difuso. Gandhi está por toda a parte e em lado nenhum. O seu rosto, de óculos redondos, espreita na nota de uma rupia. Existe uma Rua Mahatma Gandhi em muitas cidades e estátuas também. Mas a ausência de Gandhi também é tão evidente como a sua presença. A visão de Gandhi prenunciava uma Índia de aldeias auto-suficientes. A casta e a religião esbater-se-iam como marcadores de identidade. A governação sublinharia a importância da igualdade e da não-violência. Alguém consegue encontrar isso nos dias que correm? As cidades gigantescas e caóticas (Deli, Bombaim, Calcutá), a febre materialista das classes média e alta, a eleição do nacionalista hindu Narendra Modi para a chefia do país, um arsenal de armas nucleares e a violência contra as mulheres sugerem uma identidade nacional muito diferente.

“A Índia tem uma atitude esquizofrénica relativamente a Gandhi. Vê-o como origem de todo o bem ou de todo o mal”, propôs Tridip Suhrud, director do fundo encarregado de supervisionar o ashram onde Gandhi iniciou a sua marcha. “Pode--se discordar dele, pode-se aderir aos seus pontos de vista, mas quem quiser perceber o que a Índia é tem de perceber quem foi aquele homem.”

No primeiro dia da marcha, Gandhi fez uma paragem sentimental a cerca de três quilómetros do seu ashram. Deteve-se diante de uma escola que fundara dez anos antes, como alternativa ao sistema de educação britânico.

Actualmente, um arco de arenito dá entrada à cidade universitária de Gujarat Vidyapith, cujos caminhos se apresentam cheios de alunos. Vestem camisas e calças largas feitas de khadi, o tecido artesanal que se tornou um símbolo da revolução de Gandhi, representando a rejeição dos produtos britânicos e o ressurgimento da indústria tradicional. Podemos afirmar que os estudantes de outras cidades universitárias na Índia não se vestem com khadi, palavra que significa aproximadamente “tecido à mão”, desdenhando-o por não ter estilo.

 Sudarshan Iyengar, administrador universitário, não se desculpa pelo facto de a escola ter regras e expectativas especiais. “Aqui, formamos o coração, a mão e a cabeça dos alunos, por esta ordem”, afirmou. “À semelhança de Gandhi, formamos o carácter através da vida e do trabalho comunitários.”

Inspiradas por Gandhi, as convicções de Sudarshan são tão profundas que ele não é capaz de usar o seu computador sem angústia. “Gandhi teria entendido o computador como ferramenta de capacitação das pessoas”, disse. “Mas o que dizer do processo industrial e dos custos associados à sua produção?”

O que faria Gandhi? Esta é a pergunta-chave que se faz na cidade universitária. Estudantes com quem falei exprimiram-se com sinceridade sobre Gandhi como figura modelar, mas não tencionavam segui-lo à letra. Quem vestirá khadi quando regressar a casa?, perguntei. Poucos foram os que ergueram a mão. De repente, uma jovem estudante de correia de relógio cor-de-rosa aproximou-se de mim e exclamou: “Quando visto khadi, sinto-me uma pessoa extraordinária.”

A conversa terminou quando os sinos tocaram. Chegara a hora de fiar. A fim de preparar os indianos para a independência, inculcando neles disciplina e auto-suficiência, Gandhi lançou um apelo a mulheres e homens, incluindo os mais altos funcionários do Estado, no sentido de produzirem pelo menos 25 metros de fio por ano, suficientes para as necessidades de cada pessoa. “Cada volta da roca fia paz, boa vontade e amor”, pregou. Cumprindo a tradição, cerca de quinhentos estudantes acorreram ao auditório, levando caixas com rocas portáteis. Sentados de pernas cruzadas, retiraram do interior tufos de algodão e começaram a fiar, com os braços movendo-se para dentro e para fora, para dentro e para fora. Ouvia-se apenas o sussurro de centenas de rocas de fiar, transmitindo a mensagem de Gandhi.

Gandhi caminhava velozmente, com uma passada admirável para um homem de 61 anos que era o mais velho dos caminhantes e cujas articulações lhe doíam do reumatismo. Todos os dias, o grupo percorria em média 16 a 19 quilómetros sob um calor inevitável. Detinham-se nas povoações para rezar, repousar, comer e permitir que o líder dirigisse a palavra às multidões arrebatadas. Gandhi foi a primeira figura nacional com afinidades com os indianos do mundo rural. Para ele, a aldeia era a alma da Índia.

É nas cidades que há emprego, escolas e vida social. Os problemas urbanos — poluição, criminalidade, população excessiva, tráfego — dominam o debate nacional. Mas quase 70% dos cerca de 1.200 milhões de pessoas da Índia ainda vivem no campo.

Se Gandhi viajasse até aos mesmos lugares hoje, verificaria, provavelmente para seu desalento, que os indianos do meio rural permanecem, de muitas maneiras, parados no tempo. Em Vasana, uma aldeia algodoeira onde os caminhantes se detiveram à sombra de uma mangueira que ainda hoje ali está, encontrei uma estátua de Gandhi com o seu bordão. Um novelo de lixo acumulara-se junto da base. Vacas e búfalos caminhavam hipnoticamente pela estrada de terra batida, seguidos por rapazes de pé descalço. Mulheres de sari passavam apressadas, carregando lenha à cabeça. Quando uma multidão se agrupou em meu redor, um homem de calças de ganga avançou na minha direcção, pedindo desculpa pelo desalinho do monumento. Perguntei-lhe se alguém ainda se vestia de khadi. Já não, disse. Depois de algumas perguntas, o homem perdeu a compostura. “As pessoas vêm cá e falam sobre Gandhi, Gandhi, Gandhi, mas nada fazem por nós. Não há desenvolvimento”, queixou-se. “Precisamos de uma ponte sobre o rio e de um telhado sobre a cabeça da estátua.”

A visão de Gandhi, segundo a qual as aldeias eram o terreno mais fértil para o progresso da Índia, parece agora um sonho utópico febril. 

É nas cidades que há emprego, escolas e vida social. Os problemas urbanos — poluição, criminalidade, população excessiva, tráfego — dominam o debate nacional. Mas quase 70% dos cerca de 1.200 milhões de pessoas da Índia ainda vivem no campo. Para Gandhi, um hindu profundamente influenciado pela vida de Jesus Cristo, a maior vocação consistia em viver no meio dos pobres e “alimentá-los primeiro e só depois alimentar-nos a nós próprios”. Apelou para que as pessoas se oferecessem como voluntárias e fossem viver para as aldeias para introduzir mudanças.

 Alguns ainda ouvem esse chamamento. Cinco anos depois de conhecê-lo, Thalkar Pelkar, um jovem sempre vestido de khadi, mudou-se para Pedhamali, um agrupamento de casas com paredes de adobe alinhadas ao longo do leito seco de um rio na Índia ocidental. Comprometera-se a oferecer dois anos de trabalho gratuito em desenvolvimento rural. Não partiu com total entusiasmo. “Sabia que havia possibilidades de ser espancado e expulso”, disse.

 Thalkar mudou-se para um quarto sem água nem electricidade. Cortou o cabelo e aprendeu o dialecto local. Durante meses, enfrentou a solidão e questionou a sua pertinência. Na parede do quarto, pendurou uma fotografia envelhecida de Gandhi. O que faria Gandhi? A pergunta pesou sobre ele como um saco cheio de pedras.

 Hoje, o retrato ocupa uma posição de destaque na parede do seu novo lar, uma antiga casa abandonada que ele reconstruiu. Sentado no chão, com a mulher, Snehan, e o filho, Ajay, Thalkar enumerou as suas realizações. Revitalizara a fábrica de lacticínios, poupando às mulheres uma caminhada de 19 quilómetros para comprar leite. Encarregara mulheres da contabilidade e análises da fábrica. Convencera os progenitores a mandar os filhos à escola e o número de inscrições triplicara para mais de 150, criando mais turmas e atraindo mais professores. Três invernos antes, ao ver Ajay, então com 6 anos, abandonado na rua, resolvera adoptá-lo.

 E o seu trabalho acabou?, perguntei-lhe. Thalkar suspirou. “A princípio, pensei que bastariam dois anos para terminar o projecto”, disse. “Agora, acho que vai demorar uma vida inteira.”

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