Texto  Tom O’Neill   Fotografias  Rena Effendi

 

 

Acordou antes da alvorada, como fazia sempre no ashram.

Nas trevas, guiou a oração colectiva, num pedaço de terreno com vista para o rio Sabarmati. Sentiu-se pronto. Vestindo um longo pano branco, ou dhoti, atado em torno dos rins, com um xaile a envolver-lhe os ombros, agarrou num cajado de bambu e saiu portão fora. Partia assim do seu lar dos últimos 13 anos, uma comunidade dedicada a seguir os seus preceitos da vida simples e da reflexão superior.

Mohandas Gandhi não estava só. Ao principiar a caminhada pela estrada de terra batida nos arredores de Ahmadabad, a maior cidade do estado do Guzerate, onde nascera, 78 homens, aos pares, todos vestidos de branco, formaram uma coluna atrás de si. Amontoando-se dos dois lados da estrada, pendurando-se nas árvores, debruçando-se à janela, dezenas de milhares de pessoas gritavam: “Gandhi ki jai. Vitória para Gandhi.”

Data: 12 de Março de 1930. Gandhi e a sua comitiva caminharam durante 25 dias e cerca de 390 quilómetros até ao mar Arábico para desafiar a injusta lei britânica que impedia a colheita de sal na sua colónia. Perito na encenação de gestos teatrais, Gandhi inclinou-se sobre a praia e colheu uma mão-cheia de lama salgada. Com a colheita ilegal de sal generalizada por todo o país, seguiram-se detenções e espancamentos. Gandhi foi encarcerado durante quase nove meses. O gesto que as autoridades tinham desvalorizado como episódio insignificante de teatro político transformou-se num grito de independência à escala nacional. Um amplo espectro da população da Índia reuniu forças pela primeira vez em manifestação de protesto contra a administração britânica. Agora, as massas possuíam um chefe. Desde o dia em que começou a Marcha do Sal até à sua morte, 18 anos mais tarde, Gandhi infundiu a Índia de uma mistura de política e espiritualidade. Chamou à sua filosofia baseada na acção satyagraha, ou força verdadeira.

Gandhi deixou uma marca indelével. Conduziu a Índia à independência. Obrigou os seus concidadãos a questionar os seus preconceitos mais profundos em termos de casta, religião e violência.

Poucas horas depois de Gandhi morrer assassinado, em 1948, apenas cinco meses e meio volvidos sobre o nascimento do novo país, Jawaharlal Nehru, primeiro primeiro-ministro da Índia, proclamou que o rasto de luz deixado pelo Pai da Nação brilharia durante mil anos.

A visão de Gandhi prenunciava uma Índia de aldeias auto-suficientes. A casta e a religião esbater-se-iam como marcadores de identidade. A governação sublinharia a importância da igualdade e da não-violência. Alguém consegue encontrar isso nos dias que correm?

E hoje, qual a força desse brilho? Para descobri-lo, resolvi seguir os passos de Gandhi. “Vejam-me, por favor”, disse ele, “na nudez do meu trabalho e nas minhas limitações; então, conhecer-me-ão.” Viajei ao longo do trajecto por ele percorrido durante a Marcha do Sal. As palestras que fez e os artigos que escreveu descrevem problemas que ainda afligem a Índia, e os indianos ainda discutem o legado do homem conhecido como Mahatma, ou Grande Alma.

Ninguém questiona a influência total exercida por Gandhi no palco mundial: a sua filosofia da resistência não-violenta serviu de inspiração a Martin Luther King, Jr., a Nelson Mandela e ao Dalai Lama. No solo pátrio, o efeito de Gandhi é mais difuso. Gandhi está por toda a parte e em lado nenhum. O seu rosto, de óculos redondos, espreita na nota de uma rupia. Existe uma Rua Mahatma Gandhi em muitas cidades e estátuas também. Mas a ausência de Gandhi também é tão evidente como a sua presença. A visão de Gandhi prenunciava uma Índia de aldeias auto-suficientes. A casta e a religião esbater-se-iam como marcadores de identidade. A governação sublinharia a importância da igualdade e da não-violência. Alguém consegue encontrar isso nos dias que correm? As cidades gigantescas e caóticas (Deli, Bombaim, Calcutá), a febre materialista das classes média e alta, a eleição do nacionalista hindu Narendra Modi para a chefia do país, um arsenal de armas nucleares e a violência contra as mulheres sugerem uma identidade nacional muito diferente.

“A Índia tem uma atitude esquizofrénica relativamente a Gandhi. Vê-o como origem de todo o bem ou de todo o mal”, propôs Tridip Suhrud, director do fundo encarregado de supervisionar o ashram onde Gandhi iniciou a sua marcha. “Pode--se discordar dele, pode-se aderir aos seus pontos de vista, mas quem quiser perceber o que a Índia é tem de perceber quem foi aquele homem.”

No primeiro dia da marcha, Gandhi fez uma paragem sentimental a cerca de três quilómetros do seu ashram. Deteve-se diante de uma escola que fundara dez anos antes, como alternativa ao sistema de educação britânico.

Actualmente, um arco de arenito dá entrada à cidade universitária de Gujarat Vidyapith, cujos caminhos se apresentam cheios de alunos. Vestem camisas e calças largas feitas de khadi, o tecido artesanal que se tornou um símbolo da revolução de Gandhi, representando a rejeição dos produtos britânicos e o ressurgimento da indústria tradicional. Podemos afirmar que os estudantes de outras cidades universitárias na Índia não se vestem com khadi, palavra que significa aproximadamente “tecido à mão”, desdenhando-o por não ter estilo.

 Sudarshan Iyengar, administrador universitário, não se desculpa pelo facto de a escola ter regras e expectativas especiais. “Aqui, formamos o coração, a mão e a cabeça dos alunos, por esta ordem”, afirmou. “À semelhança de Gandhi, formamos o carácter através da vida e do trabalho comunitários.”

Inspiradas por Gandhi, as convicções de Sudarshan são tão profundas que ele não é capaz de usar o seu computador sem angústia. “Gandhi teria entendido o computador como ferramenta de capacitação das pessoas”, disse. “Mas o que dizer do processo industrial e dos custos associados à sua produção?”

O que faria Gandhi? Esta é a pergunta-chave que se faz na cidade universitária. Estudantes com quem falei exprimiram-se com sinceridade sobre Gandhi como figura modelar, mas não tencionavam segui-lo à letra. Quem vestirá khadi quando regressar a casa?, perguntei. Poucos foram os que ergueram a mão. De repente, uma jovem estudante de correia de relógio cor-de-rosa aproximou-se de mim e exclamou: “Quando visto khadi, sinto-me uma pessoa extraordinária.”

A conversa terminou quando os sinos tocaram. Chegara a hora de fiar. A fim de preparar os indianos para a independência, inculcando neles disciplina e auto-suficiência, Gandhi lançou um apelo a mulheres e homens, incluindo os mais altos funcionários do Estado, no sentido de produzirem pelo menos 25 metros de fio por ano, suficientes para as necessidades de cada pessoa. “Cada volta da roca fia paz, boa vontade e amor”, pregou. Cumprindo a tradição, cerca de quinhentos estudantes acorreram ao auditório, levando caixas com rocas portáteis. Sentados de pernas cruzadas, retiraram do interior tufos de algodão e começaram a fiar, com os braços movendo-se para dentro e para fora, para dentro e para fora. Ouvia-se apenas o sussurro de centenas de rocas de fiar, transmitindo a mensagem de Gandhi.

Gandhi caminhava velozmente, com uma passada admirável para um homem de 61 anos que era o mais velho dos caminhantes e cujas articulações lhe doíam do reumatismo. Todos os dias, o grupo percorria em média 16 a 19 quilómetros sob um calor inevitável. Detinham-se nas povoações para rezar, repousar, comer e permitir que o líder dirigisse a palavra às multidões arrebatadas. Gandhi foi a primeira figura nacional com afinidades com os indianos do mundo rural. Para ele, a aldeia era a alma da Índia.

É nas cidades que há emprego, escolas e vida social. Os problemas urbanos — poluição, criminalidade, população excessiva, tráfego — dominam o debate nacional. Mas quase 70% dos cerca de 1.200 milhões de pessoas da Índia ainda vivem no campo.

Se Gandhi viajasse até aos mesmos lugares hoje, verificaria, provavelmente para seu desalento, que os indianos do meio rural permanecem, de muitas maneiras, parados no tempo. Em Vasana, uma aldeia algodoeira onde os caminhantes se detiveram à sombra de uma mangueira que ainda hoje ali está, encontrei uma estátua de Gandhi com o seu bordão. Um novelo de lixo acumulara-se junto da base. Vacas e búfalos caminhavam hipnoticamente pela estrada de terra batida, seguidos por rapazes de pé descalço. Mulheres de sari passavam apressadas, carregando lenha à cabeça. Quando uma multidão se agrupou em meu redor, um homem de calças de ganga avançou na minha direcção, pedindo desculpa pelo desalinho do monumento. Perguntei-lhe se alguém ainda se vestia de khadi. Já não, disse. Depois de algumas perguntas, o homem perdeu a compostura. “As pessoas vêm cá e falam sobre Gandhi, Gandhi, Gandhi, mas nada fazem por nós. Não há desenvolvimento”, queixou-se. “Precisamos de uma ponte sobre o rio e de um telhado sobre a cabeça da estátua.”

A visão de Gandhi, segundo a qual as aldeias eram o terreno mais fértil para o progresso da Índia, parece agora um sonho utópico febril. 

É nas cidades que há emprego, escolas e vida social. Os problemas urbanos — poluição, criminalidade, população excessiva, tráfego — dominam o debate nacional. Mas quase 70% dos cerca de 1.200 milhões de pessoas da Índia ainda vivem no campo. Para Gandhi, um hindu profundamente influenciado pela vida de Jesus Cristo, a maior vocação consistia em viver no meio dos pobres e “alimentá-los primeiro e só depois alimentar-nos a nós próprios”. Apelou para que as pessoas se oferecessem como voluntárias e fossem viver para as aldeias para introduzir mudanças.

 Alguns ainda ouvem esse chamamento. Cinco anos depois de conhecê-lo, Thalkar Pelkar, um jovem sempre vestido de khadi, mudou-se para Pedhamali, um agrupamento de casas com paredes de adobe alinhadas ao longo do leito seco de um rio na Índia ocidental. Comprometera-se a oferecer dois anos de trabalho gratuito em desenvolvimento rural. Não partiu com total entusiasmo. “Sabia que havia possibilidades de ser espancado e expulso”, disse.

 Thalkar mudou-se para um quarto sem água nem electricidade. Cortou o cabelo e aprendeu o dialecto local. Durante meses, enfrentou a solidão e questionou a sua pertinência. Na parede do quarto, pendurou uma fotografia envelhecida de Gandhi. O que faria Gandhi? A pergunta pesou sobre ele como um saco cheio de pedras.

 Hoje, o retrato ocupa uma posição de destaque na parede do seu novo lar, uma antiga casa abandonada que ele reconstruiu. Sentado no chão, com a mulher, Snehan, e o filho, Ajay, Thalkar enumerou as suas realizações. Revitalizara a fábrica de lacticínios, poupando às mulheres uma caminhada de 19 quilómetros para comprar leite. Encarregara mulheres da contabilidade e análises da fábrica. Convencera os progenitores a mandar os filhos à escola e o número de inscrições triplicara para mais de 150, criando mais turmas e atraindo mais professores. Três invernos antes, ao ver Ajay, então com 6 anos, abandonado na rua, resolvera adoptá-lo.

 E o seu trabalho acabou?, perguntei-lhe. Thalkar suspirou. “A princípio, pensei que bastariam dois anos para terminar o projecto”, disse. “Agora, acho que vai demorar uma vida inteira.”

 

Inspirando-se nos ensinamentos de Gandhi sobre a igualdade, mulheres manifestam-se nas ruas de Kodaikanal, no estado de Tamil Nadu, para celebrar as suas convicções.

As multidões que aclamaram Gandhi ao longo da Marcha do Sal eram diferentes de tudo o que a Índia moderna vira até então. Centenas de mulheres acorriam aos pátios das escolas e dos campos para ouvir Gandhi falar. Inundavam as ruas para acompanhar os manifestantes enquanto estes atravessavam as cidades. Temendo que houvesse violência, Gandhi escolhera apenas homens para participar na manifestação, mas olhava para as mulheres como aliados naturais. “Acho que elas serão intérpretes mais dignos da não-violência do que os homens, não por serem fracas, contrariamente ao que homens, na sua arrogância, crêem que sejam, mas porque têm mais coragem”, afirmou.

À semelhança de muitas cruzadas morais, o combate de Gandhi pela igualdade entre géneros veio demasiado cedo.

“Na Índia, as mulheres sempre foram tratadas como cidadãs de segunda classe”, explicou. “Mas elas é que são as chefes de família. O património está mais seguro nas suas mãos.”

Nas suas raízes, a Índia continua a ser uma sociedade patriarcal conservadora. Gandhi ergueu a voz contra o casamento infantil, a violência contra as mulheres, o sistema do dote e a inexistência de escolaridade para as mulheres, mas tudo isto permanece incrustado na vida quotidiana. A resistência, ao estilo de Gandhi, fez pequenos progressos.

 “A minha força são as minhas mulheres”, afirmou Ela Bhatt, embalando-se na cadeira de baloiço da casa onde vive, em Ahmadabad. Foi ela a fundadora da Associação das Mulheres Profissionais por Conta Própria (SEWA), um sindicato e cooperativa com mais de 1,8 milhões de sócias. Nascida três anos depois da Marcha do Sal, Ela aparentava ser uma avó cheia de doçura, mas contou uma história carregada de uma determinação de aço. Abandonou o emprego como advogada de um sindicato da indústria têxtil e, em 1972, criou a SEWA, reflectindo a crença de Gandhi na dignidade do trabalho. Por poucos cêntimos, as mulheres conquistaram o acesso a aulas de formação, empréstimos bancários, seguros de saúde e cuidados infantis. “Na Índia, as mulheres sempre foram tratadas como cidadãs de segunda classe”, explicou. “Mas elas é que são as chefes de família. O património está mais seguro nas suas mãos.”

 Lembrar Gandhi é algo de natural para Ela Bhatt.

O seu avô, médico, foi espancado e encarcerado durante as manifestações do sal. Os pais aderiram ao movimento pela independência. “Devo tanto ao ambiente que se vivia nessa época”, afirmou. “Estava carregado de idealismo.” A organização de Ela Bhatt desencadeou a sua própria revolução, fundando grupos laborais para mulheres por toda a Ásia Meridional. “Eu não sou uma estudiosa de Gandhi, não sou uma adepta de Gandhi”, disse com ênfase. “Sou uma praticante de Gandhi.”

Nos lugares onde a SEWA desenvolve as suas actividades, as aldeias são diferentes. As mulheres parecem mais arrojadas, com mais confiança em si. Em Sihol, perto da cidade de Anand, por onde passou a Marcha do Sal, dentro de um edifício remendado, o ruído das lançadeiras volantes matraqueia enquanto as mulheres tecem saris e toalhas. Antes disso, afirmou Gauriben Vankar, só conseguia encontrar trabalho nos campos de tabaco, recebendo poucos cêntimos por dia. Agora, ganha muito mais por cada sari. “Podemos trabalhar resguardadas do sol, perto de nossas casas e temos mais dinheiro para comprar comida”, contou.

Gandhi era um provocador e, com frequência, desafiava os seus ouvintes. Em Gajera, dez dias depois de começar a marcha, sentou-se sobre uma plataforma perante a multidão e nada disse. O público estava cada vez mais inquieto. Quando, por fim, resolveu falar, informou que não faria a palestra a não ser que os chefes da aldeia convidassem os Intocáveis a sentar-se no meio de todos. Era um pedido nada ortodoxo.

Os hindus rejeitavam os membros desta casta, a mais baixa de todas, como se estivessem poluídos. Cabia-lhes desempenhar as tarefas mais sujas. Viviam à parte. Estavam proibidos de entrar nos templos ou de tirar água dos poços. Nem as suas sombras podiam tocar nos outros hindus.

Gandhi impusera talvez a mais humilhante das provas àqueles que proclamavam ser seus seguidores. Envergonhados, os funcionários propuseram que os Intocáveis numa colina situada ali perto se reunissem ao ajuntamento.

Em Gajera, ninguém quis dizer-me onde poderia encontrar os dalits (designação actualmente preferida, significando literalmente “quebrados”). Por fim, fiz a pergunta à pessoa mais pobre que avistei, uma mulher de pele crestada pelo sol que trazia um jarro de água à cabeça. Apontou para um aglomerado de casas pintadas de azul. Era o seu bairro. Os moradores saíram à rua para me cumprimentar, entusiasmados por conversarem com um forasteiro. A vida melhorou um pouco desde a visita de Gandhi. “Noutros tempos, éramos obrigados a levar as nossas chávenas às lojas de chá”, disse uma mulher. “E quando levávamos cereal a casa de alguém de casta superior, eles aspergiam água sobre o solo quando saíamos.”

No entanto, a sua situação económica quase nada mudou. Os citadinos de casta baixa continuam pobres, à semelhança da maior parte dos dalits, que representam um em cada seis indianos. A maioria dos adultos mais velhos de Gajera trabalha nas plantações de rícino. Alguns dos mais novos arranjam empregos numa fábrica de vidro.

Só nas cidades consegui encontrar dalits capazes de sonhar com a integração na sociedade indiana. Numa comunidade de varredores de rua em Deli, onde Gandhi costumava ficar, vários jovens dalit aproximaram-se de mim e gabaram-se de serem estudantes, os primeiros das suas famílias que frequentavam a universidade, graças a bolsas de estudo concedidas pelo Estado.

Gandhi teria rejubilado em encontrar-se com eles. Dando o exemplo e por meio de campanhas incessantes, Gandhi lutou para eliminar o estigma da associação aos Intocáveis, aos quais chamava harijans, ou Filhos de Deus. Contudo, não conseguiu progressos importantes. Apesar de protegidos pelo Estado, os dalits ainda são discriminados. Pertencem a uma Índia que Gandhi tristemente reconheceria.

Finalmente, o som do mar chegou aos seus ouvidos. Depois de caminharem durante mais de três semanas, os manifestantes aproximaram-se da aldeia costeira de Dandi, enquanto grande parte da Índia e do mundo ocidental os observava. As forças de segurança, a imprensa e multidões de espectadores e de apoiantes amontoaram-se, aguardando os acontecimentos. O líder passara décadas a preparar-se para este momento.

Gandhi amadureceu como activista e organizador não na Índia, mas na África do Sul. Ali chegara em 1893, com 24 anos, para trabalhar como advogado de província, e foi ali que experimentou pela primeira vez o racismo virulento e a injustiça. Nas prisões da África do Sul, onde foi encarcerado por liderar manifestações contra a legislação baseada na cor da pele, Gandhi estudou a Bíblia, o Alcorão e os escritos de Tolstoi, Thoreau e Ruskin. Criou comunidades experimentais em Durban e Joanesburgo, então pertencentes ao império britânico. Em 1915, ao regressar à Índia para ali viver, já concebera a sua visão arrojada do satyagraha, uma maneira de procurar a verdade através de resistência não-violenta, paciência e compaixão.

Para muitos historiadores, biógrafos e activistas, a Marcha do Sal foi a realização mais pura de Gandhi. O líder criou um novo guião para os movimentos sociais. Na Índia, organizadores inspirados por Gandhi têm lançado numerosas campanhas, em particular sobre questões ambientais como a destruição das florestas e a construção de barragens.

O tema era a posse da terra. Desde a época de Gandhi que os pobres da Índia têm vindo a perder terra. Para o activista P.J. Rajagopal e a sua organização Ekta Parishad (Associação da Unidade), era necessária uma Marcha do Sal moderna. Para recrutar membros, ele e os seus apoiantes passaram quase um ano a visitar 26 dos 29 estados da Índia.

Num pátio de escola, dirigiu-se a algumas centenas de pessoas, na sua maioria mulheres dalit. “É bom sentirmo-nos zangados”, disse. “Não estamos a pedir computadores, televisores, viaturas ou outros confortos. Estamos a pedir terra para as nossas casas e para podermos cultivar produtos alimentares. Já esperámos tempo suficiente. Quem quer vir comigo numa marcha até Deli?” Muitas mãos ergueram-se prontamente. Rajagopal inclinou a cabeça em sinal de agradecimento.

Enquanto o seu veículo avançava aos solavancos por uma estrada de terra batida entre aldeias, Rajagopal explicou que estava a aproveitar a melhor parte de Gandhi. “As pessoas acabam por escolher a faceta de Gandhi que querem”, disse. “Eu escolho a faceta radical, não o Gandhi da oração e da meditação, mas o Gandhi combatente. Tragamos de volta o Gandhi que lutou contra a injustiça e a opressão.” Rajagopal quis também trazer de volta a padyatra, ou marcha a pé. “Caminhar é uma mensagem”, afirmou. “O indivíduo desafia-se a si próprio, ao seu conforto, ao seu corpo. E é um acto espiritual. A nossa força moral vai crescendo à medida que vamos caminhando.”

Gandhi infringiu a lei de manhã cedo, no dia 6 de Abril de 1930. Em Dandi, perto do mar, o homem a quem os amigos e estranhos chamavam Bapu, ou “pai”, inclinou-se para a frente e colheu uma mão-cheia de lama. Ao final do dia, centenas de apoiantes tinham feito o mesmo. Por toda a Índia, nos meses que se seguiram muitos outros os imitaram, fabricando sal ilegalmente a partir do mar.

Seis meses mais tarde, a mensagem estendia-se ao longo da estrada que conduzia a Deli. Dezenas de milhares de manifestantes caminhavam à primeira luz do dia. A meio da tarde, depois de percorrerem 16 quilómetros, paravam à sombra dos arbustos e das árvores para comer a única refeição do dia: lentilhas e arroz. “Nada temos a perder”, disse ferozmente uma mulher de Bihar. “Estes dias passados a caminhar pela estrada não são nada, comparados com as nossas lutas em casa.”

Gandhi infringiu a lei de manhã cedo, no dia 6 de Abril de 1930. Em Dandi, perto do mar, o homem a quem os amigos e estranhos chamavam Bapu, ou “pai”, inclinou-se para a frente e colheu uma mão-cheia de lama. Ao final do dia, centenas de apoiantes tinham feito o mesmo. Por toda a Índia, nos meses que se seguiram muitos outros os imitaram, fabricando sal ilegalmente a partir do mar. A Marcha do Sal não derrubou a administração britânica (a independência tardou 17 anos), mas abriu fendas nos seus alicerces.

A cena é difícil de reconstituir. Os contornos da orla costeira alteraram-se e o local onde Gandhi colheu o sal é agora terra seca. A descoberta de Gandhi na Índia moderna não é fácil. Mas, enquanto buscava Gandhi, procurando-o no clamor da vida contemporânea, encontrei-o. É o seu espírito de desafio, de elevação espiritual e de natureza dura que anima as campanhas contra a corrupção, a violação e a destruição dos bairros de lata. 

A confiança e as realizações das mulheres invocam a exigência feita por Gandhi de admiti-las na vida pública da Índia. Nos seus antigos ashrams, senti a força do seu exemplo e simplicidade de vida. Gandhi foi, nalgumas perspectivas, um fracasso trágico – por exemplo, na sua incapacidade de impedir o conflito hindu-muçulmano ou a secessão do Paquistão. Na praia de Dandi, porém, a visão de famílias muçulmanas e hindus caminhando junto da rebentação, com as bainhas dos saris levantadas, lenços de cabeça puxados para trás, testemunha a permanência da democracia laica e tolerante que Gandhi considerava ser a herança da Índia.

A luz nas trevas atraiu-me até uma povoação não assinalada nos mapas de uma zona rural do estado de Maharashtra. Numa extensão de 16 hectares perto de Gadchiroli, nasceu uma comunidade de médicos, enfermeiros, engenheiros informáticos, estudantes de medicina, internos, membros da família e pessoal de apoio, recrutados por Abhay e Rani Bang, co-fundadores da Sociedade para a Educação, Acção e Investigação em Saúde Comunitária (SEARCH). Desde meados da década de 1980 que os médicos Abhay e Rani dão formação a profissionais de saúde, na sua maioria mulheres analfabetas, em 124 aldeias. Os resultados têm sido estupendos. Nas aldeias que adoptaram o seu modelo de cuidados de saúde para recém-nascidos, as taxas de mortalidade infantil baixaram radicalmente. Esta abordagem aos cuidados de saúde neonatal, apoiada em homens e mulheres locais com formação em técnicas simples, tem sido adoptada por toda a Índia e em África, na Ásia e na América Latina.

Abhay nunca conheceu Gandhi, mas sente-se perto dele, tendo crescido no ashram de Sevagram. Sentado atrás de uma secretária, contou que costuma frequentemente discutir com Gandhi, dentro da sua cabeça. “O Velho previu tanta coisa”, disse. “Os seus princípios estão por todo o lado, para onde quer que nos voltemos.”

A vida no ashram da SEARCH implica aceitar regras: não se pode fumar nem ingerir bebidas alcoólicas e é obrigatório participar em limpezas semanais e na oração do fim da tarde. Regra tácita: melhorar as vidas dos outros. Aqui ninguém precisa de perguntar: o que faria Gandhi?

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar